Eu me sentia inútil e fraco, eram os dois principais sentimentos que eu tinha em mim durante os primeiros dias no hospital. Era complicado, era difícil, tudo que eu pensava era que tinha que sair dali, mas então, comecei a processar o que tinha acontecido comigo. Eu tinha sofrido um gravíssimo acidente que por pouco quase tinha levado a minha vida. Essa percepção tinha ficado clara pra mim quando Marlene me disse que achou que me perderia. Me senti culpado ao ouvir isso; como seu marido, não era minha intenção preocupar e chatear minha esposa, mas nós dois sabíamos dos riscos.

Tudo tinha sido confuso, doloroso, horrível, mas agora que tudo tinha passado, era assim que encarava isso, meu acidente tinha ficado para trás, eu ainda estava com vida e isso por si só era o suficiente para me convencer e me mostrar que eu deveria seguir em frente. Era por isso que queria voltar a correr o quanto antes, não poderia perder o campeonato quando estava tão perto de conseguir o título mundial novamente.

Durante meu tratamento, Marlene estava sempre perto de mim, ela acompanhava tudo com preocupação e tristeza, não poderia culpá-la por isso, a entendia completamente, mas junto com ela, tinha esperanças sobre minha recuperação. Quem também era uma companhia constante era a televisão, parecia que deixavam nas noticias e nas corridas de propósito. Lá estava eu, completamente impossibilitado, enquanto Hunt vencia corrida após corrida, se aproveitando da minha ausência, o que me deixava cada vez mais irado.

Eu sabia muito bem que tinha uma pré disposição natural ao mau humor, mas tudo tinha contribuído pra que eu ficasse irritado. Estar no hospital era estressante, meu tratamento era doloroso e ver James vencendo sem que eu tivesse condições de competir de igual pra igual me deixava furioso. A única coisa que me acalmava era poder falar com a minha esposa.

-Então, o doutor falou que sua cirurgia foi bem sucedida, seu rosto está reagindo bem - ela me contou as últimas notícias depois que tinha passado pelo procedimento no meu rosto.

-Isso é bom, suponho - respondi, mais desanimado do que Marlene esperava.

-Isso é extremamente bom - reafirmou ela, me olhando preocupada - mas o que é que não está tão bom assim pra você?

Eu sabia que ela tinha notado meu desconforto além de ser um paciente em recuperação.

-Estou cansado de ficar parado, sem ter o que fazer praticamente - confessei - eu tenho pensado uma coisa, na verdade tenho uma decisão tomada sobre isso, mas estou quase certo de que você não vai gostar.

-Ah sim... - ela deu uma risadinha sem graça - sei exatamente do que está falando, e pra ser sincera Niki, eu não gosto disso, não gosto mesmo, mas eu também não sou tola.

-Como assim? - questionei.

-Meu amor, eu não sou mais forte que a sua natureza de voltar a competir - ela segurou minhas mãos com toda doçura - não vou mentir falando que gosto da ideia, ainda tenho medo, mas eu também sei que seria injusto eu ficar entre você e as corridas. Se estiver bem o suficiente pra isso, Niki, tudo bem por mim, mas tudo depende de você.

-Eu entendo e obrigado, muito obrigado - eu beijei as mãos dela, agradecido.

Esperei mais alguns dias em agonia e então, consegui ficar de pé, me vestir sozinho, e mesmo com todo receio dentro de mim, me encarar no espelho pela primeira vez depois do acidente.

Num primeiro momento, não conseguia acreditar que era eu ali, realmente eu tinha ficado com uma aparência pouco agradável aos olhos. Aquilo me deixou espantado e em choque por um bom tempo, até que a razão me puxou de volta à realidade. Não importava como tinha ficado meu rosto, eu ainda estava vivo, estava bem e poderia correr.

Um pouco depois, minhas inseguranças bateram em mim. Comecei a imaginar como as pessoas reagiriam à minha aparência, se assustariam, me tratariam como uma pobre vítima... Eu teria que superar tudo isso, não era a primeira vez que encarava um desafio, e portanto, eu não fugiria de mais esse.

Ainda assim, pensei em Marlene, queria esconder minhas preocupações dela, mas não era justo, não era correto. Sentada ao meu lado, ela notou minha inquietação mental, olhando pra mim de um jeito que questionava onde é que eu estava com a cabeça.

-Você não se assustou quando me viu? - contei meu pensamento, que ela queria tanto saber.

-Eu me assustei muito quando eu te vi, assim que te trouxeram de Nurburgring - ela respondeu - tudo que eu pensava era na dor que você tinha passado, mas um pouco depois, tudo que eu pensei foi que independente do acidente, era o meu marido ali.

-Então... Não se importa com o jeito que o meu rosto ficou? - disse impressionado, concluindo que era isso que Marlene quis dizer.

-Niki, acha mesmo que me importaria com sua aparência quando o mais importante é que você sobreviveu? - Marlene disse com toda doçura e compreensão possível - Eu não me apaixonei só pela sua cara, mas por quem você é por dentro. Quem você é e não como você é por fora. Independente de qualquer coisa, eu te amo, Andreas Nikolaus Lauda.

-Desse jeito, não vou ter mais dúvidas - consegui sorrir, mesmo que não gostasse muito que ela dissesse meu nome inteiro - também te amo.

-Eu te amo - ela disse mais uma vez e beijou minha bochecha.

As coisas ainda pareciam incertas, mas sabia que Marlene era a maior certeza da minha vida.