Quando deixaram a taverna, a manhã já tinha passado. Decidiram por manter as compras guardadas; por mais que não muito, peso era peso, e perambular com sacos de pano era sempre um transtorno. Sypha esperou sozinha nos fundos que Isobel aparecesse a caminho da cozinha e fez sinal para que se aproximasse. A garota olhou de um lado a outro e resolveu por ir.

—O que há, senhora? - Perguntou com curiosidade.

—Quero pedir uma coisa. - Abaixou-se para conversar com ela. - Primeiro, queria te contar. Nós é que matamos a gárgula, na verdade.

—Sério? - Isobel subiu o tom de voz, mas Sypha pediu silêncio.

—Sério. A cidade toda sabe. Mas não diga a ninguém do que falamos na mesa.

—É perigoso?

—É. - Pôs a mão no ombro da menina. - Talvez eu precise voltar mais tarde. Posso?

Isobel fez que sim com a cabeça. Sypha sorriu para ela.

—Vou vir sozinha. Meus amigos podem ser meio… Assustadores. - Pensou na intriga do povo ao ver Alucard e riu. Não é para menos. - Se souber de mais algo, promete que vai me contar?

—Prometo. E minha boca é um túmulo.

—Conto com você, tudo bem? Muito cuidado.

Deu a volta para a fachada, onde Trevor e Alucard a aguardavam calados olhando o tempo passar.

—Consegui. Vamos à prefeitura. - Ela os chamou.

—Acho que se lembram de mim por lá. - Trevor pôs as mãos nos bolsos e começou a caminhar atrás. - Se o prefeito for o mesmo velhote carola ou o filho dele, lembram, sim.

—E se tentássemos outro funcionário? - Sugeriu Alucard. - Só nos mostre quem é quem.

Chegando ao centro, Trevor os barrou na hora de sair de um beco e sussurrou para que olhassem com discrição. Sypha se espichou para ver um jovem de batina, talvez da mesma idade que eles, cheio de papéis nos braços e conversando com uma idosa encarquilhada. O padre.

—Ele nos ajudou com a gárgula. - Ela lembrou.

—E é neto do prefeito, e vai nos reconhecer agora, xeretando no sumiço de um parente dele. - Trevor disse com desânimo. - Sujeitinho medíocre.

—E é pessoal o problema de vocês? - Alucard perguntou.

—Bastante.

O meio-vampiro ergueu a sobrancelha com um sorriso astuto e caminhou mais para trás do beco:

—Pois não é tão difícil lidar com esse tipo.

Começou a mudar pouco a pouco de feição, roupa e cor de cabelos; tirou uma fita do paletó e usou-a para prender os cabelos num rabo baixo. Por fim, estava vestido como um grã-fino e cheirando a rosas, como se acabasse de sair da penteadeira.

—Sypha, há papel com você? - Ele pediu.

—Tenho… - Ela revirou os bolsos. - ...Meia folha.

—É o suficiente.

Ele a pegou e projetou a mão sobre o retalho, que ganhava tamanho, contornos de letra cursiva e um convincente selo de cera. Chegou mais perto da saída do beco e apontou:

—Ele carrega papel dentro daquela Bíblia. Não muita gente deve saber ler neste lugar.

—Então, ele está indo… - Sypha pensou alto.

—Exatamente aonde queremos que vá. - Completou Trevor.

Aguardaram até que o mercado se enchesse mais e Alucard apareceu na praça com um livreto falso, escolhendo um ponto de onde os outros dois eram capazes de vê-lo. Olhou de relance e acenou com a cabeça.

—O que ele quer dizer? - Trevor ergueu a sobrancelha.

—Vamos tentar nos aproximar.

Aproveitaram a passagem de uma carroça de feno para se sentarem ao redor da fonte; Alucard não fez gesto de impedi-los, então continuaram ali. Trevor deu uma rodeada pelas barracas e arranjou, com alguns trocados, um figo seco para comer. Ao que ele fez menção de se sentar, notou que a idosa em conversa com o padre ia embora, e o movimento calculado de Alucard em direção a ele, saindo pela mesma ruela atrás da igreja.

—Vamos? - Sypha murmurou.

Trevor não respondeu, mas foi o que fez, e ela seguiu junto até pararem atrás de uma charrete cheia de barris. Não viram o esbarrão, apenas ouviram as dezenas de papéis indo ao chão e o falso pedido de perdão de Alucard.

—Posso ajudar a recolher suas anotações, senhor?

—Seria de muito bom tom, obrigado. - Que esnobe. Sypha riu de esgueira.

Quando Alucard se agachou para ajuntar o monte de folhas, o padre olhou para um ninho de pombos que fazia barulho e sujava o telhado da igreja. Foi momento o bastante para Alucard plantar ali a folha de Sypha, como quem nada queria, e se ergueu com a pilha, entregando-a ao padre.

—Aqui estão, senhor. Peço desculpas outra vez.

—Grato. - Ele pouco pareceu se importar, e muito se incomodar, dando as costas. - Vá com Deus.

Alucard notara a movimentação dos dois e os localizou atrás dos barris, com um sorriso surpreso.

—Qual a graça? - Trevor questionou, em tom de tédio.

—Vocês me seguindo até aqui. - Ajeitou as abotoaduras do paletó. - Bom, está lá. Vou manter o disfarce por ora.

—E o que fazer agora? - Continuou Trevor.

—Esperar. Daqui meia hora, me mostre onde é a prefeitura.

—Vamos a outra taverna então. Mal não faz.

—Aonde vamos? - Sypha o olhou torto e cruzou os braços.

—Tem alguma ideia melhor?

—Já se decidiram? - Alucard os interrompeu.

—Já. - Trevor a puxou pela mão.

Dos dois estabelecimentos que Sohodol tinha, escolheram visitar aquele que os recebera na noite após matar a gárgula, abrigados ali por gratidão da casa. Foram recebidos com reconhecimento e cordialidade do par de donos, dois irmãos um tanto quanto parecidos. Que estará fazendo Isobel? Sypha sorria sozinha por trás de mais uma caneca de cerveja.


Alucard os deixou na taverna quando era dado o horário. Conseguiu as direções da prefeitura com Trevor; de passagem, deu uma espiada dentro da igreja, para ver se havia sinal do padre. Deve estar na prefeitura, como esperado. O prédio não era maior do que uma casa grande de pedra, com dois arcos antes da porta e um guarda de uniforme velho recostado a um deles, limpando as unhas com um canivete.

—Com licença, o padre está aqui, senhor? - Alucard adquiriu o tom mais amigável que conseguiu.

—Está. - O guarda o olhou de lado com estranhamento e guardou devagar o canivete no bolso. - Vou mandar avisar.

—Não há necessidade, ele está me esperando.

O homem fez pouco caso e gesto para que entrasse. Do lado de dentro, Alucard observou ao redor. Pouco movimentado por aqui. Entrou por um corredor, depois pelo outro paralelo a ele; apesar de não ser monumental, a prefeitura tinha um bocado de salas e uma distribuição nada intuitiva. Como encontrá-lo? Fechou os olhos e se concentrou. Um som de pena de escrever… Caminhou às cegas, com a mão correndo pela parede. Vem daqui. Parou em frente à porta e bateu, ouvindo um "entre" exausto.

—Oh. - O padre o olhou sem apreço por cima dos óculos. - O que o traz aqui, senhor?

—Peço desculpas pelo novo incômodo, mas creio que um documento meu acabou por se misturar com os seus quando esbarrei no senhor. - Coçou a cabeça com a mão enluvada. - Poderia eu conferir para ver se o encontro? Não está em lugar algum dos meus pertences.

—Peço que não demore. - O padre buscou a pilha de papéis dentro da Bíblia, num canto da mesa, e a estendeu. - Há muito trabalho por aqui.

—Ah, eu imagino. - Certo, hora de agir. Começou a folhear atrás do documento falso. - Estou só de passagem, parto amanhã mesmo. Mas muito me intriga o que se ouve por aqui.

O padre o olhou de novo da mesma maneira e não respondeu.

—Perdão se é muita intromissão, mas tive que perguntar ao povo até saber que o senhor estava substituindo o escrivão. Não posso perder uma ordem de serviço assim.

—E quem mais saberia escrever neste lugar parado no tempo? - O padre trocou de papel e ajeitou os óculos. - É meu primo de segundo grau, o escrivão. Somos uma família grande.

—E o que se sucedeu com ele?

—Só Deus sabe. - Suspirou. - Não era afeito à caça, mas caminhava à noite como só faria um louco varrido. Talvez tenha se perdido? Dado o azar de topar com um lobo?

—Vejo que vocês dois têm suas discordâncias.

—Não é para tanto. - O padre molhou a pena e assinou um livro. - Quem vê um lampião no crepúsculo, nem se incomoda, mesmo entre o povo. Sempre era ele. Ou é, na verdade… Não é como se tivesse falecido.

—Compreendo. - Alucard vasculhava a papelada a esmo. - Havia um senhor com ele?

—Sim, um colega de seminário. Correspondem-se sempre que podem. Acredite, dois homens instruídos neste fim de mundo. Não sei o que aquele senhor veio fazer além de visitá-lo, no entanto.

—Aqui está, graças aos céus. - Alucard pegou a lista de compras disfarçada. - Muito grato pela paciência.

—Vá com Deus, novamente.

Quando saiu das labirínticas salas, notou que o guarda agora dormitava. Passou por ele sem ser notado e fez o caminho inverso até a taverna.


A porta da taverna se abriu, e, numa virada despretensiosa de cabeça, Trevor viu Alucard entrar, ainda disfarçado com a vestimenta ilusória e a cor de cabelo falsa. Cheio de pompa e requinte, ele destoava um tanto do ambiente caótico da taverna, onde se bebia, se comia e se conversava com a maior alarvaria e alarde possíveis.

Trevor tinha Sypha sob o braço, embriagada como era raridade, e pressionou de leve o ombro dela para que voltasse a atenção da comida para a entrada do lugar. Alucard se abaixou para falar com eles, o que parecia um sussurro em meio à barulheira:

—Paguem a conta. É melhor que conversemos em privado.

—Pois não precisa ser paga. - Trevor soluçou. - Salvamos Sohodol, lembra? Não é todo dia que se tem essa sorte.

Alucard fez menção de o repreender quando se levantaram da mesa e acenaram a um dos irmãos donos do estabelecimento, que retribuiu com um largo sorriso. Trevor beijou Sypha no rosto, e ela, em vez de se constranger ou se atrapalhar, riu leve e solta. Adoro quando passa da conta. No caminho, contaram a Alucard da tentativa desastrada de malabarismo de Trevor com um trio de maçãs enquanto ele desfazia o disfarce para retornarem à outra taverna. Alucard pareceu se esforçar para rir, e Trevor ficou com a interrogação. Será tão sério assim o problema?

Alugaram com a desagradável dona um quarto do lado de cima, pondo-lhe mais moedas nas mãos.

—Dois quartos? - Ela indagou, com a carranca de sempre, inalterada pelo dinheiro.

—Só um está bom, por favor. - Sypha respondeu quando foi puxada pela cintura para um abraço.

—Subam, está aberto. - A dona os mediu com o olhar. - Vou buscar a chave para vocês.

Trevor subiu as escadas correndo atrás de Sypha como se fossem duas crianças, apesar da intriga com a conversa de Alucard. Ao que abriram a porta, revelou-se o aposento humilde, com uma cama de casal, um baú, mesa e cadeira.

—Só um quarto, mesmo? - Trevor, de sobrancelha erguida, perguntou a Alucard. - Vai ter que dormir no chão ou coisa assim.

—Não importa, é só para termos um espaço privado. - Ele fechou a porta. - Além do mais, paga-se por um lugar só.

Sypha se jogou no colchão e comentou:

—Nossa, a cama é mil vezes melhor que a da outra taverna.

—E a dona é mil vezes mais ranzinza. - Trevor riu e se acomodou ao lado dela, com os braços atrás da cabeça.

Houve batidas à porta. Falando no diabo… A taberneira os trouxe as compras e a chave, e saiu sem dizer palavra. Depois que ela se foi, Alucard trancou o quarto, fechou as janelas e se sentou aos pés da cama.

—Conversei com o esnobe na prefeitura. - Ele começou, olhando de um para outro. - Um dos desaparecidos é primo de segundo grau dele. O escrivão, no caso. O outro é amigo do escrivão, dos tempos de seminário, mas ele ignorava a razão da visita. Há grandes chances de que a reinação da gárgula na floresta foi obra deles.

—Por que, você diz? - Trevor se sentou à cama, apoiado na cabeceira.

—O escrivão tem o hábito de sair à noite, a ponto de que o povo das fazendas o visse de lanterna acesa e não o atacasse. Parece bastante suspeito para mim. - Alucard suspirou. - Conectando ao que Isobel nos disse, creio que estejam envolvidos… Inclusive com o que não deveriam.

—Para quê, exatamente? - Sypha perguntou.

—O ladrão, segundo Isobel, os viu sair e não voltaram mais, e há coisas estranhas na casa.

—Então, vamos averiguar a casa. - Trevor coçou a barba.

—Está nos planos.

—Só estou sabendo de planos agora.

—Que seja. - Alucard passou a mão no rosto. - Vamos ver o que há na casa. E, também, se Isobel tiver falado a verdade, pode ser que estejamos lidando com ocultistas.

—É o tipo de coisa que um ocultista faria, de fato. - Trevor olhava para a janela fechada, pensando. - Quais as chances de eles terem queimado a gárgula num ponto cardeal por algum motivo maluco, e ido para outro ponto cardeal?

—Talvez para chamar atenção… Ou desviar atenção. - Sugeriu Sypha.

—Quais as chances do padre almofadinhas estar envolvido? - Trevor questionou, esparramando-se mais no encosto.

—Existem. Ele não parecia muito chocado ou abalado com o acontecido. - Analisou Alucard. - Mas não vamos investir muito nisso antes de visitarmos a casa.

—Então, vamos eu e você à casa quando for noite? - Trevor tentou confirmar. - Sypha fica aqui e conversa com a garotinha, sobre a coisa da prisão. Ainda faltam umas duas horas até escurecer, e eu adoraria cochilar por aqui mesmo.

—Estou de acordo. - Sypha deitou-se junto.

—Não faz mal. - Alucard foi para a cadeira da mesa com um livro de botânica que enfiara na bagagem. - Acordo você com um balde d'água quando for a hora.

—Vai, sim. - Trevor começava a adormecer.


O despertar de Sypha misturava o barulho da taverna lá embaixo ao sonho sem sentido que tinha. Ainda sentia o relaxamento da embriaguez. Durante o sono, Trevor se virara de peito para cima, com o rosto em paz. Ela bocejou e se espreguiçou; quando apoiou outra vez a mão na cama, tocou um ombro e se assustou. Alucard também abriu os olhos, deitado com as mãos cruzadas sobre o tórax.

—Perdão, não vi você.

—Sem problemas. - Ele se ergueu de uma vez e se sentou. - Não avisei que me deitaria.

—Já deve ser noite.

—Busco o balde d'água?

—Se eu não conseguir acordá-lo, sim. - Ela riu.

Sypha balançou Trevor pelo ombro e o chamou. Ele abriu um pouco os olhos e puxou-a para um beijo.

—Bom dia, querida. - A voz dele era rouca. - Está na hora?

—Está. Você acabou de se safar de mais um banho.

—O que é uma pena. - Alucard ficou de pé.

Trevor também se ergueu de sobressalto, e Sypha se encaminhou para a bagagem, atrás de achar a capa, e a vestiu por cima das roupas emprestadas. Aproveitou ter se levantado para olhar por uma fresta que abriu da janela, e estava bastante escuro na rua.

—Não há movimento. Vão, e eu espero que Isobel apareça. - Ela voltou a fechar a janela.

Sypha viu Trevor raptar duas velas do quarto e colocá-las num dos bolsos da calça. Deram um um beijo curto e de pouca vergonha antes de descerem as escadas.

—Vamos nos encontrar nos fundos na volta. Certo? - Ela destrancou a porta.

—Sim, senhora. - Trevor concordou.

Ela os viu sair e acenou, sentando-se ao balcão e erguendo o capuz sobre a cabeça. Não havia atendente; nem a dona, nem Isobel. Saiu à porta da frente, e a rua continuava tão deserta quanto vista de cima. Deu a volta no prédio, e nada encontrou. Onde será que ela está? Passou-se cerca de meia hora quando apenas a taberneira apareceu para recolher pratos e canecas. Decidiu subir ao quarto. Ao menos, lá, teria silêncio e um livro. Abriu as janelas para arejar e apreciou o céu estrelado. Ao que tateou pela mesa atrás de uma vela, foi quando a viu na rua.

—Isobel! - Chamou, alto o suficiente no silêncio.

A garota não respondeu. Sypha saiu de novo do quarto e desceu as escadas a galope para encontrá-la. Quando saiu pela porta da frente, Isobel tinha atravessado a rua e olhava para uma coruja no telhado vizinho. Chamou-a de novo; ela ouviu e se virou, assustada.

—Isobel, sou eu. - Sypha também atravessou.

A menina dava passos para trás até disparar correndo pelas vias de Sohodol. Droga, o que há? Sypha seguiu atrás.


—É esta aqui?

Estavam parados diante da mal cuidada casa de dois andares, a janela do andar de cima aberta no escuro da noite, enquanto todas as outras da rua se fechavam contra o vento.

—É. - Alucard ajeitou o paletó. - Bastou farejar mais cedo. Rescende a sangue seco.

—Não vá lamber o chão. Faça as honras e suba primeiro, por favor.

—Eu deveria deixar você subir sozinho. - Olhou torto para Trevor.

Uma última conferida nos arredores o assegurou, e passou para a forma de morcego. O voo até a janela poderia ser mais suave se não fosse o vento gelado. Do lado de dentro, voltou ao normal e espiou a lua, ainda não cheia, mas iluminando o bastante. Trevor começou a escalar pelo beiral de uma janela inferior, alcançou uma decoração e se sustentou. Quando esticou a outra mão para uma pedra seguinte, perdeu o equilíbrio e se viu dependurado em um braço só.

—Lodo. - Ele reclamou, sussurrando.

—Estou torcendo por você. - Alucard o observava com um sorriso sarcástico enquanto acendia uma das velas que o outro o passara no caminho.

Mais um pouco de esforço e Trevor foi capaz de estender a mão a fim de ser puxado para dentro, mais pesado do que esperava.

—Devia ter deixado essa capa de uma tonelada no quarto, não acha? Não deveria abusar da minha boa vontade.

—Faça-me o favor. - Trevor bufou. - Espera, como acendeu esse negócio? Eu estou com a pederneira.

Alucard estalou os dedos criando uma pequena chama:

—Nunca fui excepcional com fogo, mas serve para acender coisas.

—Muito prático. E o que temos aqui? - Trevor fechou a janela, cuja tranca estava arrebentada.

Alucard ergueu a vela para ver um bocado de outras velas em castiçais, vidros com partes animais, desenhos e escritos incompreensíveis nas paredes feitos a carvão, livros espalhados de todos os tamanhos, abertos ou fechados e a tal poça de sangue no chão.

—É humano. Não, não preciso provar para saber. - Retribuiu a gentileza e começou a vasculhar as pilhas de livros.

—E aqui se abre para nós o motivo de um larápio aleijado. Belíssima sala. - Trevor perambulava pelo espaço. - Devíamos procurar algo que nos leve aos dois… Ocultistas de meia-tigela.

—De fato, de baixa categoria. Veja isto.

Alucard puxou um dos volumes para o qual estreitou os olhos e Trevor se aproximou para ver o título, rindo com desdém.

—Céus, o maior charlatão da Europa. Nunca li um livro pior.

—Pudera. E o que acha deste aqui? - Trocou para um livro especialmente surrado.

—Parece um carpete furado. Vamos ver.

À luz da vela, leu em um murmúrio: "05/06 receb. cham. n. repass. inform. exceto p/ cont. espec…", dizia a primeira página do diário. Dá para deduzir o que significa, mas não faz muito sentido. Alucard levou a mão ao queixo. Folheou até uma página mais adiantada para constatar a caligrafia pior, e leu com dificuldade: "21/08 aguard. resp. fiz cham. necess. corresp. organ. p/ out."

—Outro? Outono? Outubro? Estamos em outubro. - Trevor ergueu a sobrancelha.

—Deve ser. - Passou até páginas mais atuais.

"03/10 cheg. visit", dizia a primeira nota do mês, "exec. plan. final." Folheou até o final das páginas escritas para descobrir uma folha arrancada.

—Que conveniente. - Trevor revirou os olhos.

—Onde acha que pode estar?

—Ou os dois a levaram, ou se livraram dela. Viu algum papel na rua?

—Sinceramente, não. - Alucard fechou o livro.

—Só Deus sabe onde está esse troço. Mas parece ser a chave.

Suspiraram ambos de desesperança. Alucard pregou a vela acesa no tampo da mesa e afastou alguns livros para revelar uma folha fina aberta, que queria se enrolar sem o peso dos volumes em cima. Abria-se nela um rascunho de algo como um rosto humano.

—Que será isso? - Indagou Alucard.

—Além de uma loucura de algum tipo? - Trevor parou para pensar. - Depende. Uma máscara, não deve ser. O escrivão anda pelo mato, não é? É melhor que seja reconhecido. Não tem por que ser uma.

Trevor, distraidamente, puxou a primeira gaveta da escrivaninha, e ela continha uma réplica de madeira em tamanho real do desenho.

—Ou talvez seja uma máscara. - Alucard riu.


Ela é rápida. Sypha ofegava. Se eu não queria chamar atenção, agora, já foi. Ir atrás de Isobel parecia sem fim. A corrida as levou até a amurada da cidade, onde havia uma falha; era pequena o suficiente para não ter sido consertada ainda, mas grande o bastante para uma criança daquele tamanho passar. Droga. A garota começou a escalar, ágil como um esquilo, e atravessou o rombo. Se eu fizer uma parede de gelo, ela vai se machucar.

Sypha se propulsionou para cima com o vento a fim de saltar sobre os muros, e, no que foi um misto de aterrissagem com queda, rolou pelo chão de terra e grama. Acendeu uma chama nas mãos e se ergueu, espanando a capa. Viu o vulto de Isobel à distância, pegando algo do chão e se encaminhando para a floresta densa, bem mais devagar do que antes.

—Você não me escapa. - Sorriu.

Saltou com o vento na direção dela e a agarrou, aparando o impulso de ambas com a mesma brisa. Sypha suspirou de alívio. Isobel esperneava, reclamava e tentava se soltar a todo custo, sem dizer nada, apenas choros infantis.

—Calma, sou eu. De hoje à tarde. Não se lembra de mim?

Isobel abriu um berreiro sem fim, e Sypha teve que usar toda a força que tinha para mantê-la no lugar.

—Espere. - Reparou.

Observando sob uma chama a arcada dentária da garota, notou que faltava um dente entre os incisivos. Não há sangue, então não foi de agora.

—Você não é Isobel?

Ao ouvir o nome, o choro da garota cessava aos poucos. Ela estendeu uma mão para o fogo, deslumbrada, e Sypha o afastou.

—Não toque. Não. - Olhou-a com repreensão. - Ou vou apagar.

Aguardou com paciência até que as coisas se apaziguassem. A garota desconhecida ficou sentada ao chão com algo que segurava com firmeza.

—O que é isso com você? - Sypha estendeu a mão. - Pode me mostrar?

A garota recuou.

—Por favor, quero muito ver o que é.

Ela abriu a mão pequena e mostrou uma lâmina sem cabo, encapada na ponta sem corte por um tecido ou couro qualquer.

—Não pode ficar com isso. Dê aqui. - Sypha viu a garota esconder o objeto. - Entregue. Não quero que se machuque.

Tentou pegar mesmo assim, e a criança começou a chorar outra vez. Sypha suspirou:

—Pode ficar. Só tome cuidado, tudo bem? Vamos para casa?

Deram as mãos a contragosto da garota, que não disse palavra por todo o caminho. Sypha tentou perguntar seu nome, onde morava, quantos anos tinha, sem sucesso, então seguiu com ela em semelhante silêncio. A pequena olhava em volta com ar temeroso, por vezes, soltando um som incompreensível ou outro. Ao que se aproximaram da taverna, a garota deixou de se encolher e disse mais algo ininteligível. Sypha a olhou por um momento com interrogação. Bom, foi onde a encontrei.

Quando empurrou a porta da taverna, as tochas do interior mostraram Isobel e a mãe em frente ao balcão, ambas com várias canecas de cerveja nas mãos. Ambas olharam para a entrada com face de incredulidade, e a senhora atravessou todas as mesas cheias de bêbados do centro do salão para pegar a menina pelo braço com a mão que restava.

—Onde foi que a encontrou? - A senhora rosnou para Sypha. - O que estava fazendo com a minha filha?

O lugar inteiro parou para ver o que se passava. Sypha congelou no lugar sem resposta. Isobel se aproximou a passos tímidos depois de se livrar das canecas e a cópia quase idêntica dela mesma que Sypha encontrara na rua se desvencilhou da mãe para se agarrar a ela.

—Você sabe que ela some assim, mamãe. Acho que a moça só fez um favor.

São gêmeas. Sypha riu para dentro, chocada de leve. Isobel sussurrava algo para a irmã, que passou a olhar para a Oradora com bem menos medo.

—O nome dela é Izidor. - Isobel contou. - Ela não fala. Com licença, mamãe.

A jovem taberneira levou a irmã para os fundos, e a mãe das garotas parou de bufar, com aparente vergonha do sobressalto. Os clientes voltavam às próprias conversas e o murmúrio da taverna encobriu o diálogo.

—Não me arranjem mais problemas, vocês três. - Resmungou a mulher.

—Eu a confundi com Isobel. Mil desculpas por qualquer transtorno, senhora.

—Hmpf. - Ela chamou Sypha para um canto menos visível com um gesto, e começou a falar mais baixo. - Isobel falou a verdade. Izidor sai assim, se esconde no matagal, traz coisas estranhas para casa. Quantas vezes, quando meu marido era vivo, não perdi dias de trabalho atrás dela. Mas Deus não me daria minha filha se não fosse para ser minha.

Bênçãos a ela. Sypha sorriu com a maior simpatia que conseguiu e desejou:

—Que o mesmo Deus olhe pela família da senhora. Izidor ia mesmo para a floresta. É um perigo, não é?

—Não quero imaginar, moça. - A mulher cruzou os braços e olhou para o outro lado, como quem nunca tinha proferido aquelas palavras. - Obrigada por trazer minha menina de volta. Se eu puder fazer algo, venha me dizer.

—Muito grata, senhora.

Sypha a deixou gerenciando a taverna e seguiu para os fundos, onde Isobel a aguardava rolando uma pedrinha com o pé, sozinha como ela própria.

—Izidor está bem?

—Oh. Oi. - Olhou para Sypha e coçou a cabeça. - Na verdade, acho que ela machucou um braço. De resto está tudo certo.

Sypha sentiu uma ponta de culpa. Antes que pudesse pedir perdão, Isobel perguntou:

—Eu não te disse que éramos gêmeas, não foi?

—Não, mas não tem problema. Foi só um engano.

—Mamãe não me deixava sair da cozinha para nada, até darmos falta da minha irmã. Ela quase sempre volta quando sai de dia, mas à noite, assim, ela se perde. - Isobel fez cara de preocupação. - Bom, acho que qualquer um se perde.

Riram juntas. Sypha se agachou para falar com ela.

—Segredo, lembra?

—Lembro. - Isobel fez uma cruz com os dedos sobre a boca.

—É o seguinte. Preciso falar com seu tio. Ele é guarda, não é?

—É, sim, mas deve estar de vigia hoje. Por que precisam?

—Não posso contar. Mas, por favor, peça à sua mãe.

—Vocês não vão soltar o ladrão, vão? - Isobel coçou a cabeça.

—Não, nem pensar. - Sypha riu.

—Vou falar com mamãe, então.

—Muito obrigada.

Isobel se retirou antes que a mãe a chamasse outra vez, e foi quando Trevor e Alucard desceram do telhado. Sypha deu um pulo de susto, já que quase dava um passo à frente.

—Vocês quase me matam do coração! De quem foi essa ideia? - Ela recuou.

—Perdão, querida. - Trevor a acolheu nos braços. - Ouvimos você se aproximar e lembramos de última hora que não era para aparecermos.

—Excelente. - Sypha soltou, nada excelente. - As novidades por favor.

—A casa era uma bagunça suspeita e cheia de sangue. - Alucard começou a enumerar nos dedos. - Nem sinal de para onde podem ter ido aqueles parafusos. Achamos uma máscara de madeira… E isto aqui.

Ele estendeu para Sypha o livro carcomido, que ela abriu para descobrir páginas cheias de datas e relatos abreviados. Curioso.

—Vou ler com mais calma logo. - Ela fechou o livro. - Pedi a Isobel que falasse com a mãe sobre a coisa da cadeia. Mas não sem um pouco de confusão…

—Confusão de que tipo? - Trevor ergueu a sobrancelha.

—Vamos subir para o quarto, lá eu conto a vocês. - Ela os encaminhou. - Talvez eu precise me sentar um pouco.