Enquanto esperávamos por alguém aparecer, como num verdadeiro e necessário milagre, descobri mais uma coisa sobre Niki, o que já tinha confirmado minhas suspeitas. Ele não fazia ideia de quem Curd era, então tinha ido até a festa na mansão meio que obrigado. Eu acabei deixando escapar que o anfitrião também era meu ex namorado, o que eu me achei meio tola por contar.

É que tínhamos acabado de romper e Niki era a primeira pessoa com quem eu conversava logo depois disso e eu estava precisando desabafar com alguém, mesmo que fosse alguém que tinha acabado de conhecer.

Decidi poupar Niki do esforço meio em vão de ficar pedindo carona e assim, trocamos de lugar. Minha ideia foi boa porque logo em seguida um carro parou, uma dupla de amigos, habitantes locais, se ofereceu para nos ajudar, mas não pelo motivo que eu pensava.

De repente, os dois homens não paravam de bajular Niki, era como se eles não conseguissem me enxergar de jeito nenhum, seus olhos e atenção estavam completamente voltados para o meu mais novo amigo. Sem entender direito, nossos salvadores entregaram o volante a Niki e eu só fiquei mais confusa. Quem era esse cara afinal? Ele era tão simples, tão comum, como é que alguém tão asseado provocava aquela comoção toda? Só tinha um jeito de saciar minha dúvida cruel.

-Quem é você afinal de contas? Eu deveria te conhecer? - questionei nosso motorista diretamente.

-Moça, não sabe quem ele é? É o Niki Lauda! Piloto de Fórmula 1, acabou de assinar com a Ferrari - um dos homens me explicou.

Eu fiquei pasma e incrédula, não, não podia ser possível. Esse tal de Niki era conservador, não tinha um pingo da pinta de galã que os pilotos geralmente tinham, e além disso, ele estava dirigindo com cuidado demais, feito um velhinho. Quando eu argumentei com tudo isso, ele conseguiu ser mais espertinho que eu.

-Por que eu deveria correr se ninguém está me pagando? - ele me perguntou, completamente descontraído, se estivesse mais à vontade, tinha certeza que ele ainda dava um sorrisinho de lado depois de falar isso.

Ah então esse cara podia mesmo ser um espertalhão e um tanto cretino ao meu ver... Bom, decidi não deixar barato. Me inclinei em sua direção, empregando todo meu charme.

-Porque estou pedindo - disse docemente.

Eu queria só ver o que ele faria, e com certeza, Niki me fez engolir a língua, quase que literalmente. Ele correu como um verdadeiro piloto de corrida que seus fãs alegaram que ele era, quase morri do coração com suas curvas e ultrapassagens perigosas, mas ele estava seguro de si, de tudo que estava fazendo. Quando eu olhei pra ele, conseguindo me divertir e rir no meio de tanta adrenalina, o mesmo sorriso dele que eu tinha esperado surgir mais cedo, surgiu naquele momento, os dentes da frente ficaram ressaltados, mas isso não o impediu de sorrir genuinamente para mim, e esse pequeno gesto acabou me deixando satisfeita, meu pedido o tinha feito sorrir.

Quando o trânsito ficou mais pesado, ele teve a bondade e prudência de ter mais cuidado e ir mais devagar. Acabou que conseguimos chegar à estação de trem, agradecemos os fãs de Niki por sua ajuda e eles nos deixaram ali, foi então que depois da pequena aventura, voltei à realidade, meu carro ainda precisava de um reboque.

Eu procurei por um telefone público, pedindo por um reboque no meio da estrada para Trento, o que foi resolvido rapidamente. O problema era que eu não tinha como voltar para casa, sem dinheiro para uma passagem, ou um táxi. Acabei demonstrando minha decepção por um suspiro profundo.

-Você tá bem? Tem como voltar pra casa? - Niki me perguntou, o que me fez lembrar que ele ainda estava ali.

-Na verdade, não tenho não, eu achava que estava prevenida com o carro, mas ele me deixou na mão - dei de ombros, tentando lidar com o meu infortúnio.

-Eu te pago uma passagem - ele se ofereceu imediatamente, o que me deixou mais constrangida.

-O que? Ah meu Deus, eu... - seria muito burra se recusasse, estava completamente sem recursos naquele momento - eu vou ter que aceitar, mas me desculpa mesmo.

-Desculpar? Pelo que? - ele ficou confuso.

-Bom, você me pediu ajuda e é eu quem estou precisando da sua agora - sorri sem graça.

-Infortúnios acontecem, isso é normal, então não estranhe algo normal assim acontecer - ele soou despreocupado outra vez.

Eu fiquei surpresa em como ele conseguia ser tão prático.

-Mesmo assim, foi um dia e tanto - acabei comentando.

-Concordo, Marlene - ele assentiu, e vi que pelo menos nisso nós pensávamos igualmente.

Eu segui Niki até a bilheteria, entramos no trem que ia para Fiorano, sentando na mesma cabine, a viagem não seria tão longa, mas nos dava um tempo a mais para conversar. Talvez fosse nesse tempo que eu conseguisse desvendar mais sobre quem realmente era Niki Lauda.


A/N: E aqui temos o capítulo 2! O que estão achando? Não deixem de comentar, tchau!