Era de manhã quando eu me preparei para o grande compromisso do dia, claro, ele era mais de Niki do que meu, parte essencial do seu trabalho, mas meu namorado tinha feito questão de me incluir, e me fazer parte disso também, o que me deixou feliz.
Eu beijei Niki ao vê-lo na minha porta, ele estava com pressa, animado, porém contido, ele não era de demonstrar sua euforia de um jeito exagerado, mas só de ver os cantos dos seus lábios se curvando num leve sorriso de empolgação já me dizia muito sobre seu estado de espírito.
Enquanto ele dirigia, notei que não havia remédio, no meio das ruas e do tráfego normal, ele era o mais cauteloso dos motoristas. É claro, isso era bom, como ele mesmo dizia, era uma questão de segurança, mas eu não deixava de lembrar de como ele dirigiu rápido e perigosamente só para provar que era um genuíno piloto, e eu tinha pedido por isso, então ele tecnicamente atendeu um pedido meu, bem ao seu modo alucinante.
Eu ri baixinho sozinha, Niki me olhou confuso, mas um segundo depois, não precisei explicar qual era o motivo do meu riso. Quando olhei pra ele de volta, estava estampado na cara dele que sabia que eu tinha lembrado de quando nos conhecemos.
-Não se preocupe, você vai ver como posso ser bem rápido num carro que é apropriado pra isso - ele me garantiu e eu apenas assenti, também me animando.
O circuito de testes da Ferrari não tinha mais nada de especial além do nome da famosa escuderia em si, na frente de tudo. Era um autódromo como os outros, havia o prédio principal, a pista, arquibancadas, e só, pelo que pude perceber conforme nos aproximávamos. Ah, isso era o que tinha visualmente. Conforme fui adentrando mais o local, ouvi de longe os motores dos carros funcionando, correndo pela pista, mesmo fora da minha vista.
-Eu vou me preparar e já volto - Niki me avisou.
-Onde é que eu fico enquanto te espero? - me pareceu uma pergunta tola, mas eu estava um tanto perdida.
-Pode ir até os boxes - ele me instruiu - eu te encontro lá, a equipe já deve estar lá. Só tem que pegar aquele caminho principal que passamos ao lado quando entramos, e depois é só entrar lá, não tem segredo.
-Tá bem - eu assenti, entendendo tudo.
Tomei o caminho que Niki me ensinou, seguindo tudo direitinho. Cheguei onde deveria e olhei o lugar, era bem espaçoso quando olhado de perto do que visto da TV. Não achei nada demais ali também, estava cheio de equipamentos para o carro. Num cantinho mais discreto, achei um pequeno tesouro, era outra coisa que eu já tinha visto pela TV, e que me causou um certo maravilhamento ao ver de perto.
Era o capacete de Niki, seu nome e sobrenome escritos em branco com letras maiúsculas, destacadas. Toquei o objeto, o observando. Estava tão lustroso que chegava a reluzir conforme eu mexia, me perguntei se era ele mesmo que limpava ou um funcionário muito dedicado.
-Acho que isso é meu - ouvi a voz de Niki com arrogância brincalhona, mesmo assim, sua repentina aparição me fez me sobressaltar.
Me virei de uma vez e fiquei um tanto paralisada com quem vi na minha frente. Era Niki, com certeza, mas usando o macacão vermelho da equipe, cheio de logos dos patrocinadores, e para completar o visual de piloto, usava um óculos escuro. Não sei porque mas ele parecia tão mais bonito desse jeito, eu fiquei um pouco sem palavras por conta disso.
-Claro, desculpa... - dei um sorrisinho sem graça, entregando o capacete a ele.
-Não tem problema, você parece ter ficado... Assustada? - o próprio Niki duvidou de eu que poderia estar assim.
-Assus... Assustada, eu? Bom, você me pegou de surpresa, aparecendo desse jeito - eu me justifiquei, e não consegui esconder o que estava pensando por muito tempo - é que... Eu me surpreendi te vendo vestido desse jeito...
-É o uniforme padrão, não tem nada demais nele - por reflexo, Niki olhou para a própria vestimenta.
-É que você fica bonito de uniforme... - falei baixinho, desviando o olhar do meu namorado, mas ele tinha entendido mesmo assim, pelo sorrisinho que deu.
-Obrigado - Niki se aproximou de mim, beijando minha bochecha.
Ele se afastou para se concentrar no que estava ali para fazer, que não era flertar comigo. Membros da equipe o auxiliaram, empurrando o carro que Niki usava, que já tinha ganhado várias corridas naquele ano. Eu o vi se concentrar, se apertar naquele espaço minúsculo e caber milagrosamente ali. Prenderam seu cinto, lhe deram o volante que ele encaixou no lugar. Depois da autorização de todos os envolvidos, Niki arrancou, deixando a poeira para trás, e eu virei o pescoço de uma vez, para acompanhá-lo em tamanha rapidez.
De longe, dava para ver suas curvas e manobras, mesmo não entendendo direito o que estava acontecendo por causa da distância, mas ainda assim, ficar olhando o veículo em alta velocidade me deixou vidrada.
Eu só fui interrompida pelos membros da equipe. Elogiaram Niki, reclamaram um pouco da sua personalidade (o que eu entendia perfeitamente), e por fim, perguntaram quem eu era e estava fazendo ali. Quando me apresentei como Marlene Knaus, a namorada de Niki, o clima de incredulidade e dúvida foi geral
Eu deveria esperar uma reação assim, porque Niki era difícil e genioso, mas para mim, essas características eram facilmente ignoradas. Quanto mais convivia com ele, mas me habituava a isso, de modo que não fazia mais tanta diferença para mim, sabia lidar perfeitamente com isso.
Os rapazes da equipe não foram os únicos a questionarem meu namoro. Um tempo depois, outro carro que estava em movimento até pouco tempo atrás, chegou aos boxes. Não prestei muita atenção no piloto, não querendo interromper seu trabalho, porém, quando ele terminou de falar com a equipe, veio até mim.
-Oi, você é nova por aqui? Não nos conhecemos, espera aí... - quando ele parou de falar, o achei estranhamente familiar - te conheço de algum lugar...
-É, eu também já te vi, você conhece um amigo do Jurgens, não é? Já te vi em outras festas dele - fui me lembrando - você é o... Clay!
-Isso mesmo - ele apertou a minha mão - é um prazer revê-la.
-Marlene - me apresentei - deve estar se perguntando o que estou fazendo aqui.
-Não queria ser grosseiro, mas é o que estou pensando - Clay riu um pouco.
-Bom, não sei se Niki disse alguma coisa, mas ele me convidou pra ver o treino - contei.
-Então você é a namorada dele? - Clay também ficou incrédulo - eu custei a acreditar que ele não tava mentindo...
-Pois é, parece que ninguém acredita muito nisso - eu acabei rindo da situação - mas eu gosto bastante dele, mesmo com todos os defeitos.
-Eu sei que a gente reclama bastante dele, mas no fundo Niki é gente boa - Clay me assegurou.
-Sim, ele é - respondi com toda certeza e orgulho.
Não era à toa que eu estava ali, era por conhecê-lo e amá-lo que estava o prestigiando. O jeito focado de Niki o tinham levado a ser um piloto bem sucedido, que eu observava no momento, ainda treinando, com todo amor e satisfação.
