Niki ainda me olhava de forma questionadora quando desliguei o telefone, então percebi que não teria chance nenhuma de adiantar aquele assunto. Ele me pressionaria pra saber quem tinha ligado e eu, bem, cabia a mim dizer a verdade, como ele reagiria, dependeria dele.
-Quem ligou? Se trata de algo grave? Você me parece bem abalada - ele constatou, como eu tinha previsto.
-Niki, quem me ligou foi o seu irmão - falei num suspiro e imediatamente meu marido ficou alarmado - ele soube do acidente e queria saber se poderia te ver.
-Não, eu não... Não sei se eu quero isso - Niki ficou um pouco assustado, mas logo depois deu lugar à raiva - ele falou o que ele queria? Ele quer mais além disso? Avisar meus pais? Não, eu não quero ter nada a ver com essa gente.
-Niki, por favor... - eu tentei, ao mesmo tempo que entendia sua revolta.
-Eu não posso... Eu não consigo... - a emoção forte não o deixava formular nenhuma frase direito.
-Eu sei que eles te magoaram muito, mas isso foi há tanto tempo - tentei aconselhá-lo, colocando uma mão sobre seu ombro - e pelo que você me contou, Florian nunca te fez mal, então...
-Mesmo assim, o meu avô pode estar o usando pra chegar até mim, e eu não quero vê-lo, nunca mais! - Niki chegou a se exaltar ao dizer isso, mas depois se desmanchou, chorando e procurando por abraços em mim.
Eu o abracei e deixei que ele chorasse por quanto tempo fosse necessário.
-Descanse, meu amor - pedi com toda delicadeza - pense no que vai fazer e só então faça algo a respeito.
Ele me deixou sozinha, indo fazer o que pedi. Quando fui ver como Niki estava, ele ainda estava dormindo. Seu rosto machucado me lembrava tudo que tínhamos passado e agora, depois desse grande desafio, outro parecia estar às nossas portas. Eu me distraí por um tempo e quando Niki acordou, parecia bem melhor, mas não menos decidido.
-Eu decidi falar com ele, mas se ele contar ao resto da família ou trazê-los pra cá, eu juro que ele nem vai passar da porta - Niki prometeu.
-Está bem, pra mim já é um bom começo - sorri, ele ainda estava mal humorado, mas meu marido era assim geralmente.
Liguei para Florian, combinando tudo, então ajudei Niki a se preparar para isso. Estava ao seu lado caso ele quisesse conversar, mas pelo contrário, ele ficou absorto em seus próprios pensamentos, refletindo sobre tudo. Eu atendi Florian, vendo que ele tinha certa semelhança com Niki, mas era um pouco mais novo.
-Olá, é um prazer te conhecer - fui muito cordial, o que surpreendeu meu cunhado.
-Eu também, isso é tão inacreditável - ele confessou - eu só te conhecia pela televisão, pra ser franco.
-Quer dizer que você assiste as corridas do Niki? - me surpreendi, só podia ser essa a explicação pra que Florian me conhecesse da TV.
-Era o único jeito de saber sobre o meu irmão - ele deu de ombros, sendo sincero.
-Niki vai ficar contente de saber disso, que você o acompanha - garanti, o que achei um bom sinal.
-Onde ele está? Melhor, como ele está? - Florian estava bem preocupado.
-Estou aqui - Niki veio ao nosso encontro.
Os irmãos Lauda estavam quase igualmente chocados pelo encontro. É claro que Florian tinha se assustado com os ferimentos de Niki, mas também em ver o irmão depois de tanto tempo.
Sem mais hesitar, o mais novo abraçou o mais velho. Meu marido foi um tanto relutante com o carinho, mas mesmo assim acabou cedendo.
-Eu senti muito a sua falta - confessou Florian.
-Eu posso imaginar, mas você sabe porque parti, e eu não me arrependo - Niki declarou.
-Eu sei, e pelo jeito você continua o mesmo cabeça dura de sempre - constatou Florian, a expressão fez os dois rirem - mas você conseguiu o que queria, apesar de tudo...
-Com tudo você quer dizer, nosso avô e o acidente? Bom, Florian, não estou disposto a deixar nenhum dos dois me impedir - meu marido continuou convicto.
-É, pensei que fosse dizer isso - refletiu Florian - mas você tá realmente bem? Você se recuperou?
-Estou bem melhor, sério - Niki ficou mais descontraído - foram dias horríveis, mas eu superei, e tudo ficou pra trás.
-Não se esquece um acidente como o seu do dia pra noite - apontou Florian.
-E eu nunca vou esquecer - Niki afirmou - só estou dizendo que o que importa é que estou vivo.
-É, estou contente por isso - Florian assentiu - se não eu não poderia revê-lo de novo, irmão.
Niki ficou emocionado com a maneira que Florian o chamou. No fundo, eu sabia que ele tinha sentido tanta saudade do irmão como Florian sentia dele.
