Enquanto encarava Niki de joelhos na minha frente, com a cara toda suja de iogurte por minha causa, ainda tinha dificuldades de acreditar no que ele tinha me dito.

Melhor, voltando no tempo mais um pouco, quando meu namorado chegou no meu apartamento naquela noite, achei que se tratava de apenas mais uma visita, nada além disso, por isso eu tinha brincado com Niki e rido às suas custas, mas nada tinha me preparado para ser pedida em casamento naquele dia.

A questão não tinha sido tão repentina assim, Niki tinha razão em apontar que estávamos tendo uma vida maravilhosa juntos e, de todos os meus relacionamentos anteriores, não escolheria me casar com nenhum dos outros homens que tinha conhecido, apenas Niki. Era exatamente isso que eu queria, então disse sim, me tornando sua noiva imediatamente, me sentindo muito feliz por isso.

Antes de nos casarmos, ainda havia o Grande Prêmio da Grã-Bretanha para acompanhar, eu nos boxes, e Niki, na pista, fazendo o que sabia fazer de melhor. Foi uma corrida difícil para ele, eu sabia que nosso recente noivado não estava em suas preocupações enquanto ele estava correndo, o que eu achava justo. Ele dava seu máximo para recuperar a posição perdida.

Por fim, James o venceu naquele domingo, mas Niki não deixou se abater. Segundo o que disse aos jornalistas, nada o impediria de vencer a próxima corrida.

Quando saímos dali, nos preparamos para o nosso tão importante compromisso. No dia seguinte, eu estava calma, emocionada por estar me casando, mas bem calma, contente pelo passo que estávamos tomando juntos. Quanto a Niki, ele era o completo oposto de mim.

Tinha dirigido o trajeto todo do hotel até o cartório em silêncio, com a mesma cara de concentrado que costumava fazer, mas por nervosismo, sem cenho estava mais franzido ainda. Seguimos o horário marcado pontualmente e, por chegarmos um pouco mais cedo, esperamos nossa vez, sentados um ao lado do outro, e Niki, bem, continuava uma pilha de nervos.

-Eu espero que você me entenda - disse ele, mal me olhando - você já sabia como eu sou.

Sabia bem ao que ele estava se referindo, meu noivo conhecia muito bem como sua personalidade peculiar podia afetar os outros, incluindo a mim.

-Não sou tão romântico, não espere flores ou andar de mãos dadas ou coisa do tipo... - ele prosseguiu - talvez esqueça o seu aniversário.

Agora eu tive que rir, no fundo ele sabia que não me importava tanto com esse tipo de coisa, ele era carinhoso e atencioso do jeito dele.

-Mas se tem alguém com quem eu queira fazer isso, só poderia ser você, mais ninguém - ele prosseguiu, olhando para mim com toda sinceridade.

Era uma frase tão simples, tão direta, e tocou meu coração exatamente por isso.

-Meu Deus, um poeta... - eu disse admirada, com um leve toque de humor, só para acalmar Niki.

Quando fomos chamados, ele se levantou de uma vez, tamanha era sua pressa de resolver tudo, e um pouco do nervosismo o empurrava também. Para ser honesta, agora que estava prestes a me casar, a ficha caiu e fiquei nervosa também. Respirei fundo, seguindo em frente, minha decisão estava tomada e eu não voltaria atrás.

Dentro do escritório, Niki voltou ao estado sério. Assinamos papeis, respondemos o mesmo sim, que significava nosso juramento sagrado de estarmos unidos um ao outro. Trocamos olhares tímidos, confesso, era difícil manter a postura séria em frente ao juiz quando a emoção interior era tão grande. Finalmente, com tudo acertado, o juiz nos declarou oficialmente casados. Tinha sido tudo muito simples, resolvido dentro de uma hora, mas aquela única hora marcava o início de uma vida um tanto diferente com a que estávamos acostumados até então.

Eu e Niki selamos o compromisso com um beijo, trocamos nossas alianças e saímos dali rumo à vida que construiríamos juntos a partir de agora. Aproveitando o tempo que teríamos antes da próxima corrida, fomos direto para Ibiza, onde passaríamos nossa lua de mel e onde seria o nosso novo lar.

Passar as férias ali tinha rendido nosso grande apreço pelo lugar, então não foi nenhuma surpresa para mim quando Niki decidiu nos instalarmos ali, escolhemos uma nova casa juntos, e logo arrumei e organizei tudo de maneira que agradasse a nós dois. Depois de tudo em seu lugar, foi só aproveitar a companhia um do outro, finalmente como casados.

Apesar do relaxamento e tranquilidade, num determinada momento, algo começou a perturbar Niki. Tinha acordado no meio da noite, incomodada pela falta de peso do outro lado da cama, eu estava sozinha de repente, sem nenhum sinal de onde meu marido tinha ido e o que tinha ido fazer àquela hora da noite.

Preocupada, desci as escadas e o procurei por todo canto, até que o encontrei parado na sala, olhando pela janela, o olhar distante, a mente focada em muitas outras coisas que não fossem o presente. Nem parecia o mesmo que há algumas horas atrás tinha brincado comigo e corrido atrás de mim. Esse era o meu marido, eu já o conhecia, tão doce e adorável, mas também tão sério e concentrado, calculista.

-O que foi? - me aproximei devagar, querendo perguntar mais coisas, mas tendo cuidado de não deixá-lo mais alarmado do que já parecia estar.

-A felicidade é uma inimiga - declarou meu marido, com um certo pesar na voz - ela te enfraquece, agora eu tenho muito mais a perder.

Acho que minha reação natural a essa frase seria ficar ofendida, isso queria dizer que Niki tinha se arrependido de se casar comigo? Não, não era bem isso que ele estava dizendo. Era seu jeito singular de me dizer que estava com medo, de que temia o que estava por vir, porque pela primeira vez na vida, ele estava completamente feliz, e tinha medo de que isso o fizesse perder seu foco e seus objetivos.

-Quando você diz que a felicidade é uma inimiga é tarde demais, você já perdeu - eu respondi, pensando em tudo o que ele queria dizer, tendo certeza que não haveria como ele tirar nosso casamento de suas prioridades, e que ele teria que conviver com isso a partir de então, conseguir conciliar emoção e razão ao mesmo tempo.

Ele assentiu para mim, absorvendo as minhas palavras, e eu achei que deveria dizer pelo menos mais alguma coisa para tranquilizá-lo.

-Niki - dei um passo a frente, me aproximando mais, ele não se moveu, como se permitisse minha aproximação - não há nada de errado em ter sentimentos, eu entendo suas preocupações, seu modo de enxergar as coisas... eu só espero, com toda paciência do mundo, que você não encare nada disso como uma coisa ruim, vai ficar tudo bem daqui pra frente.

-Um hum - meu marido murmurou, e acabou me abraçando.

Foi reconfortante senti-lo mais calmo em meus braços, ele começava a entender como seria nosso casamento a partir de então.


A/N: Se aqui já foi dramático, imagina os próximos capítulos! Vocês sabem o que vem por aí né? Enfim, aguardo vocês, obrigada por lerem.