Eu realmente não queria magoar Marlene com minha sinceridade tão abrupta, mas era o que rondava minha mente desde quando tinha me dado conta de que estava completamente feliz.
Era bom, era maravilhoso, uma sensação tão rara na minha vida que agora tinha certeza que sentiria todos os dias justamente por ter minha esposa ao meu lado. No entanto, quando tudo começava a ficar maravilhosamente bem, era de se esperar que eu ficasse desconfiado.
Tinha medo de me distrair demais, de esquecer dos meus objetivos pela grande emoção que estava sentindo. Não queria esconder isso de Marlene, por isso contei a ela, e como me senti grato por ela me entender mais uma vez na minha vida. Usei as semanas seguintes para conciliar meu novo status, um fortíssimo candidato a vencedor do campeonato de 1976 e marido de Marlene Lauda.
A corrida na Alemanha então chegou e percebi que o circuito de Nurburgring poderia ser um empecilho no meu objetivo de me sair bem na corrida. Tentei de todas as formas reverter a situação, convencer meus colegas de que aquela não era a ocasião ideal e nem mais justa para se competir. O circuito tinha uma série de falhas que aumentava o perigo e além disso, tinha chovido. Mesmo assim, Hunt convenceu a maioria do contrário, que poderíamos correr normalmente. Por dentro senti mais raiva dele, e fui obrigado a competir.
-Tudo bem? - Marlene perguntou enquanto eu me preparava para entrar no carro.
Não tive coragem de mentir para a minha esposa, nem ao menos respondê-la com palavras. Meu olhar preocupado disse tudo que ela precisava saber. Ela abaixou os olhos, também preocupada, depois voltou a olhar para mim.
-Toma cuidado, por favor - ela pediu, o que era raro de ela fazer, porque eu era sempre cuidadoso.
Marlene beijou minha bochecha antes que eu entrasse no carro, e seu gesto de carinho provocou um misto de emoções em mim. Era como um aviso da parte dela, como se ela aproveitasse o tempo que tínhamos agora porque demoraria muito para que ela me visse outra vez. Eu ainda estava com raiva de James, ainda estava preocupado com a pista.
Já posicionado no grid, não conseguia deixar de observar meus arredores, esperando que o ambiente me informasse o suficiente para que eu conseguisse ser bem sucedido. O tempo continuava fechado, como uma pessoa mal humorada e emburrada comigo, se recusando a me ajudar. Quando a bandeira da largada baixou, fiz o melhor que podia.
Tive que trocar os pneus por causa das condições ruins e recuperando meu tempo perdido no pit stop, sofri as consequências da minha pressa. Lembrava apenas do carro batendo, mas depois, por mais que me esforçasse, nada vinha à mente, apenas flashes aqui e ali. A coisa mais concreta que vi foi Marlene me observando, completamente preocupada, mais que isso, contendo desespero por trás dos olhos. E a culpa para isso era minha, havia uma série de fatores que me obrigavam a correr naquele dia, mas primariamente, me sentia culpado por fazer minha esposa se sentir daquele jeito.
Depois disso, perdi os sentidos por completo, mergulhando num vazio aparentemente sem fim.
O olhar atento e preocupado de Niki sobre a pista não me deixava nem um pouco tranquila. Ele mesmo tinha ficado preocupado demais com as condições da pista molhada, que tinha convocado uma reunião contra a corrida acontecer naquele dia. Só por isso eu já deveria saber que os riscos seriam enormes, deixando o meu coração ainda mais apertado. Só me restava pedir ao meu marido que tomasse cuidado, confiar em Deus e nas habilidades de Niki.
A corrida começou e voltei meus olhos para a TV do box, nada me tiraria dali até que tudo estivesse acabado, mas então, uma tragédia conseguiu me tirar do meu lugar. Só de ouvir o aviso da colisão que tinha acontecido, me preocupei, mas ao ouvir o nome da Ferrari, um dos seus carros envolvidos no acidente, me desesperei. Não importava se fosse Clay ou Niki, temia pelos dois.
Houve uma natural movimentação da equipe, Daniele saiu dali em busca de mais informações, demorando uns 10 minutos que me deixaram agoniada. Quando ele retornou, seu olhar compadecido já antecipou o que eu esperava. Suprimi um soluço bruscamente, eu não queria perder a compostura.
-Marlene, eu sinto muito, mas foi o Niki quem bateu - ele tentou me contar calmamente, mas também estava em estado de choque - o carro pegou fogo, ele sofreu queimaduras...
-Eu preciso ver o Niki, eu vou até lá, eu vou... - já ia andando, movida pelo meu desespero de ver de perto como meu marido estava.
-Não, não, faça isso, ele está sendo atendido agora, te garanto, ele foi resgatado com vida, mas nós precisamos de mais informações... - Daniele se interpôs diante de mim e suspirou - olha é melhor você ir até o hospital, siga a ambulância, é melhor assim.
Eu só assenti e fiz o que ele sugeriu. Durante o trajeto, eu mal podia acreditar naquilo. Eu sabia, desde sempre, eu sabia que a cada corrida Niki tinha o risco de ter um acidente grave, e até pior que isso, fatal, mas a gente nunca espera que isso aconteça, sempre espanta esse pensamento da cabeça, numa tentativa de afastá-lo de um jeito que ele nunca aconteça, mas ali estava eu. E por mais que tentasse, minhas forças e esperança estavam indo embora.
Minha única companhia naquele caminho tortuoso era o rádio, que me mantinha informada sobre o que estava acontecendo com meu marido. Era horrível, assustador, tudo que os médicos presumiam era que Niki estava às portas da morte. Por mais que eu sentisse sufoco e tristeza, as lágrimas não vinham, eu ainda estava em choque demais e a única coisa que se passou na minha mente era dar conforto a Niki no que parecia ser suas últimas horas. Eu parei meu trajeto para chamar um padre, era o melhor que eu poderia oferecer, conforto divino, enquanto minhas mãos estavam atadas e os médicos previam o fim.
Me deixaram entrar no hospital imediatamente, já sabiam quem eu era, me deixaram apenas acompanhar a internação. Eu tentava ver ao menos uma fresta do meu marido por de trás dos curativos e tubos, mas ele estava escondido pela agonia. O pouco que vislumbrei mostrava a confusão dele, Niki estava completamente perdido, como se não soubesse o que exatamente estava acontecendo. Ele parecia frágil e delicado, muito diferente de quem ele realmente era. Foi essa imagem que me desesperou, lágrimas se forçaram a sair pelos cantos dos meus olhos. Deixei que o padre desse sua extrema unção, mal acreditando naquilo, eu não podia simplesmente me conformar em perder Niki.
Eu saí dali, buscando um pouco de ar, esperando por notícias. Tanta coisa começou a se passar pela minha cabeça, como as coisas seriam diferentes se ele não fosse piloto, ele estaria bem e a salvo nesse exato momento, eu não estaria desesperada. Mas também, se ele não fosse piloto, eu nunca teria o conhecido. Não, não era justo com Niki pensar dessa forma, correr era sua vocação e ele sempre foi cuidadoso, os riscos sempre estiveram lá, e hoje infelizmente, tinham aparecido justamente para Niki.
Eu fiquei ali sentada, esperando o que aconteceria, me preparando para o que viria a seguir.
A/N: Dividi os pontos de vista, espero que não tenha ficado confuso. Bom, chegamos na parte mais delicada da história. Nos vemos no próximo capítulo!
