Eu confesso que ter Marlene me confrontando, mesmo que não fosse de todo modo por mal ou para me recriminar, me surpreendeu. Eu não era tolo, ela tinha visto o que eu fiz alertando a inspeção sobre o carro de James, e no fundo, tinha sido motivado por nossa rivalidade.
Apesar de ele ter infringido as regras, lá no fundo sabia que tinha feito isso por ciúme, por querer dar o troco nele e tirar sua satisfação que foi conseguida ilegalmente. Agora que isso tinha passado, pensava que deveria deixar isso pra lá, a questão seria tratada pelas autoridades competentes e isso não me dizia mais respeito.
Mas Marlene me relembrou da questão e tive que ser honesto, antes de qualquer coisa, eu a amava, e ela tinha pedido que eu fosse sincero e abri meu coração, confiei que ela me compreenderia, e felizmente, não estava errado. Ela ter me explicado que entendia até mesmo minhas motivações mais secretas, até mesmo as que não tinha acesso, me dava a certeza de que eu estaria sempre seguro e amado se estivesse com ela.
Não era só sua compreensão por mim que me fazia ser apaixonado por ela, ela era encantadora, criativa, doce, sarcástica de um jeito divertido. A cada dia mais tinha certeza de que ela era o amor da minha vida, sua confiança depositada em mim me deixou sem dúvidas de que queria me casar com ela.
Considerei a questão de modo prático, continuaríamos unidos, dividindo o mesmo espaço. Entre nós, pouca coisa mudaria, mas sabia que teria que me dedicar ainda mais a ela, que seria minha esposa, aquele seria meu dever e compromisso eterno para com Marlene.
Era tudo muito simples para mim, só precisava perguntar. Aproveitei uma das minhas visitas ao apartamento dela, bem antes da viagem para a próxima corrida.
-Oi, Niki - ela sorriu e me beijou, me recebendo como sempre.
-Oi, está tudo bem com você? Como foi seu dia? - fiz a pergunta de sempre, mas ela amava ouvi-la e eu amava sua resposta.
-Tudo ótimo, um pouco parado e monótono - ela foi franca, dizendo isso um tanto entediada - acho que a coisa mais animada que eu fiz hoje foi fazer compras, ah! Falando nisso, espera um pouco, já volto.
Ela se despediu temporariamente com um beijo na minha bochecha, se ausentou por aproximadamente um minuto e 15 segundos e depois voltou com um pote de iogurte e uma colher em mãos. Justamente iogurte de morango, meu favorito. Eu quis rir, mas fiquei sem graça com o gesto dela, pelo jeito que lembrou de mim. Só me restava dizer uma coisa.
-Não acredito que lembrou de mim, obrigado - acabei sorrindo.
-Acha mesmo que eu ia esquecer de você? Ou o quanto você fica rabugento sem seu iogurte de morango? - ela brincou.
-Ah não, não fala assim... - dessa vez, acabei rindo.
Eu abri o pote e comecei a comer sem cerimônia, afinal, era isso que Marlene esperava que eu fizesse. Pelo jeito, ela também esperava que eu dividisse o pote com ela, já que enfiou um dedo indicador dentro do pote, lambendo o iogurte, mesmo contra os meus protestos.
-Eu achei que você tinha comprado isso aqui só pra mim - reclamei brincando, tentando manter o pote afastado dela.
-É assim, então? Eu me dou o trabalho de lembrar do seu iogurte e você não me dá nem um pouquinho? Toma essa, Andreas! - ela disse no mesmo tom de brincadeira, mas sujando meu rosto de iogurte.
-Ah não, para, Marlene, sério! - tentei me limpar enquanto ria.
Ela ficou parada e quieta, me deixando em paz por um tempo, mas não conseguindo deixar de rir, desatando a gargalhar de novo.
-Tá bem, não foi pra isso que eu vim aqui - tentei recompor minha dignidade.
À moda antiga, me ajoelhei na frente dela, olhando diretamente para os seus olhos.
-Ora, está implorando por alguma coisa? Eu já parei - Marlene brincou, mas eu vi curiosidade em seus olhos.
-Na verdade, queria te perguntar uma coisa - segui em frente - você gostaria de se casar comigo?
Ela ficou assustada, me encarando incrédula, sem dizer nada por um longo instante, o que me deixou preocupado, por estar parado ali, sentindo as pernas começarem a adormecer.
-Niki, você não pode tá falando sério, você realmente quer isso? - ela conseguiu falar de novo.
-Claro que quero, eu quero muito - assenti para ela e depois toquei seu rosto - eu pensei muito e não há nada que nos impeça de fazer isso, nós nos damos muito bem juntos, temos uma vida maravilhosa, eu só quero compartilha-la com você, do jeito certo.
-Tá bem... - ela murmurou e vi que estava considerando, sua expressão indicava uma resposta favorável - mesmo com a cara toda cheia de iogurte, eu não poderia dizer não. Sim, Niki Lauda, eu gostaria e quero me casar com você.
Eu sorri, sentindo aquela sensação enorme de felicidade que raramente sentia, mais intensa do que vencer uma corrida ou um campeonato inteiro. Marlene realmente não se importava com o iogurte na minha cara, porque me beijou sem cerimônia.
Depois do pedido, eu não quis perder tempo. Minha agora noiva deixou que eu recuperasse minha dignidade e lavasse meu rosto, então juntos, nos organizamos para o nosso compromisso.
-Nós podemos nos casar na Inglaterra, logo depois da corrida - contei meus planos - é só levarmos os documentos, deixar tudo preparado antes no cartório, simples assim.
-Sem festa, sem cerimônia chique, sem convidados, sem traje de gala - ela foi listando e temi um pouco por isso - pra mim é perfeito.
-Mesmo? Achei que talvez gostaria de algo maior, mais significativo - deduzi.
-Meu noivo esquece que eu sou uma pessoa muito discreta - ela deu um sorrisinho - eu acho ótimo assim, vamos estar só nós dois lá, com as testemunhas, só o necessário, sem chamar a atenção da imprensa, não precisamos de mais holofotes sobre nós. Por mim tudo bem, Niki, vai ser ótimo assim.
-Certo - eu sorri, feliz por ela ter aceitado meus planos.
Eu esperei ansiosamente por nossa viagem para Londres. Não importava o que acontecesse no domingo, faria meu melhor para vencer, mas o principal acontecimento seria eu me casar com a mulher que amava.
A/N: Viu, gente? Lá fui eu escrever outra cena fofinha, não consigo me controlar. Espero que tenham gostado desse pedido de casamento. Imagino que, tirando o iogurte, tenha sido uma conversa e um acordo bem direto entre eles. Até o próximo capítulo!
