Disclaimer: Eu não possuo Glee, caso contrário a série nunca teria um fim.


"Aqui em casa estamos todos animados para o fim de semana. Vai ser bom um momento pra relaxar depois de uma longa semana", Rachel falou ao telefone, sentada em um dos sofás de sua sala naquela tarde.

Do outro lado da linha, sua sogra respondeu:

"Claro que vai, minha querida. E aqui nós não vemos a hora de vê-los", Louise sorriu ao telefone.

"A gente morre de saudade. As crianças estão enormes! Eu vi as últimas postagens da Lauren no Instagram, TJ já perdeu o dente da frente e Leah espichou desde a última vez que a vimos!", Rachel comentou.

"Lembro quando ela e Maddy brincavam ainda de chupeta e fralda no quintal aqui de casa. E Lauren, querida! Aquela lá está a ponto de explodir."

"Eu vi a barriga, vem um meninão por aí", Rachel concordou, "Deus, como o tempo passa rápido!"

"Passa muito rápido, um dia você tá empurrando eles para fora de você e quando pisca, eles estão na faculdade", Rachel sentiu seu peito apertar com a ideia de seu bebê saindo de casa e indo para a faculdade. Ela sabia que esse dia era inevitável, mas não menos doloroso para qualquer mãe e pai. Ver os filhos criarem asas era ao mesmo tempo satisfatório e deprimente. "E o que a Maddy tá achando de Ohio? Já está adaptada à escola?"

Rachel suspirou e passou a mão livre pelo cabelo, recordando dos últimos dias.

"Estamos indo pouco a pouco, mas ela não teve problemas com a escola,", se considerar que Shelby não é um problema, pensou, "e esperemos que continue assim."

"Ela é uma boa menina. Mas escuta, a que horas vocês pretendem chegar por aqui?"

"Jesse quer sair cedo, a senhora o conhece. Acho que chegamos antes do almoço."

"Ótimo. Farei algo bem gostoso para comermos."

Rachel quis revirar os olhos, sabendo que Louise mimaria a todos eles por todo o fim de semana, e Madison se aproveitaria disso.

Rachel, que estava usando o telefone fixo para conversar com a sogra, viu a tela de seu celular acender em cima da mesa de centro, indicando uma ligação de um número desconhecido.

"Louise, vou ter que desligar, estão me procurando aqui. Depois nos falamos."

"Tudo bem, minha querida, vai lá. Até sábado."

"Até."

Rachel desligou com a sogra e alcançou o celular, bem na hora que a ligação parou. Ela viu que já havia perdido duas ligações do mesmo número, então resolveu retornar, já que a pessoa insistira tanto deveria ser urgente. Mas dessa vez estava dando ocupado.

Rachel então deu de ombros e pegou a revista que estava lendo antes de sua sogra telefonar, minutos depois seu celular tocou novamente. Agora era Jesse.

"Oi, amor", ela atendeu.

"Rach, onde você tá?", ele parecia apressado.

"Em casa. Por que?", estranhou.

"A escola da Madison me ligou. A secretária disse que tentou te ligar mas ninguém atendeu."

Rachel sentou ereta no sofá, sentindo seu coração acelerar, preocupada agora.

"Eu estava no telefone com sua mãe. O que aconteceu? Madison está bem?"

"Parece que houve um pequeno acidente e ela foi parar na enfermaria. Eu não entendi muito bem o que aconteceu, mas querem um de nós dois para ir buscá-la."

Dessa vez Rachel ficou de pé e subiu as escadas para trocar de roupa.

"Okay, eu vou até lá. Onde você está agora?"

"Eu estou na fila para pagar as compras", Jesse apoiou seu celular entre a orelha e o ombro para empurrar o carrinho na sua vez no caixa.

"Eu vou pedir um Uber então", Rachel terminou de vestir os jeans e voltou a descer as escadas enquanto prendia o cabelo em um rabo de cavalo. Seu próximo pensamento foi de que eles precisavam providenciar um segundo carro logo.

"Tudo bem, eu encontro vocês lá. Vou tentar me apressar aqui."

Rachel rapidamente desligou a ligação e entrou no aplicativo para solicitar um carro, após concluído ela calçou suas sapatilhas e pegou sua bolsa no armário perto da porta.

Assim que chegou no McKinley, ela foi até a sala do diretor e levantou seus óculos escuros para o alto da cabeça, cumprimentando a secretária.

"Olá, sou a mãe de Madison St James."

"Rachel!"

Ao ouvir seu nome, Rachel se virou e deu de cara com Will Schuester saindo da sala do diretor.

"Sr. Schue!", respondeu de volta. Will riu.

"Parece que os costumes não morrem."

"É força do hábito", Rachel o abraçou rapidamente. Ela sentia falta de seu professor. "Me chamaram aqui por causa da minha filha. O que aconteceu?"

"Madison se machucou no ensaio. Ela foi levada à enfermaria", Will explicou e então se virou para a secretária, "Claire, leve Rachel até a enfermaria, por favor."

"Sim, diretor Schuester", a secretária ficou de pé e deu a volta na mesa, "Venha comigo, Sra. St James."

Ao seguir pelo corredor, Rachel foi ficando cada vez mais preocupada com sua filha. Ela esperava que não fosse nada grave. Seu coração estava acelerado conforme elas se aproximavam da enfermaria.

Ao virar a esquina da entrada da enfermaria, Rachel e Claire deram de cara com a enfermeira atrás do balcão.

"Enfermeira Grace, esta é a mãe de Madison."

"Mãe!", Rachel ouviu a voz de sua filha e se virou imediatamente na direção da menina, sentada em uma maca perto de uma cortina, segurando um saco de gelo no rosto.

Ela não estava sozinha.

De pé ao lado da menina estava uma mulher alta, cabelos escuros, o rosto pálido, congelada no lugar. A encarando fixamente.

Shelby Corcoran.

Rachel a encarou por breves segundos e foi como se seu coração parasse de bater. Focada em sua filha, ela havia esquecido desse pequeno detalhe. Que Shelby estaria lá.

Mas sua atenção mudou de volta para sua filha e como se sacudisse o choque, ela correu para a menina, o que fez Shelby se afastar consideravelmente para dar espaço às duas.

"Minha filha, o que aconteceu?"

Madison levantou os olhos marejados para sua mãe e devagar afastou o saco de gelo do rosto, onde Rachel pode ver o hematoma se formando embaixo dos olhos e ao redor do nariz. Madison fungou e gemeu quando isso fez doer ainda mais.

"Eu levei uma mãozada na cara no ensaio, acho que está quebrado", ela disse miseravelmente.

"Oh, Maddie. Vai ficar tudo bem, okay?", Rachel afastou a franja da testa suada da menina e depositou um beijo ali, "Coloque o gelo novamente."

"Sra. St James", a enfermeira se aproximou, "Eu temo que o nariz dela esteja de fato quebrado. É necessário um raio-x para confirmar, mas há fortes chances."

Rachel suspirou e assentiu.

"Mamãe, não quero ir ao hospital!", Madison choramingou.

Rachel olhou para a filha novamente e sentiu seu coração apertar. Ela sabia que Madison odiava hospitais, e que aquilo deveria estar doendo muito, a menina tinha lágrimas nos olhos e Rachel sabia que ela estava assustada.

"Você precisa que um médico veja esse nariz, meu amor. Ele vai receitar algo para melhorar a sua dor."

Shelby encarava a cena a sua frente ainda chocada. Ela estava no canto mais afastado, normalmente quando seus alunos se machucavam ou passavam mal ela ficava presente até que o responsável chegasse, então seguia sua vida, mas ela estava paralisada no lugar. Na sua frente estava sua filha mais velha, e sua aluna a chamava de mãe, o que significava que ali estava não só sua filha como também sua neta.

Sua neta.

Era muita coisa para processar. Ela precisava sair dali.

E mais uma vez ela o fez. Ela saiu.

Rachel viu pela visão periférica e foi como se estivesse tendo um déjà-vu.

Madison arregalou os olhos quando se deu conta do que acabara de acontecer. Simplesmente sua mãe e Shelby ficaram frente a frente depois de anos.

Rachel queria chorar, era como se toda a dor de sua adolescência viesse à tona. Ela havia superado, ou pensava que sim, mas vê-la novamente havia trazido tantas lembranças e aberto tantas feridas que de repente teve vontade de gritar com Shelby. Mas se deteve, por Madison e por si mesma. Sua função ali agora era apenas se encarregar que Madison se sentisse melhor e fosse vista por um médico.

"Mãe...", Madison disse, temerosa.

"Tudo bem, querida. Seu pai está vindo e quando ele chegar nós iremos ao hospital. Não se preocupe com nada, apenas mantenha o gelo no local."

Madison assentiu sem dizer mais nada e fechou os olhos quando o gelo entrou em contato novamente com seu nariz dolorido.

Jesse chegou poucos minutos depois e assim como Rachel, foi encaminhado à enfermaria. A enfermeira explicou o ocorrido que soubera por parte da menina, de Shelby e de Drew, que havia sido liberado com a mão também machucada. Tudo havia sido um acidente e não havia culpados. Madison foi liberada e Rachel recolheu as coisas da menina enquanto Jesse a ajudava ir para o carro, no caminho para a saída eles deram de cara com a última pessoa que eles queriam no momento.

"Jesse!", Shelby chamou. Ela se sentiu segura para chamá-lo, visto que já haviam se encontrado uma vez, algumas noites antes.

Os três pararam e encararam Shelby. Jesse arregalou o olhos e apertou o braço ao redor de Madison, e de relance olhou para sua esposa. Rachel tinha os olhos fechados e parecia estar se esforçando para não chorar.

"Shelby", ele disse friamente.

"É-é... Eu... Eu estou um pouco hmmm... surpresa", disse a mulher mais velha, lançando seus olhos entre Jesse e Rachel.

"Agora não é o momento, Shelby. Nós precisamos ir."

"Claro, claro. Me desculpe", Shelby assentiu. E com um último olhar para Rachel, ela se virou e saiu. Ela só não tinha certeza, mas aquele 'desculpe' tinha uma intenção maior que a pretendida.

BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY

Rachel, Jesse e Madison adentraram pelas portas da emergência e foram até o balcão da recepção. O gelo de Madison já havia derretido e agora a menina estava reclamando da dor já que não tinha mais o que aliviasse. Jesse se acomodou com a filha nas poltronas da sala de espera enquanto Rachel cuidava da parte burocrática, e os três puderam ver que seria uma longa noite visto a quantidade de gente ali esperando atendimento.

Quarenta e cinco minutos depois e Madison ainda não havia sido atendida. Seu nariz estava dolorido e ela estava atualmente com a cabeça sobre o ombro de sua mãe, tentando lutar contra a dor e o cansaço. Rachel tinha um braço ao redor da menina e estava começando a perder a paciência, Jesse sentado do outro lado da filha também não estava muito satisfeito.

"Mamãe, papai, vamos embora. Nem tá doendo tanto assim", Madison choramingou. Ela só queria sair dali logo. Além do fato de odiar hospitais, ela estava exausta e só queria sua cama.

Rachel suspirou e beijou a cabeça da menina. Ela sabia que a filha só estava com medo, e apesar de querer também ir para casa, sabia que Madison precisava ser vista por um médico. Então ela só acariciou o braço da menina e murmurou perto de sua orelha.

"Nós vamos assim que você for liberada, eu prometo. Mas agora você precisa ser paciente. Como está a dor?"

"Eu já disse que nem dói mais", mentiu.

"Maddie", Jesse falou em tom de aviso, chamando atenção da menina, que bateu o pé com raiva.

"Eu odeio esse lugar!", disse raivosa, lágrimas encheram seus olhos.

"Nós também queremos sair daqui, minha filha, mas antes precisamos resolver isso", ele apontou o nariz da menina.

"O gelo estava ajudando. Se formos pra casa, posso colocar mais e tudo estará resolvido."

"Madison, chega", Rachel ralhou, mas em tom baixo e paciente. Ela sabia que a menina estava chateada e não queria brigar com ela. "Você sabe que com saúde a gente não brinca. A enfermeira na escola disse que precisava confirmar se está quebrado ou não e é isso que vamos fazer."

Madison se afastou de sua mãe e cruzou os braços, fazendo com que se encolhesse de dor com o movimento súbito. Rachel queria sorrir por provar sua teoria que a menina estava, de fato, com dor.

Eles não tiveram que esperar muito mais tempo, uma enfermeira surgiu e chamou pelo nome de Madison, e Rachel e Jesse seguiram a filha até a sala de exames.

"Olá, eu sou a enfermeira Laila, você deve ser Madison", a enfermeira sorriu para a menina, que não devolveu, minimamente, "E você não está muito falante hoje. Tudo bem. Vocês devem ser mãe e pai."

"Sim", Rachel sorriu para a mulher simpática.

"Ok, então. Madison, você se importa de subir nesta balança? Precisamos pesar e medir você."

Após ser medida e pesada, Madison subiu na maca com a ajuda de seu pai e a enfermeira ficou de pé na frente dela para aferir a pressão.

"Você fez um belo trabalho em seu rosto, querida", Laila brincou enquanto colocava o manguito em volta do braço de Madison, "Como conseguiu isso?"

"Eu estava dançando em um ensaio. Um colega lançou o braço em minha direção e eu não consegui desviar a tempo", Madison franziu o nariz em uma careta e gemeu de dor, "Ai!"

"Entendo. Bom, sua pressão está um pouco baixa, acredito que por causa da dor que está sentindo. Mais alguma coisa dói?"

"Não, só meu nariz", as bochechas de Madison ficaram rosadas quando admitiu, desviando os olhos de seus pais.

"Abra a boca para mim, vamos tirar sua temperatura."

Enquanto Madison estava com o termômetro na boca, Laila fez algumas perguntas à Rachel e Jesse e anotou tudo em uma prancheta. Após isso, ela tirou o termômetro e viu que não havia febre.

"Ok. Dra. Harris, a ortopedista de plantão, entrará em minutos para vê-la. Vou deixá-los a sós. Com licença."

"Não vejo a hora de terminar isso logo", Madison resmungou quando estavam só os três na sala de exame.

"Você sabia que eu já estive no seu lugar?", Rachel chamou atenção da menina para tentar distraí-la.

"Você já quebrou o nariz?", questionou à mãe, erguendo as sobrancelhas.

"Sim. Tinha mais ou menos a sua idade, e foi pelo mesmo motivo. Coincidência ou não, minhas preocupações na época eram totalmente diferentes."

"Uau. Que bizarro", Madison encarou sua mãe por alguns segundos tentando imaginar a cena, "Quais eram suas preocupações?"

"Sua mãe quis fazer uma rinoplastia", Jesse respondeu à filha, balançando a cabeça. Ele já havia escutado aquela história.

"Sério? Nossa, mãe", Madison franziu as sobrancelhas, "Seu nariz é normal pra mim."

"Eu não era muito confiante com minha aparência quando era mais nova. Hoje eu não pensaria nem na possibilidade, mas um dia eu cogitei..."

"E o que a impediu?"

"Meus amigos", Rachel deu de ombros, sorrindo.

"Eu não sei se mudaria algo em mim...", Madison divagou.

"E nem precisa", Jesse sorriu para a menina, que rolou os olhos.

Eles então ouviram duas batidas na porta e logo ela se abriu, revelando uma mulher sorridente.

"Olá, é aqui que temos um possível nariz quebrado?", ela brincou.

Após o exame físico, Madison foi encaminhada para o Raio-X, o qual confirmou a fratura. A menina sentiu alívio quando a Dra. Harris disse que não seria necessário uma cirurgia, no entanto arregalou os olhos quando soube que isso implicaria na médica ter que posicionar seu nariz de volta no lugar manualmente.

"Mas vai doer!", ela reclamou pela enésima vez, tentando escapar das mãos da médica que estava de pé ao lado da maca.

"Vai doer muito mais se deixarmos assim", Dra. Harris ergueu uma sobrancelha e olhou para os pais sentados perto da mesa, pedindo ajuda.

Rachel suspirou e se levantou da cadeira, indo até a menina. Ela segurou uma das mãos da filha.

"Eu vou segurar sua mão o tempo todo. Se doer muito, você pode apertar."

"Eu prometo que vou ser gentil, Madison", a médica tentou acalmar a menina, que estava suando e agitada.

"Papai", ela olhou para Jesse, que sorriu em sua direção e se levantou, pegando sua outra mão.

"Você consegue, princesa. É só fechar os olhos."

"Eu vou contar até três, Madison. E então ao final da minha contagem quero que você conte até cinco. Consegue fazer isso?"

"Acho que não", a menina disse, sua voz tremendo.

"Tudo bem, sua mãe e seu pai podem me ajudar nisso então. Prontos?"

"Sim, doutora", Rachel apertou a mão da filha e segurou seu braço com a mão livre.

Madison apertou os olhos fechados e não viu quando a Dra. Harris indicou aos seus pais para a segurarem no lugar.

Como prometido, no final da contagem Dra. Harris começou a mexer no nariz de Madison, e todos os três adultos contaram até cinco e no fim, tudo estava acabado. Madison tinha lágrimas escorrendo por suas bochechas, e provavelmente todo o hospital havia escutado seu grito de dor.

"Prontinho", Dra. Harris se afastou para tirar as luvas de procedimento e lavar as mãos, além de pegar algo para aplacar a dor no local.

"Agora você vai melhorar, meu amor", Rachel beijou os cabelos suados da meninas enquanto Jesse acariciava as costas. Madison assentiu e secou as lágrimas em seu rosto.

"Eu quero ir para casa", ela fungou.

"Só um minuto e eu irei liberar vocês", Dra. Harris sorriu para a família.

Após as recomendações de colocar gelo diariamente e tomar analgésicos para dor, os três finalmente puderam sair do hospital, o relógio já passando das nove da noite. A ida para casa foi silenciosa visto que Madison havia pegado no sono no banco traseiro por conta dos remédios que ela havia tomado para dor e o todo o cansaço do dia agitado.

Eles fizeram uma parada na farmácia para comprar os remédios e depois em um drive thru para comprar o jantar, seguindo para casa. Jesse levou Madison para a cama enquanto Rachel arrumava tudo na cozinha.

"Parece que nosso fim de semana em Akron babou", Jesse comentou entrando na cozinha.

"Conhecendo nossa filha, ela vai dizer que isso não nos impede de ir. Vamos ver como vai ser até sexta-feira", Rachel disse ao marido e Jesse assentiu, "A médica garantiu que ela estará bem em pouco mais de uma semana."

"Foi uma fratura leve, fácil de ser consertada", Jesse disse, ocupando um lugar no balcão. "Nossa, que susto ela nos deu."

"Não é a primeira vez que vamos parar em um pronto socorro por causa de osso quebrado", Rachel comentou, rindo, "Nossa filha consegue ser um pouco desastrada."

Jesse se deixou rir depois das últimas horas preocupantes.

"Ainda bem que o pior já passou", Rachel assentiu e os dois caíram num silêncio confortável.

Mas uma coisa de repente veio à mente de Jesse. Ele observou sua esposa arrumando o jantar em dois pratos e se perguntou como ela estava em relação à Shelby agora que a poeira havia baixado. Sabia que ela não tocaria no assunto até que ele falasse, porque ela era teimosa e preferia fugir dos problemas.

"Você vai querer comer agora?", ela interrompeu seus pensamentos, "Não adianta esperar a Mad, pela quantidade de remédios aquela ali vai até amanhã."

"Hmm claro, querida."

Eles comiam em silêncio com o tilintar dos talheres sobre o prato, mas Jesse estava ficando cansado da quietude e resolveu tocar no assunto, aproveitando que eles estavam a sós.

"Então", ele limpou a boca no guardanapo após terminar de mastigar e encarou a esposa, que retornou o olhar, "sobre hoje. Você quer conversar sobre o que aconteceu?", ele tentou ser sutil na abordagem.

"Sobre o quê? Madison?"

"Rachel... Você sabe sobre o quê."

Rachel suspirou e desviou o olhar.

"Nós temos outras coisas no que pensar agora, Jesse."

"Rach", ele pegou a mão dela sobre a mesa, "Nós já cuidamos da Mad e agora ela está bem, dormindo e medicada. Temos sim outro assunto que tratar."

Rachel encarou o marido outra vez e sentiu os olhos marejarem, antes de se dar por vencida.

"Eu fiquei abalada quando a vi."

"Eu sei..."

"Ela estava lá com a Mad e de repente eu congelei. Foi como se tudo voltasse desmoronando sobre mim. Toda a rejeição e o medo que senti naquela época...", sentiu Jesse apertar sua mão e respirou fundo.

"Tudo bem, eu tô aqui."

"Eu também senti raiva. Queria gritar com ela, jogar algumas verdades e questionar porque ela havia feito aquilo comigo, mas eu não podia. Não faria aquilo comigo mesma e principalmente com a nossa filha assistindo. Agora que estamos começando a passar por cima do que nos tem afetado nos últimos dias, não posso dar dois passos para trás."

Jesse sorriu com empatia e levou a mão livre até os cabelos de Rachel, acariciando.

"Eu também fiquei um pouco surpreso. Estava tão preocupado com a Mad que havia escapado da minha mente que ela estaria lá quando você chegasse. Era melhor eu ter ido buscá-la."

"Não, Jesse", Rachel olhou para o marido seriamente, "Em algum momento isso ia acontecer, fosse numa reunião de pais, numa apresentação ou em uma emergência. Mad também é minha filha e eu quero estar presente nesses momentos. Você não ia poder me proteger disso para sempre."

"Eu sei, me desculpe, amor", ele se inclinou e a beijou nos lábios, "Eu só queria evitar que você sofresse mais ainda. Eu sabia que vê-la poderia te afetar demais."

"Eu também sei, mas a gente não pode evitar. Eu sou muito grata por você, mas eu também não posso fugir", Rachel suspirou, "Ela está na vida de Madison de alguma forma e a gente vai ter que aprender a conviver com isso. Não podemos colocar outra mudança drástica na vida de nossa filha escolhendo outra escola."

"Eu até pensei nisso, mas sabia que você não concordaria, ainda mais porque vivemos na zona escolar do McKinley."

"Exato. Como eu disse, a gente precisa seguir nossa vida. Vai ser difícil agir naturalmente, impossível na verdade, mas por nossa filha a gente precisa."

Jesse sorriu e esticou o braço, Rachel se inclinou e deitou a cabeça no ombro do marido, recebendo um beijo no topo.

"Juntos, como sempre", ele sussurrou acariciando o braço dela.

Rachel fechou os olhos apreciando o carinho.

BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY

Shelby suspirou de contentamento quando finalmente entrou em casa depois do dia inusitado. Era como se ainda estivesse em transe, não sabia nem como havia dirigido sem causar um acidente. Ela havia dado algumas voltas pela cidade antes de decidir ir para casa, precisava colocar os pensamentos em ordem. Era como um turbilhão de sentimentos indo e vindo e seus pensamentos não ajudavam em nada.

Beth havia ido pra casa assim que Shelby liberou os meninos do ensaio depois do ocorrido. Ela havia deixado claro que era para a menina ir direto para casa, afinal ela ainda estava de castigo. Shelby sabia que Beth gostava de sair com os amigos depois da escola, principalmente quando elas não estavam em um clima bom.

Sua expectativa foi atendida quando ela entrou na cozinha e encontrou sua filha sentada em uma banqueta no balcão-ilha, comendo o jantar. Beth não fez questão de cumprimentar sua mãe, e Shelby tomou isso como uma típica birra adolescente e apenas foi para a geladeira pegar uma garrafa de água. Ela se virou brevemente para ver Beth cavando em seu prato distraidamente.

"Obrigada por ter vindo pra casa como pedi."

"Tanto faz", Beth deu de ombros ainda sem levantar os olhos.

"E seguiu as regras."

Mais uma vez ela deu de ombros. Shelby suspirou e caminhou até o fogão para preparar um chá muito necessário para si mesma.

"Você fez o seu próprio jantar?", Shelby perguntou com um toque de surpresa em sua voz.

"Não é muito difícil se virar com sobras."

A mulher assentiu e se concentrou em preparar seu chá, caindo em um silêncio desconfortável. Beth terminou de comer e se levantou da banqueta, Shelby viu pelo canto do olho ela caminhar até a pia, despejar os restos de comida com água corrente e colocar o prato na lava-louças antes de se virar para sair da cozinha.

"Você tem lição de casa?", Shelby perguntou antes que ela desaparecesse no andar de cima.

"Eu vou subir para terminar."

"Okay. Depois que acabar, quero que vá para a cama."

Beth revirou os olhos e murmurou um 'sim, senhora' antes de subir. Agora sozinha, Shelby apoiou as mãos no balcão da pia e fechou os olhos, tentando fazer com que seus pensamentos não a consumissem. Toda a culpa, amargura e arrependimentos que sempre a perseguiram e assombravam sua mente estavam se embaralhando, cada sentimento querendo ultrapassar o outro, tentando prevalecer em seu interior.

Quando abriu os olhos, os sentiu arder das lágrimas não derramadas. Mais uma vez ela fugiu de seus problemas.

Quando Rachel apareceu naquela enfermaria, Shelby fugiu sem uma palavra. E quando teve coragem de enfrentá-los, mal conseguiu dizer algo sem gaguejar, deixando mais uma vez o medo vencer. Medo da rejeição, medo do seu passado e medo das próprias escolhas.

Eram tantas coisas ao mesmo tempo que se encontrou tonta. Então Jesse havia criado uma vida com Rachel, e tiveram uma filha! Deus, era muito para se absorver em tão pouco tempo. E aparentemente eles estavam de volta à cidade permanentemente.

Shelby não sabia se conseguiria reviver aquilo. Porque agora ela também tinha Beth a quem proteger de seus próprios erros. Não seria fácil agir como se nada estivesse acontecendo, ela era professora de sua própria neta, inferno!

Não. Ela interrompeu esse pensamento. Não tinha o direito de dizer aquilo. Madison não a reconhecia como esse papel em sua vida, assim como anos antes ela decidira não ser o papel que Rachel tanto implorou. Era isso que Shelby merecia afinal de contas. Ela não era nada mais que mera professora. Ela não tinha o direito de exigir mais do que isso. Só tinha que aceitar.

E seria difícil.