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O Vampiro Famicom
Dia 1
- PARTE UM -
Famicom has joined the server
"Hm?"
Hirata Satoshi abriu os olhos.
Ele optou por fazer o logout no último segundo antes do encerramento definitivo do jogo. Hoje ele ainda tinha algumas tarefas do trabalho dele para fazer e por isso teria que usar o Dive mais um pouco.
Caso ele esperasse o encerramento ele sofreria um logout forçado e acordaria deitado na cama do quarto dele no mundo real, mas como ele saiu antes que isso acontecesse o destino dele ia ser o familiar ambiente virtual de trabalho, onde teria acesso aos programas de desenvolvimento.
Hirata Satoshi era um programador responsável.
Gastar esta noite para se despedir de seu personagem Famicom em Yggdrasil e de seus velhos amigos foi um luxo que ele se deu. Agora, para compensar o tempo gasto com esse luxo, ele planejava passar as primeiras duas horas deste novo dia programando.
Mas que porra é essa?!
Este planejamento, no entanto, nunca viraria realidade.
Apesar de ele ter certeza que seria enviado para seu ambiente virtual de desenvolvimento, o lugar onde ele se encontrava agora era totalmente diferente da expectativa dele.
Satoshi estava de pé em uma grande planície gramada sob um limpo céu noturno.
"O que é isso?! Todos estes cheiros… Hã?! Minha voz também está diferente…"
Satoshi recebeu uma explosão de novas sensações. Eram cheiros, sons e mesmo cores que ele nunca viu antes.
Normalmente os sentidos, com exceção da visão e audição, são completamente bloqueados quando se usa o Dive. Mesmo a visão e audição apesar de serem mantidos, precisam ser severamente limitados pela tecnologia.
Esse é um requisito jurídico importante na indústria de Dive e nenhuma empresa que se preze quebraria essas normas. Quebrar essas regras seria o mesmo que se expor ao risco de receber multas exorbitantes ou sofrer sanções pesadas.
"Isso é tão estranho, posso sentir tanta coisa… será que isso é um sequestro virtual?!"
Com um pouco de pânico, ele percebeu que não tinha nenhum menu disponível para interação à vista. Não ter um meio de fuga e ser capaz de sentir sentidos restritos poderia configurar um sequestro virtual.
Sequestros virtuais não eram uma lenda urbana. Eles realmente aconteciam. E geralmente não terminavam bem para os sequestrados, que eram sujeitos às piores experiências pelos sequestradores.
Satoshi conhecia o caso de um hacker americano que foi condenado à morte. Ele tinha torturado dezenas de pessoas e levado outras seis à morte cerebral em três países diferentes.
Ao lembrar disso, Hirata Satoshi sentiu pavor com a possibilidade de ter sido sequestrado, mas depois que fez uma melhor análise percebeu que no caso dele um sequestro virtual não era plausível.
Seu Dive pessoal era um dos aparelhos mais seguros naquela faixa de preço e não tinha falhas sensoriais exploráveis. Era um modelo para usuários cautelosos e por segurança apenas permitia alguma pequena sensação de peso.
Mas o que Satoshi sentia agora estava além de qualquer experiência virtual possível para este aparelho ou até mesmo para os de tecnologia de ponta.
Hirata Satoshi podia sentir o mundo de uma forma ainda mais vívida do que com o corpo real dele.
"Cara… isso é muito mais realista que a realidade!"
A conclusão que chegou após poucos minutos de pensamentos foi que não havia como isto ser um ambiente virtual.
Hirata Satoshi podia não ser um programador de alto desempenho, mas ele pelo menos conhecia os limites da tecnologia humana moderna.
Tal grau de realismo era impossível, mesmo em laboratórios.
Ele olhou para sua mão esquerda enquanto abria e fechava os dedos repletos de anéis, sentia as suas unhas grandes tocando o pulso sempre que fazia isso.
Quando Satoshi tinha 9 anos de idade ele teve sua mão esquerda amputada como consequência de um acidente em um veículo público. O fato de poder mover seus dedos melhor do que com qualquer prótese lhe dava ainda mais certeza da impossibilidade de estar em uma virtualização.
Quando somava a sensação clara do membro amputado dele ao campo de visão melhorado e a miríade de cheiros que ele sentia, a hipótese deste fenômeno estranho estar relacionado de qualquer forma ao Dive era risível.
"Mas então o que diabos é isso…?"
Por vários minutos ele ficou apenas olhando para si mesmo enquanto se concentrava na sua forma monstruosa, conforme ele se estudava, informações surgiam na mente dele.
Novas informações saltando em sua mente foi uma experiência que ele nunca teve antes e de que ele nunca ouviu falar.
"Entendi... mesmo sem um menu ainda tenho acesso as minhas habilidades e magias..."
Quando se concentrou no item em sua mão direita, o World Item chamado Ginnungagap que ele havia tomado da criação de Tabula momentos atrás, uma série de informações de como usá-lo inundou sua cabeça.
"Isso ser um ambiente virtual está totalmente fora de questão... mas então porque tenho os itens e esse corpo de Yggdrasil…? Será que o jogo virou realidade?!"
Isso desafiaria qualquer lógica se fosse verdade.
Durante uma dezena de minutos várias ideias loucas para explicar esta situação surgiram na cabeça dele, chegou a pensar até mesmo em coisas como morte e reencarnação, mas ele jogou todas elas de lado por enquanto.
Tinha algo o incomodando já há um tempo.
Naquela planície gramada ele era completamente visível mesmo a quilômetros de distância e ele tinha um sentimento instintivo de vulnerabilidade por causa disso.
"Deixa eu tentar usar uma magia, se não me engano acho que devo apenas... [Fly]"
Quando desejou seguramente usar a magia [Fly], Satoshi sentiu uma energia deixar o corpo dele e viu um círculo de luz repleto de símbolos estranhos piscar brevemente.
Informações de uso surgiram na cabeça dele e tão logo o círculo de luz se foi ele pôde sentir o efeito da mais básica magia de voo de 3° Nível.
Ele havia lançado uma magia.
Para testar a eficiência da magia, Satoshi ergueu-se vinte centímetros do chão e foi flutuando de um lado para o outro.
"Parece funcionar direito, então agora é melhor me ocultar por segurança... [Extend Magic: Perfect Unknowable]"
A segunda magia que Satoshi lançou foi uma magia de ocultação de 9° Nível que ele aprimorou com um talento metamágico para que durasse mais. Satoshi reparou que lançar esta magia demorou mais do que lançar a primeira, mesmo que todo processo não ultrapassasse um segundo.
Quando sentiu que estava totalmente no controle das duas magias, ele alçou voo verticalmente.
Conforme subia, ficou mais animado com o que via e com a sensação do vento na pele.
De forma imprudente subiu centenas de metros de altura.
"Voar aqui é surpreendentemente agradável! Nunca me senti tão livre!"
No jogo quando um avatar estava sob efeito de vôo um menu direcional aparecia para que o jogador guiasse seu avatar. Mas agora Satoshi podia se mover em qualquer direção livremente de acordo com a vontade dele.
Voar agora parecia tão natural quanto andar e girar sobre os próprios pés, mesmo estar tão alto no céu sequer era assustador.
"Olha essa vista… cara isso é incrível! Que lugar deve ser esse?"
A centenas de metros de altura, um Satoshi animado olhou cuidadosamente a paisagem ao redor.
Apesar de estar de noite e não ter as luzes artificiais da Grande Tóquio para fornecer iluminação, os olhos de Satoshi podiam enxergar perfeitamente com apenas a luz das estrelas e da lua cheia.
O que ele via quando olhava ao redor era um mar de natureza e um limpo céu noturno, totalmente diferente da Terra poluída do século 22.
Muito distante de si, Satoshi viu no solo mais de uma dúzia de pontos luminosos, eles estavam dispostos de forma espaçada, talvez fossem pequenas povoações ou acampamentos. Também viu um grande mar verde escuro que era uma floresta e além dela uma linha branca de uma cordilheira de montanhas nevadas.
"Aquelas luzes podem ser acampamentos. E agora… não sei nada sobre a índole dos habitantes... também não sei se foi só eu que terminei com meu avatar aqui… por segurança vou evitar entrar em contato com outros até entender meus limites."
Satoshi era precavido e não queria se pôr em perigo.
Ele não sabia quanto tempo ficaria neste lugar estranho, mas o fato de sentir tantas sensações indicava que também podia sentir dor e morrer, portanto julgava que ser cauteloso era a melhor escolha aqui.
"Vou pra bem longe daquelas luzes!"
Após dizer isso em voz alta e decidir uma direção, Hirata Satoshi rumou para a extensão verde escura distante que acreditava ser uma floresta.
Seu plano emergencial era passar a noite oculto na floresta testando suas capacidades e durante o dia tentar entrar em contato com alguns dos acampamentos que viu do céu.
Ele precisou voar apenas algumas dezenas de minutos para chegar à borda da floresta.
Mesmo sob efeito de uma magia de ocultação de alto nível ele tomou o cuidado de não ficar em grande altitude ou viajar em grande velocidade, fez isso para não ser notado por alguem.
Depois que pousou a alguns metros da margem da floresta, ele deu atenção a uma coisa que o estava incomodando um pouquinho.
"Essa minha língua é bem longa, não é?"
Satoshi segurou a língua longa e fina. Ela saia da monstruosa boca circular dele que era cheia de dentes de tubarão. Sua longa língua era tão inconveniente que falar sem que a saliva pingasse era um desafio para ele.
Ele ergueu a língua na altura dos olhos com a ajuda de dois de seus dedos secos de unhas enormes. Notou também que era desnecessariamente trabalhoso manipular coisas com unhas tão grandes.
Olhando para a própria língua ele viu que aquilo era realmente comprido, era como uma grande minhoca.
Era estranho pensar que aquilo era parte dele.
No entanto, apesar de ser estranho, aquilo indubitavelmente fazia parte dele neste momento.
A raça original do avatar de Satoshi era Vampire e Satoshi usou por muito tempo o corpo personalizado de Vampire dele quando começou no jogo. Ele tinha modelado o corpo inicial do avatar dele como um lindo garotinho europeu de cabelos dourados e olhos vermelhos que aparentava ter uns oito anos de idade.
Conforme nivelou ele escolheu outras classes raciais para o avatar dele. Elas foram True Vampire, Blood Progenitor e, finalmente, Greater One.
Essas classes raciais lhe conferiam muitos Stats e habilidades. E cada uma delas também lhe dava uma forma física adicional.
Mesmo tendo quatro opções de corpo, Satoshi sempre usava apenas o repulsivo corpo atual dele, o dado pelos níveis de True Vampire.
O motivo era simples.
Diferente das outras, a forma de True Vampire era horrivelmente monstruosa e não ficava atrás da maioria das aparências aberrativas dos seus amigos membros da Ainz Ooal Gown.
"Talvez devesse tentar usar aquele corpo…"
A fala de Satoshi não se referia a forma infantil de Vampire, mas a última forma dele, o corpo racial de Greater One.
Os Greater One eram, junto com Nosferatu e Dracula, uma das três raças supremas de Vampiros em Yggdrasil. Eles eram Senhores das Massas, Lordes da Vida e da Não-Vida.
Em termos de jogo tinham habilidades raciais que poderiam ser consideradas no máximo medianas, focadas principalmente em encantamentos e controle de multidões, mas em contrapartida possuíam as melhores estatísticas de todas as raças de vampiros do jogo, comparáveis às das classes monstruosas dracônicas.
Depois de decidir por tomar a forma dele como Greater One, Satoshi se concentrou mais uma vez, da mesma forma como tinha feito antes para usar magia.
Ao fazer isso, sua transformação se iniciou quase imediatamente.
Primeiro ele notou que estava coberto por uma luz vermelha e então foi um pouco doloroso quando ele sentiu todos músculos dele se contraírem e a pele dele arder.
Foi um alívio para Satoshi que a coisa toda durou apenas alguns segundos e no fim deste processo já não havia sinal do decrépito True Vampire.
O que havia agora de pé na borda da floresta, era um homem de 1,80 m com a pele pálida, longos cabelos brancos que chegavam às costas e olhos desumanamente vermelhos.
Ele ainda vestia os mesmos itens de antes mas seu manto propositalmente esfarrapado que antes tocava o chão devido a postura curvada agora chegava apenas aos joelhos naquele corpo perfeitamente ereto.
"Pensando bem acho que eu nunca personalizei esse corpo..."
De fato, Satoshi nunca modificou seu corpo padrão de Greater One. Ele preferiu investir o dinheiro dele na personalização de itens e da sua forma de True Vampire, que era a única que ele usava.
Ele tateou o rosto por um momento e sentiu os músculos dos braços e tórax da Skin padrão de Greater One.
O novo corpo dele era, bem, como dizer, muito bonito?
"Isso não é ruim, me sinto quase como um modelo… estou pelo menos mais apresentável que antes."
Um pouco satisfeito com a aparência dele, ele olhou para a floresta à frente.
O plano dele era se esconder por um tempo, encontrar um lugar tranquilo e testar as convocações especiais dele.
O avatar dele, Famicom, era um summoner, um convocador. Tão logo ele confirmasse que as convocações dele eram seguras aqui ele já não estaria mais sozinho nesta situação estranha em que se meteu.
"Me pergunto o que foi feito de Herohero-san e Momonga-san…"
Enquanto voava até a borda da floresta ele tentou conjurar a magia de 2° Nível [Message] diversas vezes, mas nenhum dos destinatários que visava deu resposta.
"Um dos Nove Mundos de Yggdrasil pode ter virado realidade... esse lugar aqui não é desagradável como Helheim, talvez seja Midgard ou Asgard?"
Ele suspirou pensativo antes de sacudir a cabeça e dar um passo para entrar na floresta.
Satoshi sinceramente esperava que não houvesse nada perigoso na floresta.
Ele andou oculto por magia pela floresta por uma hora inteira e ficou surpreso com a quantidade de cheiros, sons e vida que encontrou.
Se ainda fosse humano tudo aqui seria um breu já que a luz do luar mal passava pelas folhas das árvores. Mas agora Satoshi era um vampiro, então tudo era claro como se fosse dia.
Atualmente, Satoshi estava andando sorrateiramente na ponta dos pés.
Isso porque ele encontrou uma vila rústica com dezenas de cabanas e decidiu entrar nela.
Mesmo sob efeito de uma magia de ocultação de alto nível, caminhar na ponta dos pés parecia a coisa certa a se fazer numa infiltração.
Enquanto caminhava olhando as cabanas feitas de vegetação, ele se lembrou que muitos anos atrás viu um documentário underground que mostrava imagens de vilas primitivas. Claro que se tratava de gravações de época, tais comunidades só existiram até a primeira metade do século 21.
O motivo que levou Satoshi a sair do seu caminho pela floresta e fazer o percurso até o ponto central desta vila foi que ele ouviu vozes fazendo um som familiar.
"Ype, Zakada deve comer isso antes de fazer. É mais fácil dela pegar criança se Zakada comer as duas."
"Isso é certo? Irmão Velho? Comer bola de javali?"
"Ype! Ype! Truque antigo! Muito certo!"
No centro da vila havia um grupo de quatro homenzinhos verdes sentados em círculo. Satoshi não tinha ideia precisa da hora, mas parecia ser tarde da noite já que quase todos os moradores estavam dormindo dentro das quase trinta cabanas de vegetação.
Talvez estes quatro homenzinhos verdes fossem responsáveis pela segurança da comunidade pois ainda estavam do lado de fora conversando. Além deles, Satoshi sentia que havia alguns outros que estavam escondidos nas árvores ao redor da aldeia.
Se Satoshi tivesse que apostar ele diria que esta era uma vila de goblins.
Goblins eram uma das raças mais ineficientes para jogadores em Yggdrasil, ao ponto de serem quase ignorados em conversas sobre builds. Eles estavam facilmente entre as dez piores escolhas de raça que alguém poderia fazer.
Apesar disso alguns jogadores de destaque escolhiam eles apenas por diversão, como se quisessem dizer "mesmo com uma raça fraca sou um bom jogador".
Mas mesmo estes narcisistas não gastavam muitos níveis nessa raça, pois ela era um coletivo de desvantagens.
Para Satoshi o fato de estar em uma vila de goblins não era lá muito importante, mas a língua que estes quatro estavam usando na conversa deles que era o real negócio.
Esses caras estavam falando japonês.
Quando a audição privilegiada de Satoshi ouviu isso ao longe ele teve que vir aqui imediatamente confirmar.
"Zakada tem sorte que nós caçamos javali hoje!"
"Família está pequena! Capataz está irritado!"
"Isso porque ele comeu crianças de Zuzuru!"
Os goblins conversavam em um japonês compreensível sobre seus assuntos tribais.
Isso é impossível! Como eles podem falar japonês?!
Um Satoshi pasmo prestou atenção na conversa deles por vários minutos e nesse tempo percebeu que a boca deles se movia diferente do som que era emitido.
Eles não falavam japonês de verdade. Era como se o que falassem fosse traduzido para os ouvidos de Satoshi.
Talvez isso seja algo mágico… eu não tenho nenhuma magia assim, nem mesmo um item, muito menos uma habilidade...
O Avatar de Satoshi, Famicom, não tinha nenhuma habilidade lixo como as passivas roleplay das raças angelicais que garantiam compreensão de idiomas. Até onde sabia, os goblins também não tinham isso.
Isso pode ser algo que recebi quando cheguei aqui...
Satoshi não sabia se isso estava de algum jeito ligado à forma que chegou neste mundo, já que as circunstâncias que o trouxeram aqui eram desconhecidas para ele. Mas poder entender os nativos desta terra seria algo que ajudaria ele muito caso ele ficasse um longo tempo por aqui.
Ele se sentou no chão e ouviu a conversa dos goblins.
Pelo que ele pode entender esta aldeia era subordinada a um tal Capataz do Gigante do Leste chamado Ba Fuu. Pelo que eles diziam, Ba Fuu exigia uma cota de caça e coleta que deveria ser repassada a cada fase da lua.
Apenas essa cota consumia metade dos recursos da aldeia.
Este Gigante do Leste deve ser o boss dessa área e fez um sistema de tributação arcaico para os mobs...
Satoshi ficou tentado a se revelar aqui e fazer alguns testes.
Apesar de poder entender o que falavam, ele gostaria de testar se a comunicação ia funcionar no outro sentido e se ele seria entendido pelos goblins.
Graças a sua habilidade passiva {Level Evaluation}, Satoshi podia dizer o nível de alguém apenas ao encará-los por um tempo e avaliando esses goblins seus níveis iam apenas do 1 ao 2, muito abaixo do padrão em Yggdrasil.
Se as coisas funcionassem como no jogo seria fácil eliminá-los caso o encontro terminasse em confronto. Mesmo que fossem dezenas de milhares de goblins de nível tão baixo, Satoshi estava seguro que poderia liquidá-los com poucas magias de alto nível.
Porém Satoshi decidiu por se retirar e não confrontar estes carinhas.
Não era certo se as coisas ocorreriam exatamente como no jogo, então era melhor evitar entrar em brigas e procurar uma situação ideal para um primeiro contato com os nativos deste mundo.
Outra coisa que pesou na decisão de Satoshi foi que a ideia de arrasar uma vila de selvagens inocentes era estranha para ele. Seria diferente se fossem inimigos ou monstros desagradáveis, mas esses goblins não pareciam merecer morrer.
Eram praticamente pessoas.
Ele até simpatizava com o goblin Zakada que encontrou uma parceira de vida a três meses mas ainda não teve filhos e que agora mastigava duas bolas de javali cruas.
Optando pelo caminho seguro, Satoshi deixou a vila.
Hirata Satoshi então vagou pela floresta escura por várias horas.
- PARTE DOIS -
Miya, a Aztlan Couatl
Depois daquela primeira vila goblin, Satoshi passou por outra vila de semi-humanos um pouco maior e que além de goblins tinha quatro ogres fedorentos.
Na ocasião, Satoshi também preferiu se manter oculto.
Nas várias horas que caminhou pela floresta, ele teve que renovar sua magia de ocultação duas vezes. Gradualmente os seres da floresta começavam a se agitar dando indícios que ia amanhecer em breve.
Neste momento Satoshi adentrava em uma pequena clareira.
Ele passou a última hora circulando um raio de uma centena de metros deste lugar. E depois de ter certeza que não havia ameaças próximas ele decidiu iniciar seus testes aqui.
Satoshi se sentou na grande pedra no centro da clareira.
"O que devo testar primeiro…?"
Além das quatro classes raciais, o avatar Famicom também tinha nove classes de trabalho. Quase todas elas eram classes focadas em convocação de aliados.
Como alguém especializado em chamar minions, Satoshi tinha muitas opções e variedades de lacaios. Ele podia convocar minions por magia, por habilidades raciais, por habilidades de classe e por inúmeros itens que colecionou durante seu tempo de jogo.
Depois de pensar um pouco, Satoshi decidiu começar os experimentos convocando com magia aliados de nível muito baixo. Assim, caso eles se rebelassem ou se mostrassem hostis, ele provavelmente conseguiria se defender.
"[Summon Monster I]!"
Ele usou a magia mais fraca da árvore de convocação mais genérica.
Esta magia de 1° Nível dava a ele uma ampla lista de possibilidades de criaturas para convocar, todas indo do nível 1 ao 7.
O Avatar de Satoshi, o Vampiro Famicom, tinha algumas habilidades dadas pelas classes de trabalho Summoner e Master Summoner que davam níveis adicionais às suas convocações, mas ele não quis usar isso desta vez.
O objetivo dele aqui era convocar uma criatura frágil, já que quanto mais fraca fosse a criatura convocada, mais seguro ele estaria se algo desse errado.
Pouco antes do pequeno círculo de luz que apareceu no chão se apagar, uma criatura se materializou acima dele.
Era uma Giant Ant de nível 5.
Ela tinha o tamanho de um cachorro muito grande, sua carapaça era vermelha e resistente, com cerdas aqui e ali para melhorar seus sentidos. Suas duas mandíbulas eram enormes e pareciam perigosas. Ela moveu a cabeça de um lado para o outro até achar Satoshi, quando achou ele, ela ficou parada como se esperasse algo.
Satoshi podia sentir que tinha um vínculo com esta criatura, o que foi a coisa mais estranha que sentiu desde que tudo isso começou. Era como se ambos compartilhassem algo.
O mais importante para ele, porém, foi que este vínculo era hierárquico e lhe dava autoridade absoluta sobre a criatura.
"Ande até ali."
Satoshi apontou para um lugar distante e ordenou algo a Giant Ant.
Ela obedeceu quase imediatamente indo com suas seis patas para onde ele ordenou.
A formiga não devia ter inteligência suficiente para entender as palavras dele, mas ele soube de imediato que era o vínculo que tinha com a criatura que permitia que ela realizasse as vontades dele.
Por seu lado, o vínculo também permitia que Satoshi entendesse o inseto até certo ponto.
A estranha linha de consciência que unia os dois ficava um tiquinho mais fina a cada segundo. Indicando que o tempo de duração da convocação diminuía lentamente.
Satoshi deu mais alguns comandos para a Giant Ant tentando entender as limitações da magia, quando ficou satisfeito decidiu usar uma convocação mais forte.
"[Summon Undead V]!"
Novamente um círculo de luz se formou no chão e, pouco antes dele desaparecer, uma figura morta-viva de mais de dois metros estava acima do círculo.
A figura vestia uma armadura negra com esporas, uma de suas mãos equipava um escudo de torre e a outra uma grande espada ondulada.
Era um Death Knight de nível 35.
Este morto-vivo intimidante tinha uma aura de realismo sinistra sobre ele que assustaria qualquer trabalhador japonês, mas assim como com a Giant Ant, Satoshi sentiu que tinha um vínculo de autoridade sobre a criatura, sendo este o único motivo de não ter recuado diante da sua imponência.
Death Knight eram mortos-vivos intermediários com uma habilidade única que os permitia sobreviver ao primeiro dano mortal recebido. Isso fazia deles excelentes escudos de carne.
Assim como com a Giant Ant, Satoshi deu alguns comandos para este Death Knight tentando explorar as possibilidades da magia de convocação.
Durante a próxima hora, Satoshi ficou testando magias de convocação. Ele usou magias de quase todas as árvores de convocação e de variados níveis de complexidade.
No fim desta hora, Satoshi tinha dezenas de convocações aguardando suas ordens.
Raios de sol já passavam entre as folhas das árvores anunciando que já havia amanhecido há algum tempo.
Ele percebeu um pouco triste que a luz do sol era desagradável para pele dele, embora não parecesse machucar a ponto de causar dano.
Satoshi lamentou por isso, mas isso era esperado, afinal seu avatar Famicom era, essencialmente, um vampiro.
Vou ter que andar coberto durante o dia...
Depois de se conformar com este novo fato ele subiu na pedra no centro da clareira onde fazia seus testes e olhou em volta com um pouco de satisfação.
Ele tinha gasto uma boa cota do MP dele nos testes e agora cerca de trinta criaturas convocadas estavam em volta dele, com níveis que iam do 35 ao 75.
Eram 1 elemental, 3 anjos, 6 demônios, 9 mortos-vivos e 12 bestas-mágicas. Além das convocações presentes aqui, Satoshi também tinha convocado várias Giant Ant para patrulhar os arredores.
O avatar Famicom dele tinha classes de trabalho que fortalecem e prolongam suas convocações por magia.
Quando estava Yggdrasil se Satoshi desejasse podia manter uma convocação por até duas horas enquanto um mago normal de nível 100 tinha suas convocações durando no máximo 30 minutos.
Isso permitia a Satoshi alimentar o campo de batalha com verdadeiros exércitos duráveis e sempre o fez ser mais visado pelos inimigos que o healer do grupo em que estivesse.
Apesar de poder encher o campo com números, suas criaturas convocadas por magia tinham limite de nível. Quando usando magias de até 10° nível as criaturas mais fortes que ele podia convocar eram de nível 75.
Esta era a principal desvantagem dos especialistas summoners.
Multidões neste nível podem ser um difícil adversário para jogadores comuns, mas eram fáceis de serem derrotadas por um top player de nível 100. De fato, muitos poucos summoners eram destacados e eficientes o suficiente para estarem nas listas de top players.
Para tentar compensar a desvantagem de limite de nível, Satoshi precisava de pequenos trunfos, como por exemplo, usar habilidades de classe ao invés de magias para convocar criaturas.
Nesta realidade estranha em que foi jogado, estava claro que não havia perigo para ele convocar criaturas através de magia. Mas seria o mesmo se convocasse com habilidades de classe?
Satoshi queria testar isso e para a segurança dele ele montou este pequeno exército para protegê-lo antes de fazer este novo teste.
Ele ia testar convocações com habilidade de classe usando uma interessante habilidade da classe Splitted-Soul Summoner.
O lore da classe Splitted-Soul Summoner dizia que o personagem fragmentava a própria alma a fim de criar com estes fragmentos servos especiais mais fortes que o acompanhariam para sempre como convocações.
Satoshi se concentrou para usar a habilidade {Call Eidolon}.
Esta era a principal habilidade da classe Splitted-Soul Summoner. Usando esta habilidade ele poderia chamar um dos três eidolons que criou quando jogava.
Eidolons eram criações personalizadas e não meros monstros.
De forma bem resumida, Eidolons eram monstros convocados por uma habilidade de classe que tinham sua aparência e background personalizáveis, como os de NPCs de guilda, mas que mantinham as estatísticas de monstros mercenários.
Uma completa bagunça de mecânicas...
Quando se convocava um Eidolon, não havia limite de tempo para a convocação, mas enquanto um Eidolon estivesse convocado, o avatar Famicom perderia acesso a dez por cento do MP máximo dele.
Eidolons também não perdiam níveis ao morrer e não tinham custo de ressurreição, podendo ser chamados novamente 72 horas após a morte deles.
Para Satoshi a principal vantagem de um Eidolon, no entanto, era que esta criatura podia fazer convocações por si própria, tal coisa era proibida para quase todas as outras convocações.
Satoshi tinha optado em ter três Eidolons de nível 85, ao invés de ter um único de nível 90.
Seus Eidolons criados no jogo eram um Demônio, um Anjo e um Couatl.
"{Call Eidolon: Miyaoaxochitl}!"
Quando ele finalmente usou a habilidade de classe, ele sentiu algo precioso começar a deixar seu peito. Era bastante doloroso e ele sentiu como se estivesse perdendo temporariamente algo importante.
Satoshi então foi tomado por uma dor tão intensa que o fez arquear o corpo imediatamente. Ele então caiu de joelhos agarrando o tórax e arfando.
Ele ficou assim alguns segundos até a dor passar enquanto sentia os seus minions se posicionando em volta dele para defendê-lo enquanto ele estava em fragilidade.
Satoshi ainda estava abaixado, se recuperando da dor que foi embora quando finalmente sentiu um novo link de convocação. Imediatamente levantou a cabeça e olhou para frente.
Não pôde deixar de ficar surpreso com a majestade da criatura que viu.
Ele precisou inclinar o pescoço completamente ao olhar para cima tentando ver a totalidade do corpo da criatura.
Na sua frente estava uma grande serpente com pelo menos cinquenta metros de comprimento da cauda à cabeça. Seu corpo enrolado era fino como o de uma cobra e ela flutuava dançando sem tocar o chão enquanto olhava fixamente para Satoshi.
As escamas da grande serpente eram das cores do arco-íris e ela tinha um gigantesco par de asas coloridas. Em sua cabeça havia uma coroa natural de penas e cada um de seus dois olhos viperinos eram maiores que a cabeça de Satoshi, um deles era violeta e o outro vermelho.
As grandes asas dela eram tão colossais que mesmo entreabertas se estendiam por cima das árvores além da pequena clareira. As penas das asas tinham várias cores e mesmo sob aquele sol de manhãzinha emitiam luzes fracas.
Se aquelas asas fossem abertas em plenitude a envergadura delas seria ainda maior que o comprimento do imenso corpo serpentino.
O nome daquele ser era Miyaoaxochitl e a espécie dele era conhecida como Aztlán Couatl.
Satoshi criou aquele eidolon muito tempo atrás para ser sua scouter e também uma buffer para seus exércitos de criaturas convocadas.
"Ela é quase uma Shen Long com asas!"
Ele disse lembrando de um anime centenário que tinha ganho um remake há duas décadas.
Em seguida, Satoshi se sentou um pouco no chão para ajustar a respiração e se recuperar da dor colossal que sentiu pouco tempo atrás.
Acho que isso foi quase um parto…
Por causa desta dor, ele pensaria duas vezes antes de usar {Call Eidolon} de agora em diante.
Pelos vínculos mágicos Satoshi reparou que as convocações por magia dele estavam preocupadas com ele, mas não tinham hostilidades com Miyaoaxochitl, o que o deixou um pouco mais tranquilo.
Em verdade, ele sentia que a ligação dele com aquela Eidolon era ainda mais forte do que as com suas convocações por magia, o que fazia dela uma convocação segura.
No final de tudo, felizmente, os preparativos de segurança dele ao montar esta numerosa trupe para proteger ele foram completamente desnecessários.
"Aqui estou, como solicitado por Meu Tudo!"
Uma voz feminina sibilante e entusiasmada foi ouvida na cabeça de Satoshi.
Isso assustou ele bastante e demorou alguns segundos até que ele percebesse que a voz que ouvia dentro da cabeça dele pertencia a Miyaoaxochitl.
Satoshi chegou a trocar palavras com alguns anjos, demônios e mortos-vivos que convocou. Mas não se aprofundou nisso, era muito estranho para ele, um programador japonês, conversar com seres de fantasia.
No entanto, diferente de suas convocações por magia, Miyaoaxochitl tomou a iniciativa de se comunicar com ele por telepatia ao invés de por voz.
"Miyaoaxochitl… posso te chamar de Miya a partir da agora?"
"Miyaoaxochitl é uma das partes de Meu Tudo! Se Meu Tudo deseja isso, então apenas chame esta de Miya!"
Era muito estranho conversar por telepatia.
Satoshi tinha um pequeno receio que pensamentos ou intenções vazassem junto com as palavras pretendidas. Ele não estava confiante na segurança deste tipo de conversa e por isso era melhor dedicar atenção redobrada quando em conversas telepáticas.
"Eh? Você é uma parte de mim?"
"Esta Miya tem estado junto de Meu Tudo a muito tempo! É uma honra ser chamada por Meu Tudo logo após Meu Tudo desabrochar!"
Satoshi se espantou com o que ela disse.
"Desabrochar? O que você quer dizer com isso?"
"Meu Tudo sempre teve sua mente fechada para esta, mas agora esta vê que Meu Tudo liberou sua verdadeira natureza. A mente de Meu Tudo é confusa e estranha… esta Miya não consegue entender nada de Meu Tudo!"
Satoshi também não entendeu nada daquilo que foi dito e ficou completamente confuso com as palavras de Miya. Só depois de quase dois minutos de silêncio incômodo ele julgou entender o que ela quis dizer.
Aparentemente ela lembrava de Famicom da época do jogo e agora também tinha acesso a mente dele como Hirata Satoshi.
"Ei…! Você pode ler minha mente?!"
Satoshi perguntou espantado.
"Esta Miya é parte de Meu Tudo, então é natural que eu possa ler se eu desejar..."
Isso era perigoso.
Não apenas perigoso.
Era assustador.
"Pare! Pare de ler minha mente agora e nunca comente sobre o que leu na minha mente com outros!"
"Sim! Miya vai parar, Meu Tudo! Será como Meu Tudo deseja!"
Depois de se valer de sua autoridade de Summoner para deixar claro que não queria ter sua mente espiada por ela, Satoshi subitamente ficou consciente que o corpo serpentino de Miya era intimidadoramente colossal.
Por ser tão grande ela devia ser facilmente vista por qualquer um com uma linha de visão acima das árvores em volta. De fato, as luzes coloridas que emanavam das penas das asas dobradas dela penetravam na floresta junto com a luz do sol e faziam dela um holofote até mesmo abaixo da copa das árvores.
"Miya… reduza seu tamanho."
"Esta fará isso, Meu Tudo!"
Os Couatl eram monstros que possuíam a capacidade natural de ampliar e reduzir o tamanho de seu corpo verdadeiro. A raça de Miya, os Aztlán Couatl, eram a realeza dos Couatl e, assim como os Cuzco Couatl, também tinha uma forma humana.
Satoshi havia dado a Miya a aparência humana de uma criança Indígena-Azteca do século 16, pois até onde ele sabia os Aztecas eram os povos de onde saíram os mitos sobre Couatl.
Mas a forma humana não era necessária agora, uma vez que na forma humana a maioria das habilidades de Couatl dela deixavam de funcionar tornando aquela forma ineficiente em combate.
Conforme o corpo colossal de Miya brilhava levemente ela foi reduzindo de tamanho.
Depois de um minuto, no lugar onde antes havia uma enorme serpente emplumada de dezenas de metros de comprimento, agora apenas uma cobrinha de trinta centímetros era visível.
A cobrinha de escamas arco-íris voou alegremente até a frente de Satoshi e ficou pairando ondulante na altura dos olhos dele.
"Esta Miya ficou bem com este tamanho, Meu Tudo?"
"Sim Miya, assim serve. Por curiosidade, esse é seu menor tamanho?"
"Esta pode diminuir a um terço disso, Meu Tudo."
"Um terço? Isso é bem pequeno, não? Como ficam seus Stats?"
"Alguns baixam, outros aumentam, a maioria não muda."
Aquela foi uma resposta muito imprecisa de Miya, mas Satoshi não insistiu e mudou o tópico.
"Ok, entendo. Se prepare para buffar as convocações em volta, eu vou testar outro tipo de habilidade agora e preciso de proteção. Então..."
Satoshi tinha muitas coisas para testar ainda e passou as duas horas seguintes à convocação de Miya fazendo estes testes.
"Certo! Vamos até as pessoas!"
Quando finalmente ele se deu por satisfeito com a compreensão de suas habilidades neste lugar estranho, estando um pouco mais seguro de si, Satoshi decidiu alçar voo à procura de civilização.
- PARTE TRÊS -
A Cidade-Fortaleza de E-Rantel
E-Rantel é uma cidade pertencente a um país chamado Reino de Re-Estize.
Trata-se de uma cidade de fronteira, relativamente distante da capital, com imponentes muralhas que lhe renderam o título de Cidade-Fortaleza. A cidade pertence ao domínio pessoal da realeza de Re-Estize, a linhagem dos Vaiself, e é administrada por um prefeito pessoalmente indicado pelo rei.
Esta cidade também é objeto de litígio diplomático e de confrontos militares entre o Reino de Re-Estize e um país vizinho chamado Império de Baharuth. No passado, a mais de duzentos anos atrás, por um período que durou várias décadas, Re-Estize e Baharuth foram um único país, mas conflitos internos levaram a uma secessão e desde a época da separação destes países ambas as nações resultantes reclamam E-Rantel como deles.
Apenas nos últimos dez anos houveram nove pequenas guerras entre estes dois países pelo controle da cidade, apesar de nenhuma destas guerras terem sido Guerras Totais ou terem sido guerras particularmente sangrentas, cada uma destas guerras teve seu impacto nos dois países, principalmente no caso de Re-Estize que, dentre as duas nações, era a nação menos organizada.
A Cidade-Fortaleza tem três grandes camadas de muralhas e uma população que excede em muito cem mil habitantes. Durante a época dos conflitos a população da cidade mais do que dobra com a chegada de soldados de várias partes do Reino de Re-Estize, que se amontoam dentro e fora de seus muros.
Esta cidade é muito importante para Re-Estize tanto geográfica quanto economicamente, pois é o caminho comercial mais seguro entre o reino e as três outras nações humanas da área: Teocracia de Slane, Império Baharuth e, em menor escala, o Reino do Dragão.
"Essa cidade, bem… como posso dizer, ela é feia e suja."
Estando acostumado às reluzentes cidades medievais de jogos de DMMO-RPG foi um choque para Satoshi estar em uma cidade medieval real.
Todo o cheiro do esgoto nas ruelas de terra, o lixo abandonado ao acaso em pontos da cidade, as pessoas que pareciam que se banhavam uma vez na semana, quando muito, e que também vestem panos de tecidos malfeitos e rústicos… era realmente excruciante ter que caminhar em alguns setores daquela cidade.
"Felizmente desta forma posso suprimir meu olfato... senão seria uma tragédia."
Satoshi comentou isso em voz baixa para si mesmo enquanto saía de um beco com três pequenos sacos de moedas e alguns itens.
Antes de sair do beco ele olhou de soslaio para os três corpos estirados inconscientes no chão, eram os homens que tentaram roubá-lo alguns minutos atrás.
A forma atual em que estava não era a sua forma vampírica de Greater One, mas a de um homem humano de cabelo e olhos pretos, uma versão melhorada do corpo real dele na Terra. Na Terra aquele era o corpo de um amputado, aqui aquele corpo tinha os dois braços como uma pessoa completa.
Ele foi capaz de tomar esta forma graças a um item chamado Ring of Doppelganger que lhe permitia substituir temporariamente dois de seus níveis raciais por um da raça Doppelganger.
Embora ainda fosse possível dissipar aquela forma falsa dele, isso exigiria magias e habilidades específicas, o que fazia daquele disfarce algo quase perfeito.
"Bem… vamos retornar ao caminho original."
Antes de ser interrompido por estes três ladrões ele rumava para o prédio de uma das guildas da cidade.
Satoshi tinha deixado a floresta ao meio-dia e chegado nesta cidade pouco depois daquilo.
Na floresta, ele deixou sua Eidolon, a Aztlán Couatl Miya com a tarefa de estabelecer uma posição naquela área selvagem, ele queria que ela estabelecesse uma pequena base para que ele tivesse onde retornar caso algo desse errado aqui.
Assim que chegou na cidade, ele voou oculto por sobre as muralhas e depois de constatar que era uma cidade de humanos de nível baixo ele usou seu Ring of Doppelganger para se misturar entre eles.
Ele estava a quatro horas vagando para obter informações.
Nesse meio tempo, talvez devido a atitude de turista dele ou aos itens caros que vestia, por duas vezes ele foi abordado por bandidos.
"Bom, pelo menos isso me rendeu recursos..."
Uma das primeiras coisas que ele percebeu aqui foi que a moeda de Yggdrasil não tinha valor de face aqui. Quando mostrou a um comerciante uma moeda de ouro do jogo, o homem disse nunca ter visto uma dessas, mas ficou muito interessado em obtê-la de Satoshi, pois ela tinha o dobro do ouro que uma moeda local.
Satoshi acabou optando por não trocá-la com o comerciante, já que tinha medo de ser rastreado.
Não fosse os dois grupos de bandidos que o abordaram, ele talvez não tivesse dinheiro nenhum agora.
"Eu ia vender alguns itens para ter dinheiro, esses caras me pouparam deste trabalho."
Em sua mente animada ele pensou que se ele não desse certo em nada poderia fazer do combate ao crime (e confisco dos espólios) seu ganha pão a partir de agora.
Honestamente ele não tinha remorso nenhum por ter roubado estes bandidos.
"Loot é loot… Ah! Aqui está! É um bonito prédio..."
Depois de caminhar por vários minutos, Satoshi chegou onde queria. Nas conversas que teve com os locais ele descobriu muitas coisas sobre esta cidade, mas dentre todas as coisas o que mais o animou foi descobrir sobre este prédio.
"Haha! Uma Guilda de Aventureiros!"
Isso era como um clichê de jogos de fantasia. Embora não houvesse nada parecido em Yggdrasil, em muitos jogos do século 22 a temática de Guildas de Aventureiros era comum.
Quando cruzou as portas do grande prédio, Satoshi ficou maravilhado com o interior daquela construção.
Não por beleza ou opulência, mas pelo ar realista que passava.
"Estou em um mundo real, afinal..."
Depois de passar tantas horas interagindo com os moradores desta cidade movimentada e diversa, Satoshi via este lugar como um Novo Mundo, e não um dos mundos de Yggdrasil.
Ele cruzou lentamente o grande salão repleto de pessoas de aparência diversa enquanto procurava por algo como um balcão de informações. Nos curtos minutos que levou para chegar ao balcão de atendimento a animação inicial dele já estava muito reduzida.
Cara… o que é isso? Esses noobs são Aventureiros?!
Ele tinha aprendido com os locais que os aventureiros usavam tags metálicas que indicavam o posto deles. Embora ele não soubesse detalhes sobre isso ele ficou tão espantado com o quão fracos eram os muitos aventureiros reunidos naquele salão que pensou que talvez esses aventureiros fossem todos de postos inferiores.
Graças a sua habilidade passiva {Level Evaluation}, Satoshi podia dizer o nível de alguém apenas ao encará-los por um tempo e avaliando estes aventureiros apenas um punhado estava acima do nível 10 e dentre estes ninguém chegava sequer perto do 20.
Os equipamentos eram igualmente lixosos, couro, aço, até mesmo madeira, quase tudo itens mundanos.
"... Bem-vindo senhor, me chamo Catelina, como posso ajudá-lo? O senhor deseja estabelecer uma missão em nossa guilda?"
Do outro lado do balcão, uma bonita moça loira em um uniforme conservador trouxe ele de volta a realidade com uma pergunta.
"Ah... oh… bem, na verdade não. O que eu quero mesmo é obter informações sobre os aventureiros. Ver se vale a pena para mim me tornar um deles... "
A moça uniformizada levantou uma sobrancelha por um instante antes de responder Satoshi com um sorriso cansado.
"Certo, senhor. A Guilda de Aventureiros existe há mais de duzentos anos e é referendada tanto em nosso país quanto nos países vizinhos. Os aventureiros devem seguir as normas da guilda em troca do status provisionado pela guilda, as normas incluem: a observância da lei local, a não interferência em assuntos nacionais, no caso de clérigos a não..."
A moça falou mecanicamente pelo que pareceu vários minutos.
Parece que os aventureiros são basicamente defensores das terras humanas contra monstros e prestadores de serviços para ricos. Eles seguiam o código da guilda e em troca recebiam a proteção dela.
Eles também têm um sistema de classificação em oito níveis que vai do mais baixo, o Cobre, seguido por Ferro, Prata, Ouro, Platina, Mithril, Oricalco e, o mais alto, Adamantina. Pelo que ela mencionou, o nível Adamantina é muito raro e o nível Mithril é o maior encontrado nesta cidade.
"Interessante… agora, há como pular cadeiras?"
"Acho que não entendo o que o senhor quer dizer..."
"... o que quero saber é: existe algum teste que me poupe de ter que começar com essas placas de metal barato?"
A recepcionista o olhou de cima a baixo, avaliando Satoshi.
Satoshi estava vestido melhor que todos os aventureiros daqui. Em realidade, desconsiderando a moda estrangeira que trajava, a roupa de mago dele tinha uma aparência fina e cara, totalmente acima do alto-padrão.
Suas roupas gritavam riqueza.
Depois de parecer considerar isso, a moça da recepção falou.
"O senhor talvez já seja um conjurador arcano de 2° Nível?"
Satoshi pensou um pouco antes de responder.
Eu posso conjurar os dez níveis básicos de magia, mas o mago de nível mais alto que vi aqui era nível 11… se aqui funcionar como Yggdrasil então 2° Nível é o limite para aquele cara e ele era uma placa dourada acho?
Depois de considerar um pouco, Satoshi pensou em uma resposta que acreditava que o qualificaria para ser um aventureiro de Mithril, o colocando a par com os maiores aventureiros da cidade.
"4° Nível."
Ele disse confiante.
Para a resposta dele a moça da recepção arqueou uma sobrancelha e sorriu divertida.
"Por favor senhor, não faça brincadeiras, o 4° Nível arcano é um domínio muito restrito, conta-se nos dedos da mão os magos que chegam em tal nível em nosso país..."
"Oh! Então isso é raro por aqui …"
"... sim. Não só aqui, mesmo em outras nações com maior tradição arcana este é um feito grande. Bom… eu diria que se este fosse realmente o caso seria uma das poucas situações em que um ingresso privilegiado na guilda seria possível. Heh, isso claro… após uma apuração e uma correta demonstração de habilidade diante do Mestre da Guilda..."
"Ótimo! Se é possível um ingresso privilegiado então, por favor, vamos adiante com meu registro!"
"... Realmente?"
Depois da recepcionista Catelina confirmar a intenção dele de aderir a guilda, Satoshi teve que responder um formulário com assistência dela, se encontrar com o Mestre da Guilda e fazer uma demonstração de magia.
Já era tarde da noite quando ele conseguiu sair da guilda com uma Placa de Platina pendurada no pescoço.
Depois disso, Satoshi, agora no papel de um aventureiro de platina recém chegado na cidade, procurou uma pousada para passar a noite.
"... muito simples, não é?"
O quarto que foi indicado pela dona da pousada tinha pouca mobília: uma cama de solteiro, um armário, uma escrivaninha com cadeira e um criado mudo com uma bacia de água.
Essas coisas eram tudo à vista.
O custo do quarto junto com a refeição diária foi de dez moedas de cobre.
Em Yggdrasil existiam apenas moedas de ouro, mas neste país também existem moedas de cobre e prata, sendo uma moeda de prata igual ao valor de treze moedas de cobre.
Satoshi alugou o quarto por sete dias pagando pouco mais de cinco moedas de prata.
Depois de se sentar na cadeira em frente a escrivaninha, Satoshi gastou algum tempo contando com cuidado sua atual riqueza.
"Uhm… trinta e seis moedas de cobre e seis moedas de prata. Acho que vou ter que caprichar amanhã em missões..."
Durante a conversa com o Mestre da Guilda da cidade, Satoshi ficou sabendo que havia apenas quatro equipes de Platina baseadas em E-Rantel.
O Mestre da Guilda, um homem espirituoso chamado Pluton Ainzach, se ofereceu para organizar um encontro entre Satoshi e uma destas equipes que no momento carecia de um mago.
Não era a intenção de Satoshi se filiar a uma equipe, mas seria bom entender como é o trabalho de um aventureiro sob orientação de senpais experientes.
"Aventureiro, hein..."
Sentado na única cadeira do quarto alugado, Satoshi se esticou para trás e colocou as duas mãos na nuca.
Ainda era estranho para ele ter ambas as mãos, mas ele sempre quis fazer aquela pose relaxada com mãos de carne e osso e não com uma prótese.
Ele não entendia o que ocorreu com ele e ele ainda se perguntava porque ele acabou nesta situação.
"O porque de eu estar neste mundo ainda é uma incógnita para mim… mas se isso for algo duradouro... vou viver bem, de uma forma que seria impossível para mim na Terra."
Satoshi não tinha vergonha de admitir que estar em um corpo poderoso como o de seu Avatar Famicom lhe dava muito mais confiança e destemor do que estar em seu corpo deplorável de Hirata Satoshi.
Isso dito, tudo que ele podia fazer no momento era aprender mais sobre este mundo, se preparando para eventuais problemas e ameaças a vida dele.
"E talvez um dia... voltar."
Ele olhou para as moedas rústicas em cima da escrivaninha e se lembrou de como obteve elas.
"Já é tarde… mas certamente ainda há tempo para um serviço noturno?"
Um dos anéis que ele agora usava por baixo da luva era um Ring of Sustenance, um item que lhe permitia ficar sem comer e dormir mesmo em um corpo humano.
Satoshi estava inseguro em ter que dormir nesta cidade, era perigoso, o sono é um estado vulnerável depois de tudo.
"Certo vamos fazer alguma atividade durante a madrugada!"
Depois de abrir a janela, vestir uma máscara e se ocultar por magia, Satoshi voou pelo céu de E-Rantel para fazer algum dinheiro local saqueando bandidos.
- FIM DO CAPÍTULO -
NOTA DO AUTOR:
Opa, blz?
Você que chegou aqui talvez deva saber que:
1º - A narração será uma corruptela de terceira pessoa e será majoritariamente focada no MAIN OC.
2º - Cada capítulo da história contará um Dia da experiência daquele personagem no Novo Mundo.
3º - A cada dois capítulos/dias haverá uma INTERMISSÃO onde o ponto de vista será ou de um NEW WORLDER ou de um OC MENOR.
4º - Este Volume 1 se estende até o Dia 12 e o Volume 2 está planejado para se estender até o Dia 26.
5º - Eu bolei uma história longa e tenho várias ideias que, dependendo da recepção de vocês e das minhas limitações, podem ou não ser postas na história alongando ela.
Vlw, espero que continuem lendo.
Aqui abaixo a ficha resumida do OC.
Famicom
(Hirata Satoshi)
Níveis Totais: 100
Níveis Raciais: 30
Vampire (10)
True Vampire (10)
Blood Progenitor (5)
Greater One (5)
Níveis de Trabalho: 70
Summoner (10)
Planar Trader (10)
Blood Drinker (5)
Master Summoner (10)
Splitted-Soul Summoner (10)
Divine Summoner (10)
Counter-Summoner (5)
Claimant Summoner (5)
Soul Collector (5)
Status aproximado: 705
HP (85)
MP (100)
Phy. Atk. (45)
Phy. Def. (95)
Agility (60)
Mag. Atk. (45)
Mag. Def. (95)
Resistance (90)
Special (90)
Valor de Karma: 0 Neutro
