Niki continuou constantemente com suas visitas à minha casa, com convites para sairmos juntos ou às vezes, simplesmente tomarmos um café, que por sinal, ele sabia fazer como ninguém.
-Onde aprendeu a fazer um café tão bom assim? - eu tive que perguntar uma vez.
-Quando se mora sozinho, você aprende a se virar - foi a simples resposta dele.
-Mas duvido que acertou de primeira - comentei sobre suas habilidades culinárias.
-Ah não, claro que não - ele não mentiu - como tudo na vida, a primeira vez que fazemos alguma coisa não dá muito certo.
-Isso inclui até suas corridas? - perguntei, por curiosidade.
-Com certeza inclui as corridas - Niki assentiu, um tanto divertido, e por isso fiquei contente por fazê-lo recordar de boas memórias.
-Só que é como dizem, não é? - ergui minha xícara de café - a prática leva à perfeição.
-É, esse ditado está certo, eu fui melhorando bastante com o tempo - Niki concordou comigo.
É claro que eu também fazia minhas visitas a sua casa, era gratificante ver como ele mantinha tudo arrumado e em ordem, bem do jeito dele. Niki conseguia ser muito mais organizado que eu, não que eu fosse bagunceira, mas às vezes ficava difícil competir com sua arrumação compulsória. Foi mais uma das manias dele com que acabei me acostumando.
Conforme os meses foram passando, Niki foi ficando mais ocupado, suas corridas foram se intensificando e infelizmente, sua agenda foi ficando cada vez mais restrita para mim. Eu percebi isso, claro, mas entendi que era um momento crucial para o seu trabalho e eu não queria atrapalhar de jeito nenhum.
No entanto, fiquei contente ao descobrir que ele também sentia minha falta, quando começou a me ligar constantemente. Eram ligações curtas, nos raros intervalos que ele tinha, mas fazia questão de perguntar sobre o meu dia e ficar quietinho, apenas me ouvindo, com certeza, compensando o tempo em que não nos víamos.
Então chegou a hora de Niki viajar para a América do Sul, ele disputaria o Grand Prix da Argentina. Pra ser sincera, não entendia muito bem o que isso queria dizer, só que eu ficaria ainda mais longe dele por pelo menos duas semanas. Antes de partir, ele me fez uma visita surpresa, o que me deixou feliz, com certeza, mas com um pouco de raiva.
Estava no meio da noite, e eu vasculhando a geladeira atrás de um rápido tira gosto que aplacaria aquela fome típica de depois do jantar. Eu vestia meu pijama mais velho, porém o mais confortável de todos, e meu cabelo estava bem bagunçado. Ou seja, não parecia nem um pouco com a modelo exemplar que deveria ser, mas dando um desconto, eu estava em casa naquele momento, não era louca de sair daquele jeito.
Foi por isso que quando ouvi a campainha tocar, fui até lá tentando alisar os cabelos com a mão, colocando os fios rebeldes atrás da orelha, só para dar uma ajeitada e parecer melhor para a visita repentina, e aí, ao abrir a porta, me dei de cara com Niki.
-Ai meu Deus, você! - eu o calei com um abraço, enquanto o apertava até demais, ouvi ele pigarreando como se engolisse de uma vez o que ia dizer.
-Também senti sua falta... - ele riu baixinho.
-É, mas... - depois que o soltei fiquei com raiva, lembrando do meu estado deplorável - devia ter me avisado que vinha!
-Que foi? Eu achei que gostava de surpresas e que estava sentindo minha falta... - ele levantou as mãos, em sua defesa e em dúvida.
-É claro que eu tô, mas olha pra mim, eu tô horrível, não, melhor, não olha, nem presta atenção em mim - eu o empurrei para dentro, o fazendo se sentar no sofá, com pressa - eu já volto.
Eu ia andando para o meu quarto, com a intenção de me trocar, mas ele me segurou pela mão.
-Onde você vai e por que? - ele me questionou, com toda razão, sabia que devia estar parecendo muito estranha para ele.
-Eu não posso receber meu namorado nesse estado, eu estou muito desleixada - me justifiquei.
-Você é muitas coisas, mas desleixada não é uma delas - Niki segurou minha mão nas dele, me olhando com bondade.
-Tá bem - por suas palavras e bondade, acreditei nele, respirei fundo e sentei ao seu lado.
-Você não tá horrível, sério - Niki me garantiu mais uma vez, beijando minha bochecha.
-Obrigada - dei um sorriso tímido, baixando a cabeça e me sentindo muito tola pelo meu showzinho - desculpa.
-Sem problemas - ele assentiu, me entendendo - eu gosto de você, não importa a sua aparência.
-Não tá mentindo, né, Niki? - eu olhei de novo para ele, rindo baixinho.
-Claro que não - disse ele, me beijando de um jeito que tirou minhas dúvidas.
Ele me contou dos preparativos da viagem, e conforme a conversa foi se desenrolando, me senti à vontade, mesmo usando pijama na frente do meu namorado que era tão exigente pra algumas coisas, mas tão maleável para outras.
Ele teve que ir logo, teria que pegar um avião particular logo cedo, então em nossa despedida, o beijei desejando sorte e que voltasse logo.
Quanto a mim, lidei relativamente bem com a ausência de Niki, mas no domingo, quando a corrida seria transmitida, estava na frente da TV, acompanhando tudo, como raramente eu fazia. Ainda assim, todos aqueles elementos de corrida eram novos e confusos para mim e tudo que me fazia ficar completamente concentrada era ouvir Niki Lauda, e acompanhar os carros vermelhos da Ferrari. A emoção de acompanhar de longe era imensa e por um momento, imaginei como seria ver tudo mais de perto, ou até mesmo, estar na pista em si. Entendi Niki e sua vontade de correr um pouco melhor por isso.
A/N: Depois desse capítulo, tive plena certeza de que não consigo escrever nenhum casal sem fazer os dois sendo fofinhos. Até o próximo capítulo, pessoal!
