O trem foi se movendo, nos deslocando até o nosso lugar de destino e de novo, um certo silêncio se instaurou entre nós, e eu tive que quebrá-lo de novo também.

-Então você é Niki Lauda... - comecei, sem ser muito original.

-Andreas Nikolaus Lauda pra ser mais preciso, mas eu prefiro NIki - ele acabou sorrindo da minha falta de jeito.

-Bom, Niki, como é que você foi virar piloto de corrida? Digo, eu ainda tô tendo dificuldades de acreditar que encontrei alguém famoso por acaso - fui sincera.

-Ah não fala assim, sabe, eu gosto de correr, eu realmente sou bom no que faço, mas não gosto de ser tratado como uma celebridade, com todos os interesseiros que só querem se aproveitar dos feitos que eu conquistei - mais uma vez ele foi direto e sincero.

-Nossa, isso realmente é diferente, você é diferente - eu também fui sincera - geralmente artistas e atletas gostam de toda essa atenção.

-Como você disse, eu sou diferente, não gosto de nada disso, digo, dos bajuladores falsos - constatou ele - mas você gosta desse tipo de coisa?

-Ah não, não, eu me cansei rápido disso - eu dei uma risadinha - eu achava que festas e glamour eram algo maravilhoso, mas só não passa de dor de cabeça, e falsidade, como você disse.

-E você também é famosa? - havia um brilho divertido no olhar de Niki quando ele me perguntou isso.

-Eu? Não, não, de jeito nenhum - ri outra vez, abanando a mão - eu sou só uma pequena modelo local, tentando uma carreira fixa, apareci em umas revistas aqui e ali, mas nada além disso.

-Oh entendo - ele assentiu, franzindo a cara, como se estivesse se concentrando em salvar em seu cérebro aquela informação sobre mim.

Eu me diverti com sua expressão, mas ele ainda não tinha respondido a minha pergunta.

-E você? Contei sobre mim, acho justo me contar de você - voltei a falar - como é que decidiu ser piloto? Sonhava com isso desde criança?

-Ah um pouco sim, mas minha família tinha outros planos pra mim - ele pareceu um pouco magoado ao dizer isso - eu tive que enfrentar o meu pai, quase me endividar, mas no fim, acabou dando tudo certo.

-Você fala com tanta convicção - comentei, me percebendo admirada por ele ser assim.

-É porque eu acredito na minha capacidade - ele disse como se fosse óbvio - se você colocar uma coisa na cabeça e se esforçar, é capaz de fazê-la.

-Então, além de mecânico e piloto, você tem outros talentos? - eu desviei um pouco a conversa, por mais que ele soasse um tanto convencido e arrogante, eu estava gostando da determinação de Niki.

-Pior que não, meus talentos são exclusivamente esses - ele me confessou - se fosse bom em outras coisas, também me dedicaria da mesma forma.

-Entendi, quem sabe você tem outros talentos escondidos - palpitei, tentando procurar um pouco mais além do piloto à minha frente.

-Talvez - foi o mais próximo de concordar comigo que ele chegou na nossa conversa no trem.

Finalmente, chegamos à estação e aquele era o momento em que nos separaríamos. Eu tinha gostado muito da companhia de Niki, com certeza ele era um cara bem diferente de todos os outros com que eu já tinha conversado.

-Bom, é isso então - me conformei com a despedida - eu só queria te agradecer, por tudo, foi muito legal ter pagado a passagem, não acho que outra pessoa faria isso.

-Obrigado... e de nada - ele ficou um pouco desconcertado, era como se o que eu dissesse tivesse o surpreendido, talvez fosse o fato de que realmente era uma coisa muito rara as pessoas serem gentis com estranhos.

Talvez Niki não ouvia muitos elogios desse tipo.

-Então, tchau - eu sorri, já me virando e me afastando, andando para longe dele.

De algum jeito, eu sabia que ele não tinha se mexido, tinha ficado me observando, de novo. O que será que estava passando naquela cabeça tão inteligente? (Pelo que eu tinha percebido, ele realmente era inteligente).

-Marlene - ele me chamou e eu me virei, esperando uma explicação para aquilo.

-Fala - eu respondi de forma simpática.

-Você... você... - ele tropeçou nas palavras, algo que eu não esperava de alguém tão seguro quanto Niki - você se importaria de me encontrar de novo? Digo, gostei de conversar com você, e eu quase não tenho amigos...

-Uau... isso é uma baita revelação - o comentário sarcástico tinha escapado rápido demais quando eu vi que ele tinha se incomodado um pouco, mas Niki deu de ombros - desculpa, não quis te ofender.

-Não tô ofendido - ele rebateu de imediato, num ato de auto defesa.

-Ficou sim, o que você acabou de fazer indica isso - me senti na obrigação de explicar, em poucas horas, eu tinha compreendido como Niki funcionava - enfim, me desculpe, eu só queria dizer que também gostei de conversar com você, não tem problema nenhum em ter poucos amigos, também não tenho tantas amizades assim.

-Então, podemos nos encontrar de novo? - era o que ele mais queria saber, não sobre a minha ladainha.

-Claro, é só me ligar - acabei oferecendo essa opção.

-Não, me liga você, quando estiver confortável e disponível - Niki foi cortês, o que eu achei gentil da parte dele, me dar essa opção de procurá-lo e não ele me perseguir como qualquer outro cara desrespeitoso.

Sem hesitar, ele tirou um cartão de visitas de dentro do paletó e em seguida uma caneta. Com a mão esquerda, logo notei que ele era canhoto, escreveu seu número pessoal, me entregando diretamente. Eu peguei, realmente disposta a ligar.

Eu tinha acabado de conhecer Niki mas sabia que não tinha interesses maldosos por trás de suas ações, ele estava nervoso, ansioso, com medo até, ouso dizer, tudo por esperar minha reação, só para ver o que eu faria.

-Então até um dia desses - eu me despedi de vez, entendendo que tínhamos mesmo que ir embora.

-Até, Marlene - Niki respondeu, num suspiro de esperança de me ver novamente.

Só então fomos para casa, cada um seguindo seu caminho. Quando enfim estava sozinha, minha opinião sobre Niki era de que ele realmente era um homem diferente e especial, no seu próprio jeito único de ser.


A/N: Escrever eles se apaixonando é tão bom gente... É mais ou menos assim que imagino o que aconteceu depois da carona da Marlene.