Partiram ainda naquele dia. O caminho era outro; não passava por Sohodol. A estrada da Fortaleza até a principal não tinha ninguém para cuidar dela. Após o trecho, estava tão boa quanto a chuva permitia. Ploiesti era parte da rota comercial entre Targoviste e Bucareste, a capital e uma robusta cidade que, supunham, tinha sobrevivido ao ataque das hordas. As pessoas, no entanto, são como sementes. Erguem-se do chão quando menos se espera. Alucard lembrou Sohodol, e tentou imaginar sem dificuldade a vila feita de ruína e fogo, e cheio de vida no ano seguinte. Talvez, se eu tivesse saído para dar uma volta no ano passado.

Levariam um mínimo de sete dias se não conseguissem cavalos, e, se conseguissem, chegariam em cinco ou seis. O mapa indicava fazendas, tavernas e vilas no caminho depois de um denso bosque, mas, nas circunstâncias, coisas como essas iam e vinham muito rápido. A estrada em si, até aquele ponto, não tinha vivalma além dos três. Por volta do início da tarde, o cansaço os alcançou e pediram por um descanso. Continuaria, mas vou aceitar. Alucard se sentou com eles um pouco distante da beira da estrada, empoleirado em uma raiz de árvore, uma das várias que perderia as folhas naquela estação. Viu Trevor e Sypha comendo um pouco das provisões; ele próprio não tinha apetite. Deitou a cabeça no tronco da árvore e fechou os olhos, ouvindo o canto dos pássaros.

Antes de sair, olhara-se no espelho. O reflexo não mostrou muito além do esperado. Ou mostrou? Não sabia apontar a diferença aqui ou ali. Não era mais o mesmo; não tinha como ser. Só, talvez, essa não fosse uma mudança que pudesse ver com os olhos. Ainda assim, não sei onde é que eu fui parar. Certamente, não em Ploiesti, ou em cidade alguma. Se nem mesmo estava no castelo, não fazia a menor ideia.

Depois que se ergueram dali, caminharam até que a noite caísse, e fizeram o mesmo no segundo dia. Foram duas noites que Trevor e Sypha dormiram em paz, debaixo dos cobertores, e Alucard passou em claro. A noite é muito mais fria fora de quatro paredes. À luz da segunda fogueira, onde o bosque começava a rarear, ele buscou a pena e o caderno na bagagem. Levara-o a Sohodol, mas ruminara a ideia durante todo o tempo e, no fim, nada escrevera. Mas agora é uma boa hora. Se dois ocultistas loucos podiam ter um diário, ele também podia.

"Encontro-me, agora, desperto e bastante sem sono, numa noite na qual eu deveria dormir. Esta época tem sido de extremos: ou passo meses desacordado como um morto, ou, simplesmente, não durmo. Quando me levanto do eventual sono, sinto-me em frangalhos. Você, que lê estas páginas, certamente já ouviu falar de mim, mas perdoe a grosseria ao não me apresentar.

Meu nome é Adrian Fahrenheit Tepes, filho dos falecidos Dracula Vlad e Lisa Tepes. Não vou entrar em detalhes sobre o falecimento deles, pois essa é uma história longa, triste e já muito conhecida. É possível, no entanto, que você não saiba tudo sobre ela.

Nos últimos dias, fui revisitado pelas duas pessoas que mais me são próximas. São eles Trevor Belmont, último da casa Belmont, um clã célebre por caçar gente como eu, e Sypha Belnades, a Oradora descrita na profecia do Soldado Adormecido, poderosa maga e excelente ouvinte. Gosto de vê-los lado a lado. Quem os observasse quando se conheceram diria que pareciam o tipo de irmãos que brigam, mas nunca estão a mais de dois metros de distância. São muito diferentes, os dois. Trevor é um solitário. Se não por natureza, assim a vida fez com que se tornasse, e de forma tão profunda que parece natural e nem se suspeita que um dia foi diferente. Sypha é gregária. Ela vive com e para as outras pessoas, e pelo bem maior. Já eu, bom, não sei dizer muito bem onde é que me enquadro.

Minha mãe era humana, e meu pai, vampiro. Ele vivia como um recluso nos últimos séculos, eu diria, desde muito antes de eu nascer. Nunca foi afeito a situações sociais, se fosse apenas pelo social. Tinha que ter um propósito, um motivo. Tudo tinha que ter motivo. Nada se fazia em minha casa sem um porquê.

Minha mãe compartilhava desse foco, desse tipo de natureza, mas por outras razões. Ela era do tipo que não desistia, em especial, do ser humano. Estava sempre em meio a pessoas, cuidava de pessoas, estudava para ajudar pessoas. Punha as mãos em tudo que almejava, coisa que as mulheres não têm muita oportunidade de fazer, mas não deixava de ter uma família e tinha o dom do cuidado, como boa esposa e mãe que era.

Creio que carrego um pouco de ambos, mas o quanto, é difícil precisar. E, se falarmos de dom natural, ainda não sei qual é o meu. Minha mãe vivia para os outros, por exemplo. E há alguém aqui e agora que me lembra bastante dela. Porém…"

Deixou a pena repousar. A sensação que o tomou era nova e estranha. Escrever sobre si mesmo era não só falar do que o cercava, mas se tratar como uma pessoa alheia a quem conhecia bem demais. Respirou fundo e guardou o aparato de volta na bagagem. Aproximou-se de Trevor e o balançou pelo ombro.

—Quê? - Trevor perguntou, com a pior cara do mundo.

—Estou a fim de dormir. Favor ficar de pé.

Trevor se levantou tão devagar quanto podia, reclamando:

—Vai mesmo me tirar das cobertas quentes numa noite dessa?

—Vou, porque também estou com frio.

—Achei que ficaria acordado. - Cambaleou até se sentar ao redor da fogueira.

—Perdão, são quase quarenta e oito horas sem sono. Eu também achei que conseguiria, mas não estamos certos o tempo todo.

—Você me paga. - Trevor bocejou.

—Pago. - Achou a terceira coberta e se deitou só. - Se aceitar uma cerveja como pedido de desculpas.

—Temos um acordo.


No terceiro dia, como o previsto no mapa, encontraram uma vila minúscula e sem muros. Uma estalagem ladeava a estrada, pequena, porém honesta. O dono os atendeu, um senhor que os espiou longamente com o único olho que tinha:

—Quartos ou cavalos?

—Quartos, primeiro. Cavalos, depois. - Trevor pôs o dinheiro no balcão. - Aliás, vocês têm cavalos?

—Se temos. Mas, no momento, há mais gente no estábulo do que cavalos. Não querem se espremer, oito pessoas em duas camas, sabem? - O senhor riu. - Aqui está a chave, é o da esquerda. Não vou subir a escada que meu joelho não está bom hoje.

O quarto era, de fato, apertado mesmo para três pessoas, e tinha duas camas de solteiro em lados opostos das paredes. Deixaram a bagagem e acreditaram no atendimento simpático, levando as verduras ao dono do lado de baixo para que o almoço saísse mais em conta, antes que estragassem de vez. Ele foi à cozinha entregá-las à esposa e voltou tomando algo de um copo. Trevor perguntou:

—É cerveja, senhor? Gostaria de uma.

—É vinho. O segredo da boa saúde, vinho todos os dias. Azedo, aguado, vinagre, não importa. Já estou passado dos cinquenta, e digo, funciona. Só tenho o olho e o joelho ruins.

—Também gosto de vinho, se importa saber.

—Um rapaz de cultura. Mas eu teria que vender do meu vinho a você, se quisesse. Vou buscar sua cerveja.

Depois do almoço de folhas frescas com carne-seca ensopada, os três ficaram pelo balcão, e depois da terceira caneca, Trevor e o senhor já eram melhores amigos, como de longa data. Em um ponto, o velho puxou de debaixo do balcão um vidro gasto e riscado, tampado com uma rolha, e despejou um gole na caneca de Trevor:

—Este aqui, veja, é algo que eu não vendo a qualquer um.

—E o que é? - Não importava, mas Trevor perguntou mesmo assim.

—Tome e vai descobrir.

—Saúde, senhor.

Brindaram, tomou e não descobriu. O destilado desceu queimando, mas o gosto que ficava no fundo da garganta era agradável. Trevor olhou para o fundo do copo de sobrancelha erguida enquanto o senhor ria:

—Só digo que tenham cuidado. É quase fogo líquido. - Olhou para Alucard e Sypha. - E vocês, vai um gole?

—Sim, por favor. - Alucard estendeu o copo.

Ora, quem diria. Sypha também aceitou, mais receosa, e ambos tomaram um tanto quanto mais devagar. Trevor viu a oportunidade e puxou assunto:

—Como vai Ploiesti, senhor? Tem notícias?

—Fervilhando de gente, como sempre. Mas não sei se ouviram falar.

—Depende de quê. - Terminou a dose da bebida desconhecida.

—Morre-se por lá. Como em qualquer lugar deste mundo, morre-se. Mas lá, se morre dormindo. - O senhor adquiriu um tom dramático. - Do nada, ficam loucos. Falam que são seguidos, que são vigiados. Que alguém os quer mortos. Falam dormindo. Gritam dormindo. Andam dormindo. Brigam dormindo! Veja se pode. E, um dia, morrem mesmo. Sem ninguém entrar em casa. Sem arrombar porta alguma. Ricos ou pobres, com ou sem inimigos, só morrem. Dizem que é uma doença, outros, que é maldição do Diabo. Eu mesmo não arredo pé daqui, nem minha mulher e filhos, não deixo. Antes, eu deixava que fossem lá dançar, atrás de moças. Bebida, eles conseguem aqui. Moças, não.

O velho deu um último gole e completou:

—É para lá que vão? Muito cuidado. Quem passa uma semana, pode ser pego.

—Não pretendemos ficar tanto, não se preocupe. - Trevor apoiou o queixo na mão.

Só largou o balcão quando viu entrarem os hóspedes do estábulo, no início da noite. Eram, na verdade, quatro de um grupo e quatro de outro, cada um em sua respectiva carroça. Foi ter com eles vendo se negociava passagem para três em alguma delas, mas foi recusado em ambas. Trevor voltou para a cadeira contando a tentativa frustrada, que o dono da estalagem foi remediar:

—Temos dois cavalos aqui conosco. Nossos, mesmo. Umas belezas, que meus filhos cuidam. Mas também temos três viajantes…

—Eu posso ir a pé. - Sypha levantou a mão.

—Não faz sentido. É a mais leve de nós. - Alucard argumentou. - Eu vou.

—Então, vão querer? - O dono recolheu as canecas vazias. - Vou avisar o rapaz. Estarão alimentados e selados pela manhã.

—Vamos, sim, senhor. - Trevor deu um gole na nova cerveja.


A noite já adentrara e a maior parte dos hóspedes era barulhenta o bastante para que, vez ou outra, se escutasse uma exaltação vinda do andar de baixo. Trevor estava em meio ao sonoro jantar da estalagem, e os outros dois tinham carregado a comida para o quarto em busca de um pouco de silêncio. Sypha se entretinha com o livro de botânica que encontrara entre as coisas, tirando os olhos das páginas iluminadas pela vela para fitar Alucard, que ocupava a outra cama. Era frequente que ela se encontrasse com a dúvida: o que se passava na cabeça dele? Perguntar é sempre uma opção. Ele tinha os olhos fixos em um caderno apoiado nas pernas e com uma pena na mão.

—O que está escrevendo? - Ela arriscou.

—Mostro quando terminar esta parte. Pode ser?

—Claro. - Ergueu a sobrancelha.

Voltou a se imergir no livro, folheando sem destino, até que a porta se abriu e a cabeça de Trevor passou para dentro.

—Você aí. - Ele apontou Alucard. - Está me devendo uma cerveja.

—Quantas já foram? - Sypha perguntou.

—Perdi a conta, desculpe. Mas ele ainda me deve, então, vai passar do limite, com certeza. Venha cá pagar.

—Pode pegar o dinheiro na bolsa. - Alucard fechou o caderno.

—Não me faça fazer contas, por favor.

Alucard soltou um som de desagrado, ficou de pé, buscou as moedas na bagagem e desceu, muito a contragosto. A porta se fechou e Sypha se desagradou do novo silêncio do quarto. Passou um bom tempo olhando para o caderno que Alucard não levara. Devo? Os minutos se passavam, e sabia que não voltariam tão logo. Alcançou-o na outra cama e o abriu nas primeiras páginas.

Cada linha do relato não lhe era tão nova, exceto… Excelente ouvinte? Começou a sussurrar o conteúdo do que percebeu ser um diário. Ele gosta de me ver com Trevor, é? Ler sobre os pais de Alucard falava a um lugar muito familiar de si. Sorriu sozinha. A caligrafia era agradável e cuidadosa, fácil de ler, e a levou com rapidez até o final.

—"Há alguém aqui e agora que me lembra bastante dela." - Disse para ninguém.

Fechou o diário antes que fosse pega no ato e o deixou exatamente onde e como o tinha encontrado. Deitou-se na cama, virada para cima. É assim que é ser observada? Sentiu-se tola, como se, de olhos fechados apenas, pudesse pairar. Sypha sabia dar primeiros passos, fazer primeiros pedidos, avançar em primeiros beijos; e receber? Acho que é algo meu. Ela riu sozinha para o teto e logo se culpou. No que estou pensando? Ralhou com a própria imaginação fértil. Não é nada disso. É um diário e ponto final. Tem pensamentos sinceros, é para isso que ele serve. Sentou-se e depois ficou de pé. É bom que eu faça outra coisa.


Os hóspedes da estalagem se recolhiam em bandos, e só um ou outro bebedor mais silencioso restava no salão. Trevor e Alucard ocupavam uma mesa num canto, calados e com uma caneca só à mesa, e o dono se aproximou.

—Este aqui é um devedor, senhor. - Trevor apontou. - Dê-me uma cerveja na conta dele.

O velho examinou Alucard com seu único olho e palpitou:

—Não tem cara de quem deve.

—Mas deve, sim. Mais uma, se puder.

—Uma para mim, também, por favor. - Alucard pediu, antes que ele virasse as costas.

Trevor o olhou como quem não o reconhecia.

—O que foi? - Perguntou Alucard. - Nunca me viu beber?

—Nada.

—Só quero passar mais rápido por este momento.

—Sei bem.

O pedido foi entregue por um dos filhos do dono, um rapaz talvez da idade deles, que a entregou e saiu sem dizer nada. Deram um gole e Trevor indagou:

—Sabe dizer o que há nessa cerveja? Estou me perguntando isso desde que chegamos.

—Alguma especiaria. - Olhou para o copo. - Coisa rara de se ver.

—O gosto é bom. É o que importa. - Trevor bebeu mais e suspirou. - Escute, talvez eu não me lembre disso amanhã, e é por isso que vou dizer agora.

—Hmm? - Alucard atentou os ouvidos.

—Eu… Eu não deveria ter sido um completo imbecil. Perdão.

—O que há com você? - Deu uma risadinha.

—Nunca me viu pedir desculpas?

—Sinceramente? - Alucard ergueu a sobrancelha.

—Sou o mesmo de sempre, tão bêbado quanto sempre. Só aprendi uma coisa ou duas enquanto você cochilava.

Alucard baixou os olhos. E eu, aprendi o quê? Deu um longo gole na cerveja, chegando à metade do copo, e comentou:

—Talvez eu devesse beber com mais frequência.

—Não deve, não. - Trevor terminou a caneca de uma vez só.

Deram as moedas ao dono, que os abençoou e os desejou uma boa noite, subindo ao quarto em seguida. Trevor bateu à porta e ouviu, de dentro:

—Não está trancada.

—Está, sim. - Trevor respondeu, empurrando sem sucesso.

Aguardou um pouco e Sypha disse, a voz abafada:

—A chave não está aqui, então.

—Pois nem aqui. - Trevor revirou os bolsos. - Onde foi que você perdeu-

—Está comigo. - Alucard chegou da preguiçosa subida de chave na mão e destrancou.

Trevor tropeçou e, por sorte, caiu na cama com um som de alívio, de rosto para baixo e apenas metade do corpo em cima do colchão. Sypha foi rápida o bastante para se desviar dos vários quilos. Tinha o diário dos ocultistas em mãos e a pena de Alucard na mesa de cabeceira.

—Deem uma olhada aqui. - Ela fez sinal para que se aproximassem.

—Decifrou mais desse caos? - Trevor virou a cabeça sem sair do lugar.

—Não. Só escrevi aqui porque é o único papel que trouxemos.

Alucard se sentou do lado oposto e leu nas páginas: "Vítimas da maldição de Ploiesti - Datas - Sintomas - Causa da morte - Circunstâncias - Coincidências - Relações entre elas".

—Muito bom. Acho que vai ser de grande ajuda. - Elogiou Alucard. - Trevor?

—Sim? - Disse, com a voz arrastada.

—Leia, por favor. - Sypha deu-lhe um tapinha na cabeça.

—Não consigo. Vou colaborar quando o mundo estiver rodando um pouco menos.

Sypha revirou os olhos:

—Dê um copo de água a ele, Alucard. Bem no meio da cara.

—Seu desejo é uma ordem. - Alcançou o jarro d'água e serviu a caneca de metal.

—Opa, espere, sem desperdício. - Trevor se ergueu de supetão, de joelhos no piso. - Passe para cá esse copo.

Trevor tomou todo o conteúdo de uma vez, limpou a boca na manga da blusa e agradeceu. Também espremeu os olhos para ver o que havia nas páginas em branco do diário, e comentou:

—Ótimo, mesmo. O que sabemos até agora?

Sypha começou a contar nos dedos:

—Foi mais de uma vítima. Elas morrem durante o sono, depois de acharem que são perseguidas e vigiadas. Já faz algum tempo que vem acontecendo. O ladrão em Sohodol morreu estrangulado, mas não sabemos se é o mesmo para todas… Creio que é só.

—O resto, descobriremos ao chegarmos. - Alucard ficou de pé, sentou-se na própria cama e pôs o diário sobre as pernas. - Por ora, descansamos.

Trevor seguiu dividindo com Sypha a outra cama, que era pequena demais para dois. Ele reclamou para Alucard:

—Não é justo que tenha uma cama só sua.

—Achando ruim dormir acompanhado? - Alucard riu.

—Espero que não. - Sypha apertou a bochecha de Trevor.

—Eu, não. - Beijou-a com pouca decência. - É que hoje eu gostaria de um pouco mais de espaço, mas alguém aqui não entende muito dessas coisas.

—Não, é? - Alucard ergueu a sobrancelha. - Não sou de me gabar, mas-

—Ei. Modos. - Sypha interrompeu.

Trevor apagou a vela na mesa de cabeceira com um "boa noite" e voltou ao que fazia antes.

—Quem disse que podia apagar? - Alucard a reacendeu com uma fagulha.

A luz fez com que visse um bocado de afeto não pretendido. Voltou o olhar para o diário, que abriu, e esticou a mão para a pena quando o murmúrio na outra cama não via hora de parar. Pediu:

—Mais baixo, por favor.

—Deveria ter ficado em casa se veio só incomod-

Sypha tampou a boca de Trevor e ordenou:

—Calado. Desconsidere, Alucard.

Devia, é? O barulho, de fato, tornou-se mais módico até cessar e ser trocado por uma despedida e um ronco suave. Focado no diário, ignorou-os e voltou a escrever, riscando o último "porém" que registrara e partindo para a página seguinte.

"Trevor, apesar de solitário como meu pai, não me lembra tanto dele. Também é dedicado, afiado e misantropo. Mas nem em tudo busca significado, e, frequentemente, faz coisas por impulso. Entrega-se demais ao álcool, mesmo que advirta os outros a não fazer o mesmo. Não é tão poderoso, ou tão furioso. Apesar de eu achar que serviria como um bom líder também, ele só sai de seu confortável anonimato quando necessário. É mais fácil, para ser sincero, ver nele defeitos do que qualidades, mas elas estão lá, em algum lugar, e pode-se enxergá-las depois de um tempo. Não sei dizer, contudo, o que ele faria se uma tragédia ceifasse a vida de Sypha como ceifou a de minha mãe.

Por mais que pareça, até o momento, uma grande comparação de tal pessoa com tal, esse não é meu objetivo com o que agora escrevo. Pretendo comparar-me ao resto. Com quem mais me pareço? Não tenho a mesma sede de sangue de meu pai, e a ideia, por vezes, me causa repulsa. Nunca matei uma vítima para comer. Nunca sequer procurei uma vítima, encurralando-a como um animal assustado. Todo e qualquer gosto de sangue que eu tenha sentido foi o meu próprio, ou fruto da minha curiosidade acerca do alimento de meu pai. Eu o vi comer de forma indiscriminada na minha frente poucas vezes. Acho que não queria me incentivar. É estranho pensar nisso.

Falando em hábitos, apesar de serem, em geral, um casal muito feliz e harmônico, das poucas vezes em que vi meus pais discutirem e isso tinha a ver comigo, a maioria era sobre meu aprendizado de magia negra. Minha mãe acreditava que isso era uma péssima influência, e que eu poderia aprender a me defender de outras formas. Meu pai acreditava que era o mínimo a se fazer por um jovem como eu, que não era nem uma coisa e nem outra. No entanto, tive uma infância de cuidado e proteção, e creio hoje que meu pai falava do tempo em que eu descobriria o mundo lá fora sozinho. A única forma dessa arte com a qual minha mãe não tinha problemas era o disfarce, pois é confiável e seguro, e aprovava que eu estudasse a espada. Aprecio qualquer forma de saber, porém, nem sempre aprecio todo estudo, e várias coisas foram-me bastante penosas no início.

Já pensei, também, em seguir a carreira de médico como minha mãe. O sofrimento é capaz de me tocar, e talvez algumas gotas do amor transcendental dela pela espécie humana corram em minhas veias, se me acompanha até aqui. Aprendi muito com ela observando e perguntando, mas a medicina não é algo que se faz com pouco suporte material. Em falta de medicamentos, limpeza e ferramentas, morre-se por muito pouco; o corpo humano, apesar de feito para sobreviver, tem uma gama de pontos fracos.

Com frequência eu também a vi tratando de coisas que não eram doenças ou acidentes: o ser humano, tal qual o meu tipo (de que tipo sou, afinal?), agride e mata também por muito pouco. Não sei se eu conseguiria, como ela, manter o foco e a compostura diante do caso que me aparecesse na frente. Talvez eu fizesse um pouco de justiça com minhas próprias mãos, eliminando as maçãs podres que cruzassem meu caminho, manchando de sangue minha reputação. Que humanidade é essa que alega buscar a salvação e se distancia dela a cada dia? Vampiros são criaturas com uma moral particular, mas, ao menos, não alegam nada. Também, sendo o humano um ser social, há ocasiões em que a tal maçã podre contagia todo um cesto, espalhando o mal como uma praga. Mas acredito que, mesmo que seja nadar contra a corrente, há indivíduos que não se deixam estragar tão facilmente.

Foi positivo escrever sobre tudo isso. Logo mais, retorno a estas páginas com mais das minhas sandices. Até lá."

Fechou o caderno, desmontou a pena e os guardou com cuidado na bagagem, voltando a se deitar. O barulho de Trevor e Sypha se tornara o de duas respirações tranquilas. Talvez eu deva imitá-los. Não se cobriu; não sentia frio. O luxo de uma cama não vai durar para sempre.