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Espalhadores de Pó
Intermissão 2
(Bairro Mercantil, Cidade de E-Rantel, Dia 2 da Transição)
Edros Lancel teve uma infância difícil.
Uma criança sem pai, filho de uma prostituta de rua em uma cidade grande, cresceu sem qualquer educação ou cuidado, comendo sobras dia sim e dia não, vestindo trapos dados pelos templos em ações de caridade, tendo que implorar nas ruas por moedas de cobre.
O destino de qualquer criança nesta situação sempre foi parecido, eventualmente uma doença de cura difícil e então a morte, ou até uma doença de cura simples, mas que é impossível de ser superada por alguém tão castigado pelo mundo, e então a morte.
Mas Edros insistiu e sobreviveu à infância, se tornando um adolescente.
Edros Lancel teve uma adolescência violenta.
Recrutado muito novo por um facínora, mas que também era um inegável mestre do crime, Edros aprendeu com os melhores a fazer o que há de pior. Ele lutou no submundo da Capital as pequenas guerras que nenhum poderoso se importa e que não se registram nos livros. Como um peão do crime ele foi usado nas tarefas mais repulsivas e com menor chance de sucesso.
O destino de qualquer adolescente nesta situação sempre foi parecido, eventualmente um trabalho falha e ele morre, ou o trabalho é mal executado e o patrão o mata como punição ou exemplo.
Mas Edros insistiu e sobreviveu a adolescência, se tornando um homem.
O homem que Edros se tornou estava tendo um dia normal.
Ele estava sentado atrás de uma mesa contando moedas de ouro e prata, enquanto uma jovem garota viciada chupava ele como se a vida dela dependesse disso.
Tendo sofrido o que sofreu na vida, Edros entendeu que apenas os que fazem os outros chorarem conseguem o respeito devido. Sabendo disso, após uma adolescência sendo um subalterno ele se ergueu como um grande lobo sobre o cadáver de seu antigo mentor e assumiu a firma.
Ao invés de se afastar daquilo que o fez sofrer a vida toda, ele decidiu se tornar aquilo.
"Ei-ei, põe mais espírito nisso vadia!"
Ele disse isso quando terminou de fechar uma bolsa de couro cheia de moedas de ouro e decidiu aproveitar o boquete que recebia desde alguns minutos.
A jovem garota que tinha feito uma pausa para respirar recebeu um tapa na face e então voltou a trabalhar duramente pelo direito de ganhar sua próxima dose usando a boca como ferramenta de trabalho.
Essa cadela já está além do ponto de retorno… pela noite vou descartá-la.
Esta garota, uma ex-aventureira de prata que ofendeu a firma, terminou nesta situação passado apenas doze semanas desde que Edros começou a preparar ela.
O Pó Negro, ou Pó de Laira, era a principal fonte de receita do comércio de drogas ilícitas e, em E-Rantel, esse comércio era liderado por Edros.
Este pó tinha motivos para ser ilegal.
O uso frequente pode trazer sérios efeitos colaterais ao cérebro, cedo ou tarde os efeitos apareciam, mesmo quando dissolvido à centésima parte como o caso da versão vendida ao povo comum.
Quando o Pó Negro era mais puro os efeitos apareciam mais rápido. Essa garota foi tratada com doses mais puras, inicialmente a força, mas em poucas semanas ela já implorava por mais um pouco, se propondo a fazer qualquer coisa em troca.
Agora esta garota que desonrou a firma estava praticamente retardada, além do reparo por qualquer clérigo.
Edros era o cabeça do Departamento de Drogas do Oito Dedos em E-Rantel. Este posto que Edros possuía era um dos maiores dentro de sua organização.
E-Rantel era a estrada terrestre para o tráfico de drogas que ia até o Império, a Teocracia e, em menor escala, o Reino do Dragão.
Embora a maior parte do Pó Negro que os Oito Dedos enviava para o Império fosse escoado através do mar pelo porto de Re-Urovana, todo Pó Negro que ia para Teocracia e para o Reino do Dragão passava por aqui.
Além disso, uma parte do que era consumido nas cidades do sul do Império de Baharuth, passava por aqui também.
Há três anos Edros foi pessoalmente apontado para chefiar as operações na cidade. Foi apontado por ninguém menos que Hilma Cygnaeus, a Dama Branca do Oito Dedos.
Como uma pessoa de visão, Hilma reconheceu o valor dele e o elevou a atual posição que ele ocupa.
Neste curto tempo Edros tinha conseguido triplicar o volume exportado via E-Rantel pelo seu departamento graças a sua política sistemática de subornar autoridades de baixo escalão e arregimentar pequenos mascates.
"Mais espírito sua puta! Chupa ele com mais espírito! Anh~!"
Quando Edros estava perto do limite, ele passou a mover a cabeça da viciada de estimação dele enquanto agarrava os cabelos da nuca dela. Mesmo com ele sendo tão violento e descuidado, a garota não falhou em acariciar ele corretamente com a língua dela, ela já tinha feito isso tantas vezes que adquiriu um modo automático.
Depois que liberou sua carga dentro da garganta da garota, Edros soltou um longo e vergonhoso gemido fino, ele então se recostou pensativo na cadeira chique, de seu escritório chique, em sua casa chique.
Sempre após ejacular a imagem da prostituta que foi sua finada mãe vinha a sua cabeça.
Aquela bruxa vagabunda...
No chão do escritório a garota nua, pálida e magra tossiu algumas poucas vezes e olhou para ele com expectativa. Os olhos azuis fundos dela eram rodeados por olheiras escuras que contrastavam muito com o resto da pele anormalmente branca dela.
Sabendo o que ela esperava, Edros abriu uma gaveta e jogou um pequeno Saco de Pano para a garota que agarrou aquilo com as mãos tremendo e foi até um canto da sala onde havia um jarro de água.
O homem que Edros se tornou estava tendo um dia normal, contando dinheiro e brincando com seu pet.
Mas então alguém bateu na porta do escritório dele com notícias anormais.
"O que! Como assim o Ralo da Bica foi quebrado?! Eu tinha quase 300 sacos naquela casa! Aquele prefeito filho-da-puta está maluco?! Ele pensa que vai me fuder e ficar por isso mesmo?!"
Edros disse furioso tacando um copo de metal precioso na sua viciada de estimação que estava delirando no chão sob efeito de uma dose de 1/10.
"Edros, não foi uma batida dos guardas. Foi trabalho de alguém independente e… estranho também. Nós conseguimos que não houvesse problemas com o pós-evento mas... bem, basicamente isso foi trabalho de um único cara, ele ainda quebrou a perna direita de vinte dos teus homens antes de coletar todo dinheiro que havia no local, mas não tocou nas mercadorias, aqueles sacos estão seguros, já subornamos as pessoas certas."
Edros olhou para o homem que falou isso.
Havia doze capangas de Edros na sala dele agora, o homem que disse isso não era um destes. Aquele homem, tal qual Edros, era um chefe de um Departamento do Oito Dedos na cidade.
Ele era Portmore, o chefe do Departamento de Segurança.
Os Oito Dedos eram uma organização criminosa muito ampla e poderosa que tinha controle de quase toda atividade criminosa do Reino e que começava a se espalhar pelo Império lutando de cidade em cidade para ganhar espaço entre a malandragem local.
A organização era um coletivo de sindicatos do crime e era dividida em oito departamentos: tráfico de escravos, assassinato, contrabando, furto, tráfico de drogas, segurança, agiotagem e jogos de azar.
Cada departamento era independente e a única regra que seguiam era a regra absoluta, que dizia que os departamentos não podiam entrar na área de atuação um do outro.
O Departamento de Segurança do qual Portmore fazia parte tinha um status especial, ele fornecia mão de obra para os outros departamentos, bem como para parceiros de ocasião da organização.
Claro, todo departamento tinha seu próprio pessoal, mas o departamento de segurança tinha os melhores homens da Oito Dedos, eram a elite bruta dentro da organização.
Portmore estava na sala de Edros com três desses bandidos capazes, cada um deles era tão forte quanto um aventureiro de Platina. O próprio Portmore estava pelo menos no nível de um aventureiro de Mithril.
Os muitos capangas de Edros não se comparavam aquilo.
"Então quem foi o filho-da-puta, Portmore? Por que esse desgraçado deixou para trás 100 moedas de platina em mercadorias de qualidade?"
O departamento de Drogas do Oito Dedos era o mais rico da organização deles naquela cidade e era também o maior cliente de Portmore.
"Isso não sabemos com certeza ainda, apenas algumas horas se passaram desde que descobrimos a situação do local. Mas ao teu sinal posso movimentar todos os meus homens livres. Quanto a porque não levar a mercadoria, ele provavelmente não era da área, talvez ele fosse uma pessoa habilidosa de passagem que decidiu fazer dinheiro em um roubo..."
"Tem certeza que isso não é trabalho de outro departamento? Talvez um maluco invejoso?"
Naquela cidade comercial de fronteira os únicos departamentos que realmente faziam sucesso eram os de droga e contrabando.
Os Oito Dedos eram um coletivo de criminosos, e criminosos costumam ter natureza traiçoeira. Os figurões da capital frequentemente tinham que fazer ações correcionais para punir braços locais que quebravam a harmonia da organização.
Não seria estranho se algum malandro de outro departamento em E-Rantel perdesse a noção e quebrasse a regra absoluta, interferindo nos negócios do Departamento de Edros.
"Não, isso é certo, foi alguém de fora."
"E aqueles cultistas do cemitério com quem nós negociamos as vezes?"
"... estamos verificando, mas dificilmente seria o caso. Eles são pessoas de ideias simples que precisam de pobres coitados para sacrifício humano. Embora eu acredite que haja alguns magos talentosos entre eles que, possivelmente, seriam difíceis até para nós, o que ocorreu no Ralo da Bica foi algo que nenhum deles seria capaz de fazer..."
Durante dezenas de minutos Edros conversou com Portmore.
No fim deste tempo eles tinham decidido reforçar a segurança de todas as casas de drogas de Edros enquanto não achassem o culpado.
Apenas este ato emergencial custaria dezenas de moedas de ouro diárias para Edros que seriam pagas a Portmore.
Quando Portmore saiu, Edros se pegou pensando se isso não seria algo feito pelo dirigente do Departamento de Segurança do Oito-Dedos em E-Rantel para tirar dinheiro dele.
Não... Portmore não faria isso, ele é o raro tipo de bandido idealista.
Depois de sentar na cadeira chic dele por um momento, Edros olhou para viciada de estimação dele que estava quase completamente recuperada do efeito do Pó Negro.
A visão da figura deprimente da jovem que ofendeu a firma e que por isso teve a vida destruída por ele estando agora deitada nua no chão frio, tal qual um animal estaria, excitou Edros com uma eficiência maior do que a de qualquer afrodisíaco.
Já com as mãos no cinto e lambendo os lábios ele sinalizou para que a jovem garota nua tomasse posição de costas na mesa, a garota entendeu o gesto simples de Edros e o obedeceu de imediato como o animal treinado que ela tinha se tornado.
Edros estava tão irritado pelo ataque que havia sofrido hoje no 'Ralo da Bica' que planejava se despeder várias vezes de cada um dos buracos dessa garota até que anoitecesse quando ele entregaria ela aos Cultistas do Cemitério para que ela tivesse a mais infeliz das mortes.
"Você mexeu com a firma errada, aventureirazinha de merda!"
Edros gritou antes de começar a mexer os quadris para castigá-la.
Tudo que aquela jovem garota de ranking prata fez para merecer terminar assim foi tentar salvar o falecido irmão mais novo dela que era um viciado e devia dinheiro aos Oito Dedos.
- FIM DA INTERMISSÃO -
NOTA DO AUTOR:
Caras malvados vivem pouco... certo?
Uma coisa que eu tenho que dizer sobre Edros é que incesto faz mal para cabeça!
