Uma sombra ia pela noite.

Andando pelos becos sujos dos bairros da periferia da capital, a sombra, que usava uma capa negra, caminhava depressa. Chegando aonde queria, bateu delicadamente numa porta.

Um olhar azul e cínico encarou a sombra através de um visor.

_Quem é?

_Pássaro da noite.

_Entre.

O lugar era escuro e um tanto úmido. Um homem loiro e alto surgiu de dentro de um cômodo e sorriu.

_Ora, quem eu vejo por aqui! Não esperava sua visita… Illa.

Illa, pois era justamente ela, tirou a capa.

_Foi um sufoco pra conseguir enganar os guardas e as criadas e conseguir sair do palácio sem ser vista, mas enfim… Preciso de sua ajuda, Hux.

_Depende…

_Novamente com seus joguinhos… Tá, depende do quê?

_Ora, minha querida, depende do que vou ganhar com o que quer que você esteja planejando!

Illa fez uma cara de enfado.

_Você sabe o que eu quero.

_Minha linda, você já mora do palácio, no meio do luxo. E basta você estalar os dedos que seu principezinho vem correndo igual a um cachorrinho, lambendo seus pés… Que mais você quer?

Os olhos verdes da mulher brilharam.

_Eu não quero isso! Quero o poder! Só o poder TOTAL será o suficiente pra mim!

_Achei que amasse o príncipe… - O tom de Hux soou cínico demais até pra ele.

_Eu até gosto de Ben. Ele me diverte e ajuda que minha vida naquele palácio chato cheio de regras estúpidas não seja um tédio total.

_Mas…

_Ele não é você…

Os dois se beijaram e logo se agarraram, num frenesi que só acabou horas depois. Porém, é lógico que Hux percebeu algo "diferente" em Illa.

_Espere… Está grávida?

Illa fez que sim.

_E quem é o pai?

_Ben, claro! Quem mais seria?

_Ora, vamos, minha querida…

_Meu filho é filho de Ben Solo! E ponto final!

É claro que Hux não acreditava nela, mas resolveu não insistir nesse ponto. Vai que…

_E nem assim, você conseguiu casar com ele…

_Por causa da bruxa velha da mãe dele! A velha desgraçada trouxe uma priminha dele lá das profundas de Arch-to e fez a garota casar com Ben!

_Eu soube que a moça é bem bonita…

_Não é nenhuma beleza fora do comum! Conheço pelo menos umas mil garotas mais bonitas que ela!

_Não fique com ciúme, fofinha! Tenho certeza que você é mais linda que qualquer priminha remediada…

_Mas justamente ela é o problema! Se a desgraçadinha engravidar, o filho dela tirará a chance do meu filho e por conseguinte, A MINHA, de chegar até o trono!

_Entendo… Então, imagino que você queira que eu me livre da priminha, antes que ela embuche do Ben.. É por isso que está aqui?

_Não pretendia ter que chegar a tanto, mas… sim. Por mim e por meu filho, eu faço qualquer coisa. E quando digo qualquer coisa, é QUALQUER COISA MESMO! E você meu querido, é o melhor no que faz, na hora de se livrar de pessoas, digamos, "inconvenientes"…

_Então tenho carta branca pra agir como quiser?

_Só não faça besteiras tipo envenenamento ou outra coisa clichê. Prefiro que pareça um acidente. Porque se não parecer e alguém desconfiar de algo, virão logo pra cima de mim e tudo estará arruinado. Entendeu?

_Deixe comigo. Ninguém desconfiará de você. E outra coisa, o que eu levo nessa?
_A gratidão de sua futura rainha não será suficiente?

Hux fez uma cara muito irônica.

_Eu imaginei que não… - Illa passou-lhe um saco de diamantes. - Tome. Receberá dez vezes isso e o posto de comandante das tropas de Alderaan se der certo!

Porém, havia algo que Illa não sabia.

Ela desconhecia alguns fatos sobre Rey que tornariam aquilo que pretendia bem difícil, senão, quase impossível.

Rey era uma jedi, alguém sensível à força, que era um dom de que só os membros com o sangue da família real dispunham. Ela podia fazer, sentir, ouvir e ver coisas que pessoas comuns não podiam.

Não que fosse algo natural como respirar ou comer. Ela mesma teve de treinar seus dons desde a infância e a cada ano ia ficando mais poderosa.

Porém, Rey não costumava mostrar isso em público, especialmente porque não queria assustar as pessoas. Uma vez, uma única vez, uma outra noviça do templo a irritara tanto com suas brincadeiras de mal gosto, que a garota, cega de raiva, quase a matara sufocada. Foi preciso Luke intervir e bloquear a filha antes que uma tragédia acontecesse.

Desde então, Rey procurava não usar muito seus poderes, especialmente quando se irritava, temendo ter outro ataque de fúria.

Mas, inconscientemente, a jovem princesa ainda conseguia sentir certas coisas no ar. Ela podia sentir, quase que numa premonição, quando estava em perigo, por exemplo.

E foi isso que a salvou…

Foi num dia especial. Era uma das muitas comemorações que a família real presidia ao longo do ano, tais como a festa dos ancestrais no início do verão, em que os antigos membros da realeza eram relembrados e honrados, a concessão de escalões, em que a rainha concedia escalões aos membros da corte e premiações aos súditos merecedores, a cerimônia dos cavalos imperiais, em que as montarias do exército desfilavam diante da família real e do povo num desfile especial e o divertido festival das flores, que comemorava o início da primavera. Nessa ocasião, as famílias, ricas e pobres, se reuniam, trocavam presentes, faziam banquetes especiais e usavam roupas coloridas e festivas, todos obviamente adornando a si, seus animais e suas casas com muitas flores. Quanto mais colorida e perfumada a decoração, melhor. Havia até concursos entre as cidades pra premiar a decoração primaveril mais bonita e também pra premiar um rei, uma rainha, um príncipe e uma princesa do festival. Os vencedores, além de ganharem prêmios especiais, também tinham a honra de jantar com a família real.

Era a ocasião perfeita, portanto, para Illa conseguir o que queria.

A capital estava lotada de gente vinda de todos os cantos do planeta, portanto ninguém perceberia a presença de estranhos rondando furtivamente o palácio real.

Um tipo, aparentemente inofensivo, ficou a rodear as imensas muralhas, como que procurando uma falha pra poder entrar. Quem o visse, com roupas coloridas e vistosas, como as todos estavam usando na ocasião, nem imaginaria que estava diante de um assassino extremamente perigoso e sagaz.

E ele trazia a morte consigo de uma forma quase imperceptível… Vermes do deserto de nara.

Era criaturas brancas e bem pequenininhas, coisa de centímetros. Porém, apenas uma picada das terríveis criaturinhas e o infeliz já podia encomendar seu caixão. Não duraria nem uma hora, se tanto.

Quem visse os pequeninos monstrinhos, nem imaginaria o quão violento era o veneno de seus corpinhos. Mas quem já tinha sido mordido por um deles, JAMAIS voltara pra contar história. O efeito era 100% fatal.

E volta e meia, mesmo na capital, alguém era vítima de um verme do deserto. Era a maneira ideal de eliminar um desafeto: era limpo, sem sangue e sem necessidade de procurar culpados. Apenas uma infeliz fatalidade que acometera um azarado que tivera a má sorte de topar com um dos animaizinhos mais venenosos de Alderaan. É claro que a polícia sempre desconfiava, mesmo que levemente, que certas vítimas não foram exatamente vítimas do "azar", mas não havia como provar nada contra ninguém. Afinal, quem seria louco pra chegar perto de uma coisinha dessas, mesmo que fosse pra usá-la contra um inimigo?

Aparentemente, só Boba Fett mesmo.

Ele fora bem pago por Hux pra fazer o serviço sujo. Afinal, um caçador de recompensas sem honra como aquele mandaloriano, era a única pessoa que ele, Hux, conhecia que sabia mexer com qualquer tipo de coisa ou bicho que pudesse matar alguém sem ser notado.

_Ah, aqui… - Um buraquinho minúsculo no muro foi bem providencial. - Agora vamos, minhas belezinhas. Façam seu show.

10 verminhos, que Boba treinara ninguém sabia como, saíram de uma caixinha de madeira, bamboleando pelo buraquinho, um atrás do outro. Eram tão pequenos que ninguém percebeu sua presença.

Isto é, quase ninguém.

Rey estava no salão de festas, dançando e cantando quando sentiu algo estranho no ar. Não sabia exatamente o que era, mas sabia que não era coisa boa.

A sensação foi se tornando cada vez pior. Ela sabia que algo estava vindo.

E estava vindo pegar a ELA, especificamente.

Sem que ninguém entendesse nada, Rey saiu correndo pro jardim. Ali, ela avistou os vermes vindo.

Como todo mundo no planeta, a garota sabia muito o que uma picada daquelas coisas podia fazer. E também sabia que quando um verme daqueles escolhia um alvo, JAMAIS desistia até conseguir acertá-lo.

Portanto, tinha de matá-los logo.

O problema era como fazer isso. Porque além de serem tão viscosos que era quase impossível pegá-los, os bichinhos eram rápidos como raios e pior ainda… ainda voavam!

Mas uma jovem jedi tão poderosa como Rey Skywalker não seria vencida por um bando de vermes nojentos. Pegando seu sabre azul, ela preparou-se pro combate.

Uma multidão ficou a olhar de longe, todos olhando apavorados. Uma só picada mataria Rey.

Os monstrinhos se puseram em fila e pularam direto pra cima da garota. Ela pulou pro lado mas os bichinhos a seguiram, voando. Usando seu sabre, ela conseguiu cortar alguns vermes ao meio, mas outros se viraram por trás dela e quase conseguiram mordê-la, mas ela sempre conseguia pressentir os ataques e evitá-los.

Por fim, acabou. Rey sentiu náusea por estar toda suja e melada de gosma de vermes.

Ahsoka, Aayla e Finn vieram correndo.

_Minha senhora, está bem? Está ferida? Algum dos vermes a mordeu? - Os três foram perguntando em sequência.

_Não, tudo bem, estou bem. Acho que não fui picada.

_Venha pra dentro, vamos lhe preparar um banho.

_Bem que estou precisando mesmo…

Illa rilhava os dentes de ódio. NÃO ERA POSSÍVEL! Ninguém jamais conseguira escapar daqueles vermes alguma vez! NINGUÉM!

Não… Tinha de haver um jeito de acabar de uma vez com aquela peste de garota. Por causa dela, não podia mais ver Ben e seu filho (e ela por extensão) ainda estava arriscado a perder o trono, se a maldita engravidasse.

Como ela poderia fazer? Mas espere aí… SIM! Como Rey não podia ser atacada fisicamente, por que não acabar com a REPUTAÇÃO dela?

Sim… Mas como ela poderia fazer isso? Novamente, noite adentro, Illa foi até Hux e expôs sua ideia.

_Sim, a ideia não é ruim… Destruir a reputação da princesinha diante de todo o planeta acabaria com ela pra sempre, sem que a gente precisasse mover um dedo… Mas isso precisa ser feito com cuidado… Espere! Por acaso, há algum escravo homem a serviço dela?

_Sim, a talzinha tem um escravinho que fica que nem um cachorrinho atrás dela… Acho até que o bobão é apaixonado por ela… tolinho…

_Isso é ainda melhor que a encomenda… - Hux rio, esfregou as mãos num gesto de contentamento e pegou um frasco com uma bebida transparente. Parecia água. - Tome.

_O que é?

_É uma poção do amor poderosa. Ninguém resiste aos seus efeitos. Uma gota disso e a pessoa vira uma égua no cio.

_Acho que entendi… Ponho um pouco disso na bebida dela, um pouco na bebida do escravo e o resto se faz por si próprio!

_Exatamente. Não tem gosto, nem cheiro e nem cor. Só não exagere muito. Uma gotinha só já faz o efeito necessário. Mas tem uma coisa.

_O quê?

_Vai ter que esperar um pouco pra usar a poção.

_Esperar? Por quê? Essa coisa é perfeita!

_Pense! Uma coisa muito perto da outra despertará suspeitas! E você não quer isso, quer?

_É, você tem razão, querido… Esperarei. Só não esperarei muito…

Mas Illa era uma mulher oportunista. E esperar não era muito seu forte.

No meio das celebrações, havia um tipo de torneio, especialmente perigoso, feito como um sacrifício pra honrar a deusa da terra. Um participante, homem ou mulher, especialmente escolhido, devia enfrentar um amargospinus, um monstro carnívoro com mais de 12 metros de altura. Seu longo pescoço e cauda forneciam um amplo raio de ataque para suas mandíbulas afiadas, enquanto suas espinhosas costas e cortantes pontas no pescoço ofereciam uma defesa quase impenetrável.

E pior, o infeliz participante devia enfrentar a terrível fera sem nada, sem arma alguma ou nada pra se defender.

Por isso, geralmente eram escolhidos ladrões, bandidos e notórios criminosos para essa finalidade. Se vencessem o monstro, seriam perdoados. SE vencessem, o que não era muito provável de acontecer.

E Illa viu nisso a oportunidade perfeita pra se livrar de Rey de uma vez por todas.

Mas… como introduzi-la na arena sem ninguém desconfiar de nada?

Ela teria de pensar. Teria de molhar algumas mãos… Mas no fim, conseguiria. Hux a ajudaria.

_Você quer o quê?

_Você ouviu, meu querido. É a ideia perfeita!

_E a poção?

_Você me disse pra esperar. Acontece que eu não posso esperar mais. A desgraçada dorme todas as noites com o MEU homem e se ela engravidar… Estará tudo acabado pra mim!

_Nada que um bom abortivo não resolva, meu amor…

_Sim, eu poderia usar algo assim, mas não quero ter que chegar a tanto… prefiro apagar a fogueira antes mesmo que ela acenda! Entendeu ou quer que eu desenhe?

_Tá, tá, me deixe pensar… O que você quer não é nada fácil. Vamos ter que molhar as mãos de muita gente GRANDE pra conseguir pôr a garota na arena!

_Fale com quem precisar! Dinheiro também não é o problema. Só tem uma coisa: Ben não pode nem sonhar com isso! Muito menos a rainha, claro!

Illa conhecia bem o pai de seu futuro filho. Ben Solo estava longe de ser o melhor homem do mundo, mas jamais aceitaria o que ela e Hux estavam tramando. Até ele tinha uma certa ética. Pequena, mas tinha.