Oiiiieeeee! Voltei com o primeiro capítulo! Aproveitem muito e...

Boa Leitura!!!

Capítulo 1

Dois dias depois do Natal, à luz avermelhada da aurora em Honolulu, Bella Swan estava numa calçada deserta, diante de um arranha-céu do outro lado da rua, olhando para a cobertura onde ele morava.

Não poderia fazer isso. Casar com ele? Impossível.

Mas precisava.

Não estou com medo. Ela ajeitou a velha mochila no ombro. Casaria até com o diabo para salvar minha irmã.

Mas nunca imaginara que seria necessário. Pensara que a polícia fosse ajudá-la, mas, tanto em Seattle quanto em Honolulu, tinham rido dela.

— A sua irmã apostou a virgindade num jogo de pôquer? — perguntara um policial, admirado. — Foi um jogo entre namorados?

— O ex-namorado milionário da sua irmã a ganhou num jogo? — debochara o outro. — Tenho crimes de verdade para resolver, Srta. Swan. Dê o fora, antes que eu resolva prendê-la por jogo ilegal.

Bella estremeceu com o frio úmido do amanhecer. Ninguém ajudaria Rosalie, a não ser ela.

Por sua culpa, Rosalie se metera naquela encrenca. Se não tivesse aceitado o convite do patrão para jogar, sua irmã não teria precisado intervir para salvá-la.

Aos 6 anos, Rosalie já era uma exímia jogadora de pôquer e, na adolescência, se tornara especialista em trapaças, mas, depois de dez anos afastada daquela vida e trabalhando honestamente como camareira, ficara enferrujada. Só isso explicaria o fato de que ela tivesse perdido tudo para o odiado ex-namorado, com uma simples cartada.

Emmett Cullen separara as duas, mandando Bella de volta para o continente em seu jato particular, e ela gastara o último salário para voltar ao Havaí e tentar salvar Rosalie. Durante as 44 horas que haviam se passado desde o malfadado jogo, a única coisa que sustentara Bella fora saber que, se tudo mais falhasse, ela teria uma saída garantida, mas, agora que recorria a ela sentia-se como se estivesse se jogando sobre o fio da espada.

Bella olhou para as janelas da cobertura, que refletiam o vermelho da aurora.

Assumiria sua responsabilidade. Fizera com que a irmã perdesse a liberdade e iria salvá-la, vendendo-se para o maior inimigo de Emmett Cullen: seu irmão mais novo.

O inimigo do meu inimigo é meu amigo, Bella pensou. Considerando que os irmãos Cullen's haviam tentado se destruir mutuamente durante os últimos dez anos, Edward Cullen deveria ser seu melhor amigo. Certo?

Bella sentiu um nó na garganta. Eu casaria até com o diabo...

Ela atravessou a rua, sentindo as pernas bambas. Levou um susto com a buzina de um ônibus que passava.

Agora, não havia volta.

— Posso ajudá-la? — perguntou o porteiro, observando seu rabo de cavalo despencado, a camiseta amassada, as sandálias baratas. Bella mordeu o lábio.

— Eu vou me casar com um dos moradores: Edward Cullen.

O porteiro ficou indignado.

— Está se referindo a Sua Alteza, o príncipe? Saia daqui, antes que eu chame a polícia!

— Por favor, ligue para ele. Diga que Bella Swan está aqui e que mudou de ideia. Diga que a minha resposta é sim.

— Chamá-lo? Claro que não. — O homem torceu o nariz. — Você está delirando se acha que pode entrar aqui... A presença de Sua Alteza é segredo. Ele está de férias...

Bella revirou o conteúdo da mochila e por fim achou o cartão de visitas.

— Está vendo? Ele me deu isso há três dias quando me pediu em casamento, em um restaurante self-service perto de Waikiki.

— Restaurante self-service... Como se o príncipe fosse... — Ele pegou o cartão, viu o selo real e virou-o. No verso, estava escrito: "Caso você mude de ideia" — Mas você não é do tipo que ele... — o porteiro falou, admirado.

— Eu sei. — Bella suspirou. Nove quilos acima do peso, malvestida, amassada, ela não deveria ser o ideal de ninguém. Felizmente, Edward queria se casar com ela por outros motivos, e não por amor ou atração.

— Por favor, ligue para ele.

O porteiro pegou o interfone e ligou. Minutos depois, voltou-se para ela com um ar mais que surpreso.

— O segurança disse para você subir. — Ele indicou o elevador. — Trigésimo nono andar... E... felicitações, senhorita.

Bella ajeitou a mochila e entrou no elevador, sentindo-se atordoada. Quando a porta abriu no trigésimo nono andar, ela saiu, hesitante.

— Seja bem-vinda, Srta. Swan. — Dois enormes seguranças esperavam por ela e a revistaram.

— O que estão procurando? — Ela riu, sem graça. — Acham que eu traria uma granada para aceitar uma proposta de casamento? — Os guardas lhe devolveram a mochila e a convidaram para entrar. — Obrigada. Ele está aqui?

— Sua Alteza está à sua espera — disse um dos seguranças.

— Ótimo... — Ela se voltou para eles. — Ele é um homem bom, não é? Bom patrão? Ele é confiável? — perguntou ela, ansiosa.

Os dois olharam para ela, mas nada disseram. Bella ficou irritada. Tudo bem. Não precisava de referências. Seguiria a própria intuição. Ouviria seu coração...

Ou seja: iria se meter em confusão. Havia um motivo para seu pai lhe ter deixado terras no Alaska, em condições especificadas no testamento: só iria recebê-las aos 25 anos — dentro de três anos — ou quando se casasse. Ou seja: Charlie Swan sabia que a filha era ingênua e confiante e que precisaria de toda ajuda que estivesse a seu alcance. Dizer que ela era ingênua seria pouco...

Mas, havia apenas dois dias, Rosalie lhe dissera que essa era uma qualidade.

Rose. Imaginava o que ela estaria passando naquele momento, como prisioneira do milionário irmão de Edward Cullen.

Bella fechou os olhos, respirou profundamente e abriu a porta. O luxuoso saguão estava vazio. Ela entrou e apreciou o lindo piso de mármore e o magnífico candelabro que iluminava a escada. A cobertura era como uma mansão no céu, ela pensou admirada, cruzando o saguão e entrando na sala.

Abriu a boca ao ver a vista através das janelas de vidro, que iam do chão ao teto: as luzes ainda acesas da cidade e, mais além, o colorido avermelhado do sol que se elevava sobre o Pacífico.

— Então... Você mudou de ideia.

A voz macia e grave soou atrás dela. Bella se voltou lentamente. Edward Cullen era mais bonito do que ela recordava. Com mais de 1,90 metros, ombros largos e corpo musculoso, seus olhos verdes contrastavam com a pele bronzeada e com os cabelos acobreados. A roupa bem-feita e os sapatos de couro bem-engraxados alardeavam dinheiro enquanto a frieza do olhar e o queixo firme alardeavam poder.

Mesmo sem querer, ela ficou impressionada. Bella não tinha problemas para falar com ninguém, mas Edward deixava-a muda: nenhum homem bonito como ele já lhe dera alguma atenção.

— Da última vez em que nos vimos, você disse que nunca se casaria comigo — falou Edward, olhando-a de cima a baixo. — Por nenhum preço.

— Talvez eu tenha sido precipitada — Bella corou.

— Você jogou a bebida na minha cara.

— Foi um acidente! — protestou ela.

— Você saiu correndo do restaurante — insistiu ele.

— Você me pegou de surpresa!

Três dias antes, na noite de Natal, Edward lhe telefonara, no hotel Hale Kanani, onde ela e Rosalie trabalhavam como camareiras.

— Minha irmã disse que eu não devo falar com você — dissera ela quando ele se identificara. — Vou desligar.

— Você vai perder a melhor oferta da sua vida — ele respondera gentilmente, pedindo que ela fosse encontrá-lo num humilde restaurante, perto de Waikiki Beach. Apesar de proibido, ou justamente por isso, ela ficara intrigada com a proposta misteriosa e concordara. E ficara totalmente chocada quando ele lhe propusera casamento.

— Você fugiu de mim — disse Edward, aproximando-se — como se fugisse do diabo.

— Porque pensei que você fosse o diabo — sussurrou Josie.

Edward ficou surpreso.

— É assim que você diz que vai se casar comigo?

— Você não entende... Você...

Bella não conseguia falar. Como dizer que, apesar de ele e o irmão terem arruinado a vida dela e de Rosalie, havia dez anos, ela ficara eletrizada com o brilho dos olhos verdes de Edward quando ele lhe propusera casamento? Como explicar que, apesar de saber que ele queria apenas se apossar de suas terras, ela passara anos esperando por um homem que a notasse e que ficara tentada a dizer "sim", traindo todos os seus ideais a respeito de amor e de casamento? Como poderia explicar tamanha estupidez e ingenuidade?

— Por que mudou de ideia? — perguntou ele. — Precisa de dinheiro?

Elas precisavam reembolsar homens perigosos, que as perseguiam há anos, cobrando dívidas de seu falecido pai, mas Bella sacudiu a cabeça.

— Então, o que a atrai é o título de princesa?

— Está brincando? — perguntou ela, espantada.

— Muitas mulheres sonham com ele.

— Não eu. Além disso, Roaalie me disse que o título não tem valor. Você é neto de um príncipe russo, mas não tem terras...

— Já tivemos milhares de hectares de terras na Rússia — interrompeu ele friamente. — E fomos proprietários das terras no Alaska por quase cem anos, desde que minha bisavó fugiu da Sibéria. Por direito, elas são nossas.

— Desculpe, mas seu irmão as vendeu legalmente ao meu pai!

— Contra minha vontade. Sem meu conhecimento.

Bella recuou. Milionário por virtude própria, Edward era conhecido como um playboy sem coração, cujo único interesse, além de namorar modelos e aumentar a própria fortuna, era destruir o irmão que o expulsara da empresa quando esta estava na iminência de lhe render milhões de dólares.

— Você está com medo de mim? — perguntou ele subitamente.

— Não — mentiu ela. — Por que estaria?

— Dizem que sou implacável, meio louco, que fiquei assim por causa da minha sede de vingança.

Bella sentiu a boca seca.

— Não é verdade... Ou é?

Ele deu uma risada ameaçadora.

— Se fosse, eu não iria admitir. — Ele se voltou e deu um passo, mas parou e olhou para ela. — Você mudou de ideia, mas já lhe ocorreu que posso ter desistido de me casar com você?

Bella prendeu a respiração.

— Você não faria isso!

— Sua rejeição me pareceu definitiva...

Bella ficou apavorada. Gastara o último tostão para ir até ali. Sem a ajuda de Edward, Rosalie estaria perdida: seria propriedade de Emmett Cullen para sempre. Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas e agarrou-o pelo braço.

— Não... Por favor! Você disse que faria tudo para recuperar as terras. Disse que jurara a seu pai não vendê-las em seu leito de morte... — Ele a encarou, e ela corou e o soltou. — Preciso saber: você ainda quer se casar comigo?

— Preciso saber seus motivos — falou ele, impassível. — Se não é por dinheiro, nem pelo título...

Bella deu uma gargalhada.

— Como se eu fosse casar por causa de um título inútil!

Ele ergueu a sobrancelha.

— Ele não é inútil. É uma vantagem. Você ficaria pasma ao ver quanta gente se impressiona com ele.

— Ou seja, você o usa como instrumento de marketing em seus negócios.

— Você entendeu — falou ele, divertido.

— Espero que não seja preciso lhe fazer uma reverência.

— Não quero que você faça reverências. Só quero que se case comigo. Hoje. Agora mesmo.

O coração de Bella quase parou.

— Então, você ainda quer se casar comigo?

Ele deu um sorriso que lhe provocou rugas em volta dos olhos.

— Claro. É o que eu queria.

Quando Edward olhava para ela daquele jeito, era difícil lembrar que ele só queria recuperar as terras da família. Ela sentia o coração acelerar, sentia-se importante, desejada. Bella tentou se convencer de que nada sentia, de que não ficava excitada e com falta de ar.

Edward tocou-lhe o rosto.

— Diga: o que a fez mudar de ideia?

Bella estremeceu ao sentir o toque sensual de seus dedos sobre a pele. Nenhum homem a tocara de modo tão íntimo. Ele tinha os dedos ásperos de um trabalhador, mas seu toque era leve como o de um poeta.

Mas Edward Cullen nada tinha de poeta. Ele era um lutador. Um guerreiro. Poderia esmagá-la com uma das mãos.

— Minha irmã...

— Rosalie a fez mudar de ideia? É difícil de acreditar.

— Seu irmão a sequestrou. Quero que você a salve. — Ela esperava que ele se mostrasse chocado, furioso, alguma coisa, mas ele nada demonstrou.

— Emmett a sequestrou?

Ela mordeu o lábio, desanimada.

— Bem, tecnicamente, pode-se dizer que ela se ofereceu como aposta num jogo. E perdeu.

Edward fez um gesto de desdém.

— Foi um jogo de namorados. De outra maneira, nenhuma mulher teria se arriscado. — Ele franziu os olhos. — Meu irmão sempre teve uma queda por ela. Depois de dez anos de separação, os dois devem estar delirantemente felizes por terem feito as pazes.

— Está brincando? — exclamou Bella. — Rosalie o odeia! Ele a forçou a ir com ele! — Edward pareceu ficar satisfeito, e Bella cobriu os olhos. — A culpa foi toda minha. Na noite seguinte à sua proposta, meu patrão me convidou para jogar pôquer, e eu esperava ganhar o suficiente para pagar as dívidas de meu pai. Depois que Rosalie dormiu, eu saí escondida, porque, além de ter me proibido de jogar, ela não confiava no Sr. James.

— Por quê?

— Ele nos contratou em Seattle, sem nos conhecer, pagando apenas nossa passagem de vinda para o Havaí. Na época, estávamos muito desesperadas para nos importarmos, mas... — Bella suspirou. — Rosalie tinha razão. Havia algo de estranho nisso tudo, mas eu não quis escutar... — Ela olhou para ele, com os olhos cheios de lágrimas. — Por minha causa, Rosalie perdeu tudo em uma única cartada.

— E você acha que eu posso salvá-la.

— Sei que pode. Você é o único que tem poder suficiente para enfrentar Emmett, o único disposto a combatê-lo, por causa do seu ódio. — Ela respirou fundo. — Por favor. Você pode ficar com minhas terras. Eu não me importo. Mas, se você não salvar Rosalie, não sei como vou viver comigo mesma.

Edward olhou-a por um longo tempo e, depois, tirou-lhe a mochila do ombro.

— Deixe-me pegar isso.

— Não precisa...

— Você está cambaleando — falou ele gentilmente. — Parece que não dorme há dias. Não admira, voando para Seattle e de volta para cá...

Sem o peso da mochila, Bella se sentiu tonta.

— Eu lhe contei que fui para Seattle?

Ele ficou tenso e, depois, relaxou.

— Claro que contou. Como eu iria saber?

Realmente, como? Depois de duas noites sem dormir, ela estava confusa.

— Estou um pouco cansada — confessou ela. — E com sede.

— Venha. Vou lhe dar algo para beber.

— Por que está sendo tão gentil comigo? — ela disse, sem se mexer.

— E por que eu não seria?

— Sempre achei que, quanto mais bonito o homem, mais idiota. E você é muito... muito... — Os olhares dos dois se cruzaram, ela corou e gaguejou. — Esqueça.

Edward sorriu.

— Seja o que for que sua irmã lhe disse, não sou o diabo. Mas estou esquecendo as boas maneiras. Vamos pegar algo para você beber.

Ele se encaminhou para o saguão, carregando a mochila. Bella ficou parada, apreciando o formato de suas costas musculosas e de seu traseiro. De repente, ela sacudiu a cabeça, irritada. Por que sempre dizia o que lhe vinha à cabeça? Por que não era educada e contida como Rosalie? Por que sempre era boba, o tipo de garota que conversava sobre qualquer assunto, com qualquer estranho, e ainda lhe dava o dinheiro de sua passagem de ônibus?

Desta vez a culpa não fora sua, ela pensou, indo atrás dele. Ele era muito bonito. Nenhuma mulher conseguiria pensar racionalmente sob o olhar penetrante daqueles olhos verdes!

Edward levou-a até uma sala de teto alto, cercada de livros e com uma janela de parede inteira, de onde se via a cidade. Ele jogou a mochila sobre a mesa e foi até um bar.

— O que vai beber?

— Água pura, por favor — disse ela em voz fraca.

— Tenho água mineral com gás e posso mandar fazer café...

— Só água com gelo, por gentileza. — Ele lhe entregou o copo. — Obrigada. — Ela bebeu avidamente enquanto ele a observava.

— Você é uma garota incomum, Bella Swan.

Incomum não parecia ser grande coisa.

— Sou?

— É reconfortante estar com uma mulher que não tenta me impressionar.

— Tentar impressioná-lo seria perda de tempo. Um homem como você jamais iria se interessar por alguém como eu. Não de verdade.

— Você está se subestimando — falou ele gentilmente, e Bella voltou a sentir o coração se aquecer.

— Você está sendo gentil, mas de nada adiantaria fingir ser algo que eu não sou. — Ela suspirou. — Ainda que às vezes eu desejasse ser.

— Incomum. E sincera. — Edward foi até o bar e se serviu de uma dose de bebida. Voltou para perto dela e bebeu um gole. — Tudo bem. Vou trazer sua irmã de volta.

— Vai? — Se havia algo estranho na voz dele, Bella estava fraca demais para perceber. — Quando?

— Depois que nos casarmos. Nosso casamento irá durar até que a propriedade no Alaska seja transferida para meu nome. — Ele olhou-a nos olhos. — Trarei sua irmã de volta e as deixarei livres. É isso que você quer?

— É! — exclamou ela.

Ele pousou o copo na mesa e estendeu a mão para Bella.

— Combinado.

Ela estendeu a mão lentamente. Sentiu o calor da mão dele quando seus dedos se entrelaçaram.

Estremeceu, engoliu em seco e olhou para ele: e foi como olhar diretamente para o sol.

— Espero que se casar comigo não seja difícil para você.

— Como você será a única esposa que terei, acho que vou gostar muito de você — disse ele amavelmente, apertando a mão dela.

— A única esposa? — Ela franziu a testa. — Isso me parece um tanto pessimista. Quer dizer... Tenho certeza de que, algum dia, você vai conhecer alguém...

Edward deu uma risada.

— Bella, minha garota inocente, você é a resposta a todas as minhas preces.

O príncipe Edward não iniciara seu feudo havia dez anos, com o irmão. Desde criança, ele idolatrava Emmett. Sentia orgulho da família, da casa. Seu bisavô fora um dos últimos grandes príncipes da Rússia e morrera lutando pelo Exército Branco, na Sibéria, depois de ter mandado a esposa e o filho para o exílio, no Alaska. Durante quatro gerações, os Cullen's tinham vivido na pobreza, em uma fazenda distante da civilização que, para Edward, fora um reino encantado. Mas seu irmão odiava o isolamento e a incerteza de viverem à custa de plantar seus próprios alimentos e estocá-los para o inverno, e de caçar coelhos. Odiava a falta de eletricidade, o fornecimento de água, que dependia do poço. Enquanto Edward brincava, combatendo as árvores com espadas de gravetos, Emmett enterrara o nariz em livros a respeito de empreendimentos, e esperava ansioso pelas visitas que faziam duas vezes por ano a Fairbanks.

— Um dia terei uma vida melhor — jurava ele, raspando o gelo que se formava por dentro da janela do quarto ocupado pelos dois. — Vou comprar roupas, em vez de costurá-las. Vou dirigir uma Ferrari, voar pelo mundo e comer nos melhores restaurantes.

Edward, dois anos mais jovem, ouvia, impressionado.

— É mesmo, Volodya?

Mas, apesar de adorar o irmão, ele não entendia sua insatisfação. Edward amava o lugar onde moravam. Gostava de ir caçar com o pai, de ouvi-lo ler em russo ao pé do fogo. Gostava de sentir o peso do machado ao cortar lenha e de ver a pilha de madeira encostada na parede da cabana. Para ele, a floresta selvagem do Alaska não significava isolamento, mas liberdade.

Lar, família, lealdade: eram os valores mais importantes para Edward.

Depois que o pai morrera inesperadamente, Emmett soubera que fora aceito na melhor faculdade de Mineralogia de São Petersburgo, na Rússia. Como não tinham com que pagar as mensalidades, Emmett fora trabalhar em uma mina, para juntar dinheiro. Dois anos depois, apesar de não esperar que tivessem condições para deixar o Alaska tão cedo, Edward se candidatara para a mesma faculdade. E se surpreendera quando, de repente, o dinheiro aparecera.

Só mais tarde, ele descobrira que Emmett convencera a mãe a vender o último bem precioso da família: um colar antigo, com centenas de anos, que pertencera à bisavó. Edward se sentira traído, mas tentara perdoar o irmão, raciocinando que este vendera o colar pelo bem de ambos.

Quando se formaram, Edward quisera voltar para o Alaska, para cuidar da mãe que estava doente. Edward o convencera de que deveriam iniciar um negócio no ramo de mineração, alegando que seria a única maneira de sempre terem dinheiro para cuidar dela. E, quando o banco se recusara a lhes emprestar uma quantia suficiente, Emmett convencera a mãe a vender os 258 hectares de terra que pertenciam à família havia quatro gerações — desde que a princesa Elizabeth Mansen Cullen chegara ao Alaska, como exilada, trazendo o filho nos braços.

Edward ficara furioso. Pela primeira vez, gritara com o irmão. Como Emmett tivera coragem de fazer aquilo, pelas costas, sabendo que ele jurara ao pai que nunca venderia a fazenda?

— Não seja egoísta — dissera Emmett friamente. — Você acha que mamãe conseguiria cuidar de tudo sozinha?

E uma parte do dinheiro pagara o hospital onde sua mãe passara seus últimos dias, em Fairbanks. O coração de Edward ainda se contorcia quando ele se lembrava.

Tinham perdido a casa porque Emmett quisera obter os mais promissores contratos de direito de mineração. O que importava mais? A honra do irmão mais moço, a casa da mãe ou sua necessidade de abrir um negócio com um bom fluxo de caixa e os melhores equipamentos?

— Não se preocupe — dissera Emmett. — Assim que ficarmos ricos, você poderá comprá-la de volta.

Edward endureceu o queixo. Deveria ter cortado todos os laços com o irmão naquele momento. Mas, depois que a mãe morrera, ele se ligara ainda mais a Emmett. Durante um ano, tinham batalhado para firmar a sociedade, trabalhando 18 horas por dia. Edward tivera certeza de que logo teriam dinheiro para recuperar a casa. Não sabia que Charlie Swan a deixara em testamento para uma de suas filhas, de acordo com certas condições. Como não sabia que, como recompensa por seu trabalho, lealdade e honestidade, Emmett o cortaria da sociedade e o despojaria de sua parte de meio bilhão de dólares.

Ainda agora, apesar de ter formado sua própria empresa, que também valia um bilhão de dólares, ele ficava furioso ao recordar que seu adorado irmão o apunhalara pelas costas. Mesmo que recuperasse as terras, Edward sabia que nunca mais se sentiria em casa, porque jamais voltaria a ser o garoto confiante e ingênuo que já fora.

Não. Edward não iniciara o feudo com seu irmão, mas acabaria com ele.

— Eu sou a resposta a suas preces? — perguntou ela docemente. — Como assim?

Edward olhou para Bella Swan.

Seus grandes olhos castanhos eram luminosos e emoldurados por longas pestanas, mas ela estava com olheiras. A pele lisa, cremosa e clara estava empoeirada. Seus lábios rosados e volumosos estavam machucados, como se ela os tivesse mordido de preocupação. Seus cabelos castanhos, que ele podia imaginar soltos sobre os ombros, estavam presos num rabo de cavalo malfeito. Bella Swan não era uma beldade, mas era atraente: muito jovem, inocente e cheia de curvas.

Edward não queria pensar nisso.

— Há muito tempo quero nossas terras de volta — falou ele com a voz rouca. — Vou fazer os preparativos para nosso casamento imediatamente.

— Que tipo de preparativos? — Ela arregalou os olhos e mordeu o lábio. — Você não está se referindo a... uma lua de mel?

Ele a olhou severamente, ela corou, e isso lhe pareceu muito atraente e fora de moda.

— Não. Eu não me referia à lua de mel.

— Ótimo. — Ela corou ainda mais. — Fico contente. Quer dizer, sei que o casamento será apenas no papel. Só assim eu concordaria...

Bella se calou. Ele reparou que ela olhava para seus lábios, e riu, pensando que ela era muito ingênua e inocente. Doce, bonita, virginal. Seria fácil seduzi-la. Felizmente, ela não era seu tipo de mulher. Ele gostava de mulheres esguias e sofisticadas. Mulheres exóticas, insinuantes, sedutoras, provocantes, que falassem pouco e nunca dissessem o que pensavam, que o levassem rapidamente para a cama e fossem fáceis de esquecer.

Bella Swan, pelo contrário, dizia tudo que pensava. E, se não dissesse, o seu rosto falava por ela. Não usava maquiagem; considerava seu cabelo mais um aborrecimento que uma vantagem. Pelo jeito como estava vestida, não se interessava por moda ou em melhorar a própria imagem.

Edward estava feliz por ela não tentar conquistá-lo, porque não pretendia seduzi-la. Não pretendia complicar o que não precisava ser complicado, nem magoá-la mais que o necessário.

Não. Ele trataria Bella Swan como um tesouro.

— Então... A que você se referia? — Os olhos dela brilharam. — Talvez... Um bolo de casamento?

Desta vez, Edward riu abertamente.

— Você quer um bolo?

— Adoro bolos de casamento com rosas de glacê... — disse ela, esperançosa.

— Seu desejo é uma ordem, minha dama.

Ela suspirou tristemente.

— É melhor não.

— Não me diga que está de dieta.

— Eu pareço me preocupar com o peso? — perguntou ela, corando. — Desculpe. A comida do avião acabou antes de chegarem à minha poltrona. Eu não como há 12 horas. Poderia ter comido no aeroporto, mas só tinha 3 dólares e achei que seria melhor guardá-los.

Edward já se voltara e apertara um botão no interfone.

— Mande-me um café da manhã completo. Depressa. — Ele se voltou para Josie. — Há algo de especial que deseje comer, Srta. Swan?

Ela ficou de boca aberta.

— Mande tudo que tiver. — Edward se aproximou, pegou-a pela mão, levou-a até o sofá e sentou-se ao lado dela. Bella olhava para ele admirada, como se ele tivesse feito algo extraordinário. — Você estava dizendo por que não quer um bolo...

— Ah, sim. — Ela soltou a mão e se endireitou no sofá. — Isso é apenas um acordo comercial, portanto, um bolo de casamento não faria sentido. Nem um vestido de noiva. Acho que o melhor para nós dois seria... — Ela olhou para ele de esguelha. — Fazer um casamento estritamente profissional.

— Como quiser — disse ele. — Você é a noiva. É você quem manda.

Ela engoliu em seco e olhou para ele, nervosa.

— Eu?

Edward sorriu.

— Isso é o que eu sei a respeito de casamentos.

— Ah. — Bella mordeu o lábio. — Você está sendo muito gentil comigo — gaguejou ela.

— Pare de dizer isso.

— Mas é verdade.

— Estou apenas sendo profissional. A gentileza faz parte do negócio.

— Ah. — Ela ficou pensativa. — Nesse caso...

— Fico feliz por você concordar. — Ela o acharia gentil se soubesse o que ele pretendia fazer e por que a considerava uma resposta a suas preces?

Uma hora antes, ele falara com o vice-presidente de sua empresa, que sugerira uma maneira de sabotar o contrato de fusão que Emmett pretendia fazer com a Artic Oil. Estivera ocupado demais para avaliar como seu último plano para atrapalhar o irmão explodira em sua cara.

Edward sempre desprezara Rosalie Swan, a golpista a quem ele culpava pela primeira briga séria entre ele e seu irmão, havia dez anos. Durante aqueles anos, observara-a a distância, esperando que ela voltasse aos velhos hábitos — não voltara — ou que concordasse que Bella se casasse com ele para poder recuperar as terras: ela o mandara para o inferno.

Edward resolvera tentar outro caminho: Bella.

Até encontrá-la no restaurante self-service, tudo que sabia sobre ela se limitava aos relatórios de um detetive particular e a uma fotografia desfocada. Há seis meses, o detetive propositadamente deixara cair uma carteira recheada de dinheiro em um supermercado. Bella correra atrás do carro dele por dois quarteirões, alcançara-o em um sinal fechado e lhe devolvera a carteira.

— A garota é tão honesta que chega a ser tola — dissera o detetive.

Edward finalmente tomara uma decisão. Sabendo que seu irmão se recuperava de um acidente de carro em Oahu, jogando pôquer no Hale Kanani, subornara o gerente do hotel, James Hudson, para contratar as irmãs Swan's como camareiras. Esperava que Emmett se encontrasse com Rosalie e passasse por uma situação humilhante. Mas isso seria apenas uma diversão. O objetivo principal seria negociar as terras e o casamento inevitável, diretamente com Bella.

Ele não deveria ter ficado surpreso por ela atirar a bebida em sua cara e fugir. Nem por Emmett e Rosalie não terem brigado, mas praticamente caído um nos braços do outro. Rosalie ganhara o equivalente à dívida de Bella no jogo e imediatamente aceitara a proposta que Emmett lhe fizera de apostar sua liberdade em troca de um milhão de dólares, em apenas uma cartada.

Restituir a felicidade aos dois antigos namorados, depois de dez anos de separação, não estava nos seus planos. Passara os dois últimos dias rangendo os dentes de raiva, saíra na noite anterior, mas não conseguira se divertir e voltara sozinho para casa.

E, como que por milagre, acordara com a notícia de que Bella viera procurá-lo e queria se casar com ele.

E ali estava ela. Era sua. Acabara de transformar seu mundo. Sentia vontade de beijá-la.

— Ficarei feliz em providenciar um bolo — ele disse com ardor. — E um vestido de noiva e um anel de diamante. — Ele pegou na mão dela e beijou. — Diga o que quer e terá.

Bella ficou vermelha e estremeceu.

— Traga minha irmã de volta. Afaste-a do seu irmão.

— Você tem minha palavra. — Ele levantou. — Preciso falar com meu advogado. Enquanto isso, coma alguma coisa e descanse. — Ele indicou as prateleiras. — Leia se preferir. Seu café da manhã estará aqui a qualquer momento. Com licença.

— Edward?

Ele ficou paralisado. Bella teria adivinhado sua intenção? Teria enxergado sua alma distorcida, sem coração? Ele cerrou os punhos e se voltou. Os olhos de Bella brilhavam, o rosto estava iluminado. Ele não resistiu e observou as curvas dos seios sob a camiseta.

— Obrigada por salvar minha irmã — sussurrou ela. — E a mim.

Edward se sentiu mal, mas se controlou.

— Esse arranjo será vantajoso para nós dois — disse ele, abafando sua consciência.

— Eu nunca esquecerei. — Josie olhou para ele com a adoração digna de um herói. Parecia estar mais bonita. — Não importa o que os outros digam. Você é um homem bom.

Edward ficou tenso e saiu sem dizer nada. Ao chegar ao escritório, ligou para o advogado, pediu-lhe para preparar um contrato de casamento, e os dois discutiram a melhor maneira de receber a herança de Bella o mais rápido possível. Quando voltou à biblioteca, uma hora mais tarde, o café não fora tocado e Bella dormia.

Ela parecia muito jovem. Não deveria ter mais de 22 anos — 11 a menos que ele — e parecia muito mais inocente que ele fora naquela idade. Ele sentiu vontade de cuidar dela, de protegê-la.

E cuidaria. Enquanto ela fosse sua prisioneira, ou melhor, sua esposa.

Edward ia acordá-la, mas hesitou. Seria melhor deixá-la dormir. O casamento poderia esperar algumas horas. Ela merecia ter um porto seguro onde descansar, e ele seria esse porto...

Ele a ergueu nos braços e carregou-a escada acima, até o quarto de hóspedes. Colocou-a gentilmente sobre a cama, afastou-se e ficou observando-a na obscuridade. Ouvia sua voz dizendo que adorava bolos de casamento com rosas de glacê.

Ele lhe dissera a verdade. Ela seria sua única esposa. Nunca pretendera se casar, nem confiar em alguém o suficiente para lhe dar a chance de apunhalá-lo pelas costas. Aquele seria o máximo que chegaria perto do sagrado matrimônio. Durante as poucas semanas do casamento, Bella Swan seria o mais próximo do que ele poderia chamar de esposa. De família.

Edward suspirou. Ela seria uma esposa excelente para qualquer homem. Era o tipo de garota antiquada, que não existia mais. Pelos relatórios dos detetives, ele sabia que ela era honesta e escrupulosa. Havia seis meses, ele contratara outro detetive para vigiá-la, em Seattle. O homem se disfarçara como morador de rua, na intenção de passar despercebido. Mas não para Bella.

— Ela veio diretamente na minha direção e perguntou se eu estava bem, se precisava de alguma coisa — dissera o detetive, impressionado. — E insistiu em me dar seu lanche: manteiga de amendoim com geleia!

Que tipo de garota fazia isso? Quem tinha um coração tão puro e bondoso?

Ao contrário de Emmett, de Rosalie e dele mesmo, Bella merecia ser protegida. Ela era inocente. Nada fizera para sofrer a bem merecida vingança que ele planejara contra seu irmão e a irmã dela.

E, ainda assim, seria magoada.

Edward sentiu o coração doer.

Culpa, ele percebeu. Há muito tempo não se sentia daquele jeito. Não deixaria que isso o detivesse, mas seria o mais gentil que pudesse com ela.

Ele saiu do quarto e voltou ao escritório. Telefonou para a secretária e, dez minutos depois, falava com o melhor organizador de casamentos de Honolulu. Quando desligou, girou a cadeira e ficou olhando para a piscina. O sol refletia na água azul e, ao longe, se viam a cidade e o mar.

Durante dez anos, ele tentara derrubar Emmett, lutando contra sua empresa, vingando-se através de pequenas estocadas que o levariam à morte com milhares de feridas.

Mas fazer com que Rosalie Swan traísse Emmett seria sua maior punhalada. Uma ferida fatal.

Edward levantou e parou diante da janela. Dentro de algumas semanas, as terras de Bella estariam em seu nome. Até lá, os dois pombinhos já estariam envolvidos e ele faria com que Rosalie o ajudasse a roubar a empresa do irmão.

Rosalie esmagaria o coração de Emmett sob suas botas e, quando o traísse, seu irmão iria saber o que era ter a vida destruída por outra pessoa.

Rosalie não teria escolha. Edward tinha toda a munição que precisava para forçá-la a fazer exatamente o que ele queria. Ele sorriu friamente.

Ele tinha sua irmã.

Uhhh! Já começou assim! Imagina o próximo?! Comentemmm!