Eu tinha saído do circuito animada, mesmo tendo que ir antes de Niki. Ele tinha insistido pra que eu fosse embora, não por estar envergonhado ou intimidado por eu estar ali, era só sua preocupação com eu estar ficando entediada e que ele tinha alguns assuntos burocráticos para tratar, talvez não tivesse paciência para ficar esperando por ele.

Compreendendo-o muito bem, deixei claro que não tinha problema nenhum, me despedi, lhe desejando um bom restante de dia de trabalho. À noite, como sempre, Niki veio me visitar, esperando minha opinião sobre o que eu tinha visto hoje.

-Olha, por mais que não entenda tudo por completo, eu achei emocionante só de ficar olhando - falei para ele - dava pra ver o quão rápido você estava, deve ser uma baita sensação pra você...

-Confesso que tem sim uma certa empolgação por toda adrenalina, é realmente como se eu estivesse voando, mas se me atentar demais nesses efeitos, esqueço do mais importante - ponderou meu namorado.

-Sim, dirigir requer muita atenção, ainda mais nessa velocidade, ainda bem que você é muito cuidadoso - elogiei sua qualidade que sem dúvida era imprescindível - e agora? Falta pouco pro campeonato acabar, não é?

-Sim, tenho mais umas quatro corridas pela frente, incluindo a última - Niki me contou - eu preciso continuar garantindo a liderança se quiser ganhar.

-E você vai, não tenho dúvida nenhuma - afirmei, mas ele fez uma careta de dúvida, o que me deixou um pouco indignada e me deu dicas do que ele estava pensando - e não, não estou dizendo isso por puro otimismo, é porque acredito na sua mania de ser focado.

-Não é uma mania... há um minuto atrás você tinha elogiado eu ser assim - ele ficou confuso, cruzando os braços e olhando pra mim em busca de respostas.

-Eu tô brincando com você, não seja tão mala - eu expliquei, o abraçando pela lateral, no que ele assentiu e passou os braços em torno de mim.

Voltando às coisas sérias, Niki fez suas três corridas antes da final, todas um tanto longe de casa e por isso, eu não pude comparecer a elas, mas como sempre, o que se tornou um agradável hábito para mim, estava na frente da televisão acompanhando todas elas. Nem sempre meu namorado chegava a primeiro lugar, mas eu consegui compreender que nem sempre isso interferia de forma significativa no seu placar geral, o importante era o total de pontos que ele tinha somado. Eu não tinha acompanhado a temporada de 1975 desde o começo, mas pelo que os comentaristas falavam, Niki não tinha começado muito bem, mas agora estava muito perto de ser campeão do mundo. Sua determinação me enchia de orgulho.

Assim, chegou a hora de ele disputar a última corrida do ano, que aconteceria nos Estados Unidos. Já estava acostumada a Niki vir me ver um dia antes de partir para o país da próxima corrida, mas dessa vez, ele agiu de forma diferente.

Três dias antes de viajar, ele veio me ver no horário de sempre, sem se atrasar, mas estava me escondendo algo, não, estava esperando o melhor momento para dizer sua proposta para mim. Niki deu um tempo a si mesmo para me contar o que era, ele respirou, voltou a ficar concentrado e só então me olhou para começar a falar comigo.

-Você sabe que a última corrida tá chegando, e eu queria muito que você viesse comigo, pra acompanhar a competição - ele disse, no seu jeito sério, mas discretamente suplicante.

-Eu ir com você? Que privilégio, Niki! - eu fiquei surpresa e animada - nem precisa pedir, é claro que eu vou com você, vai ser muito bom.

-Obrigado - ele sorriu, tímido e grato, corando de um jeito fofo.

-De nada - toquei seu rosto, contente em conceder seu pedido.

Nós então nos organizamos e depois de três dias, bem cedo, numa hora em que o sol nem tinha aparecido ainda, pegamos o avião exclusivo da Ferrari, que os pilotos usavam, então Clay faria a viagem conosco também, junto com todos os membros da equipe, dessa vez eles estavam mais habituado com o meu status de namorada do Niki. Quem também estava conosco, naturalmente, era Luca di Montezemolo, o representante da escuderia Ferrari, e responsável pelo programa de corrida. Não tivemos muito tempo de sermos apropriadamente apresentados um ao outro até chegarmos ao nosso destino.

Fizemos check-in no hotel, arrumamos nossas coisas, mas Niki tinha uma reunião com Luca, e nesse meio tempo, fiquei ali no quarto, imaginando como era mágico estar ali. Poderia ver meu namorado correndo numa corrida genuína pela primeira vez, e se Deus quisesse, ia vencer com louvor.

Niki mandou me chamar assim que a reunião acabou, mas Luca ainda estava com ele. Agora que o via mais de perto, ele me parecia simpático e cordial, embora um tanto nervoso e ansioso.

-Marlene, deixa eu te apresentar - meu namorado fez as honras - esse é Luca di Montezemolo, meu chefe por assim dizer, Luca, essa é Marlene Knaus, minha namorada.

-Prazer em conhecê-lo, senhor - apertei a mão dele.

-Igualmente, senhorita - ele sorriu - Niki mencionou que você viria, foi a única vez que eu o vi mencionar uma namorada, por mais que eu ouvisse uns rumores.

-Sério? Talvez seja por causa da visita que eu fiz ao seu circuito uma vez, não foi nada demais - não estranhei essas conversas aparecerem, afinal era difícil as pessoas manterem as coisas para si.

-Bom, acho que temos assuntos mais importantes para tratar do que minha vida amorosa - Niki disse, baixo e irritado.

-Ele é sempre assim? Como é que você aguenta? - Luca rebateu, bem humorado.

-Ah sim, eu sei como ele é difícil, mas Niki é um doce comigo - afirmei e arranquei um sorrisinho do meu namorado por isso - mas ele deve ser insuportável longe de mim, então, como é que vocês aguentam ele?

-Bom, pelo motivo de estarmos aqui, ele é um gênio, não conseguiríamos chegar à final sem ele - dessa vez o chefe foi mais sério e sincero.

-Eu sei que isso ele é mesmo - concordei, orgulhosa.

-Certo, eu já liberei o Niki, nos vemos amanhã nos treinos, gente, tenham um bom dia - Luca nos desejou, já se afastando.

-Obrigada - agradeci e olhei para Niki, que tinha melhorado bastante a cara de emburrado que tinha durado por pouco tempo atrás - vocês se dão bem, não? Pra ele fazer essas brincadeiras com você...

-Ele é meu chefe, eu tenho que aturar - meu namorado deu de ombros.

Nós acabamos rindo juntos, o que aliviou o clima que ficaria bem mais tenso durante o fim de semana.