Com boas notícias sobre a recuperação de Niki, mas também cheios de recomendações médicas que pediam por repouso e cuidados, comecei a preparar tudo para voltarmos para casa, depois de mais de um mês na Alemanha e tudo que tinha acontecido ali, sentia falta de Ibiza mais do que nunca.

Niki também não via a hora de estar livre de tudo aquilo, então me despedi dele momentaneamente, prometendo que logo voltaria. Retornei ao hotel em estava hospedada, acertando todas as despesas e já me preparando para ir embora, quando ouvi alguém me chamar de maneira peculiar e informal.

-Marlene? - me virei em direção da voz e me espantei com quem vi.

-James? O que tá fazendo aqui? - era justamente Hunt que estava de forma inacreditável na minha frente.

-Eu precisava falar com você, já que não dava pra falar com Niki - ele falou, extremamente desconfortável, muito atípico ao seu jeito natural de ser.

Antes de responder qualquer coisa, já que eu tinha muitas coisas na cabeça a questionar a ele, fiz o que achei mais sensato.

-Você não quer sentar? Podemos ir até o restaurante, não me importo de te pagar alguma coisa - eu propus - pelo jeito, acho que a nossa conversa vai levar um certo tempo.

Ele apenas assentiu, ainda cabisbaixo, seguindo meus passos.

-Antes de qualquer coisa, James, eu queria te dizer que Niki já está bem melhor - avisei - ele consegue falar normalmente, se é com isso que está preocupado.

-Eu fico feliz de saber que ele está melhor - James tinha alívio e pesar nas suas palavras - de verdade, eu queria poder visitá-lo quando tudo aconteceu, mas eu simplesmente não tive coragem, eu me senti tão culpado... Nenhum pedido de perdão o faria me entender...

-Por que exatamente você se culpa? - queria entender essa parte da história, estava claro que algo tinha acontecido entre eles antes da corrida.

-Bom, eu... Houve uma reunião com todo mundo pra decidir se íamos correr ou não, e eu provoquei todo mundo e o Niki que deveríamos correr sim - James ficou perdido na memória por um instante - você sabe que eu não tenho a mesma prudência que ele.

-Eu sei, James, mas o que aconteceu, mesmo que você se sinta culpado, não foi exatamente sua culpa - depois de passar por todo drama e ver meu marido entre a vida e a morte, eu conseguia compreender Hunt muito melhor - eu e Niki sabíamos dos riscos, ele tinha plena consciência do que estava fazendo, o que aconteceu foi uma fatalidade, mas é algo que tanto eu e Niki queremos superar, estamos superando, na verdade, é assim que ele enxerga as coisas, ele tem sorte de estar vivo e quer seguir em frente.

-É bem algo que ele faria, me admira a determinação dele - refletiu James.

-A mim também - concordei, com o mesmo orgulho constante do meu marido.

-Bom, o importante é que o Niki tá bem - James resumiu, já se preparando para ir embora, mas se interrompendo no processo - Marlene, será que eu poderia te pedir mais uma coisa?

-Sim - esperei para ver o que ele ia dizer.

-Não conte ao Niki que conversamos, eu preferiria assim, pelo menos por enquanto, até que eu tenha coragem de encará-lo de novo - James fez seu pedido, o que achei amargurado e justo.

-Tudo bem - concordei.

-Obrigado - sem mais palavras, ele se despediu, me deixando sozinha e com mais coisas para refletir.

Era incrível que em pleno campeonato mundial ainda acontecendo, ele se deu ao trabalho de ir até a Alemanha atrás de notícias de Niki. Ainda assim, James tinha um bloqueio tão grande que não podia falar com meu marido pessoalmente. Pelo visto, o acidente de Niki tinha causado traumas em pessoas que eu menos esperava.

Resolvi guardar o segredo de James, assim como ele tinha me pedido. Então, finalmente, eu e Niki voltamos para casa. Foi uma verdadeira jornada pegarmos o avião e chegarmos até a nossa casa em Ibiza. Era comum as pessoas olharem para Niki e seu rosto, ainda com ataduras na cabeça, mas parecia que nada disso o incomodava, ou talvez ele estava se habituando a ignorar isso.

Eu notei o sorriso dele ao ver nossa casa, olhando para cada espaço e canto com saudade e alívio.

-É como dizem - o abracei pelas laterais com cuidado - não há lugar melhor que o lar.

-Com certeza - ele beijou minha bochecha e naquele instante, tive quase certeza de que as coisas estavam voltando ao habitual.

Niki conseguiu seguir as recomendações de se manter mais quieto e relaxado, acabou lendo livros e tomando chá comigo constantemente, mas sua inquietação estava presente por trás de tudo isso. Sabia que se tratava de uma questão de pouquíssimo tempo pra que ele quisesse retornar às corridas.

Em meio às minhas preocupações, mais uma coisa surgiu para que eu me preocupasse. Tudo começou com um telefonema, que corri para atender, mas Niki me seguiu, esperando para ver do que se tratava aquilo.

-Alô? - eu disse, esperando.

-Alô, é da casa dos Lauda? - o homem do outro lado da linha soou um pouco mais aflito.

-É sim, é Marlene Lauda falando, quem é, por favor? - comecei a ficar desconfiada.

-Meu nome é Florian, eu queria fazer uma visita a vocês, eu não sei se Niki se importaria, mas de qualquer modo, eu precisava vê-lo - explicou Florian, e de repente, o nome não me era tão estranho assim, Niki tinha mencionado uma vez para mim, e depois nunca mais.

-Você é o irmão dele, não é? - tentei não olhar para Niki enquanto esperava a confirmação, aflita sobre o que aquilo poderia significar.

-Sou sim, eu soube do acidente - Florian disse com pesar - minha família ficou desesperada, mas acredito que você sabe que ele evitou o contato conosco.

-Sim, eu sei - assenti e comecei a pensar rápido para resolver aquela situação - me dê um tempo para falar com ele e me fala o seu telefone, entro em contato assim que puder.

Florian concordou comigo, fazendo o que eu pedi. Desliguei o telefone, me preparando para tocar naquele assunto delicadíssimo para Niki.