Não havia como eu prever o que aconteceria, ainda mais quando estava começando a retomar ao que eu considerava familiar. Eu estava certo de que nada mais atrairia minha família até mim, nada mais poderia nos fazer nos encontrar novamente, mas ainda assim, ali estava Florian novamente comigo.

Por um breve momento, senti voltar a ser criança outra vez, diante do meu irmão, que sempre foi tão compreensivo comigo, que sempre me teve como seu grande exemplo. Realmente, eu não tinha motivos para culpá-lo do meu afastamento, no fundo, eu deveria pedir desculpas por tê-lo incluído nesse afastamento.

Depois do choque inicial do encontro, conseguimos conversar um pouco melhor. Percebia a admiração e espanto no olhar de Florian, ele estava se perguntando mentalmente como eu conseguia me submeter a tudo isso e ainda sobreviver ao acidente. Eventualmente, consegui afastar esse assunto da conversa e enfim, chegamos ao que realmente era delicado e profundo para mim.

-Mamãe e papai ainda lembram bastante de você - contou o meu irmão - principalmente no seu aniversário.

-E o nosso... Avô? - era difícil não se lembrar da última conversa dura que tivemos.

-Não gosta que mencionem seu nome, mas teve que dar o braço a torcer - admitiu Florian - Niki, você conseguiu o que queria.

-Você tinha dúvidas? - consegui brincar com ele.

-Não, de jeito nenhum, como eu disse, você é bem teimoso - meu irmão riu - mas Niki, eu tô tão feliz por você, mas ainda mais feliz porque você quis me encontrar e eu pude te ver, imagina se...

-Não, por favor, não - eu sabia que ele diria sobre os meus pais, e tratei de barrar a ideia - não sei se seria bom, se eu estou disposto a isso, a verdade é que não estou, e não sei se algum dia vou estar, não me entenda mal, eu gostei de revê-lo, mas não sei como eu reagiria se visse mamãe e papai de novo.

-Eu entendo, entendo Niki, claro que entendo - Florian pareceu decepcionado, mas suas palavras eram sinceras - será que ao menos eu poderia contar pra eles como você está?

-Acho que isso é tolerável - acabei concordando, assentindo.

Deixei claro ao meu irmão que ele, sua esposa e filhos seriam muito bem vindos quando ele quisesse voltar. Assim, me despedi de Florian, e tinha que admitir, estava bem mais leve por isso.

Agora estava pronto para retomar exatamente de onde tinha parado, só restava avisar Marlene, esperando contar com sua compreensão mais uma vez.

-Eu falei com Daniele - disse a ela - eles estão prontos, caso eu queira voltar.

-Caso queira voltar? - percebi o sarcasmo na voz dela - é claro que você quer voltar, mesmo contra as recomendações médicas.

-E você se opõe? - eu precisava saber.

-Sabe bem qual minha resposta - ela deu um suspiro e tocou me rosto - mas como eu disse, não tenho o direito de impedi-lo. Só tome cuidado, Niki, tome todo cuidado necessário, eu... Eu não quero te perder.

-Eu farei o possível - achei melhor ser franco, não prometeria algo que não pudesse cumprir.

Dessa forma, finalmente voltamos à velha rotina. Tive que passar por algo desagradável, mas que fazia parte do trabalho, dar esclarecimentos à imprensa sobre meu tratamento e cirurgia, também pensando em como seriam as coisas daqui pra frente.

É claro que me questionaram de forma cruel, se haveria possibilidade de Marlene continuar casada comigo mesmo eu tendo essa nova assustadora aparência. Perdi a paciência, era aquele velho fantasma tentando me intimidar outra vez, mas minha esposa tinha deixado claro que não me abandonaria sob nenhuma circunstância e eu podia confiar nela com todas as minhas forças.

Me concentrei no que era mais importante agora, a corrida. Era dia de treinos e, pela primeira vez, depois de mais de um mês longe do meu carro, chegava perto dele outra vez. Estava completamente reconstruído, já que o acidente tinha destruído tudo. Por lembrar do acidente, senti a hesitação ascender em mim, me questionei se realmente estava fazendo o que era certo. Não era o tipo de dúvida que um piloto deveria ter e com certeza, eu era um piloto. Ignorei tudo isso e entrei no carro, me concentrando, apenas esperando o sinal de que poderia entrar na pista.

Acelerei, sentindo a velocidade em torno de mim, o motor funcionando, as curvas à frente se aproximando, a inevitável imagem do acidente se formando na minha cabeça. Eu me lembrava dos pequenos instantes antes da batida e era com isso que tudo estava parecendo, embora eu soubesse que não havia perigo iminente à frente. Era como se de repente, eu não soubesse o que fazer, como se não fosse capaz de evitar o pior.

Meu fôlego foi fugindo de mim, parecia que o carro estava ficando cada vez menor ao meu redor, me apertando, me sufocando. Eu tinha que sair dali. Aos poucos, fui desacelerando, até parar por completo, saindo logo dali assim que atingi os boxes. Parecia que a volta no circuito tinha durado uma eternidade, mas eu mal tinha saído do primeiro trecho. Me senti um covarde, não queria ver ninguém para não ter que dar explicações. Só queria ficar sozinho por um momento e entender o que é estava acontecendo.