Finalmente as coisas tinham começado a dar certo pra mim. Eu sei que tinha me arriscado, saindo de casa, fazendo um empréstimo, comprando uma vaga na Fórmula 1 com todas as chances contra mim, mas no fim, com esforço e trabalho pesado, tudo estava sendo recompensado, eu agora estava na Ferrari, a mais conceituada escuderia da época. (Por mais que houvessem detalhes a serem aperfeiçoados aqui e ali).

Eu nunca fui de ser muito social, mas eu sabia que essa parte era importante, ser acessível o suficiente diante de todos para causar boa impressão. Me sentia um palhaço só de pensar nesse conceito, mas enfim, era isso que as pessoas queriam e esperavam, foi mais por isso que aceitei o convite de Clay e acompanhá-lo à festa de um amigo.

Confesso que quando ele disse que eu era um cara solitário doeu um pouco dentro de mim. Geralmente, as pessoas não entendiam meu jeito então eu não ligava muito se elas quisessem se afastar de mim, mas mesmo assim, aquela sensação de vazio continuava dentro de mim. As corridas e vitórias ajudavam a preencher um pouco, mas ainda assim, não pareciam ser completamente suficientes.

Voltando à festa, ao ver o local lotado e o tipo de pessoa que estava ali, não pensei nem duas vezes em dar meia volta para trás. Tinha certeza que não me sentiria bem ali, e não era obrigado a ficar onde não queria de propósito.

Foi quando eu vi uma válvula de escape na bela moça que estava saindo também. Ela foi gentil e simpática comigo, e eu acabei puxando assunto de um jeito que ela não gostou muito pelo visto, mas no fim das contas, eu tinha razão e ela mesma decidiu dar o braço a torcer.

Descobri que seu nome era Marlene e que éramos ambos de Viena, foi uma feliz coincidência. Depois de parados na estrada e salvos por dois entusiastas fãs que me conheciam, as coisas começaram a ficar meio difusas para mim.

Nós conversamos, respondi as perguntas dela sobre mim, sendo sincero, sem apelar para floreios ou fingimentos, eu nunca conseguia ser tão dissimulado a esse ponto.

Eu fui prestando atenção em Marlene, ela era divertida, esperta, parecia compreender exatamente o que se passava na minha cabeça sem muitos esforços. Era incrível como eu tinha me sentido tão à vontade perto dela tão rápido, como quase nunca acontecia com outras pessoas.

Essa boa impressão dela me impulsionou a não deixá-la ir tão rápido, alguém que tinha gostado da minha companhia era digno de ter mais atenção. Eu preferi dar meu telefone a ela e esperar ela me ligar, eu não era bobo, sabia como tudo aquilo poderia parecer, o estranho tentando se aproveitar da moça que tinha acabado de conhecer.

Nós nos despedimos então, e eu voltei a treinar, completamente focado no campeonato que estava à minha frente, mas ocasionalmente, eu lembrava de Marlene, da maneira atenciosa e interessada que conversou comigo, sem parecer nenhum pouco entediada ou irritada com o meu jeito, sem caçoar de mim. Ainda assim, lembrava do comentário dela sobre eu não ter cara de piloto e ter provado o contrário na prática, nem isso tinha me ofendido. Percebi que precisava vê-la outra vez, para que pudéssemos conversar sem a correria e confusão de contratempos repentinos.

O problema é que eu não tinha o número dela, não sairia por aí olhando a lista telefônica feito um louco só porque não parava de pensar em Marlene, eu não estava tão desesperado assim, ou será que estava?

Eu estava, é claro que eu estava, lentamente fui sucumbindo ao sentimento tolo e frívolo, mas que me causava uma sensação tão maravilhosa... O que eu podia fazer agora? Tinha me comprometido ao conceito de que se eu a procurasse pareceria um maníaco desrespeitoso, mas não haveria outro jeito de rever Marlene se eu não fizesse isso...

Por ora, decidi deixar as coisas como estavam, eu não a incomodaria de surpresa, pensaria em algo melhor que isso para retomarmos contato, assim retornei às minhas prioridades de sempre.

Parece que tinha sido recompensado por fazer o que julguei ser o certo. É claro, me irritei quando o telefone me distraiu naquele momento que estava tão compenetrado, mas tudo mudou quando eu ouvi a voz dela.

-Ah que bom, que bom que é você - respondi ao telefone maravilhado, aliviado.

Era incrível como Marlene notou meu mau humor e exatamente porque estava irritado, era como se ela tivesse o poder sobrenatural de ler a minha mente, mais uma coisa que comprovou a mim o quanto ela me entendia, mas ela não me repreendeu sobre isso. Continuou perguntando sobre o trabalho e até respeitou o fato e o motivo de eu estar ocupado no momento. Eu realmente me sentia um sortudo, ela tinha me ligado de volta, eu não poderia perder a oportunidade, estava somente nas minhas mãos fazer algo para manter Marlene por perto.

-Você jantaria comigo amanhã? Eu posso te buscar? - eu me arrisquei, sem rodeios, apostando todas as minhas fichas.

-Tá bem, eu jantaria sim - ela acabou aceitando, para minha alegria.

Combinamos tudo para o dia seguinte e por fim, esperei que ela se despedisse primeiro, e dei meu último boa noite, por enquanto. Quando desliguei o telefone, minha mente começou a se mover como um turbilhão, se eu quisesse dizer a Marlene o que eu sentia sobre ela, tinha que ser na noite seguinte. Eu me preparei o melhor que pude para esse desafio, pensando em cada palavra que usaria, o que diria, o que faria. Só restava esperar, torcendo para que eu não esquecesse de nenhum passo dos meus planos e que no fim das contas, Marlene me correspondesse da mesma forma.


A/N: E aí? Gostaram de como eu escrevo o Niki? Vai ter mais capítulos narrados por ele, mas acho que a maioria vão ser da Marlene. Até a próxima!