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Um Homem do Rei
Intermissão 1
(Domínio de E-Rantel, Dia 2 da Transição)
A companhia de 50 homens a cavalo, que agora também contava com três guias locais, cruzou o Portão Norte deixando a cidade para trás logo após o meio-dia.
Com exceção daqueles guias locais, que eram apenas soldados da Guarda de E-Rantel, cada um daqueles homens a cavalo era um veterano de batalhas contra o Império, assim como também um guerreiro experiente e uma pessoa do povo comum.
Todos ali eram homens do Rei, a nata da Tropa de Guerreiros, uma tropa que foi fundada e que era liderada pelo Capitão-Guerreiro Gazef Stronoff.
Aliás, o próprio Gazef estava entre aqueles homens que cavalgavam.
Dez dias atrás, durante uma audiência pública, Gazef recebeu do próprio Rei uma ordem:
"A Corte recebeu a informação de que Cavaleiros Imperiais estão vandalizando deste lado da fronteira, se isto for verdade, leve a justiça do Reino a eles, os eliminando imediatamente!"
As ordens do Rei foram claras e Gazef, como um fiel servo do Rei as acatou imediatamente e partiu da capital no mesmo dia acompanhado com a quinta parte de seus homens.
Mas ele não podia deixar de ficar desconfortável com essa situação.
A Cidade de E-Rantel era um domínio pessoal do Rei e ficava a poucos quilômetros da fronteira com o Império de Baharuth. Em situações normais a cidade deveria enviar suas tropas para defender as muitas vilas agrícolas dentro do Domínio Real de E-Rantel.
Mas esta não era uma situação normal.
Os Cavaleiros do Império eram guerreiros muito habilidosos e bem treinados, eles eram militares de carreira e também eram muito bem equipados. Conscritos como os soldados de E-Rantel não teriam chance contra aqueles Cavaleiros a menos que enxameassem sobre eles, mesmo assim não seria uma vitória certa.
Em todo Reino, apenas os soldados da Tropa de Guerreiros de Gazef, junto com Cavaleiros Reais do Rei e algumas tropas pessoais de elite dos Grandes Nobres poderiam lutar no mesmo patamar que uma tropa de igual número de Cavaleiros do Império.
Mas mesmo que uma derrota fosse certa era esperado ao menos que a Cidade de E-Rantel, enquanto esperava reforços capazes de engajar, tivesse enviado alguns soldados para monitorar a posição dos Cavaleiros Imperiais que invadiram o Território Real.
Mas isso não foi feito e Gazef sabia o motivo dessa negligência. Saber o porquê de tal coisa era o que deixava Gazef desconfortável e triste.
O motivo dessa omissão era guiar Gazef até onde ele estava agora.
Guiar ele para uma armadilha.
"Capitão-Guerreiro! Nós termos que procurar os Cavaleiros Imperiais por nós mesmos é uma sandice. Tudo que aquele prefeito nos deu foram estes três guias, por que não nos enviar com uma parte das tropas da cidade? Mesmo que ele estivesse sem tropas, ele poderia ter contratado aventureiros capazes para nos guiar... por que eles estão fazendo isso conosco?"
O homem que cavalgava ao seu lado, seu segundo-em-comando, falou com ele agitado enquanto cavalgavam na estrada.
"Suficiente, Vice-Capitão. Tropas do Império estão atacando um território que é domínio de Sua Majestade. Como homens do Rei, temos que justiça-los."
"Capitão-Guerreiro, estamos sozinhos aqui, não precisa fazer cerimônia, espero que possa me dizer a verdade… isso é trabalho dos nobres, não é?"
Gazef não respondeu, já que o Vice-capitão estava certo.
"Aqueles malditos! Tratando o povo comum como peças descartáveis! O pior é que como se trata de um domínio do Rei, essa raça traiçoeira ainda pode pôr toda culpa nas costas de Sua Majestade!"
"... nem todos os nobres são assim."
"Talvez seja verdade, alguns como a Princesa Dourada são exceções… mas além dela não consigo pensar em mais nenhum! Se ao menos o Reino fosse governado por um Ditador, esses milhares de egocêntricos não fariam o que quisessem com a população e nós poderíamos trabalhar pelo bem do povo!"
"Pense antes de falar, Vice-Capitão. Como as coisas estão postas, se Sua Majestade interferir pesadamente nos domínios nobres isso pode levar a uma difícil guerra civil que dividiria o Reino talvez para sempre. E há ainda o Império que tem claras ambições de expandir sobre nosso território, nossa divisão é a força deles. Um cenário de guerra seria uma tragédia para todo povo comum de Re-Estize. Seria o povo quem mais sofreria com um conflito destes."
"Eu sei, mas ainda assim, uma vez que o conflito acabasse..."
"Apenas deixe essas ideias absurdas de lado, Vice-Capitão. Nós somos soldados do Rei e seguiremos as decisões dele."
Depois de encerrar a conversa com seu subordinado, Gazef continuou pensativo, desta vez refletindo sobre as palavras de seu Vice-Capitão.
O Reino de Re-Estize diferente do vizinho e rival, Império de Baharuth, tinha poderes muito pulverizados.
A realeza dos Vaiself detinha soberania absoluta sobre apenas 30% do território do país. Estando os 70% restantes nas mãos da nobreza em regime de vassalagem, cerca de 500 linhagens de nobres tinham sob elas, por cessões antigas de Reis do passado, várias porções de terras e os servos nelas residentes.
Seis destas linhagens eram especialmente poderosas e eram conhecidas como as Seis Grandes Casas de Nobreza. Juntas estas casas tinham um território do mesmo porte que o da realeza.
A situação do meu Rei não é tão simples quanto o Vice-capitão pensa...
A nobreza se dividia em várias facções, mas a divisão mais clara era entre os pró-Vaiself e anti-Vaiself, ou seja, entre a facção real e a facção nobre.
O país estava dividido em praticamente duas metades iguais.
Não havia espaço para ações autoritárias da parte do Rei Ramposa III.
Apenas manter a situação do jeito que estava era muito desgastante, o que dirá melhorá-la.
Uma ação mais contundente da parte de Sua Majestade poderia inflamar a facção nobre e fazer o Rei perder parte do apoio da facção real.
Aqueles nobres farão de tudo para enfraquecer meu Rei… como sou um homem leal a ele estes nobres armaram esta armadilha para mim!
Para Gazef estava claro que tudo isto era uma armadilha que visava eliminar ele.
Os nobres atacarem quase uma dezena de vilas em um mês para forçar o Rei Ramposa III a mandar Gazef aqui não o surpreendia. A vida do povo comum, por mais que doesse Gazef concluir isso, era um artigo barato para a nobreza.
Mas os orgulhosos nobres terem ido tão longe quanto se mancomunar com o Império para eliminar Gazef, isso o deixava mais do que surpreso, o deixava preocupado.
Isso é traição da mais alta ordem! Pensar que desceram tão baixo...
A ordem do Rei Ramposa III dizia "Elimine-os imediatamente!", então Gazef não poderia levar os Cavaleiros Imperiais à Capital como testemunhas para entregar os culpados.
O Rei Ramposa III, sábio como era, provavelmente já suspeitava desse envolvimento dos nobres com o Império quando lhe deu a ordem.
Gazef acreditava que para que isso não terminasse como o motivo deflagrador de uma guerra civil, o Rei Ramposa III ordenou a ele com aquela linha simples a não levar ao público a traição dos nobres.
Mas isso não impediria Gazef de questionar os Cavaleiros Imperiais no campo e descobrir por si mesmo os responsáveis.
Ainda assim há pessoas perigosas no Império… como o alvo sou eu eles devem ter enviado algum desses.
Entre as grandes ases do Império que eram um perigo para Gazef estavam os Quatro Cavaleiros do Imperador e o Alto-Mago da Corte Imperial.
Seis anos atrás, durante as Guerras Anuais, Gazef tinha lutado com três dos Quatro Cavaleiros do Imperador daquele tempo.
Naquele ano, o Imperador de Baharuth, Jircniv Rune Farlord El Nix, conhecido como Imperador de Sangue, tinha ido ao campo de batalha pessoalmente com três de seus quatro guardiões. Foi a primeira e única vez que o Rei Ramposa III encontrou o Imperador Jircniv I.
E o encontro foi numa tenda de batalha antes dos conflitos começarem.
O fato de o Imperador ter ido pessoalmente a campo, depois de ter feito três guerras por procuração nos três anos anteriores, fez todos do lado do Reino pensarem que diferente dos anos anteriores, desta vez o Império teria uma vitória fácil e que sobrariam tropas imperiais suficientes para sitiar e ocupar E-Rantel.
De fato, durante a maior parte da batalha o Império teve a mão superior, mas Gazef e sua recém montada Tropa de Guerreiros conseguiram virar o jogo no quarto final ao fazer uma série de ataques pontuais e derrotar as unidades de dois dos Cavaleiros Imperiais, matando ambos.
Quando Gazef e seus Guerreiros atacaram a unidade onde estava o próprio Imperador e seu último guardião, Gazef teve a chance de trocar palavras com o jovem Imperador Jircniv El Nix, que tentou levar Gazef para o lado do Império.
Tudo o que Gazef viu de seu discurso foi a soberba de um jovem nobre empoderado com sede de poder e não a sabedoria de um verdadeiro Rei como o Rei de Gazef.
Gazef teve que se retirar do ataque pois as tropas do Império começaram a enxamear para defender seu líder máximo e poucas das tropas de Gazef ainda podiam lutar.
Mas as ações de Gazef foram tão úteis naquele dia de batalha que no dia seguinte as tropas imperiais começaram a se retirar de campo.
Aquele foi talvez o maior feito militar de Gazef desde que começou a servir o Rei Ramposa III a cerca de 8 anos, mas aquele feito veio com o amargo custo de ter testemunhado a morte de bons amigos que pereceram junto com mais de três quartos dos guerreiros da tropa dele.
Se forem alguns dos Quatro Cavaleiros do Imperador será algo que eu posso superar já que um deles sempre deve ficar na capital, mas caso o inimigo seja o Alto-Mago da Corte Imperial…
Gazef não estava certo se poderia lidar com o mago monstro do Império, Fluder Paradyne. Um mago que serviu ao Império de Baharuth por mais de cem anos e está servindo atualmente ao seu sexto Imperador.
A própria ideia de um humano viver mais de 200 anos era de difícil compreensão para Gazef, embora ele conhecesse uma senhora que igualasse esse feito, isso dito, Fluder Paradyne ainda era um conjurador arcano de 6º Nível, o único conjurador de 6º Nível em toda humanidade.
Gazef não estava certo se poderia vencê-lo, ainda mais desprotegido como estava agora, sem vestir nenhuma das Relíquias do Reino que lhe conferiam proteção contra muitas mágicas.
Ainda um pouco ansioso, Gazef seguiu cavalgando com seus homens durante todo aquele dia.
No dia seguinte eles encontraram uma vila destruída, Gazef despachou dez de seus homens para escoltar os sobreviventes até a cidade. E refez os planos indo por outra rota.
Aquela altura ele estava certo que encontraria os Cavaleiros Imperiais em breve.
No terceiro dia após deixar E-Rantel, finalmente, Gazef encontrou os Cavaleiros Imperiais.
Mas o encontro não foi nem um pouco do jeito que imaginava.
- FIM DA INTERMISSÃO -
NOTA DO AUTOR:
Gazef obviamente fez um mal julgamento de Jircniv...
Eu não vi menções a idade de Gazef então estou trabalhando com a premissa que Gazef tem 30 anos e está a oito anos servindo Ramposa III.
Alguém sabe da idade dele?
