A minha vida voltou ao normal, pelo menos como eu estava acostumada, tirando o fato de que eu estava solteira outra vez, mas isso era bom, me sentia aliviada, sem necessidade nenhuma de ficar me lamentando.
Assim, segui em frente, procurando por mais trabalho e eventualmente conseguindo, o que me ajudava a manter meu apartamento em Fiorona.
Enquanto lidava com tudo isso, me lembrei de Niki ocasionalmente. Já fazia um bom tempo que tínhamos nos conhecido, e eu simplesmente não tive tempo de ligar para ele. Fiquei imaginando se ele não estaria ocupado demais, focado no trabalho, como eu sabia que ele estaria, por tudo que tinha me contado.
Foi num início de noite, que eu simplesmente sentei na minha sala, olhando em volta de mim, percebendo um certo silêncio e vazio. Nesse momento, percebi a vontade de ligar para Niki crescendo em mim. Bom, ele mesmo tinha dito que poderia ligar caso eu quisesse e me sentisse confortável, e de verdade, sentia que aquele era o momento ideal para fazer o telefonema.
Procurei por um tempo o cartão que ele tinha me dado, tinha certeza que tinha guardado na gaveta do armário da cozinha, mas olhei tudo e nada de estar lá.
Suspirei, um tanto desesperada. Eu realmente queria achar aquele cartãozinho, por isso me forcei a me lembrar onde tinha colocado. De repente, minha mente se iluminou, apalpei por cima da geladeira com a mão, e encontrei o bendito cartão. Estava meio empoeirado, mas mesmo assim não liguei, os números estavam bem legíveis.
Me sentei ao sofá, do lado do telefone, começando a discar, esperando com certa ansiedade sem motivo aparente. Para me deixar mais ansiosa, o telefone chamava e chamava e nada de Niki atender. Estava começando a ficar com raiva e querer desistir quando finalmente alguém atendeu.
-Alô - reconheci a voz de Niki do outro lado da linha, direto ao ponto, um tanto mau humorado ao meu ver, temi ter ligado num momento errado.
-Niki? É a Marlene - achei melhor esclarecer.
-Ah, você, que bom, que bom que é você - de repente ele mudou completamente o humor, ficando animado.
-Fico feliz que tenha gostado de ser eu - eu ri da reação dele - por um momento fiquei com medo de estar te atrapalhando de fazer algo importante.
-Bem, eu estava lendo, estudando um pouco quando você ligou - ele se explicou.
-Ah isso explica porque me soou tão... concentrado quando atendeu - eu tentei brincar um pouco.
-Tá bom, não precisa ser sarcástica, eu entendi, eu realmente fiquei um pouco irritado por ser interrompido, mas por você, abri uma exceção - ele foi sincero como sempre.
-É mesmo? Por que eu sou tão privilegiada assim? - queria ver o que ele me responderia, mas lá no fundo queria mesmo saber o que ele achava de mim.
-Eu gosto de você... - Niki estava inseguro e incerto, como se quisesse dizer isso por amizade, mas tinha muito mais além disso.
-Também gosto de você - respondi no automático, ainda meio espantada por ter reparado nesses detalhes, achei melhor mudar de assunto - Sobre o que estava estudando?
-Um artigo sobre umas descobertas no ramo de engenharia, estava procurando umas ideias novas pra atualizar meu carro pras próximas corridas - ele voltou a ficar descontraído e à vontade.
-Ah é, a Fórmula 1! - me lembrei da sua famigerada profissão - está ansioso em correr novamente?
-Não muito, eu estou preparado, mas sempre tem surpresas e novidades, cada corrida é uma nova experiência, mas os pilotos tem que se manter focados da mesma maneira uniforme - Niki me disse metodicamente - é o que se espera pelo menos.
-Hum, entendi, nem todos levam a sério como você? - compreendi que era a isso que ele estava se referindo.
-É, não quero me gabar, mas é verdade que pra alguns é só uma corrida que eles ficam esperando pra ver se vão vencer - ele me respondeu.
-Acho que foi a primeira vez que você me disse que não queria se gabar - apontei - mas acho que concordo com você, eu não sou de assistir corridas, mas sempre tenho a impressão de que se trata apenas de dirigir muito rápido e ultrapassar a linha de chegada.
-Não, te garanto que envolve muito mais que isso - ele afirmou.
-Tudo me parece bem mais complicado pelas suas explicações - comentei.
-Te deixa confusa ou entediada? - ele soou preocupado.
-Não, de jeito nenhum - eu o tranquilizei - só entendi melhor que Fórmula 1 é muito mais complexo do que eu imaginava.
-É sim - ele falou como se estivesse sorrindo.
-Bom, depois dessa explicação toda, é melhor eu deixar você estudar - eu o deixei com suas importantes responsabilidades.
-Está bem, eu agradeço por me entender - ele falou e ficou mais um tempo segurando o telefone, sem motivo aparente.
-Niki, você tá aí? - perguntei, preocupada, depois dos instantes de silêncio.
-Tô, tô sim - ele voltou a falar, meio esbaforido - é que eu tava pensando uma coisa...
-Pensando? Bom, se quiser me contar o que é, estou bem aqui - estava disposta a conversar mais se ele quisesse.
-Você jantaria comigo amanhã? Eu posso te buscar? - ele deixou as perguntas no ar, e fiquei meio sem saber o que fazer, não dava para ter certeza das intenções de Niki, mas mesmo assim, no fundo do meu coração sabia que ele não tinha malícia nenhuma.
-Tá bem, eu jantaria sim - confirmei - quer que eu te dê meu endereço?
-Por favor - Niki soou animado.
Eu contei onde morava e ele anotou rapidamente.
-Então nos vemos amanhã, boa noite Niki - me despedi de vez, deixando mais conversas para o dia seguinte.
-Obrigado, boa noite, Marlene - respondeu ele docemente.
Aparentemente, eu tinha acabado de marcar um encontro com Niki Lauda e isso não me parecia nem um pouco ruim.
A/N: Pois é, assim as coisas vão avançando mais um pouco. No próximo capítulo, vamos ter o POV do Niki. Decidi que é melhor explorar bem os pensamentos pessoais um do outro. Nos vemos lá!
