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Negando paz aos mortos
Dia 6
- PARTE UM -
A Missão da Cidade na Floresta
Assim como era esperado por Satoshi, muitos líderes de Equipes de Aventureiros foram reunidos em uma sala privada no prédio da guilda no início da manhã do dia seguinte.
Se é um encontro entre líderes, por que esse cara me chamou?
Era o único pensamento de Satoshi enquanto sentado à direita do Mestre da Guilda, Pluton Ainzack.
Além de Ainzack e de Satoshi estavam aqui os líderes de dezesseis equipes, sendo duas equipes de Mithril, quatro equipes de platina, cinco equipes de ouro e cinco equipes de prata.
Sylvo da equipe Falcão Negro estava aqui entre os líderes das quatro equipes de platina.
Dentre as três equipes de Mithril de E-Rantel, apenas a equipe Lobo do Céu não estava aqui. E a ausência deles só ocorreu porque esta equipe não estava na cidade no momento e portanto não podia ser chamada.
A Lobo do Céu tinha sido enviada às Planícies de Katze para uma missão de investigação sobre uma ocorrência anormal de mortos-vivos dois dias atrás.
Vendo tantos líderes reunidos, todos os presentes não pareciam ter dúvidas que algo grande estava acontecendo. Todos estavam muito curiosos do porquê de tantos deles terem sido chamados.
"Bem, com a chegada de Moknack todos os esperados estão presentes. Senhores, a convocação de vocês aqui hoje é um pedido nominado feito pela própria cidade através do prefeito..."
Ainzack então explicou aos presentes o conteúdo da missão que tinha sido elaborada no encontro de figurões ontem.
A proposta era alugar estes aventureiros por doze dias. Durante esse tempo eles deveriam explorar a Floresta de Tob a procura de indícios de uma cidade de monstros. Eles estavam permitidos a eliminar semi-humanos apenas em defesa própria e caso encontrassem qualquer ser envolvido com a tal cidade deveriam agir de forma amigável.
Como se fossem enviados diplomáticos de E-Rantel.
"Como assim apenas defesa própria? Se entrarmos fundo na floresta é óbvio que seremos atacados..."
Quem interrompeu Ainzack foi um aventureiro chamado Igvarge, que era o líder da equipe de Mithril Kralgra.
"... Bem, isso é certo, mas para manter o aspecto diplomático da missão vocês devem evitar ferir os habitantes da suposta cidade em questão. No entanto, caso estes habitantes da cidade sejam abertamente hostis vocês devem se retirar imediatamente! O objetivo aqui é coletar informações sem incitar hostilidades! A guilda está negociando a vinda de uma equipe de Adamantina para esta mesma missão, quase certamente as Rosas Azuis, a função de vocês é preparar o terreno com informações úteis para quando a equipe delas chegar..."
Quando Ainzack mencionou que uma equipe de Adamantina estaria envolvida, o clima na sala mudou.
Os aventureiros tendem a admirar profundamente os que atingem Adamantina, saber que estariam ajudando uma destas equipes lhes inflou o ego.
"... agora vou compartilhar com vocês, com a ajuda de Atari-dono aqui, o que sabemos sobre a liderança da possível cidade na floresta..."
Depois disso Ainzack falou sobre Miya e sobre o mestre dela, o Vampiro Famicom. Na sua fala ele omitiu muita coisa que envolvia Gazef que era uma figura nacional importante.
Na sequência foi a vez de Satoshi fazer sua parte explicando sobre as espécies dos Couatl como tinha feito ontem.
Findadas as explicações e respondidos os questionamentos, os líderes estavam todos propensos a aceitar a missão que pagava anormalmente bem, mas precisavam consultar os membros de suas equipes. Ainzack então fez uma pausa no encontro até a hora do almoço. Durante a pausa Sylvo e Satoshi reuniram os membros da Falcão Negro e obtiveram a concordância da equipe.
Quando o encontro foi retomado, todos, com exceção de uma equipe de Prata e uma de Ouro, tinham decidido participar da missão.
Os quatorze líderes restantes então passaram a discutir as ações seguintes.
Depois de uma acalorada discussão eles concordaram em se dividir em seis grupos na primeira metade da missão e depois se reunirem novamente para juntar as informações coletadas. Cada equipe de platina ia liderar um grupo com uma equipe de ouro e uma de prata. E cada equipe de Mithril agiria sozinha.
Satoshi achou um pouco arrogante da parte das equipes de Mithril decidirem trabalhar sozinhas. Na sua opinião, baseado no poder dos líderes, nem a equipe Arco-Íris nem a equipe Kralgra aguentariam cinco minutos contra os escravos Guu ou Ryraryus, então ele não entendia de onde vinha tal confiança.
Já era de tarde quando o encontro foi encerrado.
A missão começaria oficialmente amanhã, então a equipe Falcão Negro alugou uma sala no bar Cervo Saltitante para se enturmar com as duas equipes que eles iam liderar na expedição da floresta.
Eram a equipe de Ouro, Chuva Escura, e a equipe de Prata, Espadas das Trevas.
Eles compartilharam entre si, por um tempo, tudo que sabiam sobre a Floresta de Tob e decidiram sair amanhã pela manhã em direção a Aldeia de Carne para usá-la de base.
Ir para Carne foi uma sugestão de Satoshi.
A Aldeia de Carne era o povoado mais pacífico que existia à margem da Floresta de Tob então seria bom começar a penetração no território selvagem a partir de lá. Era improvável que algum outro grupo fizesse o mesmo já que a invejável paz da vila era garantida por uma besta-mágica lendária, portanto perigosa, que afugentava os monstros da floresta.
"... vocês não precisam se preocupar com este tal Sábio Rei da Floresta, tenho uma magia... uma arte secreta do meu país, magia de alto grau que é uma das minhas mais fortes, perfeita para afugentar bestas-mágicas."
Satoshi se utilizou do seu passado misterioso e de uma carteirada de mago de 4º Nível para convencer os demais a irem por este caminho.
Eles então passaram a falar sobre a logística da viagem e as características de cada membro das equipes em combate.
A Equipe de Ouro Chuva Escura era composta por cinco pessoas, seu líder era um homem de meia-idade chamado Tibur, que era um mago de 2º Nível. As outras quatro pessoas eram dois guerreiros, um ranger e um clérigo.
Satoshi não pôde deixar de considerar aquela equipe estranha.
Eles não pareciam enturmados, o que podia ser desculpado pelo fato de terem se juntado a menos de dois meses. Mas Satoshi reparou com seu sentido vampírico cardiovascular que os outros quatro membros temiam Tibur e que era um temor ruim.
Satoshi fez uma nota mental de ficar de olho naquele mago Tibur que além de tudo fedia aos Mortos-vivos.
Já a equipe de prata chamada Espadas das Trevas era composta por quatro pessoas. Seu líder era o guerreiro Peter Mauk, um rapaz bonito de Nível 9 que certamente devia fazer sucesso com as mulheres. Os outros membros eram druida Dyne, o ranger Lukrut e o mago Ninya.
Este último era um conhecido e também um parceiro de negócios de Satoshi.
Espero conseguir terminar essa missão rápido, assim Ninya vai poder fazer minhas tarefas da guilda de magia sem falta...
O plano de Satoshi era simples: o grupo deles seria o que iria encontrar os representantes da suposta Cidade da Floresta do tal Vampiro Famicom e isso ocorreria já no primeiro dia dentro da mata.
A Cidade da Floresta então enviaria um diplomata para E-Rantel, que Satoshi já tinha definido como sendo o Homunculi Wizard Kuro.
Uma vez em E-Rantel, Kuro daria alguns dos itens mágicos que Satoshi conseguiu com a Escritura da Luz Solar como presentes (suborno) para o Reino de Re-Estize ganhando assim a boa vontade deles.
Isso poria fim a qualquer problema desnecessário.
Meu plano é perfeito! Não há como isso dar errado!
Antes de terminarem, as três equipes nomearam o grupo provisório que formariam para esta missão como 'Breu'. O nome foi sugestão da menina Helenda que disse que esse nome era ideal para eles, pois juntava 'a essência sombria' dos nomes Falcão Negro, Espadas das Trevas e Chuva Escura.
Já era noite quando Sylvo pôs fim a reunião/confraternização no Cervo Saltitante e todos foram para seus próprios lugares.
Assim que Satoshi saiu do bar ele pôde sentir que alguém o seguia.
Mas como era uma presença familiar ele apenas continuou seu caminho, porém mais devagar do que antes.
Quando estava na metade do percurso ele ouviu alguém chamar ele por trás.
"Atari-san! Ei!"
Ele esperou até que a figura baixa da garota disfarçada de garoto, Ninya, o alcançasse.
"Indo para a mesma direção?"
"Sim, a casa que tô morando fica no mercado perto das favelas."
Pelo que Satoshi entendia da geografia da cidade este lugar era um pouco depois de onde ele tinha se hospedado.
Os dois continuaram a caminhar devagar.
"Você não mora com os seus colegas de equipe?"
"Hã? Com os caras? Não, cada um de nós tem seu canto. Dyne tem até família, duas crianças pequenas..."
Bem, ia ser difícil para ela manter o disfarce de garoto se vivesse sob o mesmo teto que Lukrut...
Esse tal Lukrut, que era o ranger da Espadas das Trevas, ficou se insinuando para Helenda durante todo o encontro no Cervo Saltitante, ao ponto de Sylvo ter que interferir assertivamente para proteger a inocente irmãzinha dele.
Claramente Lukrut era um Lady Killer de baixo orçamento.
"Ainda assim é perigoso prum franzino como você ir pra perto das favelas. Vou te acompanhar até em casa."
"Que? Não precisa cara, já faço esse caminho a dois anos."
"Então você quer me dizer que nesses dois anos nunca aconteceu nada enquanto você fazia esse caminho?"
"Bem… acontecer aconteceu, mas eu me virei bem."
"Uhn? Difícil acreditar..."
"Ei! Não banca minha mãe!"
"Tua mãe? Você ainda mora com seus pais?"
Depois que Satoshi disse isso, Ninya fez um silêncio incômodo de quase um minuto. Só depois desse tempo ela respondeu.
"Minha mãe morreu atacada por um animal e meu pai morreu na guerra com o Império."
"... Entendo. Então somos camaradas de três formas: magos, aventureiros e órfãos."
Junto com seu braço, o acidente que Satoshi sofreu aos nove anos levou seu pai, mãe e irmãzinha. Satoshi tinha desde então sido criado por seus tios.
Bom… tive uma família então não sou 100% órfão.
Seu tio foi um grande homem comum e sua tia uma mulher zelosa.
Satoshi ficou pensando na sua família por um tempo enquanto caminhava em silêncio. Seu tio e tia tinham morrido a anos, mas ainda havia seus três primos com quem cresceu junto.
Acho que nunca mais vou ver aqueles… eles estão em outro mundo agora.
Honestamente, Satoshi não sentiria tanta falta deles.
Ele já tinha escolhido o caminho solitário quando ainda era um programador corporativo.
"Você tem alguma outra família?"
Satoshi perguntou depois que o silêncio começou a incomodar.
"... tenho uma irmã. Mas ela está longe... longe demais se posso dizer."
O tom de voz de Ninya foi um pouco diferente dessa vez.
Deve ser uma assunto delicado para ela falhar em engrossar a voz ao falar...
Eles fizeram silêncio por mais um minuto.
Satoshi já deveria ter se separado de Ninya e virado em uma rua há muitos quarteirões atrás, mas ele ainda estava caminhando com ela.
"Como você se tornou tão forte, Atari-san?"
Ninya perguntou reduzindo o passo.
"Uhm… honestamente, cheguei neste mundo assim. Acho que devo ter feito algo inacreditável em outra vida e fui abençoado nesta."
"Hã? Ah… entendo. Assim como eu, você também tem um talento de nascimento... camaradas de quatro formas então."
Eles então entraram em uma ruela paralela.
"Até amanhã, Atari-san. Obrigado pela escolta e não se atrase para a partida de manhã."
Ninya entrou por um portão em direção a entrada de uma casa.
Satoshi esperou ela cruzar o pequeno canteiro, tirar uma chave do bolso e abrir a porta. Só depois que ela entrou e a porta se fechou que ele fez o caminho de volta.
Ele fez todo o caminho até a hospedaria em que estava hospedado em silêncio enquanto estava pensativo.
Quando entrou no quarto alugado, Satoshi se deitou na cama um pouco. Ele ergueu seu braço na frente do rosto e soprou seu hálito quente na pele dos dedos.
Até semana passada ele não podia sentir esses dedos.
O nome era, se não me engano... Matrix? Sim, acho que era isso.
Satoshi lembrou de um filme cult filmado no ocidente do fim do século 20.
Ele tinha visto esse filme com seus pais no dia do acidente e não tinha entendido nada.
Nunca teve a chance de assistir aquela coisa velha novamente.
Meu pai gostou daquele filme e ele era exigente demais com arte… me pergunto do que se tratava o enredo do filme.
Depois de um tempo deitado na cama, Satoshi percebeu que não ia dormir pois tinha um Ring of Sustenance.
Bah! Vamos fazer alguma coisa que sou proibido de ser depressivo!
Satoshi então entrou no armário e se teleportou para a Instant Fortress.
- PARTE DOIS -
Após a Morte, o Trabalho Começa
Em Yggdrasil um dos papéis mais populares entre os jogadores amantes de vilões era o de necromante.
Dito isso, os maiores necromantes eram geralmente personagens heteromórficos.
Isso acontecia como consequência da mecânica do jogo.
Como se eles desejassem que os vilões do jogo fossem principalmente jogadores de raças heteromórficas, os desenvolvedores fizeram com que as Habilidades Raciais de algumas raças heteromórficas criassem seus minions de forma muito mais rápida, eficiente e barata do que as outras raças podiam fazer.
Isso acontecia com todos os tipos de minions.
É claro que com a criação de minions mortos-vivos isto não era diferente e foi por esse motivo que a maioria dos necromantes de Yggdrasil também jogava de morto-vivo.
"Você tem certeza disso, Tsuki?"
"... Sim, Famicom-sama. Com tal composição, se esses catalisadores não durarem para sempre, durarão pelo menos alguns milênios."
Satoshi estava nas masmorras da Instant Fortress.
Além de seus seis andares superiores, a Instant Fortress de estilo gótico tinha três andares subterrâneos. Tal qual os de cima, estes andares inferiores eram ampliados com magia de forma que havia espaço suficiente para uma masmorra, um depósito e uma cozinha profissional com refeitório.
Satoshi se encontrava atualmente no hall principal da masmorra, que era o andar mais fundo da fortaleza, junto com ele estavam a homunculi Dread Necromancer Tsuki e a sua eidolon Miya, que estava em sua forma humana.
Diante dos três havia uns quarenta mortos-vivos de tipos que iam de Skeleton Warrior a Death Knight, passando por Soul Eater, Elder Lich, Amalkar Zombies, High Wraith, Corpse Collector, Death Assassin…
"Você disse que o limite são mortos-vivos intermediários?"
"... Sim, eu disse Famicom-sama. Mortos-vivos superiores consomem os catalisadores a ponto de se perderem, das três tentativas que pude fazer apenas aquele ali suportou. Imagino que a alma vinculada fosse mais densa que as almas dos demais, minha hipótese é que ele era um indivíduo excepcional..."
Tsuki começou uma explicação em 'necromancês'. Satoshi não entendia de necromancia, mas pelo que ele conseguiu traduzir do que ela disse parece que apenas corpos de pessoas de nível mais alto podiam virar mortos-vivos superiores.
Ele entendeu isso porque o morto-vivo que foi indicado por Tsuki como um exemplo de sucesso, um Vampire Lord, era ninguém menos que o líder da extinta Escritura da Luz Solar, Nigun Grid Luin.
Apesar de ter apenas nível 27 quando em vida aquele cara ainda era, de acordo com a lembrança vaga de Satoshi, seis níveis mais poderoso que o segundo maior nivelador da Escritura da Luz Solar.
Dos três membros da Escritura da Luz Solar usados de cobaia por Tsuki nos experimentos de criação de mortos-vivos superiores, ele foi o único cujo corpo não virou pó sob a magia de 8º Nível [Create Undead VIII] lançada por Tsuki.
Satoshi olhou para o Vampire Lord que Nigun tinha se tornado.
Ele era de nível 54.
Isso é perigoso… ele é mais forte que Tsuki.
Tsuki só pôde trazer algo tão forte porque em Yggdrasil, diferente de magias de convocação e chamado que tinham o prefixo 'Summon' ou 'Call', as magias de criação com o prefixo 'Create' permitiam trazer seres mais fortes que o conjurador.
Estas magias iam além disso e tinham durações médias dez vezes mais longas que as magias de convocação e chamado.
Como contraponto, estas magias tinham tempo de conjuração de vários minutos e consumiam um cristal de dados de baixo nível como catalisador.
A demora na conjuração praticamente impossibilitava que fossem usadas em combate PvP, mas permitia que fossem usadas para fortalecer bases de guilda em emergências ou para emboscadas preparadas de antemão.
Muitos jogadores solo usavam magias de prefixo 'Create' para terem companhia ou protetores em missões de Yggdrasil. Como os monstros duravam várias horas, às vezes até um dia, eram ideais como companheiros casuais descartáveis de jogadores solitários que não queriam pagar por um NPC mercenário.
Mas Tsuki tinha dito a Satoshi que, neste mundo onde estavam, as criações feitas com magias do prefixo 'Create' iam além disso.
Elas tinham duração permanente.
Isso é mesmo verdade? Se isso for verdade então…
Poder criar servos permanentes era uma boa notícia para Satoshi que conhecia três magias 'Create' que permitiam criar Mortos-Vivos e três que permitiam criar golens.
Mas mais do que isso.
Satoshi era um heteromórfico, um vampiro Greater One.
Entre suas habilidades de raça ele tinha toda a árvore {Create/Turn Vampire}.
O jogo sempre favoreceu a criação de minions por Habilidades Raciais: com elas não era necessário um longo tempo de conjuração, embora o catalisador ainda fosse necessário e houvesse limites de uso diários.
Se Satoshi estivesse certo, como um Greater One, Satoshi poderia usar habilidades e criar vampiros permanentes de forma eficiente, barata e rápida neste mundo.
E melhor, ele poderia formar um exército de seres de poder razoável apenas usando todos os dias seus usos diários da habilidade {Create/Turn Vampire}.
Mas vampiros tem aquela necessidade especial desagradável… pensando bem, melhor não fazer um exército deles.
Embora Satoshi não necessite de sangue, pois era de uma raça suprema de vampiros, ele imaginava que suas criações iam precisar. Satoshi não queria criar um exército sedento de sangue então ele decidiu limitar suas criações vampíricas ao máximo.
"Tsuki, esse cara é confiável? Quero dizer… você tem o controle completo dele?"
Satoshi estava preocupado por sua homunculi.
Pois o Vampire Lord criado por Tsuki tinha seis níveis a mais que ela.
Embora em Yggdrasil quando isso acontecia não houvesse diferenças no comportamento do monstro, Satoshi temia que aqui fosse diferente e houvesse rebeldia.
"... Completamente, Famicom-sama. Veja. Nigurath, rasteje até aqui."
Para provar seu ponto, Tsuki deu uma ordem para o Vampire Lord que ela tinha criado.
A imponente figura pálida de caninos grandes, coberta com um sinistro manto vermelho e negro, se pôs obediente de peito no chão e rastejou feito um verme pela pedra úmida da masmorra até onde a mestra estava.
"Aqui, limpe. E não me toque, seu cão indigno."
Tsuki então lhe ofereceu um de seus delicados pés e ele passou a limpar a terra da sandália dela com a língua.
Uou! Que humilhante… Isso foi completamente desnecessário Tsuki-chan!
Embora Satoshi tenha achado que Tsuki exagerou com o exemplo dela, ele entendeu que Nigun, ou melhor, o Vampire Lord Nigurath era totalmente submisso a ela.
"Tsuki, sobraram corpos da Escritura da Luz Solar?"
"... sim Famicom-sama. Sobraram cinco, eu planejava usar até o último deles, mas três horas atrás fiz uma pausa para repor minhas energias..."
Satoshi acenou compreensivamente com a cabeça.
A magia [Create Undead VIII] que criou Nigun, ou melhor Nigurath, era de 8º Nível. Algo que estava acima de Tsuki que podia apenas lançar magias até o 7º Nível.
Ela só pôde lançar esta magia pois como uma Dread Necromancer ela tinha uma habilidade que permitia a ela três vezes ao dia lançar um pequeno número de magias de necromancia de um grau maior que seu limite.
Mas essa habilidade consumia muito de Tsuki em contrapartida.
Fora que só hoje ela criou quase quarenta desses carinhas...
Olhando para a pequena beleza Tsuki, Satoshi podia dizer que ela estava pálida, suada e cansada. Ela deve ter estado ocupada com os objetos de teste da Escritura da Luz Solar desde que acordou hoje.
"Você fez muito bem, Tsuki."
"... Obrigada, Famicom-sama."
Embora fosse difícil ler as emoções dela que era muito reservada, quando ela respondeu Satoshi ele notou que ela estava levemente orgulhosa.
Satoshi pediu para ver os cinco corpos que sobraram e Tsuki ordenou que alguns mortos-vivos os trouxessem.
Vendo os cinco corpos de homens queimados e nus que foram empilhados na sua frente, Satoshi não pôde deixar de virar o rosto em desagrado e repulsa.
Uma pilha de corpos que já começavam a apodrecer não era uma cena que se via todo dia.
Satoshi então fortaleceu seu psicológico e decidiu testar por si mesmo as magias com prefixo 'Create' e a habilidade {Create/Turn Vampire}.
Foi necessária uma hora inteira para que ele conseguisse criar quatro mortos-vivos intermediários com magia [Create Undead V].
"Fuu… acho que isso é o melhor que posso fazer."
Apesar de não drenar recursos significativos dele dado suas grandes reservas, fazer isso por tanto tempo era incrivelmente cansativo. Satoshi ficou impressionado que Tsuki tenha feito isso o dia todo.
"... Seus mortos-vivos são excelentes Famicom-sama, dignos de um especialista."
"Isso é óbvio, Tsuki! Meu Tudo é excelente em tudo que ele faz!"
Diante dos três estavam os quatro High Wraith feitos por Satoshi, cada um consumiu mais de dez minutos para ser criado.
As quatro criaturas translúcidas de nível 33 eram muito feias e lembravam um corcunda velho que flutuava completamente coberto com um lençol de seda escura.
Satoshi lembrou-se que no jogo os High Wraith podiam copiar o contorno dos avatares dos outros, embora nunca pudessem se tornar materiais.
"Ei vocês, que tal tomar uma forma mais bonita?"
Em resposta ao comando de Satoshi, as quatro criaturas fantasmagóricas tomaram uma forma que era uma versão transparente de Tsuki.
"Realmente, ótima escolha, agora vocês estão numa forma verdadeiramente bela."
Depois que Satoshi disse isso ele não pode deixar de notar que atrás dele Tsuki se moveu levemente.
Talvez tenha ficado lisonjeada?
"Agora resta apenas você companheiro..."
Satoshi olhou para o corpo do último membro da Escritura da Luz Solar.
Os seus testes com as magias de prefixo 'Create' tinham sido um sucesso, agora era a vez de testar a habilidade racial {Create/Turn Vampire}.
Eu devia ter deixado pelo menos duas cobaias… mas isso será suficiente.
Quando começou a pensar intensamente na sua habilidade racial, Satoshi soube intuitivamente como usá-la de forma otimizada.
"Virem o cadáver."
Ao seu comando, Tsuki acenou para Nigurath que então virou o corpo da cobaia. O corpo do homem que estava só um pouquinho acima do peso estava preto onde foi queimado pelo relâmpago e da cor azul-cadáver em todo resto.
"Oh não! Cuidado Tsuki! Ele está armado!"
Miya falou isso do nada em um tom jocoso enquanto apontava para o morto. De imediato Satoshi não entendeu o que ela quis dizer, mas quando olhou novamente para o cadáver estático no chão notando a gorda bengala de carne que se levantava na virilha do defunto, ele entendeu rapidamente o que Miya quis dizer.
"Isso é um priapismo post mortem, Miya. E você devia ser uma menina mais casta e não reparar nessas coisas."
Depois de censurar Miya por seu comentário, Famicom se voltou para o Capitão da Escritura da Luz Solar Nigun, ou melhor, para o Vampire Lord Nigurath.
"Ele tem um nome?"
"Ser Supremo, o morto se chama Ferum Tracer Antel. Ele foi o quarto em comando da nossa antiga unidade. Era o terceiro filho do Bispo da Luz em Balka e não era grande coisa como militar, apenas por ter sido bem nascido que conseguiu ser o mais jovem oficial na..."
"Suficiente."
Satoshi calou Nigurath que tinha começado a fofocar desnecessariamente sobre a vida do defunto tal qual uma velha tia encalhada faria.
Foi uma felicidade para Satoshi quando soube que diferente da maioria dos mortos-vivos, os do tipo vampiro e fantasma mantinham a maior parte das memórias de quando estavam vivos.
Satoshi então se abaixou ao lado do corpo do tal Ferum.
Com sua unha ele fez um corte no peito do cadáver acima do coração e depois fez um corte fundo no seu próprio pulso, o que fez seu sangue jorrar.
Atrás dele, Miya e Tsuki se agitaram por um motivo qualquer.
Satoshi pôs o pulso acima da ferida do defunto enquanto se esforçava para suprimir sua habilidade de regeneração e ao mesmo tempo ativar a habilidade {Create/Turn Vampire}.
Quando sentiu que sangue suficiente tinha caído dentro do corpo, talvez umas cinco gotas, ele permitiu que sua regeneração fechasse a ferida no seu pulso, o que foi feito em um instante.
Depois de se levantar se pondo ao lado de Miya e Tsuki que olhavam para ele preocupadas sabe-se lá porquê motivo, Satoshi apontou para o cadáver e disse.
"Erga-te, Meu Servo!"
Após suas palavras, o cadáver começou a tremer e foi envolto em uma energia vermelha. Em poucos segundos um cavaleiro de estatura humana levemente acima do peso em uma armadura vermelho-sangue cheia de esporas se erguia verticalmente de forma sobrenatural.
Era um Vampire Knight de Nível 35.
"Este servo saúda o Ser Supremo!"
A criatura disse se ajoelhando.
Uhn… deu certo, posso sentir um vínculo profundo.
Diferente dos quatro High Wraiths criados com sua magias de prefixo 'Create' cujos vínculos superficiais eram suficientes apenas para garantir obediência e um entendimento mínimo, Satoshi tinha um vínculo profundo com este Vampire Knight, era um vínculo semelhante ao que tinha com suas convocações.
Ele podia literalmente comandá-lo por pensamento.
Isso também foi rápido, bem mais rápido que criar por magia… Momonga se daria bem aqui.
Seu colega de guilda Momonga era um necromante da raça que Satoshi considerava a mais adequada para a profissão, um Overlord.
Pelo que Satoshi sabia ele podia criar dezenas de mortos-vivos através de habilidades todo dia.
Me pergunto o que Momonga ou Hajime fariam no meu lugar… será que eles teriam matado estes homens e profanado seus corpos como eu fiz?
Satoshi duvidava muito disso.
Não, ele sabia que eles nunca fariam isso.
Momonga era uma pessoa correta e certinha ao ponto de irritar, já Hajime era um gigante gentil e bondoso de dar dó.
Eles nunca fariam o que Satoshi fez.
O que fiz com estes homens foi uma monstruosidade, né?
Além de matar aqueles homens, ele os tinha negado o direito de descansar.
"Está tudo bem, Meu Tudo?"
Satoshi que estava perdido em pensamentos a vários minutos foi chamado de volta a realidade por Miya.
"Ah! Está tudo bem sim, Miya! Estava apenas fazendo considerações… me diga, como foi tudo com Ruby, Sapphire e Wasabi?"
"Esta Miya deixou os três perto da cidade de manhã como Meu Tudo queria. Esta Miya também contactou eles com [Message] agora à noite e os três estão corretamente estabelecidos naquela cidade, Meu Tudo."
Satoshi tinha a intenção de usar estes três para obter informações sobre os países vizinhos. Mas agora olhando para o fofoqueiro Vampire Lord Nigurath que vomitava informações de graça, Satoshi talvez tivesse outras ordens para os três homunculi.
"Você sabe escrever, Tsuki?"
"... Apenas na língua de Famicom-sama."
Satoshi colocou a mão no espaço negro de seu inventário e tirou um livro em branco que tinha sido um dos saques da Escritura da Luz Solar.
"Aqui, pegue isso Tsuki. Sua próxima tarefa é escrever as coisas que Nigun… Nigurath conhece sobre o país dele e sobre os países vizinhos, apenas o que possa nos interessar. Você também deve aprender a escrita que se usa neste mundo e tanto quanto possível ensinar ela a Kuro e Miya."
"Farei como Famicom-sama deseja."
Em vida Nigurath tinha sido um oficial que liderou uma tropa de quase cinquenta conjuradores, entre magos e clérigos. Neste mundo de magia limitada isso era alguma coisa. Satoshi tinha certeza que ele sabia muitas coisas importantes não só da Teocracia de Slane, mas de países vizinhos e personalidades poderosas.
"Também quero que peça pela minha autorização sempre que for fazer mortos-vivos. E só faça isso em casos de necessidade."
"... Entendido, Famicom-sama"
Seria melhor que fosse apenas Satoshi a fazer os mortos-vivos de agora em diante.
Isso porque, se por exemplo, algo infeliz acontecesse a Tsuki e ela perdesse a vida, suas criações poderiam sair do controle.
É claro que se Tsuki morresse, Satoshi ressuscitaria ela o mais rápido possível com ajuda de convocações ou itens. Mas nesse meio-tempo em que ela estivesse morta, um único destes monstros que ela fez poderia facilmente reduzir uma cidade humana de nível baixo a escombros.
Isso poderia causar problemas a Satoshi.
"Miya, antes de partir de E-Rantel amanhã eu quero me encontrar sigilosamente com Sapphire, Ruby e Wasabi no lugar deles. Onde eles estão na cidade?"
"Eles estão no terceiro andar de um lugar chamado Pavilhão Dourado, Meu Tudo."
Hã?! Naquele lugar caro?!
O lugar que eles tinham escolhido como hospedaria era simplesmente o mais caro da cidade.
Eles pensam que o dinheiro cresce em árvores?!
Depois de pensar assim Satoshi se permitiu ouvir uma Miya feliz contar as novidades da cidade que estava erguendo. Era bem tarde quando ele se despediu de Miya, Tsuki e Kuro, se teleportando para E-Rantel.
Antes de sair para a expedição amanhã com a Falcão Negro ele ia sem falta ir até Ruby, Sapphire e Wasabi para dar dicas sobre o mundo humano, conversar sobre finanças e sobre a importância de economizar dinheiro.
- FIM DO CAPÍTULO -
NOTA DO AUTOR:
Opa, blz?
Vou Informar que estou usando esta tabela para graus de summons:
Low Tier = Summon 1º até 4º = Níveis 1 a 28.
Middle Tier = Summon 5º até 7º = Níveis 29 a 49.
High Tier = Summon 8º até 10º = Níveis 50 a 70.
Upper Tier = Super Nível e habilidades com restrições pesadas = Níveis 71+
Flw
