.
..
...
Movimentos do Submundo
Intermissão 4
*(Oito Dedos de E-Rantel)*
(Bairro Mercantil, Cidade de E-Rantel, Dia 8 da Transição)
Sete homens se sentavam ao redor de uma grande mesa circular no vasto porão de um estabelecimento comercial onde durante o dia se vendiam plantas decorativas e flores.
Atrás de cada um dos homens sentados havia duas pessoas de pé, todos aqueles quatorze homens de pé vestiam negro, eram mal-encarados e tinham fisionomias duras, eles também estavam atentos ao ambiente e faziam uma frente intimidante, agindo da forma como um segurança ou guarda-costas se comportaria.
Por sinal, Guarda-Costas era a função de cada um destes homens de pé, eles eram os guardas-costas dos sete homens sentados, que eram os VIPs deles.
Como aquela era uma mesa circular, não havia uma posição de destaque entre os sete homens que se sentavam nela.
Porém, qualquer um que olhasse aquela mesa repararia imediatamente em duas coisas.
A primeira era que todos os sete homens sentados ali tinham olhos duros no rosto, aqueles eram os olhos de pessoas acostumadas a ver o que há de pior na sociedade, não, mais do que isso, aqueles eram os olhos de pessoas que foram elas mesmas componentes do que há de pior na sociedade.
A segunda coisa que alguém ia reparar era que a mesa não estava completa.
Havia uma oitava cadeira, que estava vazia.
"Porra, já estamos aqui a uma hora e esse Zafel sequer enviou um mensageiro? Ele está fazendo pouco de nós?"
Um homem que apesar de ter uma grande barriga tinha braços musculosos disse irritado.
Aquele homem atendia pelo nome de Edros Lancel e embora se vestisse como um nobre, não era um. Ele era na verdade um criminoso que vivia sob a fachada de um rico comerciante aqui em E-Rantel.
"Agora, isso realmente é estranho demais, Zafel sempre teve tão pouco pessoal e sempre dependeu de nossa ajuda pra fazer quase tudo... tsk, pensar que ele faria uma desfeita dessas."
Desta vez foi o homem sentado do lado oposto a Edros na mesa quem falou. Aquele era um homem velho, muito velho mesmo, ele era magro, curvado e tinha muitas rugas e dobras na pele. Ele não se vestia de forma espalhafatosa como Edros, mas as roupas dele não deixavam de ser de ótima qualidade.
O velho atendia pelo nome de Trisno Lancelot e ele era, assim como todos os que estavam sentados naquela mesa, um Chefe de Departamento da Organização Criminosa Oito-Dedos naquela cidade.
Esta reunião que estava acontecendo no vasto porão de uma floricultura era uma reunião de caráter emergencial entre os Chefes do Oito-Dedos de E-Rantel, mas apenas sete dos oitos chefes estavam presentes no encontro.
Dentre os sete Chefes presentes, Trisno, o chefe do Departamento de Contrabando, e Edros, o chefe do Departamento de Tráfico de Drogas, eram de longe os dois criminosos mais ricos e influentes da cidade.
A riqueza e influência deles era tão grande na cidade que, fora algumas poucas autoridades do governo, ninguém poderia se colocar no caminho deles e sair ileso. Isso sempre foi amplamente conhecido por todos naquela cidade e ninguém nunca ousava desafiar esta regra.
Mesmo assim, o assunto principal desta reunião, que foi convocada às pressas por Edros, era o fato de haver alguém, um misterioso alguém, que estava ousando contrariar essa máxima e estava repetidamente manchando a imagem da Oito-Dedos.
Existia alguém nesta cidade que sistematicamente saqueava o sagrado e sujo dinheiro do Departamento de Tráfico de Drogas e que, pasmem, até agora estava incólume.
Tudo isso começou exatos oito dias atrás quando um Ponto de Venda e Depósito de Drogas conhecido como 'Ralo da Bica', que era sediado em uma hospedaria embaixo do Aqueduto, foi saqueado.
Pouco se descobriu sobre o agressor que usou algum truque para que todos dormissem no prédio, colocou vendas em todos os presentes, coletou todas as moedas do local e, ao sair, quebrou a perna direita de vinte dos homens de Edros.
De fato, só se descobriu que o responsável foi um único indivíduo porque os bandidos no local ouviram o caminhar de uma única pessoa no período em que estavam vendados.
Depois daquele dia, outros dois pontos de drogas foram atacados, cada um uma vez.
Em um desses pontos, um ponto de Venda de Drogas que ficava próximo a um grande canal de esgoto e era chamado de 'Canto do Sapo', um dos bandidos no local pôde ter um vislumbre da aparência do agressor.
Segundo aquele bandido, o agressor era um homem, tinha porte médio e estava coberto com roupas pretas de qualidade. O rosto tinha uma máscara feia da figura de um demônio narigudo, nas cores vermelha e verde.
Uma descrição muito imprecisa que não permitiu que ele fosse encontrado.
E o pior é que, com o passar dos dias, o misterioso agressor mascarado estava ficando cada vez mais ousado.
No último ataque dele, desta vez durante a noite de dois dias atrás, ele atacou em questão de horas todos os três pontos que tinha atacado nos dias anteriores e, de forma diferente do que vinha fazendo até agora, abduziu quinze homens nos três locais que atacou.
Os três ataques daquela noite foram feitos em um espaço de tempo tão curto que agora os chefes do Oito-Dedos tinham dúvidas se o culpado era um único homem mascarado ou se era uma gangue deles.
"Não se preocupe com Zafel, ele virá eventualmente, agora vamos voltar ao maldito problema. Infelizmente a grande merda é que meu Departamento tá tendo muita dificuldade em achar esse saqueador filho-da-puta. Com o patrocínio de Edros, mobilizei todos os meus homens livres e tudo que conseguimos foi ter que gastar uma fortuna com magia de cura e ter onze desaparecidos no último ataque desse rato..."
Quem falava agora era Portmore, um homem bem constituído que estava nos seus 40 anos e chefiava o departamento de Segurança.
Portmore tinha sido contratado por Edros para proteger os pontos de drogas e capturar o culpado pelos ataques. O Departamento de Segurança vivia de vender serviços aos outros sete departamentos e dispunha de quase 100 homens nesta cidade.
Aqueles eram os mais qualificados combatentes da organização criminosa em E-Rantel, entre eles havia até 4 ex-aventureiros de Platina.
O próprio Portmore era um ex-aventureiro de Mithril que na época de atividade atuava em E-Asenaru.
"Porra, então se esforce mais, Portmore! Nós temos que resolver isso o mais rápido possível! A Dama Branca não vai aceitar segurar esse prejuízo, pode não doer tanto na carteira mas isso fere fundo nossa honra como criminosos!"
Edros exclamou um pouco alterado.
A 'Dama Branca' a quem ele se referia era a chefe do Departamento de Tráfico de Drogas em Re-Estize, Hilma Cygnaeus. Hilma era uma figura muito poderosa na organização, uma mulher competente e de visão que em apenas oito anos nas fileiras da firma elevou o Departamento de Drogas de um departamento miserável a um dos mais lucrativos do Oito Dedos.
Não é errado dizer que a lucrativa epidemia de uso de 'Pó de Laira' em Re-Estize e em algumas Cidades do Império, bem como as consequências desastrosas que essa epidemia trouxe para as pessoas e para as sociedades desses países, era um dos frutos do bem planejado trabalho dela.
No entanto, outra característica dela, além de ser uma mulher de visão, é que ela era impiedosa e por isso Edros estava muito preocupado.
Ele havia informado do acontecido à capital na ocasião do segundo ataque e agora recebeu pela guilda de magia uma mensagem codificada dizendo que Hilma tinha enviado um homem de confiança dela para E-Rantel para 'avaliar' como os negócios eram feitos por Edros aqui.
Isso queria dizer que o departamento de Edros ia passar por uma auditoria. Aquela foi a pior notícia para Edros que, como o criminoso que era, tinha seus esquemas por baixo do pano.
"Tsk! Estou fazendo o que posso Edros, mas há muito pouca informação, então fica difícil... Bem, nós estamos investigando alguns suspeitos, o principal é um aventureiro novo na cidade, eu mandei um pessoal ir até ele, mas quando foi abordado ele reagiu e fugiu, a merda é que agora ao que parece ele saiu da cidade nessa missão maluca que o prefeito lançou esses dias..."
Era fato conhecido em E-Rantel que muitos aventureiros de alto nível tinham saído da cidade para uma missão na Floresta de Tob. Embora não se soubesse detalhes da missão, acreditava- se que algo importante estava acontecendo.
"... além disso, parece que as Rosas Azuis foram despachadas para cá. Há um receio que isso seja coisa daquela Princesa Intrometida, já que as Rosas Azuis são um tipo de pau-mandado daquela pirralha Vaiself. Como aquela Princesa tem feito vários movimentos contra nossa organização, por segurança, o Chefe Zero enviou para cá quatro dos Seis Braços que devem chegar aqui na próxima semana..."
Era notório que a Princesa Dourada, a filha mais nova do Rei Ramposa III, tinha feito esforços para frear o crescimento dos Oito Dedos. As Rosas Azuis, que eram uma equipe de Adamantina, eram constantemente empregadas nesses esforços da princesa.
Portmore tinha que ser franco e admitir que, se as Rosas Azuis chegassem nessa cidade, por mais forte que Portmore e seus homens fossem, eles teriam muita dificuldade em fazer oposição às Aventureiras de Adamantina.
Por isso, seria ótimo contar com a ajuda dos homens do Grupo de Elite dos Oito Dedos, os chamados Seis Braços, que eram todos guerreiros no nível adamantina.
"... pessoalmente acredito que os Seis braços devem fazer um movimento contra as Rosas Azuis aqui, por isso estou bem empenhado em pegar de uma vez esse filho-da-puta desse saqueador de merda para poder dar uma melhor assistência aos homens dos Seis Braços quando eles chegarem… huh?"
A porta da sala em que estavam emitiu um som rítmico quando alguém bateu nela com o padrão conhecido, depois de autorizado, um homem entrou.
Aquele homem tinha sido enviado ao exterior do prédio meia-hora antes para buscar Zafel, o chefe do Departamento de Roubo, que tinha faltado à reunião.
"Chefes, a base do Chefe Zafel tá uma bagunça, todos lá estão procurando o Chefe Zafel, parece que ele e alguns outros do departamento dele estão sumidos… e também, a cidade tá muito agitada, todos os guardas foram convocados, os sinos tocaram o toque de recolher, alguma coisa grande está acontecendo. Enquanto eu voltava aqui alguém estava gritando na rua 'Os goblins estão vindo!', ou algo do tipo..."
Para coroar os problemas daqueles criminosos reunidos, eles foram informados que um dos Chefes do Oito Dedos em E-Rantel estava desaparecido e os soldados na cidade estavam fazendo uma movimentação estranha que precisava ser observada.
Depois que o homem chegou e informou isso, aquela reunião foi dissolvida com cada um dos Chefes de Departamento indo até sua base principal para se cercarem de capangas.
*(Zurrernorn de E-Rantel)*
(Cemitério, Cidade de E-Rantel, Dia 8 da Transição)
Oito homens estavam de pé em volta do corpo feminino magro, pálido e repleto de ferimentos que tinha sido atado nu sobre um altar sacrificial.
Aquela mulher estava visivelmente em intensa agonia e gritava a plenos pulmões.
"AAAAH… ahgh… por favor… argh... por favor… pare... AAAH..."
Os oito homens de pé ao redor do altar estavam completamente indiferentes aos repetidos e desesperados pedidos de misericórdia da mulher que agonizava em desespero.
Antes do tormento daquela mulher começar, a mulher foi obrigada a tomar drogas que estimulam a sensibilidade dos nervos e atiçam demônios internos, por causa disso qualquer dor que sentia era multiplicada por muitas vezes.
Os oito homens rezavam um canto já há uma hora em voz alta de forma uníssona, era um uma ladainha incompreensível cantada em um tom de voz grosso.
"... cerebecantorashamancudatrevissan..."
Um daqueles homens, um homem careca vestindo um manto vermelho, ergueu uma adaga pingando sangue acima do corpo ferido da mulher.
Aquela foi a enésima vez que ele fez isso no espaço de apenas uma hora.
Por um instante a adaga ensanguentada refletiu a luz das chamas das velas vermelhas que estavam espalhadas pelas paredes manchadas daquela câmara subterrânea no Cemitério de E-Rantel.
"... por favor… não… NÃO… eu imploro... PARE… aahh… AAAGGRRHHHH..."
A mulher berrou um grito gutural de dor quando a adaga erguida pelo homem caiu outra vez para atingir ela, penetrando o corpo dela no ombro e se revirando no interior da carne daquela infeliz, raspando osso e cartilagem, rasgando tendões, torcendo os nervos.
A ladainha cantada pelos homens continuou indiferente a este sonoro grito de dor.
"... cerebecantomamoterosaladino..."
A adaga desceu.
"... não… NÃO… TIRA ISSO DE MIM… AAAAHH… NÃOOO… AAGGGRRRH..."
Novamente a mulher gritou miseravelmente em resposta a dor lancinante que sentiu quando, mais uma vez, a adaga a penetrou em um ponto que carecia de grandes vasos sanguíneos, mas que era repleto de nervos sensíveis.
A ladainha cantada permaneceu soando indiferente à reação da mulher.
"... cerebecantotomatetucassaro..."
A adaga desceu novamente.
"... pare… não… NÃO… AAGGGRRRH… ME MATE... por favor... não... NÃO..."
Aquele tormento infligido à mulher já durava por uma hora.
Mas para infelicidade dela a ordenha continuaria por outra hora inteira.
Durante o tempo de tormento da mulher, pequenos fios de energia que só podiam ser vistos por olhos treinados saíam do corpo dela e iam em direção a uma esfera negra na parte mais destacada do altar.
Aquela esfera era um Item Inteligente chamado Orb of Death.
Aquele item estava alegremente coletando Energia Negativa Ativa oriunda do ressentimento, dor, arrependimento, agonia e ódio que essa mulher liberava enquanto a vida dela se esvaia.
"ÔH NÉBIA!"
Após ter dado incontáveis golpes por duas horas inteiras para atormentar a jovem mulher e assim garantir uma morte sofrida e demorada para ela, o homem careca de manto vermelho, cuja braço estava sujo de sangue até o cotovelo, gritou algo dissonante da ladainha cantada.
Reagindo a isso como um, os demais sete homens fortalecerem o canto e elevaram a voz.
O homem careca de manto vermelho então deu um último golpe na jovem mulher, desta vez com a intenção de encerrar este sacrifício.
A adaga acertou habilmente o peito da mulher, cujos seios já haviam sido removidos anteriormente, e abriu um corte limpo na caixa torácica dela.
De um jeito hábil e rápido, que foi aperfeiçoado por fazer isso milhares de vezes, o homem careca girou a faca separando os largos vasos em volta do coração da jovem mulher, ele então retirou rapidamente a faca e espetou aquilo no joelho da mulher.
Após isso ele afundou as duas mãos livres dentro do tórax dela, retirando o coração palpitante da mulher e o levantando para que, por breves segundos, a mulher, que se afogava com sangue e perdia rapidamente os sentidos, pudesse ver o seu próprio coração pulsando fora do corpo, na mão do homem careca.
Na fase final do sacrifício, os fios de energia que saíam do corpo dela saíam agora dezenas de vezes mais grossos, depois de alguns segundos eles voltaram a afinar até que, quando já não havia resquício de vida na mulher, cessaram completamente.
Depois que a jovem mulher morreu, mesmo sem ter passado pelo processo de criação, de tão ressentido e amargurado o cadáver dela se levantou como uma Zombie desejando vingança.
"Já controlei esta criança, Ó Mestre da Morte! Foi uma ótima ideia prolongar o período de colheita, este foi um ótimo sacrifício, o melhor até agora! Ela estava cheia de arrependimentos e ressentimento! Muito bem feito, Ó Mestre da Morte!"
Claro, claro, o sacrifício ritual é uma das minhas especialidades depois de tudo.
O homem careca com manto vermelho, que tinha os braços sujos de sangue e ainda segurava o coração quente removido, teve um breve diálogo em sua cabeça com o Item Inteligente posto na posição de destaque do Altar.
Aquele homem era Khajiit, um dos Doze Executivos da Zurrernorn, uma sombria organização que operava nas trevas.
Agora, acho que já basta, essa mulher era a última viva da nossa prisão então… por enquanto devo fazer uma pausa para descansar o corpo e depois disso nós vamos começar os preparativos do Spiral of Death!
Khajiit estava cansado e com olheiras enormes.
Já por quase quarenta horas ele esteve acordado sacrificando as duas dezenas de prisioneiros que restavam no calabouço. Aqueles prisioneiros foram obtidos com os criminosos da cidade e eram em sua maioria viciados que tiveram sua cota de injustiças e covardias sendo, portanto, ótimos sacrifícios.
Ele sacrificou todos os 20 em sequência para ter energia negativa ativa suficiente para o gatilho do Spiral Of Death. Agora, Khajiit planejava descansar por oito horas e então começar o pré-ritual da Spiral of Death que devia demorar 16 horas.
Após aquilo o aguardado momento, o momento pelo qual ele vinha se esforçando nos últimos 5 anos, finalmente chegaria.
Está ali! Logo ali! Fuhahahaha!
Cinco anos atrás Khajiit tinha abandonado muitas coisas e chegado nesta cidade com todos os seus principais acólitos.
Eles tinham se entranhado nessas catacumbas e criado mortos-vivos todos os dias para que Khajiit pudesse construir uma piscina de Energia Negativa grande o suficiente para realizar seus planos.
Enquanto isso, para assegurar que não fossem incomodados pelos habitantes da cidade, um Culto Macabro de ocasião com moradores da cidade foi montado. Naquele culto macabro Khajiit logrou enredar três velhos figurões da cidade com promessas de juventude.
Um destes figurões, que trabalhava na administração, mantinha a guarda longe do cemitério. Outro, que era um dos temidos líderes criminosos, garantia os sacrifícios. E o terceiro, que era um rico comerciante, lhe garantia recursos. Em troca Khajiit vinha prolongando a vida desses moribundos e os prometendo uma solução definitiva para a velhice avançada deles.
Tudo isso era, claro, apenas um engodo.
A verdade é que quando Khajiit iniciasse o Spiral of Death, todos os cultistas que ele enganou nessa cidade morreriam, a própria cidade de E-Rantel viraria uma Zona de Morte e o próprio Khajiit viraria um Elder Lich.
Demorou cinco anos, mas foi só um primeiro passo... depois disso eu devo galgar um lugar para junto dos TREZE...
"Mestre Necromante... esta foi a última peça, nós podemos descansar agora?"
O Acólito Taulo perguntou com uma voz cansada enquanto recolhia o coração ensanguentado da mão de Khajiit, o envolvia em um pano e colocava o órgão em um saco cheio com outros corações.
Corações humanos como estes, que passaram por um ritual tão bem feito, tinham seu valor como ingredientes de poções necromânticas e seria um desperdício simplesmente descartá-los, por isso eles iam ser conservados.
"Claro, claro, mas estejam aqui em oito horas! Esta é a reta final! Muito em breve vocês vão testemunhar a minha ascensão a não-vida!"
Os sete acólitos de Khajiit que estavam presentes riram e se regozijaram com a ideia.
São realmente tolos...
Khajiit, no seu íntimo, tinha desprezo por seus acólitos, pois nenhum deles teve talento para ascender ao terceiro nível como conjuradores e, desta forma, se tornar realmente uma ferramenta útil a ele. Porém todos estes garotos abriram mão de suas vidas para segui-lo, apenas por isso, Khajiit tinha um pouco de gratidão para com eles.
Se possível, Khajiit tentaria preservar a vida deles durante o Spiral of Death.
Afinal talvez eu precise negociar com os vivos no pós-evento então eles serão úteis novamente...
Isso dito, os Acólitos de Khajiit eram apenas um bando de ignorantes que sequer sabiam a função da organização pela qual dedicaram suas vidas.
"Eu irei a meus aposentos, estejam na Câmara de Criação em oito horas."
Depois que se separou temporariamente dos sete, Khajiit rumou para seu quarto nas catacumbas.
Uma vez que esta cidade se tornar uma Zona da Morte e eu alcançar a não-vida certamente algum dos TREZE vai desejar possuir E-Rantel para si… devo me esforçar para acumular tanta energia residual como possível na minha filactéria para nascer com força suficiente e ser respeitado por eles…
Mesmo que preenchesse completamente sua filactéria com energia refinada e densa, por ter acabado de ascender a Elder Lich, sería inútil para Khajiit tentar se opor a Elder Lichs experientes como eram todos os membros do Conselho dos Treze que governava a Zona da Morte de Katze.
Apesar de, com exceção do Sábio Líder, todos os membros do Conselho serem apenas Elder Lichs gerados espontaneamente pela Zona da Morte de Katze, tendo portanto um potencial muito menor do que o de um Transcendente como Khajiit, a verdade é que independentemente do que ele fizesse, durante as primeiras décadas de não-vida de Khajiit, ele seria inferior a todos eles.
Conselho dos Treze hein... os verdadeiros titereiros que me manipularam a vida toda.
Cinco anos atrás, antes de vir a E-Rantel para este projeto, o Sábio Líder da Zurrernorn reconheceu os esforços de Khajiit e o conduziu para o interior das Planícies de Katze, indo muito mais fundo do que o ponto de encontro tradicional deles.
Khajiit tinha dedicado a vida a Zurrernorn e era o mais experiente entre os membros vivos dos Doze Executivos da Zurrernorn, portanto receber pessoalmente do Sábio Líder essa honra o deixou cheio de expectativas.
Mas nada prepararia Khajiit para o que viu, o que ele testemunhou no interior inexplorado de Katze o deixou sem palavras.
Lá, uma grande Metrópole da Morte existia.
Naquela vasta cidade, mortos-vivos inteligentes trabalham e pesquisam 24 horas por dia o Abismo da Magia usando como ferramenta de trabalho a arte da necromancia e tendo como servos várias espécies de mortos-vivos menores.
Khajiit viu naquela cidade de mortos-vivos criaturas que apenas conhecia de lendas trabalhando unidas para atingir um objetivo comum. Tudo naquele lugar incrível girava em torno de uma única pessoa chamada Temyr Ars Colophon.
Até aquele dia Khajiit conheceu esta pessoa pelo nome de Sábio Líder da Zurrernorn, mas após aquele dia ele conheceu a real figura dele como o Lorde Morto-Vivo de Katze.
Lorde Temyr movia todas as suas forças naquele paraíso morto-vivo para fomentar a pesquisa que o permitiria superar a condição de Elder Lich.
Foi naquele dia, que Khajiit deixou de ser um simples peão entre os Doze Executivos da Zurrernorn e passou a ser um dos poucos seres-vivos que conhece o Segredo de Katze.
Ele aprendeu ali que a Zurrernorn que ele serviu por vinte e cinco anos era apenas uma peça de xadrez para a Zona da Morte de Katze, uma peça que foi jogada na direção do mundo dos vivos como uma vanguarda para obter informações e recursos.
Saber isso não irritou ou desiludiu Khajiit, pelo contrário, o maravilhou.
Junto com essas informações ele também recebeu a maior honra que poderia esperar receber, a sensação de Khajiit naquele dia era próxima a da real felicidade.
Durante aquela viagem a Cidade Morta-Viva de Katze, o Lorde Temyr lhe emprestou um de seus preciosos Orb of Death, o lecionou pacientemente sobre o ritual Spiral of Death, o informou sobre a existência das catacumbas em E-Rantel e o convidou a transcender para a não-vida ao transformar E-Rantel em uma Zona da Morte.
"Com licença, Ó Mestre da Morte! Um vivo parece ter entrado nas catacumbas."
EH?!
Khajiit, que caminhava até seus aposentos perdido em pensamentos e cheio de ansiedade pela sua iminente ascensão a não-vida, foi chamado de volta à realidade pelo Orb of Death que carregava em sua mão direita, que ainda estava completamente coberta de sangue vermelho.
O Orb of Death tinha muitos fantasmas que eram usados como vigias nas entradas das catacumbas e ele podia dizer imediatamente se alguém entrava no interior desse complexo fúnebre subterrâneo.
Ter um invasor agora poderia ser um problema, por isso Khajiit ficou preocupado.
"... Mestre da Morte, o vivo que entrou, parece ser o Acólito Tibur."
EH?! Você tem Certeza?!
Tibur deveria estar fora da cidade junto com os Aventureiros poderosos de E-Rantel.
A verdade é que, como Khajiit e os outros Acólitos estavam realizando sacrifícios-rituais de forma ininterrupta, eles tiveram que negar vários contatos por magia que Tibur tentou estabelecer hoje.
Ele retornar tão cedo podia ser um péssimo sinal, algo poderia ter acontecido e Khajiit pode não ter sido informado.
Depois de receber a confirmação da Orb of Death de que o intruso era realmente Tibur, Khajiit saiu do caminho que fazia até seus aposentos e foi em direção a Câmara de Criação, o lugar para onde Tibur estava se encaminhando.
Uma vez lá ele conversou com Tibur e soube por ele das novidades.
Ele ficou sabendo da chegada de um mago de 5º Nível na Cidade e ouviu surpreso a descrição de mortos-vivos incrivelmente poderosos que Tibur testemunhou na Floresta de Tob.
Khajiit ficou completamente perdido com as informações que recebeu.
Este Vampiro Famicom não podia ter sido ignorado! Antes eu pensava que ele era um Vampiro comum, mas segundo Tibur ele tem um Vampire Lord como subordinado!
Vampire Lord eram figuras de lendas, quase ameaças de nível continental. Tal ser se aparecer como um mero subordinado indicava que seu mestre era ainda mais poderoso.
Tibur havia dito que entre os mortos-vivos desta tal Cidade na Floresta havia ainda dois Mortos-Vivos que Tibur acreditava também serem lendários e cuja descrição fornecida para Khajiit o fazia acreditar nisso também.
Khajiit simplesmente não sabia o que fazer.
O início do ritual esteve tão perto, mas seus planos teriam que ser adiados novamente, era arriscado começar agora com tantos elementos incertos aparecendo.
Preciso informar imediatamente Temyr-sama sobre este Vampiro Famicom e sobre os mortos-vivos que ele controla!
Khajiit abandonou Tibur e foi rapidamente até seus aposentos para informar Lorde Temyr das coisas que descobriu. Para fazer aquilo ele usou um item que foi concedido a cada um dos Executivos da Zurrernorn.
Durante aquela conversa com seu superior, Khajiit também recebeu uma notícia que não esperava.
Parece que uma das colegas dele entre os Doze Executivos estava chegando na cidade nos próximos dias, era uma das mais novas cadeiras, a Passo do Vento da Escritura Negra, Clementine Fazeia Quintia.
Khajiit recebeu a orientação de Lorde Temyr e refez seu planejamento.
Já esperei cinco anos, posso esperar mais alguns meses, esse projeto não foi em vão… não foi.
Era o que ele pensava nos aposentos dele enquanto lavava em uma bacia as mãos manchadas com o sangue das pessoas que vinha sacrificando a algum tempo.
- FIM DA INTERMISSÃO -
NOTA DO AUTOR:
Opa, como no trabalho original não se fala muito sobre Katze, nesse AU eu vou dar um pano de fundo para está área de Mortos-Vivos.
Trívia:
A mulher sacrificada é a aventureira de prata que apareceu na Intermissão 2.
Vlw?
.
.
.
Fiquem em paz.
