Quando eu já não sabia mais o que fazer, chegando a ficar inquieta por isso, ficando de pé, ainda sem notícias sobre o estado de Niki, comecei a sentir o cansaço bater. Estava ali há tanto tempo que mal sabia dizer desde quando estava ali, as horas foram se estendendo, e eu estava me sentindo completamente perdida.
Clay me fez companhia por um tempo, sem saber muito bem o que dizer, mas me oferecendo seu apoio, não importasse o que acontecesse. Naquele momento tão triste consegui sentir gratidão por ele ser um bom amigo e se importar com Niki de verdade, apesar do jeito difícil do meu marido. Só de pensar nisso, voltei à aflição outra vez, porque havia a possibilidade de eu nunca mais ouvir seus resmungos e reclamações. Eu tentei tirar isso da cabeça, mas a realidade difícil me empurrava para essa conclusão.
Então, me tiraram do meu estado aflito, o médico chamou por mim, explicando que Niki tinha acabado de acordar e que tinha expulsado o padre do quarto. Só por esse ataque de irritação, tive certeza de que ele estava bem, sua reação e a boa notícia me fizeram sorrir. Corri até o quarto, apenas feliz por meu marido estar vivo, mas me contive um pouco quando a enfermeira me olhou com pena e meus olhos se voltaram para Niki. Vê-lo daquela maneira me deixou horrorizada.
Seu rosto estava completamente inchado e machucado pelas queimaduras, eu mal via suas feições faciais por de trás das feridas. O rosto de Niki me assustou demais, com todo inchaço e deformações. Senti meus pés ficarem pesados ao me aproximar do leito, olhando o rosto dele mais de perto só conseguia imaginar a tremenda dor que sentiu no momento do acidente e deveria estar sentido agora.
Consegui tocar a mão dele, o fazendo se mover lentamente, percebendo minha presença ali. Quando seus olhos focaram nos meus, comecei a chorar. De repente, a lamúria foi crescendo, gritos agudos saíam de mim entre os soluços. Eu vi Niki tentar balançar a cabeça, me pedindo pra que eu parasse com isso.
-Me desculpa... - a minha voz estava completamente abafada, embargada - eu sinto muito, eu sinto tanto, Niki...
-Me desculpe por fazer você passar por isso - ele murmurou uma resposta quase inaudível, mas compreendi bem.
-Não, não, está tudo bem, digo, isso tudo que aconteceu é terrível - tentei formular uma frase inteligível - mas o que importa é que você está vivo, tudo que passava pela minha mente é que eu te perderia pra sempre...
Para isso, ele não teve resposta, baixou os olhos, sentindo-se um tanto culpado, e foi minha vez de me sentir culpada. Ele estava ferido, acamado e eu jogando em sua cara o que poderia ter acontecido de pior por muito pouco, porque afinal de contas, ele era um piloto de corrida.
-Eu não te perdi, Niki, é o que importa, você está aqui - eu disse mais firmemente, tentando ter mais fé - você fez o que poderia ter feito pra evitar que isso acontecesse.
Ele assentiu levemente.
-Eu só quero dizer que eu te amo, e nós vamos passar por isso juntos - estava realmente me esforçando para ter uma postura de apoio e suporte, para que ele se sentisse mais tranquilo, mesmo com tudo que estava acontecendo - eu vou te deixar descansar.
Me levantei, beijando a mão dele.
-Eu também te amo - ele me disse baixinho, e consegui esboçar um pequeno sorriso.
Eu saí do quarto, achando tudo tão mais tenso e complicado do que eu tinha imaginado que seria. A aparência de Niki tinha sido um choque inicial, mas agora eu teria que me habituar à situação que nos encontrávamos. Era só o início de um longo processo doloroso, tanto para ele e para mim. Muito mais para Niki, seriam dores físicas e psicológicas, e o meu coração apertado por acompanhar tudo isso.
Decidi que teria que ser forte, permanecer firme e focada, ajudando Niki a passar por tudo isso. Eu voltei ao hotel em que estávamos, organizando minha estadia prolongada, tentando descansar um pouco, mas mal conseguindo dormir. No dia seguinte, estava ali, ao lado do meu marido, observando sua lenta recuperação.
No começo, Niki mal falava, seus lábios estavam inchados e além disso, ele estava entubado constantemente, por um motivo particular que me preocupou ainda mais. Embora as queimaduras fossem mais visíveis e expostas, o verdadeiro risco estava escondido internamente.
Os médicos me explicaram que seria difícil sugar os gases de seus pulmões, eu apenas concordei com os procedimentos, confiava que eles sabiam o que estavam fazendo. Eu só não conseguia acompanhar às vezes, eu via o quanto ele sofria, como doía ter um instrumento perfurando seu peito por dentro. O pior era como Niki insistia na intensidade do tratamento, era como se ele desejasse terminar isso o mais rápido possível, com pressa de voltar ao que tinha deixado inacabado.
Eu conhecia Niki muito bem, sabia do seu ímpeto e determinação de correr, não precisava eu tocar no assunto do qual já sabia sua resposta. Depois que seus pulmões se recuperaram, suas chances de recuperação se aumentaram, tive a plena certeza de que ele ficaria bem. Ainda assim, passaria por uma cirurgia delicada para recuperar seu rosto.
Suas feridas ainda estavam se cicatrizando, mas ele insistia em ficar de pé, em convencer a si mesmo de que podia voltar a correr. Houve um momento em que me ausentei do seu quarto por um curto período, e o encontrei de um jeito que eu não queria ver, mas sabia no fundo do meu coração que aconteceria.
Com muita dor e esforço ele tentava colocar seu capacete, sem se importar com as feridas que poderiam abrir novamente. Minha vontade foi correr e tirar o capacete das mãos dele, dar uma bronca como se ele fosse um menino teimoso, mas não podia, o magoaria demais se fizesse isso.
-Niki, para... - foi a única coisa que me restou dizer, implorar, esperando que ele me ouvisse - Para, por favor...
-Se você me ama de verdade, não diga nada... - foi a resposta dele, o que me deixou abalada.
Eu me calei, além de ele me pedir para ficar em silêncio, eu mesma já não sabia como responder. Eu me preocupava com Niki, mas sabia que nunca controlaria suas vontades e desejos de correr. Só me restou concordar, e não consegui ficar mais tempo ali, olhando seu sofrimento. Me afastei, tentando conciliar o que tinha visto, e pensar em como eu poderia ajudá-lo nessa fase.
Assim, chegou a hora da cirurgia do seu rosto. As queimaduras tinham sido profundas demais, Niki tinha perdido parte do couro cabeludo e a orelha direita inteira, o que significava que uma nova pele não nasceria naturalmente ali. Minha vontade era de ao menos ficar dentro da sala de cirurgia, não teria coragem de ver o procedimento em si, mas queria que Niki soubesse que eu estava bem ali, perto dele.
Os médicos não insistiram muito comigo, obedeci as recomendações como uma boa acompanhante de paciente e mais uma vez, esperei. Esperei e esperei, sentindo outro tipo de agonia, foram horas e horas, mas finalmente pude visitá-lo.
O que me deixou contente foi ver o sorriso de Niki, era um sinal de que sorrir já não doía mais. Seu rosto estava bem melhor comparado ao momento em que ele tinha sido socorrido, ainda assim, as cicatrizes não o deixariam nunca mais. Eu não me importava com nada disso, mas tinha medo de como ele reagiria ao ver o próprio rosto tão mudado sem tê-lo visto durante um mês.
Finalmente pude beijá-lo, contente por termos vencido uma primeira tortuosa etapa. Só restava ver o que vinha por aí.
