Sob a luz das velas no quarto, outrora quieto, Sypha comentou:

—Cada coisa que anotaram aqui, olhe só.

Ela estendeu o livro aberto para Alucard, sentados à cama, enquanto Trevor cochilava virado para a parede. Alucard leu em voz baixa: "Másc. imperfeita. mat. impróprio. Necess. + nobre. Objetivo descontente."

—Hmm. Quase me esqueço de que trouxe essa… Coisa. - Alcançou uma sacola pendurada ao cinto.

—Coisa? - Ela perguntou. - Ah, claro.

Sypha deu uma risada de desgosto quando viu a rústica máscara de madeira, com fendas para olhos, nariz e boca.

—Não é uma obra de arte, com certeza. - Ele concordou. - De acordo com os autores do diário, então, este negócio é inútil.

—Será que fizeram outra? Ou outras. - Sypha levou a mão ao queixo.

—Objetivo descontente… O que acha?

—Acho que tentavam satisfazer alguém com máscaras de um material específico. Material mais nobre, é o que diz aqui.

Ouviram batidas à porta. Sypha disse que podia entrar e Isobel a abriu, segurando um porta-vela na outra mão.

—Mamãe mandou chamar. - Ela sussurrou. - O tio está de guarda nos muros e ela vai levar vocês lá.

Sypha acordou Trevor, que murmurou algo sobre não estar dormindo. Os três logo estavam a postos e seguiram Isobel escada abaixo. A taverna estava ainda cheia, apesar da hora da noite. A dona os aguardava no térreo com um lampião aceso, vestindo uma tonelada de roupas e com a mesma cara fechada.

—Espero que não estejam aprontando alguma. - Ela resmungou quando saíram ao frio da noite.


Ninguém conversou ao longo do trajeto até os muros. Caminharam até encontrar uma guarita iluminada no topo, no portão oposto ao qual tinham entrado em Sohodol. De cima, alguém avistou a chegada de luzes e mostrou um lampião próprio, gritando para perguntar quem estava lá.

—Sou eu, Carlo. - A senhora gritou tão alto quanto. - Desça daí.

—Não posso ficar saindo de serviço só porque você pediu. - Carlo respondeu com outro berro.

Janelas ao redor se abriram, moradores da redondeza protestaram e Trevor desviou de uma maçã podre atirada do alto.

—Venha logo, precisamos falar com você. - A mulher chamou de novo, no mesmo tom.

Levou algum tempo para que o guarda, enfim, descesse as escadas, e o fez sem a lanterna. Aproximou-se do grupo passando a mão no rosto, sem conseguir evitar um bocejo. Era de idade próxima à da taberneira, os fios grisalhos em abundância no cabelo que rareava e na barba.

—O que há para me tirar daqui a essa hora da noite? - Perguntou à irmã.

—Os forasteiros aqui querem falar com você. - Ela os olhou com desprezo. - Coisa boa não é, mas devo favor à moça, que levou Izidor para casa.

Carlo os observou de cima a baixo, tal qual fizeram quase todos os moradores e feirantes da cidade, e fixou-se em Trevor, perguntando:

—Eu conheço você?

—Quem, eu? - Trevor apontou para si mesmo. Droga. - Não, creio que não.

O guarda pegou a lanterna da mão da irmã e se aproximou com a luz do rosto de Trevor, que pediu:

—Não vá por fogo em mim, por obséquio.

—Você não é filho do velho Belmont?

Era só o que faltava. Cerrou os dentes. Carlo gargalhou.

—Quem diria. - Deu um passo para trás, com um largo sorriso. - Seu pai me salvou quando eu era menino. Você talvez não fosse nascido. Insisti em ir à floresta, apesar de minha velha mãe dizer que não, e chamei atenção de um javali. Coisa de garoto, sabe? Atirei uma pedra. E era um animal dos pequenos, ainda, mas o estrago que faz… E, para minha sorte, estavam caçando por lá, aqueles seus parentes. Foi um tiro de besta certeiro. Ainda fizeram a gentileza de nos dar a carne e me levar em casa.

—Bom saber, senhor. - Trevor sentiu o sangue voltar ao rosto.

—Do que precisam, afinal? - Carlo perguntou.

Hesitou por um momento, e, por fim, disse a verdade:

—Estamos procurando o paradeiro do escrivão e do visitante dele, senhor. Tenho faro para problemas. Coisa de família. - Trevor riu, sarcástico. - Achamos que o ladrão preso pode saber de alguma coisa.

—Nada, Belmont. Já tentamos. Ele só jura por tudo que não os matou, e que não sabe aonde foram. Que só queria as coisas da casa. Mas agradeço o esforço.

—O ladrão não carregava pertences? - Ergueu a sobrancelha e cruzou os braços.

—Coisas pequenas de valor pequeno, uma faca, um pedaço de papel e a roupa do corpo. Não li a folha. Nunca fui letrado.

—O que há no papel se parece, por acaso, com este livro? - Sypha estendeu o diário aberto.

Carlo aproximou o lampião para tentar enxergar, coçou a cabeça e respondeu:

—Eu diria que sim, moça.

É a página que falta. Trevor olhou para os outros dois, que pareceram concordar.

—Terminem logo. Isobel está atendendo para mim, mas hoje é um dia cheio. - A taberneira resmungou.

—Bom, o que se pode fazer é dar-lhes a folha. - Carlo devolveu o lampião. - E há guarda acordado na prisão, com certeza. Mas sugiro que as mulheres voltem para casa. Pode não ser o melhor lugar para vocês.

Trevor conteve uma careta irônica e, olhando de lado, viu Sypha fazer o mesmo. Mal sabem os reles mortais.

—Posso levá-las de volta. - Alucard se ofereceu. - Trevor, pode cuidar do que há na cadeia?

—Que seja. - Trevor suspirou.

—Não demore. - Sypha o beijou no rosto antes de partir.


Carlo perguntou enquanto caminhavam à prefeitura:

—Há quanto tempo está pela redondeza, Belmont?

—Ah, alguns dias? - Foi vago de propósito. - Estamos de passagem, meio sem rumo.

—Por acaso, seu amigo ali…

Trevor preferiu interromper:

—Ele está bem de saúde. Só parece uma vela ambulante, mesmo.

Carlo riu e continuou:

—Parece, sim. É que, sabe, na guarita se ouvem coisas de todo tipo.

—Ahã. - Ergueu a sobrancelha.

—Onde é que o rapaz mora?

—Não muito longe, mas quase não sai da propriedade. É meio… Recluso. Sujeito estranho ele.

—Realmente. Que há com o homem?

Que cara curioso, céus.

—Ele… É novo na região. Perdeu os pais, recebeu uma herança, vendeu tudo e partiu. Não anda muito contente nos últimos tempos.

Meia verdade está bom. Carlo pareceu apreciar o sabor do que foi dito e concluir que acreditava:

—Eu entendo. O luto é difícil. Melhoras a ele.

Quando chegaram à prefeitura, Trevor foi convidado a entrar depois de destrancadas as portas.

—Creio que não queira falar com o preso agora. - Carlo guardou as chaves. - Logo vamos decidir o que fazer com ele. Basta olhar os pertences do sujeito?

—Sim, senhor.

—Espere aqui, que vou buscar.

O guarda sumiu, para onde, Trevor não sabia. Sentou-se no chão e aguardou, até que os passos voltassem pelo corredor deserto. Ficou de pé.

—Demos as joias para a igreja. Ainda há moedas que não contamos e o tal papel. - Carlo o entregou uma bolsa de pano não muito grande.

—Também encontro… - Trevor vasculhou mais depois de encontrar a folha e retirou um objeto, que viu à luz do lampião. - Uma adaga?

—Fique com ela, se ainda tiver fio. - O guarda deu de ombros.

Trevor olhou bem para a faca e a prendeu no cinto. Mais uma para a coleção. Carlo sugeriu que fossem embora, e assim o fizeram. Antes que trancasse a porta, disse:

—Sabe, já que está metido com esses assuntos, Belmont, recomendo que converse com o homem lá embaixo.

—Por que motivo, se ele não sabe de nada? - Trevor cruzou os braços e olhou para o outro lado.

—Não por isso. Nos primeiros dias, nada havia de estranho. Depois, o sujeito começou a falar durante o sono, e agora, grita coisas que ninguém entende. Parece até que está possuído, que Deus me livre.

Peculiar. Trevor voltou a olhar para Carlo.

—Amanhã, então, devo vir? - Ergueu a sobrancelha.

—Como queira. Se eu não estiver de guarda, diga que veio em meu nome.


Sypha olhou pela enésima vez para a azeda taberneira e suspirou. Também olhou para Alucard, que não puxou conversa, tal qual ela própria, mas suspeitava que ele passava pelo mesmo. Poderíamos ter debatido o caso pelo trajeto inteiro. Por sorte, devemos estar quase lá.

A senhora abriu as portas da taverna e começou a rondar por entre as mesas logo depois de deixar o lampião no balcão. Um bêbado de muitos quilos se ergueu ao mesmo tempo e esbarrou nele, quase levando a vela ao chão, e Alucard foi rápido o bastante para segurá-la antes que a chama tocasse qualquer coisa.

—Mais cuidado, camarada. - Deu um tapinha no ombro do homem atordoado.

Seguiram para o andar de cima e entraram no quarto. Sypha reacendeu a luz e continuou a ler o confuso diário, sentada à cama e Alucard ocupando a cadeira. Adoraria que este negócio fizesse sentido. De vez em quando, tirava os olhos do livro e encontrava o outro espiando a noite estrelada pela janela, com o queixo apoiado na mão. Eu é que não vou atrapalhar. A cada página, no entanto, a caligrafia se tornava menos compreensível. Perdia três ou quatro leituras para decifrar uma linha, até decidir, por fim, conversar:

—Onde acha que eles estão?

—Os desaparecidos? - Alucard olhou para ela, depois para cima. - Se saíram a cavalo, estão longe. Mas o garoto do estábulo não disse nada sobre tê-los visto.

—E se foram a pé, não foram tão longe assim. - Sypha fechou o livro, marcando-o com uma página dobrada. - Lendo isto aqui, não acho que eles chegassem a ponto de saber se transportar com magia.

—E creio que está certa. - Ele riu. - Eram medíocres até em lidar com artes que não deveriam. Não saberão abrir portais. Não saberão voar.

—Enfim. Encontrei uma coisa curiosa aqui, olhe.

Sypha se levantou e caminhou para se sentar à ponta da cama, mais perto da cadeira onde Alucard estava. Abriu o livro, que ele também estreitou os olhos para ler:

—Que letra difícil, céus. "Tent. nº1. Falha. Transm. mal suced.", é o que diz?

—Exato. E o resto… - Sypha voltou o livro para si. - "Tent. nº2. Falha. Transm. mal suced. Tent nº3"... e daí em diante até a número dez. "Falha. Form. Insuf." Fórmula? Formato? Formação?

—Tem a ver com o trecho sobre a máscara, será?

—Talvez, se "Transm" for "transmutação". Lembro ter lido sobre "material mais nobre"... - Ela virou páginas até encontrar o trecho e o leu em voz alta, com o livro no colo. - "Másc. imperfeita. mat. impróprio. Necess. + nobre. Objetivo descontente."

—Seguindo essa linha de pensamento, queriam transmutar algo em algo mais nobre para fazer uma máscara e agradar a alguém. - Alucard coçou o queixo. - Se posso dar um palpite, deve ser de algum metal para ouro. Ainda creem nisso através da química? Eles são piores do que eu pensava.

Sypha levou um instante para processar a informação e perguntou:

—Espere, não dá para fazer isso?

—Uh. Não. - Ele disse com uma pausa. - Bom, provavelmente, é ferro ou chumbo. São fáceis de obter.

—Ferro… - Sypha teve um estalo. - Os parafusos da porta dos fundos!

—É bem possível. Muito boa conjetura.

Ela sorriu, agradeceu e se aproximou mais meio metro, arrastando-se na beira da cama.

—Mas, espere. - Sypha batucou na contracapa do livro com os dedos. - Se não é possível transformar outro metal em ouro, por que na décima tentativa, a falha não foi "mal sucedida" e sim "insuficiente"?

—Talvez porque devem ter feito algo que os deu esperanças, mas não o bastante para uma máscara inteira.

Notou que a expressão de Alucard se suavizou, e que seu olhar se perdeu. O que há com você?, teve o breve ímpeto de perguntar, mas trocou de abordagem:

—No que está pensando?

—Estou tentando relembrar uma reação química. - Ele pôs a mão sobre os lábios. - Seria mais fácil se eu estivesse no laboratório.

—É uma pena que não dê mais para trazê-lo aqui. - Sypha sorriu, sem graça.

—Na volta, levo vocês para conhecê-lo. Creio que vão apreciar a visita.

Sypha arregalou os olhos. Seria um sonho? Quase saltou para abraçá-lo e agradecer quando Trevor escancarou a porta.

—Já chega de me assustar hoje, pelo amor de Deus. - Ela se levantou para trocar o abraço de alvo. - O que conseguiu lá?

—A página faltando. - Trevor ofegou. - Se for capaz de ler este troço.

Isso! Ele a tirou do bolso e a entregou a Sypha, que a aproximou da luz da vela.

—Nossa, parece um idioma perdido. Que letra horrorosa. - Limpou a garganta. - "Últ. rec. Result. zero. Reconhec. zero. Seg. marc. Loc predef. lago. Aguardar remoç."

—Último recurso. Resultado zero, reconhecimento zero. - Alucard arriscou.

—Seguir marcação. Local predefinido lago. Aguardar remoção. - Trevor coçou a cabeça. - No bosque aqui mais perto de Sohodol, há mais de um lago. No que leva à Fortaleza, não há nenhum.

—E o que seria o último recurso? - Alucard se levantou e vestiu o paletó.

Ninguém respondeu. Trevor se encaminhou para a janela:

—Vamos.

—Por aí? - Perguntou Sypha. - Posso descer vocês.

Assim ela o fez, com auxílio do controle do vento, e depois a si própria. Encaminhou-os até a falha nos muros indo na frente.

—Como descobriu essa brecha? - Trevor perguntou.

—Com o probleminha que tive mais cedo. - Ela riu.


É aqui, então. O bosque se estendia depois dos muros e da clareira, silencioso exceto pelo farfalhar das folhas e por um eventual pio de coruja. Alucard olhou para dentro de si mesmo e não encontrou medo. Por que estou inquieto, então? Sypha acendeu uma chama e fez sinal para que fossem atrás. Caminharam na mata sem trilha, desviando de galhos, raízes e pedras, sem conversar ou discutir nada. O fogo fez reluzir algo a metros de distância, e os três se aproximaram. Trevor tirou o objeto espetado numa casca de árvore, uma lâmina curta sem cabo com a ponta sem fio envolta por um tecido.

—Vi uma igual mais cedo. - Sypha a observou. - Izidor pegou do chão.

—Acha que há mais por aqui? - Trevor a pôs no bolso.

—Se o livro dizia mesmo "seguir marcações", parecem marcações para mim.

Seguiram em busca por mais daqueles sinais e não foi difícil encontrar os próximos. Espetavam-se em árvores peculiares, muito finas ou muito grossas, muito altas ou muito baixas, em tocos rachados e tombados, sempre em espaços abertos e visíveis. Ocultistas ruins, mas homens espertos. Alucard olhou para o céu e o quanto das estrelas era capaz de ver:

—Em que ponto cardeal fica o lago mais próximo, Trevor?

—A noroeste, se não me falha a memória. - Ele se recostou a uma árvore, ofegante.

—Isso não está nos levando a noroeste. Quantos lagos há nesse bosque?

—Perdão, não venho aqui faz mais de uma década.

—Pois faça um esforço. - Alucard pôs as mãos nos bolsos.

—Espere, onde está Sypha?

Olharam ao redor e não a encontraram. Ela deu a volta em uma árvore, a alguns metros de distância, e chamou em bom tom:

—Achei um barranco ali. Seria um lago?

Alucard e Trevor se entreolharam e seguiram-na. No tronco de uma árvore, Sypha avistou mais alguma coisa e aproximou o fogo para enxergar:

—Isto é um…

—...Coração. - Trevor deu um passo à frente e viu o órgão espetado com uma das tais lâminas que marcavam o trajeto.

—Por que acho que é da gárgula que vocês mataram? - Alucard ergueu a sobrancelha.

—Porque é grande, escuro e ainda está pulsando. - Trevor arrancou a estaca de aço e o coração caiu na folhagem, deixando um rastro de sangue na queda. - Se é que há lado bom para se ver, pelo menos, acho que os dois queridos passaram por aqui.

Terminaram de descer o barranco até a margem do lago e circularam por ela. Não era grande e era cercado de pedras, pinheiros e árvores decíduas, cujas folhas amareladas cobriam o chão.

—Ilumine mais, Sypha. - Trevor pediu.

Ela criou fortes chamas em direção ao céu, que passava a altura das árvores.

—Exagero? - Sypha riu, constrangida.

—Não. Há algo ali. Acho que encontramos. - Alucard apontou na margem oposta.

Sypha, então, criou uma ponte de grosso gelo até o outro lado, que atravessaram com cautela, um de cada vez.

—Encontramos, sim. - Trevor suspirou.

Alucard foi o último a chegar à margem e o cheiro de putrefação lhe alcançou o nariz. Os homens encapuzados estavam de rostos cobertos por máscaras metálicas douradas. Abaixou-se para retirá-las, revelando dois rostos desconhecidos de olhos abertos sem vida.

—São de chumbo, creio. - Mostrou-as aos outros dois. - Mas dourado. Boa tentativa.

—Do que está falando? - Perguntou Trevor?

—Iodeto de chumbo. Já me enganou quando eu era criança. - Alucard sorriu a contragosto. - Gera uma bela reação dourada num frasco de laboratório. Não recomendo que toquem.

—É tóxico, por acaso? - Sypha diminuiu a luz.

—É, e em grande quantidade, pode prejudicar o intelecto. Faz sentido que estivessem os dois escrevendo aquele garrancho. Vejam só, também.

Pegou a mão de um dos cadáveres e a ergueu com dificuldade para mostrar a palma com um furo de faca.

—O colega também tem, na mesma mão esquerda. Como está frio este senhor. - Trevor se agachava ao lado do corpo. - É um furo fundo. Deve ser a explicação da mancha no chão da sala.

—Olhem o que mais encontrei. - Sypha apareceu com um cantil, que abriu e cheirou para averiguar. - É chá de beladona.

—Posso provar? - Trevor estendeu a mão, e ela virou o conteúdo todo no lago. - Vou entender como um não.

—Foi o que os matou. Ainda quer?

—O que seria de mim sem você, não é mesmo? - Ele a apertou de leve no ombro e a beijou no rosto.

—É perigoso se for feito da raiz, que é a minha suspeita. - Sypha largou o cantil no chão.

Os três se calaram e só se ouviu o som do vento nas folhas. Não há muito mais o que fazer aqui. Como se lesse seus pensamentos, Sypha disse:

—Vamos voltar.

—Vamos. - Trevor foi à frente. - Não é um lugar no qual quero passar a noite.

Alucard olhou para as duas máscaras amareladas. E isto vai comigo.


Subiram à taverna pela janela que deixaram aberta ao sair. Sypha se aconchegou em Trevor, mas o sono parecia fugir a ela. Quando as esperanças de ter com quem conversar quase se foram, ela viu a sombra de Alucard se ajeitar na cama, de costas para os outros dois.

—Acordado? - Ela arriscou.

—Bastante.

—Como você está?

Ele levou um momento até responder:

—Em dúvida.

—Acho que estamos todos. - Sypha suspirou. - Vou levar o diário.

—Leve. Pode servir de algo.

—Quase me esqueço. - Trevor surgiu no mundo dos vivos. - Volto à cadeia pela manhã. O guarda me falou coisas estranhas sobre o preso. Ele fala dormindo. Tal qual eu agora.

Ele bocejou e abraçou Sypha. Também te amo.

—É espaço suficiente? - Alucard perguntou. - Não é a maior das camas.

—É, não se preocupe. - Sypha ajeitou o rosto no travesseiro.

Já peguei no sono em carruagens e becos com outras quinze pessoas. Isto aqui parece um palácio. Ela sorriu, sozinha no escuro do quarto. Levantou os olhos para Alucard, que ainda estava de costas, e nada pôde ver além de um contorno. E você, dormiu só a vida toda? Ela se aninhou mais, sem respostas.


O dia que nasceu era cinzento e frio. Trevor abriu os olhos sem vestígio algum de sono e se soltou de Sypha com cuidado. Ela não acorda, mas ainda assim. Despediu-se dela com um afago no cabelo e saiu sem levar a chave. No salão da taverna, a mulher ranzinza tinha pão e cerveja para servir; comeu e bebeu se perguntando que horas seriam, já que ninguém além dele se encontrava ali.

Saiu abraçado pela capa de pele, fiel companheira de tantos anos, em direção à prefeitura. O guarda na porta murmurou para perguntar o que queria.

—Vim em nome de Carlo. Ele permitiu que eu falasse com o ladrão preso há pouco e, disse que era urgente.

—É uma pena, senhor.

—Perdão? - Trevor sentiu o estômago gelar.

—Era um parente seu?

—Não tenho ideia de quem é. O que aconteceu?

—Morreu durante a noite.

Céus. A notícia desceu-lhe seca pela garganta. Perguntou:

—Tenho permissão para ver a cela?

—Se o senhor quiser. Carlo saberá.

—Tanto faz.

O guarda deixou a porta com Trevor e o guiou aos fundos da prefeitura, onde se encontrava um alçapão aberto. Desceram as escadas de cabeça baixa e caminharam pelo corredor de pedra, iluminado por tochas. Havia apenas quatro celas, numa vila que devia ver pouco crime, e em duas delas, houve homem vivo e calado para vê-los passar. O subsolo abafado sufocava. Ao fim do curto corredor, outro guarda se apresentou e acenou com a cabeça para o da portaria, olhando para Trevor com estranhamento Na última cela à direita, jazia um corpo de pescoço dilacerado e olhos abertos; as mãos do ladrão estavam em carne viva, e ele se atirava sobre uma poça de sangue. Na parede, escrita com o mesmo vermelho, a palavra "Ploiesti". O guarda da portaria fez o sinal da cruz.

—O pior, senhor - Ele disse, com uma nota de medo na voz. - É que ele não sabia nem ler.