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Uma Embaixada a E-Rantel
Dia 8
- PARTE UM -
Cidade de Famicômia
O casal Emmot acordou incrivelmente cedo aquele dia.
Isso ter acontecido impressionou muito Satoshi.
Como ele testemunhou com os ouvidos e com o nariz dele as intensas atividades do senhor e da senhora Emmot no quarto deles ontem a noite, ele verdadeiramente não esperava que eles acordassem antes do amanhecer e muito menos que acordassem tão dispostos e ativos.
Pouco depois do casal levantar, assim que os primeiros raios de Sol entraram pela janela do quarto das garotas, a pequena Nemmu foi acordada com algum esforço pela irmã mais velha dela para que ambas fossem ajudar a mãe.
Uma vez que Nemmu e Enri saíram do quarto, Satoshi esperou dez minutos antes de fingir estar acordando. Por algum motivo desconhecido ele sempre achou educado ser o último a levantar quando dormindo na casa dos outros.
Certo! Lá vamos nós! Mais um dia neste mundo!
Na noite de ontem, quando deixou a Instant Fortress e chegou na tranquilidade da casa dos Emmot, ele já não entendia o que deu nele para instigar as três escravas elfas a fazer aquilo com aquele homem.
Aquela tinha sido uma execução bárbara e uma desnecessária exibição de crueldade. Aquele comportamento não era algo que ele iria incentivar em condições normais. Por isso, no curto tempo que fingiu dormir no chão do quarto das garotas, Satoshi repassava na mente dele a desagradável imagem do Tolo Sem Nome sendo cruelmente assassinado.
Quando estou com este anel acho que sou mais humano...
Depois que levantou, Satoshi olhou para o Ring of Doppelganger no dedo mindinho da mão direita dele. Aquele item dava a ele um nível de Doppelganger ao custo de dois níveis de Greater One.
Como um efeito adicional do item ele poderia suprimir, de acordo com a vontade dele, características de sua forma vampírica de Greater One. Graças a isso, Satoshi frequentemente alternava a intensidade de seus sentidos e, sempre que a necessidade surgia, recorria às capacidades da raça superior dele.
Uma coisa que Satoshi percebeu já nos primeiros dias neste mundo é que se fossem comparadas, tanto a 'mentalidade' dele quanto a 'forma dele reagir às coisas' mudariam enormemente dependendo do corpo físico dele.
Com a forma humana ele tendia a ser mais controlado, racional e calmo, já com a forma de Greater One ele agia mais emocional, extremado e impulsivo.
Ele também notou que quando ele está na forma humana e faz uso temporário de seus sentidos vampíricos, o comportamento dele muda bastante e fica mais próxima de seu eu heteromórfico.
Tendo vivido na Terra durante Século 22, Satoshi sabia que o humor das pessoas, e até a personalidade delas, era definido em grande parte pela química do corpo e do cérebro delas.
Portanto, ele imaginava que o corpo de Greater One dele tinha regras que eram completamente diferentes das de um humano.
Essas coisas o faziam pensar que não estar usando o anel talvez tivesse influenciado o comportamento impiedoso dele na noite de ontem.
Quando saiu do quarto das garotas e chegou na cozinha para comer, a primeira coisa que Satoshi reparou foi que Angie tinha um sorriso ainda mais encantador que o habitual naquela manhã.
Rick, o marido dela, já estava de saída para se encontrar com o Chefe da Aldeia quando Satoshi chegou para comer. O homem estava leve e solto, em um ótimo humor, e, antes de sair, deu um longo e dominante beijo de despedida em Angie.
Vendo a figura confiante de Rick beijar a esposa e sair para a lida, Satoshi nunca imaginaria que este homem tinha implorado à insaciável esposa dele por descanso ontem a noite pois não estava dando conta de saciá-la.
Ainda assim… agora este é um casal renovado.
Satoshi não tinha dúvidas de que a barra de sabão que ele deu aos Emmot tinha renovado bastante este casamento.
Depois de um breve café da manhã, Satoshi foi para o lado de fora da casa lavar o rosto e usar o pequeno galho perfumado que todos usam neste mundo para a higiene da boca.
Ele teria que fazer o mesmo caminho que Rick e ir em direção a Casa do Chefe da Aldeia, mas antes de sair Satoshi se despediu devidamente das três damas da família Emmot, agradecendo a elas a noite de hospedagem.
Oficialmente ele estava indo em uma incursão de cinco dias na mata, então isso poderia muito bem ser uma despedida definitiva.
Ele reparou que as três estavam preocupadas por ele ter que entrar profundamente na Floresta de Tob. Cada uma delas estava preocupada em um grau diferente e nenhuma delas estava muito preocupada, mas ele ficou sinceramente tocado ao reparar que era considerado.
Afinal ele era apenas um desconhecido com o qual elas conviveram por apenas metade de um dia.
Antes dele partir, Angie lhe ofereceu um saco com seis frutas vermelhas estranhas do tamanho de maçãs, mas que eram muito mais pesadas que maçãs. Ele nunca tinha visto ou provado essa fruta e até desconfiava que era algo nativo daqui, segundo Angie estas eram frutas coletadas na borda da floresta e que davam muita energia pela manhã.
Muito agradecido pelo gesto, Satoshi se lembrou que planejava deixar mais uma barra de sabão extra nesta casa e deu a Angie uma barra de sabão de uma fragrância diferente da anterior.
Ela parecia querer recusar, mas Satoshi a convenceu a aceitar quando ele disse rindo que eles iam precisar disso porque 'depois de ontem Enri ficou apaixonada por essa coisa'.
Depois que ouviu as palavras dele, a garota Enri, que esteve ao lado da mãe todo este tempo, ficou tão vermelha quanto as frutas que Satoshi recebeu para o que Angie apenas sorriu e disse um 'Ora, ora...'.
No caminho até a frente da casa do Chefe da Aldeia, Satoshi revisava as coisas que teria que fazer hoje enquanto caminhava comendo uma das frutas que ele tinha recebido de Angie.
Aquilo era realmente delicioso e energético, tendo muita carne e caldo, tinha um sabor verdadeiramente único, embora tivesse fiapos demais e um grande caroço.
Seria hoje que o grupo de ocasião Breu do qual Satoshi fazia parte, e que era formado pelos Grupos de Aventureiros Falcão Negro, Chuva Escura e Espadas das Trevas, entraria para a nota de rodapé da história ao fazer o primeiro contato diplomático entreo Reino de Re-Estize e a Cidade de Famicômia.
Famicômia foi o nome pouco criativo que Satoshi escolheu dar para a cidade fundada por seu alter ego Famicom.
Nomear nunca foi sua melhor habilidade, então ele já estava consciente que não teria um bom nome antes mesmo de começar a escolher. Como ele desejava um nome mais ocidental, dado as semelhanças que não pôde deixar de notar deste mundo com aquela parte da Terra, ele optou por usar um estilo de nomeação que remetesse a lugares do ocidente.
O problema é que, como o japonês normal do século 22 que ele era, Satoshi não tinha lá muito conhecimento sobre o ocidente além do entendimento básico do inglês. Por isso as poucas opções que pensou soavam para ele bem piores que sua escolha final, entre as possibilidades que ele descartou estavam Famicoland, Famicopolis, Famicoburg, Famicograd e Famicom City.
Ele optou por Famicômia que aparentava ser um termo mais amplo.
Satoshi tinha planos ambiciosos para aquela cidade.
Ele planejava transformar a atual Cidade em um Reino no futuro próximo e em um Império no futuro não muito distante. Esses eram planos de longo prazo cujos sucessos eram muito desejados por ele.
Se as coisas fossem bem sucedidas com a Famicômia, ele poderia abandonar a persona de Atari e viver como Famicom, um governante.
O único motivo, além da diversão, que fazia Satoshi manter seu alter ego Atari era que com aquilo ele poderia preparar terreno para as ambições que tinha com seu alter ego Famicom.
A Cidade dele, por sinal, ia muito bem para uma cidade recém fundada. Cada vez que Satoshi pisava na Instant Fortress ele ficava mais impressionado com o esforço que Miya estava fazendo para transformar aqueles goblins selvagens em pessoas decentes.
Famicômia tinha alguns dias de vida e neste tempo já conseguiu evoluir de uma enorme favela de madeira muito bagunçada para uma enorme favela de madeira não tão bagunçada assim.
Sempre que Satoshi olhava do alto da Instant Fortress para a cidade dele, ele via que a cidade estava sendo melhorada. A cidade era como um formigueiro sendo estabelecido e se aprimorava sem interrupções, 24 horas por dia.
Atualmente, dez mil habitantes tinham sido coletados forçosamente de vilas na floresta e obrigados a viver naquela cidade. Apesar deles ainda não terem uma dinâmica comunitária e da população da cidade ser composta de raças muito diferentes entre si, a saber, goblins, hobgoblins, ogres, barghests, nagas e trolls, todos eles eram mantidos na linha do único jeito que os monstros respeitam, através da força.
O povo reunido naquela cidade não conhecia comércio ou moeda, ainda engatinhava quando o assunto era agricultura e metalurgia, e sequer tinha um sistema de escrita. Somando-se a isso eles ainda enfrentavam atualmente muitas dificuldades no dia-a-dia como, por exemplo, racionamento de comida, necessidade de trabalho forçado e a proibição do tradicional canibalismo.
Mesmo com estes inúmeros contratempos, todos eles, que estavam unidos sob a tutela do mesmo opressor, faziam o seu melhor para erguer aquela cidade e já tinham terminado de levantar as cabanas provisórias, estando agora trabalhando nas fundações das construções permanentes.
Miya, a gestora de tudo aquilo, controlava eles com um poder avassalador.
Por ela estar acima dos seres mais fortes da cidade, que são os goblins do Batalhão Latino, a Escritura dos Mortos-vivos, os Homunculi Guardians e os Três Reis, que é como os escravos Guu, Ryraryus e Hachi são conhecidos, Miya poderia ser considerada a Prefeita da Cidade.
Quando Miya subjugou os Três Monstros da Floresta de Tob ela passou a controlar algumas centenas de vilas espalhadas por Tob, uma centena destas vilas foram mescladas para compor a cidade, e todas as demais muito em breve vão começar a pagar tributo à cidade na forma de itens, trabalho, caça, coleta e colheita, esses tributos ajudarão a cidade em seu caos inicial, onde se chega ao extremo de racionar comida.
No futuro, quando tudo estiver normalizado, Miya planejava forçar a fusão das outras vilas para criar meia-dúzia de cidadezinhas, elevando assim a posição de Famicômia de uma Pequena Cidade-Estado para um Pequeno Reino composto de várias Pequenas Cidades.
Ao mesmo tempo, ela planeja continuar expandindo sobre a floresta, indo além do território de Ryraryus e Guu, até ter o controle de toda Tob. Miya fez um voo de reconhecimento acima de Tob e estimou que, por alto, os Três Monstros governavam menos de 1/5 da Floresta. O que dá uma grande margem de crescimento para os domínios de Famicom.
Satoshi tinha recebido o projeto escrito que Miya fez para a cidade.
Bem, na verdade, como ela estava tão animada quando mostrou aquelas folhas escritas a mão pra ele e também como ela estava na forma fofa de garotinha indígena mesoamericana, Satoshi preferiu não opinar naquele momento para não magoá-la.
Mas o fato é que ele não aprovaria metade daquilo.
Uma das coisas que ele não aprovaria, por exemplo, era o governo teocrático com o vampiro Famicom como Deus-Rei. Satoshi nunca permitiria isso, soava como uma piada chunni.
Satoshi planejava deixar Miya administrar a fundação da cidade por enquanto já que ela parecia estar se divertindo muito fazendo aquilo, mas ele já ia começar a fazer os movimentos dele para tornar a cidade mais próxima do que viu em E-Rantel, tanto estética quanto organicamente.
Uma vez que este assunto com o Reino de Re-Estize estivesse terminado e a cidade dele gozasse de um reconhecimento mínimo por parte do Reino de Re-Estize, Satoshi ia enviar o homunculi Wizard Kuro em uma longa viagem para o Império de Baharuth para tentar buscar com aquele país o mesmo reconhecimento que Satoshi espera obter com Re-Estize.
Paralelamente as missões oficiais ele também planejava começar a procurar com ajuda de seus três homunculi espiões por pessoas com conhecimento em agricultura, metalurgia, engenharia e pecuária dentro dos domínios humanos.
Caso estas pessoas fossem criminosos ou pessoas ruins, ele os transformaria em mortos-vivos e roubaria seu conhecimento.
Caso não fossem, Satoshi planejava contratar estas pessoas qualificadas por longos períodos de tempo para transferir tecnologia à cidade de Famicômia. Ele faria um contrato para eles que seria muito rigoroso nos termos de sigilo e manutenção, porém também muito generoso quanto ao pagamento.
Outro projeto importante que Satoshi tocaria por baixo dos panos seria a busca entre os seres humanos por colonos para a cidade.
Uma coisa que ele notou neste mundo é que os humanos são racistas ao extremo, principalmente os mais religiosos.
Então ele teria que visar dois tipos bem específicos de pessoas para seu projeto de colonização: o tipo raro, que não tem preconceitos raciais, e o tipo abundante, que são as pessoas sem esperança ou sem perspectiva de futuro que aceitariam qualquer chance de recomeço.
Satoshi considerava estas coisas distraidamente quando chegou em frente à casa do Chefe da Aldeia onde o grupo Breu tinha marcado de se reunir uma hora após o amanhecer.
Chegando lá ele descobriu que foi o último a chegar, embora ainda estivesse dentro do horário.
"Finalmente o dorminhoco chegou! Hehe! Então Atari, você também teve uma noite agitada com as damas locais?"
Seu amigo Favel, o ladino do grupo Falcão Negro, perguntou a ele jocoso.
"A noite de ontem foi bem intensa… as imagens ainda estão na minha cabeça."
Satoshi respondeu aquilo distraído.
A imagem do Tolo Sem Nome que foi penetrado centenas de vezes pelas adagas que retêm o sangramento e teve pequenos pedaços de carne removidos do corpo ainda estava nítida na cabeça de Satoshi.
Aquilo foi praticamente como uma famigerada execução chinesa Ling Chi que ele leu nos livros de história da Terra.
A cena dos lindos rostos de Mirella, Tantalle e Pazuka deformados com um doentio regozijo macabro enquanto perpetrando aquela execução foi uma imagem ainda mais perturbadora para Satoshi.
Ele tinha certeza que elas não eram pessoas ruins, apenas descarregaram no Tolo Sem Nome tudo que sofreram como escravas e tiveram que engolir caladas.
Espero poder pôr sorrisos espontâneos no rosto delas com o tempo...
O próximo dia de folga dele Satoshi decidiu passar com elas.
"Não acredito nisso Atari-kun! Pensei que você fosse uma pessoa séria, não um depravado que seduz jovens garotas camponesas ingênuas como esse Favel idiota!"
Helenda falou do lado de Favel em um tom bem decepcionado com Satoshi.
"Haha! Você pensou isso, Helenda-chan? Acho que a ingênua aqui é você! Olhe pare esse homem, ele é o retrato de um pegador nato, assim como eu! Olha isso, esse rosto de bebê, essa roupa de nobre, essa Placa de Platina pendurada no pescoço dele… até eu dormiria com esse cara!"
Favel disse enquanto colocava os braços em torno dos ombros de Satoshi. Ele parecia achar a decepção de Helenda ao mal-entender Satoshi muito divertida.
Percebendo que o que disse era passível de ser facilmente mal-interpretado, Satoshi amaldiçoou sua distração e seu hábito de pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo.
Sem ter qualquer razão ou motivo para fazer aquilo, Satoshi se pegou olhando para a garota disfarçada de garoto, Ninya, para ver a reação dela às palavras dele.
Ela estava ali perto lendo um pergaminho sentada entre o Druida Dyne e o Ranger Lukrut, membros da Espadas das Trevas. Embora ela estivesse visivelmente atenta a conversa desse lado, sua batida cardíaca estava totalmente normal, sem qualquer palpitação diferente, como se o assunto da conversa fosse sem importância.
A indiferença dela aquilo magoou Satoshi um pouco.
Ei porra... por que isso me incomoda?
"Hummm… então você diz que dormiria com Atari-kun, eu não tinha percebido esse seu lado… então você tem preferências exóticas, Favel?"
"Não é o caso, Helenda-chan, minhas preferências são apenas convencionais, mas ainda assim tenho bom gosto, se fosse necessário para salvar minha vida, diria sim a Atari! Penso que nisso somos iguais, não?"
"O-o que você está insinuando?! Meu coração tem dono, idiota! Um dia encontrarei Alonzo novamente!"
"Sim, sim, todos nós veremos o mago gordo da bunda peluda de novo algum dia. Mas a proposição que eu fiz é que a vida de Helenda-chan dependia disso, o que você está dizendo é que prefere morrer a dizer sim a Atari?"
"... certamente que não quero morrer, então neste caso… sendo Atari-kun..."
"Todos! Os preparativos estão feitos! A hora das conversas acabou! Agora é a hora de desbravar a Floresta de Tob!"
Sylvo, que tinha acabado de conferenciar com os outros dois líderes do Breu, Tibur e Peter Mauk, veio ao resgate da irmã antes que Favel fizesse ela dizer coisas comprometedoras.
Os quatorze deles rumaram para a rota nordeste.
Eles iam entrar no território do Sábio Rei da Floresta.
- PARTE DOIS -
Um passeio na Floresta
O Sábio Rei da Floresta tinha certa fama entre os humanos de E-Rantel.
A existência desta criatura, que era descrita como uma Besta Magica com a sabedoria de um erudito, se tornou conhecida há dois séculos pelos humanos da cidade e, dado a enorme força que a criatura possuía e ao seu comportamento eremita, atualmente a subjugação desta criatura não é nem mesmo cogitada pela Guilda de Aventureiros.
No passado, uma Equipe de Aventureiros Adamantina falhou na tentativa de subjugar o Sábio Rei da Floresta. Aquela expedição foi um completo fracasso, a equipe em questão era uma das duas únicas equipes adamantinas do Reino de Re-Estize daquele tempo e foi derrotada de forma unilateral.
Apenas um aventureiro voltou com vida.
Depois daquilo a guilda desistiu de fazer novas tentativas de subjugação e há mais de um século o Sábio Rei da Floresta é deixado por si mesmo.
Toda área ao redor do enorme território do Sábio Rei da Floresta era incrivelmente pacífica e tranquila devido a presença daquela criatura. Isso fazia com que a existência do Sábio Rei da Floresta chegasse até a ser comemorada pelos colonos do campo e, durante os festivais de colheita, aquela Besta Magica é frequentemente retratada como um benfeitor do povo, chegando a fazer parte do folclore local.
Já entre os habitantes da Cidade de E-Rantel que sabiam da existência desta criatura, a crença comum é que aquela região às margens da floresta era tão tranquila porque o Sábio Rei da Floresta ordenou que os monstros de lá não saíssem para a planície, impedindo que eles causassem problemas para a cidade.
Esses citadinos acreditam que sendo uma besta magica erudita como o Sábio Rei da Floresta era, isso tinha percebido a força dos aventureiros da humanidade em E-Rantel e optado por uma relação de paz para preservar a si mesmo.
Tendo conversado ontem a noite por vários minutos com a glutona Hachi, que é a nova pet de Miya e que também é conhecida como Sábio Rei da Floresta pelos humanos da região, Satoshi percebeu que mal-entendidos podem ser duradouros, durando séculos e sempre se aprofundando com o passar do tempo, ao invés de se esclarecerem.
O primeiro mal-entendido aqui era a mera ideia de que Hachi fosse sábio. Para Satoshi, que teve a chance de conversar com Hachi por tempo suficiente para ter uma ideia clara da inteligência da outra parte, Hachi estava muito mais perto de uma Besta Magica idiota do que de uma Sábia.
O segundo mal-entendido era que Hachi era um Rei, isso estava completamente errado. Hachi não tinha súditos, tendo vivido sozinha por dois séculos, o que na opinião de Satoshi foi o que ferrou com a mente de Hachi.
Como Hachi era muito forte, territorialista e com uma dieta ampla, Hachi tinha a pior fama dentro da floresta, sendo temida por todos, mesmo pelos escravos Guu e Ryraryus.
Entrar no território de Hachi era a morte e todos na floresta sabiam disso.
E Hachi também não pode ser um Rei… já que ela é uma garota!
Satoshi e os aventureiros do Breu estavam avançando no território de Hachi a quatro horas, apesar de caminharem a tanto tempo e de não terem feito nenhuma interrupção demorada, eles tinham entrado poucos quilômetros dentro da floresta.
Andar numa floresta desconhecida era algo mais difícil do que uma pessoa normal da cidade poderia pensar.
Primeiro eles tinham que procurar um caminho seguro de avanço e, conforme avançavam, tinham que gravar o caminho feito, pois eventualmente teriam que retornar. O terreno era irregular e cheio de vegetação, apesar de aquela não ser uma selva tropical a floresta tinha muito mais flora que uma floresta temperada típica.
Quanto a fauna, graças a sempre muito territorial Hachi que por sois séculos eliminou os predadores da área assim que ela os via, a fauna do local se resumia apenas a presas pacíficas e gostosas, como veados e javalis, que foram permitidas a viver naquele território e de certa forma eram abundantes por ali.
O grupo Breu avançava com cuidado e atenção, sempre conscientes do entorno e temendo encontrar o Sábio Rei da Floresta a qualquer momento.
Foi apenas pela garantia que Satoshi deu para eles de que ele conhecia uma magia de 4º Nível especializada contra Bestas Magicas que eles optaram por buscar informações sobre a Cidade da Floresta no território do Sábio Rei da Floresta.
Mesmo assim, aquela decisão não foi muito popular no grupo, tendo sido aprovada por pouco.
O grupo avançava sob a liderança dos ranger Helenda da Falcão Negro, Lukrut da Espadas das Trevas e Pareto da Chuva Escura. O Druida Dyne da Espadas das Trevas ajudava os três em suas interpretações do caminho.
Como os recursos valiosos que eram, Satoshi e os demais conjuradores caminhavam no centro da formação, protegidos pelos guerreiros do grupo.
Por um motivo muito pessoal e incomum, Satoshi tinha escolhido caminhar ao lado da Garota disfarçada de Garoto, Ninya.
Tendo estado tantos dias dentro do corpo de seu personagem de Yggdrasil, Famicom, Satoshi tinha aprendido muitas coisas sobre si. Uma delas foi que o sentido de olfato deste corpo era muito invasivo e desrespeitoso, o deixando saber de coisas íntimas dos outros, mesmo que ele não desejasse saber dessas coisas e mesmo que ele não devesse, moralmente, saber delas.
A intimidade de uma pessoa é, por definição, algo que a pessoa tem o controle da exposição. Portanto, seus sentidos, de certa forma, colocavam Satoshi em um conflito ético por invadir com frequência a intimidade dos outros sem ter o consentimento deles.
O sentido do olfato e da audição são sentidos passivos, ou seja, você não escolhe o que cheira ou ouve, tendo que aceitar o que o ambiente oferece.
Isso dito, foi cedo que Satoshi percebeu que o perfume do corpo feminino era muito agradável para o novo eu dele, sendo assim, se fosse possível, Satoshi gostaria de ficar para sempre cercado de mulheres jovens e férteis, o perfil de odor mais agradável encontrado por ele até agora neste mundo.
Para Satoshi, que era obrigado a sentir o cheiro de todo tipo de coisa desagradável, mulheres jovens eram como incenso perfumando o ambiente.
Ninya, por sua vez, tinha um perfume natural que realmente se sentia muito bem. Era um odor tão agradável que fazia Satoshi desejar despir ela e fungar cada canto do corpo dela.
Apesar de não ser essa a intenção, isso soa pervertido... melhor eu nunca expor isso para ela.
Mas havia o outro lado.
Estes eram os cheiros ruins e desagradáveis que ele era obrigado a sentir quando usava seu olfato privilegiado.
Logo atrás de Satoshi caminhava Tibur, o líder e também o mago da equipe Chuva Escura. Tibur tinha um catinga braba que gritava 'morte' e 'maldade' vazando por todo o corpo dele.
Desde que o encontrou, Satoshi não o viu fazer nada de errado ou condenável, pelo contrário, Tibur era educado e prestativo, seu comportamento era tão perfeito que Satoshi até o invejava por isso.
Mas apesar do comportamento de Tibur, Satoshi que tinha seus sentidos especiais notou este 'cheiro' de Tibur e notou também o 'medo' que os quatro colegas de equipe de Tibur tinham dele.
Para Satoshi, Tibur definitivamente era alguém que escondia algo e portanto devia ser evitado, sendo isso o que Satoshi fez desde que ele conheceu aquele mago.
No entanto, Satoshi não pôde deixar de notar com seus sentidos que favorecem a magia que Tibur já por duas vezes hoje lançou a magia [Message] fazendo o possível para não ser notado.
Ver um cara que ele pessoalmente rotulou de 'perigoso' agindo na surdina e fazendo coisas suspeitas deixava Satoshi preocupado. Isso dito, Satoshi não podia simplesmente perguntar a ele o que ele estava fazendo.
Primeiro que ele não tinha intimidade com o cara e segundo que ele nem deveria ter percebido aquilo.
Sendo assim, Satoshi decidiu monitorar perifericamente Tibur durante toda a caminhada. Enquanto isso, inconscientemente, ele se aproximava pouco a pouco de Ninya, o incenso feminino favorito dele.
"O que foi cara? Há algum problema?"
A 'Garota disfarçada de Garoto' perguntou isso forçando uma voz mais masculina do que a que fazia normalmente. Satoshi já estava caminhando praticamente colado em Ninya, quase que se aconchegando nela, mesmo que a trilha não fosse assim tão estreita para isso ser necessário.
"Ah, não... nada. "
Percebendo que tinha invadido o espaço pessoal da garota, que tecnicamente era um garoto para os outros, ele se afastou alguns centímetros embaraçado, mas ainda se manteve perto o suficiente para que o cheiro floral de Ninya compensasse o cheiro sepulcral de Tibur.
Ok, que seja, eles já chegaram aqui faz um tempo, acho que eles devem se mostrar a qualquer momento.
Ele pensou isso enquanto olhava mais uma vez para os recém chegados escondidos.
Satoshi tinha orientado a Eidolon Miya para que ela chegasse com o homunculi Kuro e seus homens na posição em que Satoshi estivesse quando faltasse uma hora para o meio-dia. Como já tinha dado a hora eles já estavam começando a aparecer no entorno.
Por causa dos invasores humanos, Miya estaria muito ocupada durante todo dia de hoje, tendo que deixar de lado seus afazeres na cidade de Famicômia para lidar com os invasores humanos.
Isso deixou a menina Couatl um pouco chateada já que ela realmente estava gostando de bancar a prefeita e estava animada em erguer a cidade do mestre dela.
Bem feito... a culpa disso é toda dela, quem mandou ser faladora.
Hoje era o dia em que as quatorze equipes de aventureiros enviadas pela Guilda de Aventureiros de E-Rantel iam começar a entrar na floresta em diversos pontos diferentes para procurar informações sobre a suposta cidade escondida na mata que teria sido fundada pelo vampiro Famicom.
Miya foi encarregada por Satoshi de encontrar estes pontos de penetração e monitorar a expedição dos aventureiros, garantindo que nada de ruim acontecesse nem com os habitantes da floresta nem com os invasores.
Quando encontrasse cada um dos grupos de aventureiros, ela os faria enfrentar um inimigo forte o suficiente para derrotá-los com facilidade, os obrigando a recuar no primeiro dia da aventura com o rabo entre as pernas, mas sem baixas.
O grupo Breu, do qual Satoshi e seus amigos fazem parte, teria tratamento diferente dos outros e deveria ter sucesso na sua missão sem precisar sequer lutar.
Eles teriam a sorte de se encontrarem com a própria Miya das Penas Arco-Íris, que tinha o título de Grande-Dama da Famicômia, e que estaria acompanhada de Kuro das Luzes Tortuosas, titulado como Mestre-Mago das Ilusões.
Naquele encontro fortuito, ambas autoridades da Cidade na Floresta seriam gentis e cordiais com os aventureiros do grupo Breu buscando formar laços de amizade entre as duas cidades.
Eles escolheram nomes e títulos tão ridículos... me pergunto se herdaram o mal-gosto de mim.
Não seria estranho se fosse o caso. Tanto os homunculi quanto Miya sabiam escrever em japonês assim como Satoshi, então ele pensava que muito do que eles eram foi retirado de algumas das características dele.
A linha de pensamentos de Satoshi foi interrompida quando alguém do grupo dele finalmente notou os numerosos recém chegados.
"Todos! Atenção! Estamos sendo cercados!"
Quando ouviram o aviso repentino de Lukrut a comitiva parou de avançar e tomou posição defensiva na trilha que cruzavam.
"Isso é ruim! Ruim! Deve haver centenas... e isso é barulho de metal! Estão pesadamente armados!"
Helenda complementou as palavras de Lukrut dando ideia correta do porte do outro grupo.
"Merda! Como esse é o território do Sábio Rei da Floresta, ele deve ter enviado a elite entre seus súditos semi-humanos! Eu disse que não deveríamos ter vindo aqui!"
Para as palavras de Pareto, o Ranger da Chuva Escura, Satoshi bufou mentalmente.
Esses caras realmente superestimam Hachi, ela é só uma Hamster gorda e glutona... ela nunca teve súditos.
Depois que os guerreiros já tinham sacado suas armas enquanto se posicionavam na frente dos conjuradores e os conjuradores já se ajeitavam enquanto se preparando para lançar magia, um único homenzinho verde saiu detrás da vegetação densa com as mãos erguidas para indicar que não era hostil.
O homenzinho verde, que era um goblin com um bom shape, vestia uma armadura mágica pomposa de metal e também tinha uma espada mágica que estava embainhada.
"Vocês, oh invasores das planícies! O que querem nas terras que pertencem ao Ser Supremo Famicom?"
O goblin vestido como um Cavaleiro de renome perguntou em um tom como se tivesse decorado sua fala inicial.
"Esse cara está sozinho, Helenda?"
"Não! Não está... mas isso é muito estranho Onii-sama. Posso sentir muitas dezenas de olhos e ouvir o som distante de metal, mas não vejo nenhum deles!"
Sylvo conversava com Helenda aos sussurros, o mesmo faziam os outros dois líderes de equipe com seus respectivos Rangers.
"Por que você não desfaz essa ilusão, garoto? Nosso grupo não é perigo algum para vocês."
Antes que qualquer um dos líderes da equipe falasse, Satoshi tomou a iniciativa e disse a fala que tinha combinado com Miya e Kuro ontem a noite.
Uma parte da atenção de todos do grupo Breu, se voltou para Satoshi, mas a maior parte das atenções continuou nos arredores.
"Ilusão?! Atari-san?! Você consegue ver os inimigos...!"
Antes que Ninya concluísse a pergunta dela, uma voz masculina soou alta e repleta de surpresa na floresta.
"E pensar que alguém de fora poderia ver através das minhas ilusões! Ainda tenho um grande caminho a percorrer até chegar no nível do Ser Supremo Famicom!"
Depois que a voz disse isso todos os arredores tremeram um pouco quando tudo ondulava tal qual uma cortina, então a textura mudou, como uma vidraça rachando rapidamente e revelando o que há atrás dela.
Foi só depois daquilo que todos do grupo Breu puderam ver as centenas de seres que os cercavam em todas as direções.
Representando o Batalhão Latino, estavam centenas de goblins saudáveis e fortes com armaduras de metal. Eles eram todos da Companhia America, uma das duas companhias que compunham aquele batalhão de convocações goblins.
A Escritura dos Mortos-Vivos era representada por cinco mortos-vivos, sendo dois Elder Lich, dois Death Knight e Nigurath, o Vampire Lord.
Os Três Reis eram representados por Guu e seus homens, que vestiam armaduras e roupas mágicas emprestadas a eles por Satoshi apenas para esta ocasião. Originalmente as roupas de Guu e de seus homens eram muito pobres, então Satoshi deu uma melhorada no visual dos trolls.
Guu estava com quatro trolls que eram a guarda real dele. Satoshi tinha ordenado aos cinco que se lavassem intensamente antes de vestir o equipamento que ele emprestou a eles.
Representando os Homunculi Guardians havia Kuro, que tinha tingido o cabelo de loiro apenas por precaução e que foi o responsável pela ilusão que enganou todos do Breu permitindo a despercebida aproximação de tantas pessoas.
Ao lado de Kuro estava uma garotinha com 110 cm de altura, longos cabelos lisos e negros, um chapéu de penas coloridas e metais preciosos, além de uma roupa em um estilo que, Satoshi sabia, nenhum dos aventureiros presentes aqui tinha visto antes.
Aquela era a fofa forma de criança Indígena-Mesoamericana de Miya.
Vendo a criança que batia com a descrição do Mestre da Guilda para o monstro Couatl, o líder Sylvo, engoliu em seco e tomou a frente para agir como um agente diplomático de E-Rantel.
Os dados estão lançados, hein...
- PARTE TRÊS -
Um Embaixador e algumas Escoltas
"Vejam! É Miya-sama! Miya-sama voltou para nós!"
Quando Satoshi saiu do portal aberto por Miya, ele viu que todos os aldeões de Carne que estavam na Aldeia, as damas Emmot inclusas, começavam a se amontoar em devoção a uma certa distância de Miya.
Ela certamente é popular… eles estão até se ajoelhando.
O Grupo Breu tinha encerrado pacificamente seu encontro com Miya das Penas Arco-Íris, também chamada de Grande Dama da Famicômia.
Depois que o encontro foi encerrado, Miya se ofereceu para dar uma carona a todos até a Aldeia de Carne, local que ela tinha salvo do ataque de cavaleiros a alguns dias.
"Olá, humanos da vizinhança! Esta Miya veio apenas trazer os Aventureiros invasores de volta, então esta Miya vai voltar para floresta e fazer as tarefas que foram dadas a esta Miya por Meu Tudo! Ei, Kuro! Meu Tudo gosta bastante destes humanos, então trate eles muito bem!"
Miya, no entanto, praticamente não deu sequer um minuto do ocupado tempo dela para dedicar alguma atenção aos aldeões ajoelhados que chegavam ao extremo de rezar para ela.
Depois que todos os que deviam passar pelo portal de Miya já tinham passado por ele, Miya deu uma desnecessária piscadela e um polegar para cima sútil para Satoshi enquanto fazia o caminho de volta.
O portal sumiu após ela cruzá-lo deixando para trás na Aldeia um grande grupo de recém-chegados. Sendo eles os membros do grupo Breu e o embaixador da Famicômia com seus seguranças.
A conversa na floresta entre Miya e Sylvo tinha ocorrido dentro do esperado por Satoshi. Estar cercado por uma força tão grande e superior dava pouca margem de exigência para Sylvo. Ao fim da troca de palavras dos dois, Miya tinha conseguido fazer o outro lado aceitar, sem exigir qualquer condição de Miya, que a Famicômia enviasse diplomatas até E-Rantel para conversar com as lideranças humanas.
A Comitiva de Diplomatas era formada por Kuro e seus seguranças, que eram os dezenove Goblins do Esquadrão K do Batalhão Latino.
Havia alí tambem dois High Wraiths que foram emprestados pela homunculi Dread Necromancer Tsuki, ao irmão dela, o humunculi Wizard Kuro. Os dois fantasmas se mantinham invisíveis e escondidos de todos pois Tibur, o mago da equipe Chuva Escura, parecia ter a capacidade de senti-los vagamente, então por precaução eles acompanhavam Kuro de longe.
Os goblins do Esquadrão K, por sua vez, eram observados cautelosamente por todos os presentes, isso era apenas esperado pois eles tinham sido especialmente equipados para impressionar a Guarda de E-Rantel.
Satoshi não queria que Famicômia fosse interpretada por E-Rantel como uma nação de goblins fracos, então ele tinha caprichado no equipamento dos embaixadores.
Tentando fazer eles parecerem impressionantes, Satoshi tinha equipado eles com as melhores armas e armaduras disponíveis no arsenal que veio com a Instant Fortress. Quanto ao líder deles, o Capitão K, aquele goblin tinha recebido até mesmo equipamentos do inventário do próprio Satoshi.
Além disso, todos no esquadrão tinham montarias de lobos que sempre foram tradicionalmente domesticados pelos goblins da floresta e que foram aprimorados e treinados pelos Goblin Wolf Rider do Batalhão Latino nos últimos poucos dias.
Satoshi soube ontem que Miya estava montando uma grande Tropa de Cavalaria de Lobos entre os goblins nativos e que os Goblin Wolf Rider do Batalhão Latino estavam chefiando esse projeto. Ao que parece, estavam rolando vários desses pequenos projetos de treinamento de pessoal na cidade.
A montaria de Capitão K era um High Barghest, um dos poucos indivíduos dessa espécie que foram escravizados por Miya.
Estas Bestas Magicas inteligentes se parecem com Barghests, ou seja, parecem lobos de chifres com uma corrente de metal saindo da coluna. Mas os High Barghest além de mais inteligentes que os Barghests tradicionais, também tinham um maior porte, sendo bem maiores que um pônei e tinham um par de longas correntes ao invés de uma única.
Eles geralmente chefiam as matilhas de Barghests como seu Alpha e são muito fortes para o padrão da Floresta de Tob.
O High Barghest que servia de montaria para o Capitão K era muito jovem e se chamava Tedoriampe.
Com um incrível Nível 12, ele tinha o mesmo nível de seu cavaleiro.
Kuro, que era o embaixador oficial, tinha tingido o cabelo dele de loiro e usava seu equipamento principal, com um robe de mago de nível legacy e diversas joias mágicas. Ele tinha adotado a alcunha de Kuro das Luzes Tortuosas e o título de Mestre-Mago das Ilusões, e tinha como objetivo nesta missão diplomática ir até E-Rantel para estabelecer relações amistosas entre Famicômia e Re-Estize.
Assim como Miya, os Homunculi também mantiveram neste mundo a habilidade de usar um inventário, tal qual faziam no jogo de Yggdrasil. No inventário de Kuro estavam muitos dos itens mágicos saqueados da Escritura da Luz Solar, Kuro daria esses itens a Re-Estize como presente de amizade e estava autorizado, se levado a uma situação limite durante as negociações, até mesmo a aceitar que a Cidade da Famicômia fizesse um pagamento de tributo pontual ao Reino de Re-Estize.
Depois de ouvir as palavras que Miya gritou para ele antes de partir pelo portal, Kuro fez o que Miya pediu e deu muita atenção aos aldeões, tranquilizando eles quanto a boa natureza dos guardas semi-humanos da escolta dele.
Ele até mesmo entregou aos aldeões da Aldeia de Carne, em nome de Famicom, uma série de presentes pessoais.
Os presentes em questão tinham sido escolhidos por Satoshi ontem a noite e eram cinco 'Condensate Alchemical Servant - Clay', três 'Condensate Alchemical Servant - Wood' e um 'Condensate Alchemical Servant - Iron'.
Estes itens de convocação permanentes se assemelhavam a esferas de vidro com fumaça colorida dentro e eram capazes de convocar, respectivamente, Clay Golem de Nível 10, Wood Golem de nível 15 e Iron Golem de nível 20.
Embora aqueles golems não fossem muito inteligentes e fossem basicamente orientados ao trabalho, eles não eram fracos para os padrões daqui e também poderiam defender a Aldeia em caso de necessidade.
O Iron Golem, por exemplo, era tão poderoso em termos de nível quanto Moknach, o mais forte aventureiro Mithril em E-Rantel.
Satoshi tinha deixado ontem várias dezenas destas esferas de vidro com Miya depois de ouvir por acidente ela se queixar com Tsuki de como ia ser difícil construir a muralha da cidade no futuro.
Além das versões Clay, Wood e Iron que ele tinha em abundância no inventário, Satoshi tinha dado a Miya alguns exemplares das versões Steel e Mithril, as quais ele tinha em menor quantidade.
Kuro gastou um tempo explicando a todos na Aldeia o que os nove itens faziam e foi orientado disfarçadamente por Satoshi a entregar os itens na mão dos aldeões que Satoshi tinha selecionado com antecedência.
Parcial como ele era, Satoshi, obviamente, presenteou os aldeões com quem teve mais contato com os melhores itens.
Satoshi fez Kuro presentear, em nome de Famicom, um Wood Golem para cada uma das damas Emmot e entregou para Rick, o líder da família que o tratou tão bem, o único Iron Golem do lote.
Isso deve aumentar o status dos Emmot na aldeia, afinal estou claramente demonstrando que quero favorecer eles.
Ele também fez Kuro conceder os cinco Glay Golem restantes a cinco jovens aldeãs com quem ele simpatizou, embora as conhecesse só de vista e ouvido.
O fato de, com exceção de Rick, apenas mulheres terem recebido os itens foi, obviamente, algo feito por Satoshi de caso pensado.
Satoshi tinha ouvido de sua tia na Terra que o excesso de testosterona dos homens foi a responsável por todas as guerras do mundo, então, confiando na sabedoria da tia dele, que sempre controlou o tio como um cachorrinho, Satoshi tinha priorizado as mulheres para receber os itens que evocavam golens que eram tão poderosos para os padrões dessa vila.
Com isso ele queria prevenir conflitos e mau uso dos golens.
Agora, quanto ao fato de apenas jovens solteiras e de boa aparência terem recebido os Clay Golens foi apenas coincidência ou, se alguma coisa, no máximo uma distinção involuntária feita pelo subconsciente de Satoshi.
Durante a distribuição dos presentes, praticamente todos os aldeões estavam presentes na Aldeia naquele momento, inicialmente estavam lá apenas mulheres casadas com filhos pequenos, velhos e crianças, mas depois do retorno de Miya os homens adultos e os jovens que trabalhavam nos campos foram rapidamente chamados.
Os Aldeões tinham ficado agraciados com a generosidade de Famicom e agradeceram ao enviado dele pelos presentes repetidas vezes.
Isso se chama comprar a vizinhança... no Japão fazemos isso com comida.
Satoshi ficou satisfeito pois podia ouvir louvores para Miya e Famicom a toda volta. Em seu íntimo ele realmente gostava das pessoas de Carne e ser bem cotado por gente que você gosta sempre é uma coisa agradável.
Além disso, essa aldeia é tão perto da floresta que quero ela como uma tributária da minha cidade algum dia...
A Aldeia de Carne ficava a apenas algumas centenas de metros da borda da Floresta e por isso Satoshi desejava reivindicar ela para si no futuro, assim como qualquer outra aldeia na mesma situação de proximidade com seus domínios.
Enquanto Kuro conversava com os aldeões educadamente, o grupo Breu estava um pouco distante fazendo preparações para a viagem que fariam a E-Rantel.
Por decisão de Sylvo, os quatro membros da equipe Espadas das Trevas foram enviados às pressas a cavalo para E-Rantel assim que os aventureiros tinham voltado para a Aldeia.
A Espada das Trevas tinha a missão de ir a toda velocidade até o Mestre da Guilda e explicar a situação deixando a cidade ciente do enviado que estava a caminho.
Foi apenas várias horas depois da partida da equipe Espadas das Trevas que o grupo com o enviado diplomático deixou a Aldeia de Carne rumo à E-Rantel.
Como Kuro, ou melhor, Kuro das Luzes Tortuosas, era um enviado diplomático e tinha, portanto, que mostrar certa posição e ostentação, Satoshi deu a ele ontem um item chamado 'King's Golem Carriage'.
Aquela era uma carruagem toda pomposa que, além de poder se miniaturizar até caber em uma mão, era propelida por magia não precisando de cavalos.
Apesar de ser relativamente grande para uma carruagem, o espaço interno da carruagem era ainda maior pois era ampliado por magia, tendo praticamente 100 m² (10mx10m), maior que o apartamento de Satoshi na Terra.
A carruagem tinha até mesmo móveis para estudo, trabalho e sono.
As pessoas presentes, tanto os aldeões quanto os aventureiros, ficaram mesmerizados com a carruagem elegante que surgiu do nada e com os adornos detalhados que aquilo tinha.
Muitos destes adornos intrincados eram feitos em metal precioso, o que deixava Satoshi com medo que, uma vez que estivessem nas ruas da cidade, eventualmente alguém pudesse raspar para roubar o metal e estragar os bonitos padrões metálicos.
Além de viajar por terra King's Golem Carriage também podia voar e submergir, tinha barreiras de defesa e mecanismos de ataque simplórios com magias de 3º nível, mas ninguém precisava saber disso.
Essa carruagem era muito ineficiente no jogo, já que não teletransportava. Mas das únicas três opções que Satoshi tinha no inventário, aquela era a mais bonita esteticamente e passaria uma impressão muito boa se usada por um diplomata.
A Comitiva rumou propositadamente devagar através da estrada rumo a E-Rantel.
Sylvo e Tibur viajaram dentro da King's Golem Carriage, junto com o embaixador Kuro das Luzes Tortuosas, os dois faziam sala para o embaixador o entretendo e jogando conversa fora. Tibur por sua vez enchia Kuro das Luzes Tortuosas com perguntas sobre magia desde quando ainda estavam na aldeia, principalmente sobre os mortos-vivos impressionantes que ele viu na floresta.
Kuro das Luzes Tortuosas é oficialmente um mago de 5º Nível, algo que era impressionante para os humanos.
Os outros oito aventureiros restantes do grupo Breu ficaram do lado de fora da carruagem pomposa, ou viajavam a cavalo ou nas duas carroças que tinham alugado para ir a Carne.
A viagem foi um pouco complicada para eles já que os cavalos temiam os lobos dos dezenove goblins belamente armadurados que eram os guardas-costas do embaixador.
Por causa disso os Aventureiros tinham que manter uma distância segura dos goblins.
Como viajavam devagar eles chegariam a E-Rantel em algum momento perto da meia-noite.
Já era de noite a algum tempo e a comitiva tinha feito mais da metade do caminho quando encontraram Guardas da Cidade que retornavam de uma patrulha no campo acampados na beira da estrada.
Depois de longos minutos onde Sylvo explicou a situação para eles, os quase cinquenta guardas conscritos humanos passaram a escoltar a comitiva até E-Rantel, o que os deixou ainda mais lentos.
Como esperado, eles reagiram bem mal aos goblins… ainda bem que Kuro tem praticamente a aparência de um humano.
Não apenas os Guardas reagem mal aos goblins, as poucas vezes que a comitiva cruzou com alguém na estrada as pessoas abandonaram suas coisas e se esconderam assustadas nas margens da estrada até eles terminarem de passar.
Infelizmente Satoshi tinha muito poucos itens além de Homunculi Blooded Seed que criavam servos permanentes com aparência humana. Tendo tão poucos destes ele decidiu guardá-los para o futuro, afinal de contas ele não sabia quanto tempo ficaria neste mundo e nem mesmo se a experiência de fundar Famicômia daria certo, então por precaução ele pouparia recursos de Yggdrasil ao máximo.
Apesar da lentidão a comitiva chegou no portão norte de E-Rantel meia hora após a meia-noite, o que foi dentro do horário esperado, e, para surpresa de Satoshi, havia quase mil Guardas da Cidade completamente vestidos para guerra do lado de fora do portão, nos muros também se viam centenas de arqueiros com arcos na mão e Satoshi podia apostar que havia mais soldados do outro lado do portão.
Também havia dezenas de aventureiros detrás dos soldados, eles iam do Ferro ao Ouro e estavam protegendo alguns magos da Guilda de Magia e outros figurões da cidade.
A cidade fechava os portões três horas após o anoitecer, por isso, além de alguns poucos curiosos, não havia civis locais presentes no portão. Satoshi sabia graças a conversa que ele teve com o prefeito alguns dias atrás que o Domínio de E-Rantel tinha um efetivo que chegava perto de quatro mil guardas conscritos em tempos de paz e cinco vezes isso durante as guerras anuais com o império.
Isso queria dizer que parte significativa dos Guardas da Cidade estavam na frente do portão norte agora. Ou isso era claramente uma demonstração de cautela ou era uma demonstração de força para os enviados estrangeiros.
Seja o que for, Satoshi estava impressionado que o prefeito conseguiu reunir tanta gente em tão pouco tempo aqui. Certamente E-Rantel tem protocolos de segurança.
Depois de um tenso momento onde os dois grupos se encararam e os guardas que escoltavam a comitiva se juntaram aos Guardas do Portão, Sylvo e Tibur foram até a liderança dos homens de E-Rantel para conversar.
De onde estava, em cima de uma das duas carroças do grupo Breu, Satoshi podia ver o prefeito Panasolei Gruze Day Rettenmaier atrás das linhas de soldados junto com Pluton Ainzack, Theo Rakheshir, uma dúzia de outros figurões da administração da cidade e um grupo de aventureiros acima da média, que Satoshi supôs ser a Lobo do Céu, uma das equipes de Mithril da cidade.
A Equipe de Mithril Lobo do Céu estava em Katze na época da convocação da guilda para a missão da Cidade da Floresta e foi a única equipe de Mithril que não se aventurou em Tob. Ao que parece eles tinham retornado a E-Rantel após investigar Katze e, mesmo tendo acabado de chegar, já tinham sido alugados mais uma vez para um serviço rápido, desta vez pelo prefeito.
Sylvo e Tibur conversavam com os manda-chuvas da cidade. Aqueles homens pareciam ter semblantes preocupados, alguns até irritados.
Talvez eles não esperassem uma visita oficial?
Satoshi pensou que talvez a equipe Espadas das Trevas super-dimensionou a comitiva do embaixador e a cidade se preparou excessivamente para uma invasão de goblins fedidos e selvagens.
Ele tinha tomado o cuidado de enviar poucos soldados com Kuro em sua missão e apenas os mais educados, então esta recepção dada era muito exagerada, sendo completamente inesperada por Satoshi.
Seja o que for que eles pensem seria muito descortês se eles deixassem um enviado estrangeiro passar a noite do lado de fora da cidade, então Satoshi acreditava que eles iam receber Kuro, ou melhor, Kuro das Luzes Tortuosas, o Mestre-Mago das Ilusões e Embaixador da Cidade-Estado da Famicômia para Re-Estize.
Depois do que pareceu dezenas de minutos para Satoshi, um período de tempo que foi particularmente tenso para os dezenove Goblins do Esquadrão K que estavam cercados por incontáveis humanos armados e com olhares hostis, Sylvo e Tibur finalmente voltaram de sua conversa com o alto escalão da cidade.
Eles entraram na carruagem e alguns minutos depois saíram dela com o embaixador Kuro. Os três deles então foram juntos até onde o prefeito Panasolei estava.
Pouco tempo depois, a entrada deles na cidade foi autorizada e o enviado foi escoltado até a Villa VIP no centro de E-Rantel. Satoshi participou como membro da enorme força de escolta que cercou a carruagem e os goblins até que chegassem ao seu destino, depois daquilo ele e o resto do grupo Breu foram dispensados para descansar depois de sua missão cansativa.
Eles ainda teriam que ir até a Villa VIP pela manhã para explicar com detalhes como foi o andamento da expedição.
Agora é com você, Kuro...
Entregando de forma irresponsável e sem-vergonha toda responsabilidade pela embaixada para seu homunculi Wizard, Satoshi cruzou a cidade tarde da noite rumo a hospedaria que frequentava desde que chegou em E-Rantel.
Foi muito surpreendente o que ele achou quando chegou lá.
Inacreditável… pensar que algo assim fosse acontecer.
Quando chegou na hospedaria que sempre lhe acolheu bem, Satoshi viu que ela estava completamente destruída.
Janelas, portas e paredes quebradas, somados com sinais de um pequeno incêndio que conseguiu ser controlado a tempo e o predominante silêncio de um lugar completamente abandonado, mostravam que a hospedaria tinha sofrido momentos difíceis enquanto Satoshi esteve fora, que tinha sido vítima de vandalismo.
Se perguntando quem teria causado isso, Satoshi foi até a casa do outro lado da rua, onde sabia que o filho da proprietária morava, mas como já tinha passado muito da meia-noite ele não quis acordá-lo, então decidiu que viria aqui novamente depois que amanhecesse, antes mesmo de ir até a Villa VIP reportar para o prefeito.
Como o quarto que Satoshi tinha alugado estava completamente vazio de bens dele, já que tudo que possuía ele colocava no seu inventário ou na sua mochila, então não era como se ele tivesse perdido algo.
No entanto ele ficou com pena da gentil senhora que era proprietária do lugar e decidiu que ia oferecer ajuda a ela amanhã.
Para sorte da gentil senhora, Satoshi tinha roubado dinheiro de bandidos muitas vezes e por isso tinha centenas de moedas de ouro.
Isso dito ainda faltava umas quatro horas para amanhecer então Satoshi decidiu passar as horas finais do dia nos esgotos junto com o Vampire Knight Manzu, que era um ser noturno e devia estar acordado agora.
- FIM DO CAPÍTULO -
NOTA DO AUTOR:
Opa, blz?
Essa não é a ultima aparição da Aldeia de Carne e dos Emmot!
Eles vão ficar de fora da história por um longo tempo e não teremos mais nada deles nesse volume, mas planejo que voltem com tudo!
No mais, o que estão achando da história?
Eu queria alguns comentários...
Flw!
