O domingo tinha sido completamente perfeito. É claro que tinha começado apreensivo, minha mente estava completamente focada na corrida, e como tudo dependia de mim, da equipe, e do desempenho do carro para que eu garantisse o título que estava tão perto.

Marlene estava bem presente, e eu não poderia estar mais feliz por ela ter aceitado me acompanhar até ali. Sua atitude de me desejar sorte e de que me saísse bem me alegrou mais por sua consideração por mim, eram palavras simples, mas com um grande significado que eu sabia que era verdadeiro.

Quando a corrida finalmente começou, me concentrei por completo, nada poderia me distrair, toda minha atenção estava voltada ao que eu fazia, minhas decisões, e o que estava acontecendo ao meu redor. Pelo meu esforço, fui merecidamente recompensado, o título de campeão do mundo era meu. Por anos eu sonhava com isso, e usei os últimos cinco só para chegar nesse objetivo, e ali estava eu, o troféu nas minhas mãos e o público aplaudindo e gritando não me deixavam duvidar que tudo aquilo era real.

Mas o que realmente tirou meu equilíbrio foi o que Marlene me disse, no meio de toda aquela agitação, ela olhou nos meus olhos e disse que me amava. Claro que, se estávamos juntos é porque gostávamos um do outro, e eu tinha sido o primeiro a tomar uma atitude pelo forte sentimento que tinha por ela. Dentro de mim, com o tempo, conforme convivíamos mais e nos conhecíamos melhor, percebia que eu a amava. Era indescritível, ela realmente era o meu maior tesouro na vida, mas ainda não me sentia confortável ou seguro suficiente para dizer a ela o que sentia.

Como eu fiquei surpreso de saber que minha namorada me amava também, assim como eu. Ainda era uma sensação esquisita pra mim, eu tinha provocado a ira da minha família e criado uma inimizade com eles que parecia perpetuar com o passar dos anos, e não era um cara exatamente muito querido por onde eu passava, mas Marlene me amava como eu era, eu não poderia expressar minha gratidão de outra forma que não fosse dizendo que eu a amava também.

Eu encontrei James mais tarde naquele dia, e por incrível que pareça, nossa conversa foi uma das poucas amigáveis que tivemos. Ainda assim, sua postura e atitude e teimosia para mantê-las conseguiam me irritar, eu não sei como ele achava graça em ser sempre tão irresponsável. Quando pegamos a estrada voltando para o hotel, fiquei surpreso ao ver que Marlene conhecia James. Era quase inconcebível pra mim isso ser possível, até que raciocinei direito, com a ajuda do que ela me contou, ela simplesmente o conhecia da TV.

O problema foi eu ouvir Marlene falando de James, eu nunca imaginei que isso fosse acontecer, era estranho demais que minha namorada se desse ao trabalho de saber sobre aquele fanfarrão. Quando ela apontou que eu estava com ciúmes e eu neguei veementemente, percebi que realmente era ridículo eu pensar assim. Era claro que ela tinha ouvido falar dele também, se ela me acompanhava pela TV, era normal saber o nome dele, já que todo mundo fazia questão de mencionar nossa rivalidade.

Deixando isso passar, apenas descansei e começamos a nos preparar para voltar para casa. Por enquanto, teria um bom tempo livre, isso até eu voltar a treinar e me preparar para a temporada do ano que vem.

-Foi uma viagem e tanto, Niki - Marlene comentou quando eu a deixei em casa, logo depois de chegarmos - e o que vem a seguir para o campeão do mundo da Fórmula 1?

-O próximo campeonato, com certeza - afirmei pra ela, cheio de otimismo e planos para isso.

-Calma aí, sr. Piloto, ainda falta uns meses pra isso - ela riu num bom sentido - não pretende fazer nada com esse tempo extra?

-Tempo extra? Esse tempo extra vai ser gasto com meu preparo pra ganhar o próximo campeonato - expliquei, com paciência, e um pouco de medo, porque comecei a adivinhar o que é que estava se passando na cabeça dela.

-Eu sei, sei que isso é importante pra você, mas você precisa se divertir um pouco - ela apontou docemente, o que eu achei perigosamente aceitável.

-Eu não sei o que você quer dizer com diversão, nós já nos divertimos juntos, nós saímos quase todo fim de semana, e nos vemos todos os dias, algo fora disso não é bem minha praia? É assim que se diz? - acabei brincando com ela.

-É sério que você nunca tirou umas férias nesse tempo todo desde que começou a correr? - ela quis saber de verdade.

-Uns 15 dias de folga entre uma temporada ou outra, confesso - ergui as mãos em rendição.

-Não, não é suficiente, eu entendo que você é muito concentrado, mas podíamos planejar algo diferente, mas algo que nós dois gostamos igualmente - ela propôs, com um brilho encantador no olhar.

-Hum... - murmurei, tentando pensar numa solução plausível para aquela proposta, eu realmente não queria ser egoísta, queria entrar em acordo com Marlene porque entendia as boas intenções dela - e se fizéssemos uma viagem juntos, então? Você disse que gostou da viagem pros Estados Unidos, e dessa vez, vamos estar viajando mais por sua causa do que por causa da corrida...

-Niki Lauda, está dizendo que só vai viajar comigo por que foi ideia minha? Só pra me agradar? - Marlene pareceu se ofender.

-Não, nada disso, não foi isso que eu quis dizer, eu também quero viajar com você - tentei consertar fosse lá o que eu tinha feito de errado.

-Eu estou brincando com você, meu amor, é claro que eu entendi - ela riu, o que me fez fazer uma careta, tinha perdido a conta de quantas vezes Marlene tinha me feito fazer papel de bobo, mas no fundo eu não ligava pra isso - só me admira não estar sendo tão egoísta, Andreas.

-Ei, não me chama assim... - reclamei, ela realmente estava começando a me irritar, mas de um jeito bom - ninguém me chama assim.

-Mas é o seu nome - replicou ela, se fazendo de inocente.

-Tudo bem, srta. Knaus, vou dizer exatamente o que quer ouvir - segurei as mãos dela nas minhas, o que chamou a total atenção dela, finalmente prestando atenção em mim - nós vamos viajar juntos nesses dois meses que eu tenho até começar a temporada do ano que vem, você escolhe o lugar, porque eu não sou egoísta.

-Isso! - ela deu um gritinho, me abraçando exageradamente - obrigada, obrigada. Sabia que eu te amo?

-Sabia - eu sorri convencido de propósito, depois de todo aquele momento de perturbação divertida - e eu também sei que você me ama.

-Hum, é verdade - ela deu de ombros e me beijou.

Sentia que teria muito mais planejamento do que o previsto pela frente, mas seria maravilhoso ter a companhia de Marlene nas férias.

A/N: Gente esse diálogo do final me deixou muito orgulhosa da minha escrita, sem querer me gabar, sério.