Disclaimer: Eu não possuo Glee, caso contrário a série nunca teria um fim.
Por conta dos acontecimentos de quarta-feira, Rachel e Jesse decidiram não mandar Madison para a escola pelo resto da semana. A médica havia indicado que ela repousasse bastante e não fizesse nada que requeresse esforço, pois isso poderia afetar o nariz fraturado.
Nesse meio tempo, com Madison em casa precisando do cuidado constante dos pais, Jesse estava tendo dificuldades em abordar Rachel sobre o tema Shelby, e por mais que eles tivessem conversado na quarta-feira depois de voltarem do hospital, ele sabia que feridas haviam sido reabertas naquele dia e que não haviam se fechado com palavras de conforto.
Até mesmo Madison havia tentado a abordagem sutil, mas Rachel sempre mudava de assunto. A mulher não queria ter aquela conversa, principalmente com a filha. Ela só queria esquecer por alguns dias e focar toda sua atenção na melhora de Madison. Eles tinham um fim de semana longo pela frente e se isso fizesse ela esquecer Shelby, pelo menos por um curto tempo, então ela se concentraria nisso.
Madison acordou no sábado sentindo seu rosto ainda dolorido, mas com certeza menos inchado do que o dia anterior. O relógio em sua mesinha de cabeceira marcava exatamente 8:30h, o que a surpreendeu, já que aos fins de semana ela não acordava pelo menos antes das dez da manhã. A verdade era que ela estava bem descansada, os últimos dois dias em casa de repouso e os remédios haviam dado a ela bastante motivo para dormir a maior parte do tempo. Ela até tentou fazer outras coisas, como por exemplo na tarde de sexta-feira, sentada no sofá com um copo de smoothie de abacaxi congelado e leite de coco que sua mãe havia preparado e Law and Order na TV, tentou trocar mensagens de texto com Zoe, que fazia pouco esforço em respondê-la.
O primeiro pensamento que veio em seguida foi sobre sua mãe. Ela sabia que Rachel não estava bem, afinal ela havia ficado frente a frente com Shelby depois de muitos anos, muita mágoa e muita dor. Nos últimos dias isso fora o que tem tomado conta de sua mente, a ansiedade incômoda que revirava seu estômago toda vez que via a mãe com o olhar perdido ou muito pensativa, quieta. Madison sabia que ela estava pensando em Shelby.
De repente sentiu a necessidade de se desculpar com sua mãe, por tê-la feito passar por isso agora. Em sua cabeça não havia outro culpado além de Shelby, mas ainda assim, se pudesse escolher, ela queria não ter colocado Rachel naquela situação.
Virou de lado para voltar a dormir e fugir por mais um tempo da realidade, mas o sono não vinha. Suspirando, resolveu levantar e encarar o dia que tinha pela frente. Se lembrou que nesse fim de semana ela e seus pais iriam visitar sua avó e tios em Akron, e mais uma vez se surpreendeu de seu pai ainda não ter vindo acordá-la, ele sempre gostava de sair cedo.
No banheiro ela deu uma olhada em seu rosto, estava avermelhado ao redor do pequeno curativo na ponte de seu nariz e havia manchas pretas sob os olhos. Suspirando outra vez, ela pensou em como sua família reagiria ao vê-la daquele jeito, enquanto escovava os dentes.
Encontrou sua casa silenciosa. Afinal, era cedo ainda, mas visto o compromisso que eles tinham, estranhou não encontrar seus pais na cozinha. Foi para a geladeira pegar uma garrafa de água, o dia estava bem quente, era verão ainda e o céu de Lima estava límpido sem nuvens e azul claro. Seu estômago roncou de fome e Madison resolveu tomar logo o café da manhã, sem seus pais. A menina sentou no balcão-ilha com uma tigela de Lucky Charms com leite e o celular em mãos, vendo suas redes sociais.
Seus pais não eram muito fãs da ideia dela ter uma conta online, tinham muito medo do assédio e invasão de privacidade. Eles próprios tinham uma conta pública mas que pouco postavam, e quando o faziam, não era nada ligado à vida pessoal, apenas trabalho. Isso ficava reservado para a conta privada compartilhada apenas com a família e amigos bem próximos. A condição feita com Madison foi que ela não poderia usar o nome dela no perfil das redes sociais, nunca, e sua conta deveria ser devidamente trancada, com acesso apenas pela família e alguns amigos.
Visualizou as postagens no Snapchat das pessoas que ela seguia, inclusive de Zoe que havia postado na madrugada que estava com insônia e isso resultou em vídeos sem noção. Madison não pode deixar de rir das bobeiras de sua amiga, mesmo que Zoe ainda estivesse esquisita, ela não dirigia mais caras feias à Madison e vez ou outra lançava um meio sorriso em sua direção no intervalo entre aulas. Elas precisavam conversar e resolver isso antes que seus pais descobrissem.
Um barulho nas escadas tirou a atenção de Madison do celular e ela levantou a cabeça a tempo de ver seu pai entrar na cozinha. Ele se surpreendeu ao vê-la ali.
"Já? Que milagre é esse?", Jesse foi em direção à filha, lhe dando um beijo no topo da cabeça.
"Perdi o sono", Madison deu de ombros e pôs uma colherada cheia na boca.
"Como está seu nariz?", perguntou, colocando a cafeteira para fazer seu muito necessário café.
"Menos dolorido hoje", Madison respondeu depois de engolir, "A mãe ainda está dormindo?"
"Não, está tomando banho. Eu fui encarregado de fazer o café."
"Que horas nós vamos para a vovó?"
"Não sabemos se vamos, querida."
"Por que?", Madison franziu as sobrancelhas. "É por causa de mim? Não precisam cancelar por causa disso", apontou o próprio nariz.
"Em nossa defesa, não sabíamos se você iria querer sair, pegar estrada, não estando bem. Sua avó entende completamente."
"Mas eu estou bem!", esbravejou, mais intensamente do que pretendia. "Está vendo agora como estou bem", revirou os olhos com impaciência.
"Sim, e não estou nada satisfeito", Jesse disse em tom de censura e encarou a menina, erguendo uma sobrancelha.
Madison teve a decência de parecer envergonhada e encolheu os ombros. Rachel apareceu na cozinha naquele momento.
"Bom dia, minha filha", soou animada e deu um beijo na bochecha de Madison.
"Bom dia", Madison respondeu e comeu outra colherada.
Rachel foi para a geladeira pegar frutas e Jesse colocou duas fatias de pão na torradeira.
"Como você está, Mad? Se sentindo melhor hoje?"
"Sim, mãe. Os remédios fizeram efeito, não precisam cancelar nossa ida para Akron."
Rachel encarou Jesse e o rapaz apenas deu de ombros, se virando para pegar duas canecas no armário.
"Hmmm, okay...", ela disse à filha. Jesse lhe ofereceu uma caneca cheia do café fresco e um prato com torradas, os quais ela aceitou contente. "Suas coisas já estão prontas então?"
"Desde quinta à noite", Madison informou enquanto se levantava para colocar sua tigela vazia na pia, "Vou tomar banho. Acho melhor vocês se apressarem, o pai gosta de pegar estrada cedo."
E assim ela deixou seus pais na cozinha, que ainda encaravam a porta pela qual ela havia saído.
"O que aconteceu?"
"Ela é sua filha", Jesse apontou, balançando a cabeça enquanto ria.
Pouco mais de uma hora depois, a família estava quase pronta para partir. Jesse carregava o carro enquanto Rachel enchia duas canecas térmicas com café, colocava alguns lanches em sua bolsa e checava as últimas coisas pela casa.
"Levou tudo pro carro?", ela perguntou ao marido quando ele voltou para dentro.
"Só falta nossa filha", disse. Andou até o pé das escadas, "Madison! Estamos indo e se não aparecer no próximo minuto, partiremos sem você. Sabe que iremos!", ele gritou.
"Eu amo como o drama reina nesta família", comentou a menina, descendo as escadas já vestida em shorts jeans e uma camiseta cinza de ombro caído, os pés ainda descalços, a mochila nas costas e seu macaco de pelúcia em mãos, "Estou aqui e em menos de um minuto."
Jesse revirou os olhos, "Calce alguma coisa e vá para o carro", apontou para a porta.
Depois que Madison calçou suas sandálias, eles puderam finalmente trancar a casa e entrar no carro. Jesse dirigiu pelas ruas calmas de um sábado de manhã até atingirem a autoestrada 30 que ligava as duas cidades. Madison ouvia música em seus fones de ouvido no banco de trás enquanto olhava pela janela, já começando a ficar entediada.
"Quanto tempo leva para chegar em Akron?", perguntou, tirando um dos fones.
"Aproximadamente duas horas, se não fizermos nenhuma parada."
"Ah, ótimo", ironizou. Madison suspirou e voltou a conectar seus fones, pegando seu macaco de pelúcia e fechando os olhos.
Rachel seguiu o exemplo da filha e não muito tempo depois também cochilava, deixando Jesse sozinho com apenas o barulho do aparelho de som soando baixo pelo carro. Ele conhecia aquelas estradas como ninguém, tendo havido feito aquele trajeto entre Lima e Akron centenas de vezes quando era mais novo. Sua família sempre vivera em Akron e quando conhecera Rachel, ele fazia essas viagens para encontrá-la.
Sua família era composta por sua mãe, Louise, que além dele tinha uma filha mais velha. Lauren estava casada há oito anos com Timothy, ou Tim como todos o chamavam, e juntos eram pais do pequeno Timothy Junior, o TJ, e do bebê que Lauren estava esperando. Lauren tinha ainda Leah, fruto de seu antigo namorado. O pai de Lauren e Jesse havia falecido quando os dois ainda eram crianças, Louise havia tido alguns namorados após a perda do marido, mas nunca se casara novamente.
Madison se lembrava vagamente dos primos e tios, ela conhecia a todos pelas fotos que via, mas fazia muito tempo que não os visitava. Louise já havia ido à Nova York algumas vezes, então, para a menina, sua avó era mais familiar. Havia fotos dela com Leah quando eram pequenas, uma foto dela segurando um TJ bebê e outra dela com sua tia, aos sete anos, sorrindo para a câmera, sem os dois dentes da frente. Madison sentia falta de todos e não via a hora de revê-los.
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O olhar que a menina dirigia à ela era de mágoa e súplica. Shelby sabia que não podia suportar por muito mais tempo, ela precisava sair dali. Doía demais ver aquele olhar e saber que o melhor era se afastar, que ela não era mais necessária na vida daquela menina quase mulher.
"Acho melhor sermos gratas uma à outra... De longe", Shelby proferiu aquelas palavras e sentiu o gosto amargo delas em sua língua. Rachel a sua frente fungou e limpou os olhos das lágrimas que ameaçavam escorrer.
A menina não disse nada. Apenas assentiu e se virou para o piano, juntando as partituras que estavam ali e colocando-as de volta em sua pasta rosa com o desenho de uma estrela dourada. Shelby sorriu.
"Eu também gosto de estrelas douradas, por isso eu lhe trouxe isto", ela abriu sua bolsa e pegou um embrulho de dentro, entregando à Rachel. A menina pegou cuidadosamente e abriu, tirando de dentro da caixa um copo de vidro com a figura de uma estrela dourada. "Quando vi esse copo, lembrei da história que você me contou sobre seus pais lhe darem água quando você está triste porque você sente sede. Eu não espero que você se sinta triste com frequência, mas quando o fizer e precisar de água, bem, você poderia... Poderia usar este copo."
"Obrigada", Rachel sussurrou, sem olhar a mulher nos olhos. Ela temia que se o fizesse, então quebraria em pedaços ali mesmo.
Shelby observou por longos segundos a menina que ela havia dado à luz dezesseis anos antes e viu como as mãos trêmulas agarravam o copo perto do peito.
"Como você se sente agora, Rachel?"
Rachel finalmente levantou os olhos para encarar a mulher e suspirou, dando de ombros.
"Com sede."
Sentada em seu sofá com uma caneca de chá, Shelby encarava o vazio enquanto sua mente a torturava com aquela lembrança. Ela tinha aqueles momentos quando algo em sua vida estava saindo do controle, porque nos últimos anos ela havia aprendido a manter o que mais machucava no fundo de sua mente. Ver Rachel havia trazido aquilo à tona, descobrir Madison, saber que Rachel e Jesse estavam de volta na cidade, tudo isso balançou suas emoções. Pensava em tudo, em como seguir dali pra frente, em como inserir Beth naquilo, porque havia a possibilidade de muitos temas serem tocados após ela colocar sua filha na questão. Beth começaria a fazer perguntas que Shelby não sabia se estava pronta para responder.
O relógio no aparelho de TV à cabo lhe informava que eram apenas 8:32h, Shelby não havia dormido nada naquela noite, e às 7:30h decidiu que ficar na cama não adiantaria nada. Agradeceu mentalmente por ser sábado e não precisar ir trabalhar, aqueles dois dias de fim de semana, mesmo que curto, ajudaria a colocar seus pensamentos – e sentimentos – em ordem. Ou assim ela esperava.
Resolveu sair para uma corrida, talvez a brisa da manhã ajudasse a espairecer. Shelby subiu as escadas e entrou em seu quarto para vestir roupas apropriadas. Em seguida desceu novamente e escreveu um bilhete para Beth na geladeira, mesmo sabendo que a adolescente dormia feito pedra e não acordaria antes do meio-dia. O vento fresco da manhã atingiu seu rosto quando abriu a porta da frente. Na varanda mesmo ela alongou os músculos por alguns minutos, depois ajeitou o rabo de cavalo enquanto andava pelo caminho de pedras em seu quintal da frente até a calçada.
A música em seus fones de ouvido era agitada, mas isso não limpou sua mente completamente.
"Podemos fazer biscoitos, mamãe?"
Shelby ergueu os olhos do livro que estava lendo para encarar a garotinha parada em sua frente. A mulher sorriu enquanto tirava seus óculos de leitura e os colocava na mesinha ao lado do sofá, fechando o livro para dar atenção à menina.
"Claro, docinho", ficou de pé e pegou na mão da menina, a levando até a cozinha da casa mediana.
Beth estava empolgada e saltitou ao lado da mãe, seus cachos loiros pulando conforme os movimentos da menina. Ela amava quando a mamãe fazia biscoitos e deixava ela ajudar, principalmente na hora de mexer a massa, Beth sempre esgueirava em sua boca as gotas de chocolate sem que sua mãe visse.
Elas viviam numa casa confortável em Virgínia Beach, no estado da Virgínia. Beth estava com seis anos e Shelby sempre quis que a menina tivesse uma infância tranquila, que pudesse brincar no quintal, ir à praia e andar de bicicleta na rua. A cidade de Nova York não oferecia isso, e após quase quatro anos vivendo na Big Apple, ela resolveu encontrar um lugar sossegado.
"Eu mexo a massa!", Beth declarou, de pé sobre uma cadeira ao lado da mãe no balcão.
"Cuidado, Beth."
Após colocar os biscoitos no forno, Shelby se sentou com a filha no sofá para assistir 'O Rei Leão', pela enésima vez, Beth era obcecada pelo filme. A menina cantava alegremente enquanto a mãe ria. Sua menina estava tão focada nas aulas de canto que em tenra idade ela já tinha um talento perceptível.
"Não gosto quando Mufasa morre", Beth lamentou, se aconchegando mais ao lado da mãe. Ela sempre ficava assim nessa cena.
"Eu sei, docinho. Eu também não gosto."
Após a trágica cena da morte de Mufasa e Simba chorando sobre o corpo do pai, Beth tirou seus olhos esverdeados da tela da TV e encarou Shelby.
"Mamãe, o meu papai também morreu, igual ao pai do Simba?"
Shelby encarou a menina de volta, pega de surpresa pela pergunta. Ela ainda não havia criado coragem para contar à Beth sobre seus pais biológicos, e a menina nunca havia questionado o porquê, enquanto seus amigos tinham pai e mãe, na casa dela eram só ela e a mamãe.
"Não, Beth. Seu pai não morreu. Lembra que eu te expliquei que, quando você nasceu, eu não podia ter bebês na época?", a menina assentiu, "Então você apareceu na minha vida e veio do meu coração, lembra disso?"
"Sim. E que Papai do Céu me enviou para os seus braços porque você se sentia sozinha, mesmo que não pudesse ter um bebê, você me queria então eu cheguei."
"Exatamente, espertinha", Shelby brincou, tocando o nariz da menina, "Então, Papai do Céu te enviou para mim, eu te conheci e fiquei muito feliz de você ter chegado. Mas eu estava sozinha, e precisava de você e apenas você."
"Então...", Beth franziu as sobrancelhas loiras, pensando, "Eu nunca tive papai?"
Shelby outra vez se sentiu presa na simples e inocente pergunta de Beth. Aos poucos ela tentava explicar à menina que ela fora adotada, e conforme Beth crescia ela acrescentava mais detalhes e tirava um pouco da fantasia. Shelby só não estava pronta ainda para trazer Quinn e Noah à história.
"Eu acho que você ainda não entenderia, docinho. Isso é conversa pra quando você for um pouquinho mais velha."
"Ah, tá bom", Beth deu de ombros e voltou sua atenção para o filme.
E Shelby ainda não se sentia pronta. Obviamente houve outras situações como aquela, mas conforme Beth crescia, ela perguntou menos sobre o assunto. E Shelby estava grata por isso. A mulher tinha medo que Beth quisesse, um dia, conhecer os pais e sentir raiva dela por ter afastado-a deles. Mas Beth era a única pessoa que Shelby tinha e ela não podia perdê-la também.
Odiava perder o controle de suas emoções. Virando a esquina de um quarteirão, Shelby acelerou mais o passo e aumentou o volume de sua música, tentando desfocar sua mente. Ela se viu em frente ao Lima Bean e resolveu parar para uma bebida, Lima estava quente naquele dia. Pediu um frappuccino de baunilha para si e um pedaço de torna de avelã que Beth tanto amava, pagou por tudo e foi caminhando até em casa, apreciando sua bebida. Tomou esse tempo para não pensar em mais nada, tentaria relaxar o resto do seu fim de semana e tentar entreter uma Beth de castigo e mau humor, ela esperava que a torta animasse a menina.
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Jesse finalmente dirigia pelas ruas de Akron, Rachel ao seu lado estava bem acordada e animada pra ver a todos, já Madison ainda estava desmaiada no banco de trás, de boca aberta e cabeça jogada para trás. Pouco depois de trinta minutos de viagem, deu a hora dos remédios de Madison, então a menina os tomou e comeu um pacote de biscoitos que sua mãe havia levado, logo em seguida caindo num sono pesado. Em poucos minutos Jesse subia na calçada de sua mãe e estacionava o carro ao lado do de Louise na entrada da garagem. A mesma já estava na varanda, sorrindo de orelha a orelha, e quando o carro parou completamente ela desceu as poucas escadas e praticamente correu até eles.
"Meus queridos!", ela os cumprimentou, abrindo os braços para Rachel que vinha em sua direção e apertou os braços ao redor de sua sogra. "Que saudade, Rach."
"Nem me fale, Louise. Eu não via a hora de chegar", elas se separaram e sorriram na direção uma da outra.
"E cadê minha neta que ainda não desceu pulando do carro?"
"Oi, mãe. Tudo bem com a senhora? Eu estou ótimo", Jesse chamou atenção enquanto dava a volta no carro para cumprimentar sua mãe.
"Ah, pare de ser dramático, filho", ela abriu os braços como fez com Rachel e o apertou, ficando na ponta dos pés para beijar a bochecha do filho.
"Sua neta está morta para o mundo no banco de trás", Jesse informou apontando a janela traseira.
"Lembro quando ela chegava aqui e gritava de alegria por finalmente estar livre da cadeirinha", Louise disse nostálgica e os três adultos riram com a lembrança.
"Pois é, agora ela é uma adolescente dorminhoca", Rachel brincou, "Mas eu acredito que ela agiria da mesma forma que agia aos quatro anos se não fosse o fato dela estar dopada de remédios nesse instante."
"Remédios? O que aconteceu?", Louise perguntou preocupada.
"Sua neta aprontou, mamãe. Com tantas coisas acontecendo, nem tivemos tempo de conversar", Jesse disse indo até o carro para abrir a porta traseira e tentar arrancar Madison de seu cochilo, "Vai ver o resultado."
"O que houve com ela, Rach?"
"Ela teve um acidente na escola essa semana, no ensaio do clube do coral. Levou uma mãozada na cara e fraturou o nariz."
"Minha nossa senhora!", Louise exclamou, pondo as mãos no peito.
"Agora ela tá bem. Tá tomando remédios e fazendo bastante compressa de gelo para diminuir o inchaço."
"Pobrezinha da minha menina", Louise simpatizou observando Jesse ajudar a menina ainda grogue a sair do carro.
"Oi, vovó", Madison acenou lentamente quando se aproximou de sua avó, e Louise cuidadosamente pegou o rosto da menina entre as mãos para avaliar.
"Oh, meu amor. O que você foi arrumar, hein?", Madison apenas deu de ombros e sorriu de lado. Louise deu um beijo na testa da menina e passou um braço pelas costas dela, "Vem, vamos entrar. Você parece muito cansada, vou levá-la para a cama", Louise a levou para dentro de casa. Atrás delas, Rachel e Jesse tinham o mesmo pensamento: aquela menina seria mimada ao triplo agora.
A casa era a mesma que eles podiam se lembrar, nada havia mudado desde que Louise vira seus filhos voarem do ninho a não ser pelos dois quartos vagos que agora eram de hóspedes. Uma casa mediana com dois andares, um quintal nos fundos, um jardim na frente, três quartos espaçosos e uma grande cozinha onde Louise amava cozinhar para sua família.
Madison não perdeu tempo em aceitar o quarto calmo que lhe era oferecido, os remédios haviam feito ela ficar muito sonolenta. Ela dormiria em um dos quartos de hóspedes, que um dia fora de Lauren, e seus pais ocupariam o outro que havia sido de Jesse. Em poucos minutos sua avó lhe cobria com uma colcha fina, lhe dava um beijo na testa e lhe desejava um bom cochilo, fechando a porta atrás de si ao deixar o quarto.
Louise desceu as escadas e encontrou sua nora no sofá, segurando um porta-retratos que ficava na mesinha ao lado, sorrindo para a imagem de Madison e Leah sentadas lado a lado no quintal em um dia de verão, Madison ainda usando fralda e ambas com o rosto e mãos sujos de melancia.
"Eu olho todos os dias pra essa foto e a nostalgia que bate faz meu coração apertar", Louise comentou, se sentando ao lado de Rachel, "Meus bebês cresceram."
"Nem me fale...", Rachel concordou.
"Onde está Jesse?"
"Ele foi descarregar o carro. Madison dormiu?"
"Feito um anjo. Prometi acordá-la quando o almoço estivesse pronto. Lauren e Tim devem chegar com as crianças daqui a pouco."
"Ótimo", Rachel sorriu e devolveu o porta-retratos ao seu lugar, "Eu vou subir e me refrescar, já desço para fazermos tudo."
"Tudo bem, querida. Não se apresse."
Louise viu Rachel subir as escadas com um sorriso em seu rosto, ela amava quando eles vinham, Rachel era como sua filha mais nova, se lembrava bem quando Jesse lhe apresentara a moça ainda bem jovem, de grandes olhos castanhos e sonhadores e uma ambição de dar inveja. O sentimento foi recíproco, Rachel viu em sua sogra uma mãe com quem amava passar momentos cozinhando, no jardim ou mesmo apenas conversando no balanço da varanda dos fundos. Louise foi e é para Rachel o que Shelby nunca fora.
Minutos mais tarde, Rachel estava na pia lavando as folhas para uma salada quando viu pela janela um carro estacionar atrás do seu. Um sorriso surgiu em seu rosto quando uma grávida Lauren desceu do carro e ajudou TJ a tirar o cinto de segurança no banco de trás. De trás do banco do motorista saiu um rapaz alto de pele escura, Tim, e do lado do menino saiu uma adolescente de longos cabelos loiros e fones de ouvido.
"Chegaram", ela anunciou enxugando as mãos em um pano de prato. Louise seguiu seu olhar e apagou o fogo para ir receber o resto de sua família.
Jesse já estava na varanda cumprimentando a irmã e o cunhado quando Rachel o alcançou, rapidamente abrindo os braços quando Lauren veio cumprimentá-la.
"Irmãzinha! Que saudade!", a mulher de cabelos escuros e olhos azuis lhe abraçou forte, a barriga inchada entre as duas.
"Parecem décadas! Olha essa barriga!", Rachel acariciou o estômago da cunhada.
"Eu sei. Esse garotão aqui cresce rápido."
"Como você está, querida?"
"Faminta e indo ao banheiro a cada cinco minutos", Lauren sorriu, "E você? A vida agora de volta na cidade pequena..."
"Uma loucura, mas me readaptando. Tim, hey!", Rachel abraçou o marido de sua cunhada.
Um menino de pele morena e olhos claros subiu as escadas da frente concentrado em um iPad em suas mãos, passando pelos adultos na varanda sem nem olhar para cima.
"Ei, onde pensa que vai, mocinho?", Louise chamou atenção do neto, colocando as mãos no quadril.
"TJ! Que coisa feia, meu filho! Cumprimente as pessoas", Lauren ralhou com o menino, "Me dá esse iPad que já é hora de guardar."
"Desculpa, mamãe. Oi, vovó", o garotinho de sete anos abraçou sua avó que lhe deu um beijo no topo da cabeça.
"Oi, docinho. Você se lembra da tia Rachel e do tio Jesse?"
TJ sentiu as bochechas corarem e assentiu, sorrindo envergonhado. Rachel achou aquilo adorável e se abaixou na altura do menino.
"Oi, TJ. Você cresceu muito, sabia? Lembro de você desse tamanho aqui."
"Eu não era tão pequeno assim."
"Ah, era sim", Jesse brincou bagunçando o cabelo encaracolado do sobrinho, "Você parecia um munchkin."
Os adultos riram e TJ cruzou os braços.
"Ele está brincando, docinho", Rachel acariciou a mão do menino.
Leah foi a próxima a se aproximar de Rachel depois de cumprimentar o tio e a avó, que ficou de pé e arregalou os olhos ao ver a menina.
"Oi, tia Rae-Rae", Leah a chamou pelo apelido que lhe dera quando era um bebê e riu com a cara de espanto da mulher.
"Onde está a minha menina e quem é essa moça que tomou o lugar dela me chamando de 'tia Rae-Rae'?", Rachel brincou abrindo os braços, Leah aceitou de bom grado ainda rindo.
"Sua menina é quase uma mulher já, tia Rae-Rae", Lauren comentou.
"Meu Deus, criança", Rachel a afastou de si e a segurou no comprimento dos braços, "Pare de crescer", choramingou ao puxá-la para si novamente.
"Vou fazer o possível", Leah retrucou e deu de ombros.
"Vamos entrar, pessoal, que a gente já tá dando um show para os vizinhos", Louise empurrou todos para dentro.
"Trouxemos a sobremesa!", Tim anunciou, suspendendo no ar uma travessa coberta por papel alumínio.
"Não me diga que é aquela sua torta de mirtilo, Tim?", Rachel arregalou os olhos, já sentindo a boca salivar.
"Eu sabia que não poderia vir sem ela, Rae-Rae", brincou o rapaz com um enorme sorriso. Rachel retribuiu da mesma forma, "E não podemos esquecer do sorvete."
"Eu amo seu marido, Lau!", Rachel encarou a cunhada. Lauren assentiu, sim ela também o amava por isso.
"E onde está a minha sobrinha?", Lauren perguntou depois que todos se acomodaram na sala.
"Dormindo lá em cima", Rachel respondeu, sentada no braço da poltrona que Jesse ocupou.
"Às onze da manhã?!", Lauren balançou a cabeça, "Adolescentes."
"Sim, e ainda há mais. Sua sobrinha está sob efeito de remédios", Jesse disse à irmã.
"O que aconteceu?", Tim perguntou, ocupando a outra poltrona com TJ sentado em seu joelho.
"Um acidente na escola que resultou em um nariz fraturado."
"Ai, tadinha", Lauren se condoeu.
"Nossa, deve ter doído", Leah torceu o nariz em uma careta.
"Eu já quebrei o nariz uma vez, e sim, dói bastante. Mas ela tá bem agora", disse Rachel.
"Que bom", Lauren sorriu.
"Eu vou voltar para a cozinha. O almoço deve sair em 1 hora", Louise se levantou.
"Eu ajudo, mãe", Lauren se prontificou seguindo a mãe, Rachel logo atrás das duas.
"E como está meu neto mais novo? Dando trabalho?"
Lauren se inclinou na geladeira aberta e retirou uma garrafa de água antes de responder.
"Ele me dá muita fome, não para quieto e resolveu que minha bexiga é um brinquedo de apertar. Fora isso, está bem."
"A minha gravidez da Zoe foi mais agitada também, não me surpreende que aquela menina é uma dançarina, porque ela fazia a festa no meu útero. Já com a Mad foi mais tranquila, acho também que eu estava mais pronta e mais experiente, então eu tinha métodos para me acalmar."
"Já tentei tudo, ioga, acupuntura, hidroginástica, pilates. Ele não se encontra", falou acariciando seu pequeno festeiro.
"Se for igual ao TJ, vocês terão suas mãos cheias", Louise riu, verificando suas panelas.
"E como a Leah tá lidando com tudo? Eu lembro que na gravidez do TJ ela ficou bastante sentida...", Rachel comentou, cortando cenouras.
"No começo ela não demonstrou muito entusiasmo não, mas também não pareceu chateada. Acho que ainda não tinha caído a ficha. Ela sabia que Tim e eu estávamos tentando ter outro filho, e acho que agora com dezesseis anos ela está mais aberta e compreensiva", Lauren roubou um pedaço de cenoura da tábua antes de continuar, "TJ parece gostar da ideia de ter um irmão, ainda mais quando soubemos que era menino, mas acho que para ele ainda é tudo muito abstrato. Os dois falam de como será quando o bebê nascer, acho que vai ficar tudo bem. Temos ainda dois meses pela frente, então seja o que Deus quiser."
"E já decidiram o nome?"
"Ah, minha filha. Esses dois aí não se decidem por nada", Louise respondeu, balançando a cabeça.
"Estamos tentando, mãe! É difícil! Do TJ foi fácil, o nome do pai. Eu tinha nome para menina, seria Clara, mas esse garotão nos pegou de surpresa quando paramos para pensar em um nome."
"Perguntem às crianças, eles podem ajudar", Rachel sugeriu.
"TJ chama de irmãozinho, disse para colocarmos esse nome", Lauren rolou os olhos, "Leah diz que não importa como nomearmos ele, ela vai chamar de pirralho."
"TJ é um amor", Rachel riu.
"Ei, mãe, que nome eu teria se fosse um menino?"
"Não tinha nome para menino, eu sempre soube que você era menina", Louise disse com naturalidade, pegando a tábua de cenouras que Rachel lhe estendia e jogando na água fervendo.
Lauren ergueu uma sobrancelha.
"Ótimo", comentou com sarcasmo.
"Jesse foi nomeado pelo pai de vocês. Era um combinado que tínhamos, já que eu escolhi o seu nome."
"Madison iria se chamar Lucas", Rachel se apoiou no balcão, "Você pode ficar com esse nome."
"É um bom nome...", Lauren ponderou, "Vamos avaliar."
Madison acordou olhando ao redor e franziu as sobrancelhas, inicialmente confusa. Levou cinco segundos para ela identificar o quarto e se lembrar que estava na casa de sua avó.
Seu nariz estava levemente dolorido, estava na hora de colocar gelo. Se espreguiçando, ela saiu da cama, fez uma parada no banheiro e foi em busca do cheiro delicioso que reinava na casa.
Sua primeira reação foi parar no meio da escada ao ouvir as vozes diferentes na sala de estar e cozinha. Aparentemente seus tios e primos haviam chegado. Terminou de descer as escadas e foi direto para a sala, onde ela podia ouvir a risada de seu pai, de outro homem e a voz de uma criança.
"Hey, dorminhoca", Jesse cumprimentou a filha quando a viu, e a mesma sorriu ainda meio sonolenta e acenou para os novos rostos.
"Oi, gente."
"Você cresceu, criança", Tim sorriu e Madison foi em direção à ele para abraça-lo, "Lembra do tio Timmy?"
"Claro. Quem mais me dava biscoitos escondido?"
"Shhh, criança, é o nosso segredo", Tim piscou para a menina, que sorriu de volta.
"O que aconteceu no seu nariz?", TJ perguntou à prima, parando na frente dela para olhar melhor o rosto.
"Entrei numa briga", Madison torceu os lábios escondendo um sorriso.
TJ arregalou os olhos esverdeados e um sorriso cresceu em seu rosto infantil.
"Sério?! Que legal!", comemorou. Ele não se lembrava muito dela, mas ela tinha uma ferida de batalha e isso era o máximo!
"Ela se acidentou na escola, TJ. Numa aula de dança", Jesse tratou de explicar ao sobrinho e deu um olhar à filha, que balançou os ombros e sorriu.
TJ deixou seus ombros caírem, visivelmente desapontado.
"Ah", murmurou. A briga seria mais legal.
"Você lembra da Leah?", Jesse chamou atenção para a menina sentada no canto do sofá, entretida no celular.
"Lembro. A gente brincava juntas. Oi, Leah", Madison se aproximou da prima, que ficou de pé para abraça-la.
"Hey, Madison. Bom te ver de novo."
"Digo o mesmo."
Jesse e Tim se encararam com as sobrancelhas erguidas e um olhar engraçado.
"O que é toda essa formalidade?"
"É. Nem parece que rolavam juntas na lama", Jesse riu.
"Pai", Madison rolou os olhos. "Para de envergonhar a gente."
"Tio Jesse é igual ao Tim", Leah concordou e rolou os olhos também.
"Onde está minha mãe?", Madison perguntou ao pai.
"Na cozinha. Vai lá falar com sua tia."
Lauren foi a primeira a tirar os olhos de sua tarefa de preparar a salada quando viu Madison entrar na cozinha. Sua expressão passou de alegria para espanto num segundo.
"Meu Pai Amado, o que você fez no seu rosto, criança?!", sua voz era de preocupação e horror ao observar o nariz roxo e as olheiras negras de sua sobrinha.
"Oi, tia Lulu", Madison acenou com um sorriso envergonhado, usando o apelido que seu pai sempre chamou a irmã e logo que aprendeu a falar Madison adotou para a tia.
"Maddie, querida. Você fez um trabalho e tanto aqui", Lauren pegou o rosto da sobrinha entre as mãos para avaliar melhor, "Está colocando gelo nisso? Eu tenho uma receita com azeite que é tiro e queda..."
"Obrigada, tia Lulu, mas não, obrigada", Madison se afastou de sua tia com um olhar assustado e caminhou para a proteção de sua avó.
"Dormiu bem, anjinho?", Louise perguntou à neta quando arrumou o cabelo dela no lugar.
"Sim. Eu preciso de gelo, vó."
"Está doendo, filha?", Rachel olhou para a menina.
"Um pouco", Madison fez beicinho, "Acho que o efeito do remédio já passou."
"Eu vou pegar seu gelo, vai sentar", Louise a empurrou levemente para uma banqueta no balcão.
"Me explica essa história direito", Lauren questionou.
"Eu estava em um ensaio de dança no clube do coral. Uma mão que eu não vi veio na minha direção rápido demais para eu desviar. Resultado", Madison apontou para o próprio rosto e suspirou, aceitando o saco de gelo que Louise lhe oferecia.
"Imagina meu susto quando recebi a ligação do Jesse", Rachel balançou a cabeça, "Eu achei que os acidentes nas atividades tinham acabado há uns cinco anos..."
"Não foi minha culpa dessa vez", Madison deu de ombros.
"Sim, meu bebê foi apenas uma vítima", Louise deu um beijo na cabeça da neta.
"Viu", Madison sorriu vitoriosa para sua mãe e tia, que rolaram os olhos.
O almoço ficou pronto uma hora depois e a família então se acomodou na sala de jantar. Os pratos de comida foram passando e assim um por um se serviu. As conversas foram amenas e logo o assunto do nariz quebrado de Madison foi esquecido, para a felicidade da menina.
Após o almoço, os adultos foram para a sala tomar café enquanto as crianças, e Rachel e Lauren, comiam torta com sorvete, todos sentados espalhados pelo cômodo enquanto continuavam a conversa. Madison sentou-se no chão encostada nas pernas de sua tia que estava no sofá, e sorriu quando sentiu uma mão acariciar sua cabeça. Lauren sorriu de volta.
"Rachel, nem vem que do Ensino Médio pra cá você não mudou nada! A mesma Diva!", Jesse brincou com a esposa, fazendo com que a mesma rolasse os olhos.
"Como se você pudesse falar algo, né, maninho? Era igualzinho", Lauren retrucou, defendendo a cunhada, "Vocês dois se mereciam mesmo."
"Vou aceitar como um elogio", Rachel brincou.
TJ levantou de fininho de seu lugar e se aproximou da irmã com uma expressão inocente. Leah revirou os olhos quando viu, ela sabia o que vinha por aí.
"Leah, vem jogar futebol comigo?"
Bingo!
"TJ...", a menina resmungou.
"Por favorzinho", o menino juntou as mãos embaixo do queixo, batendo seus longos cílios que faziam sombra sobre aqueles brilhantes olhos azuis esverdeados em contraste com sua pele morena.
Leah não podia resistir. Ninguém podia. Era sua arma secreta.
"Tá bom", a adolescente bufou e se levantou. Seus olhos vasculharam pela sala até pararem na prima sentada nos pés de sua mãe, "Hey, Madison. Vem com a gente."
"Hmm aonde exatamente?"
"Jogar futebol!", TJ praticamente gritou de entusiasmo.
Madison pensou por alguns segundos, então deu de ombros e ficou de pé. Ela não iria jogar de fato, mas ficar longe da conversa entediante que sua família estava tendo no momento parecia uma ideia melhor. E talvez seria legal ela se aproximar mais dos seus primos visto que ela passaria o resto do fim de semana na companhia deles.
"Cuidado com o nariz", Rachel avisou à menina quando a viu seguir os primos até o quintal dos fundos.
Madison assentiu e assim os três saíram, TJ já chutando uma bola que sua avó tinha para ele brincar sempre que vinha. Leah tirou as sandálias que usava e correu atrás do irmão para tentar arrancar a bola dele, quando TJ conseguiu desviar sua gargalhada encheu o quintal.
"Você sabe que eu deixo você fazer isso, não é?", Leah zombou da criança, aproveitando a distração dele para tomar a bola.
Madison se sentou nos degraus da varanda e assistiu aos dois jogadores. Ela se surpreendeu com a habilidade de Leah de driblar a bola, e riu junto com a prima quando ela jogou a bola por entre as pernas de TJ.
"Não vale, Lee! A gente combinou sem 'caneta'!", TJ protestou, suas pequenas pernas se esforçando para manter o ritmo da menina mais velha.
"Então pegue a bola de mim, pirralho."
"Você não vem jogar?", TJ gritou na direção de Madison, "Pode ficar no meu time, a Leah consegue se virar sozinha."
"Ei!", sua irmã gritou ofendida.
"Ah, agora não. Eu não posso me esforçar muito", Madison fez uma careta apontando para o nariz.
"Que pena. SEM 'CANETA', LEAH!"
Os dois jogaram por quase quinze minutos até Leah desistir e se jogar ao lado de Madison, secando o suor em seu rosto com o braço, seu longo cabelo loiro preso em um coque no alto da cabeça.
"O pirralho não cansa", ela respirou fundo, observando o irmão chutar a bola pelo quintal.
"Você joga bem", Madison comentou distraidamente.
"É, eu tento. Jogo no time feminino da escola desde os onze anos", deu de ombros.
"Legal. Eu não sou muito fã de futebol, prefiro as artes. Cantar, dançar, essas coisas."
"A fruta não cai muito longe do pé. Você é idêntica a tia Rae-Rae", Leah riu balançando a cabeça. Madison sorriu. "Está gostando do McKinley?"
"Ah, sim, é legal", Madison piscou rapidamente pela pergunta repentina, "Você estuda no Carmel?"
"Sim, infelizmente", Leah suspirou, "Aquele lugar respira artes. Você ia gostar de lá."
"É, acho que sim", disse, chutando uma pedrinha na grama, "Meu pai estudou lá."
"Sim, eu sei. Minha mãe também. Ela diz que tio Jesse era a estrela da escola, sendo o líder do clube do coral", Leah revirou os olhos em tom de brincadeira.
"Parece que meus pais têm muito em comum. Eu tive a quem puxar."
"Acho que se você não gostasse de artes seria expulsa de casa", Leah encarou Madison e riu da careta que a menina fez.
"Então,", Madison mudou o assunto depois de segundos de silêncio entre as duas, "animada para ter outro irmão?"
Leah deu de ombros, "No começo foi estranho, mas você acaba se acostumando a ter um bebê em casa. Eu era uma garotinha quando TJ nasceu, e odiava ele porque chorava muito. Mas com o tempo fui me acostumando. Eles podem ser um pé no saco às vezes."
"Todo mundo fala isso", Madison se lembrou de Daniel falando de sua própria irmã, "Eu acho que seria legal ter um irmão ou irmã. Eu cresci com a Zoe, mas somos da mesma idade. Nunca tive alguém mais novo que eu para ver crescer."
"Fala isso porque não tem. TJ é um garotinho legal, mas quando quer alguma coisa ele implora até te vencer pelo cansaço."
"Ele parece ser adorável."
"Sim, dormindo", Leah rolou os olhos, "Quer ele pra você?"
"Leah!", o garoto gritou, chamando atenção das duas, "Acabou seus cinco minutos de descanso. Vem jogar!"
"Minha oferta ainda está de pé", Leah deu um olhar à prima, erguendo as sobrancelhas, e se levantou para brincar com TJ.
Horas mais tarde, as crianças estavam acomodadas no sofá assistindo a um filme enquanto seus pais se arrumava para sair numa noite de adultos. Louise havia feito pipoca e cada um dos três tinha uma lata de refrigerante, para descontentamento de seus pais. Louise havia abanado uma mão dizendo que era a única que ela deixaria eles beberem, e disse para os quatro adultos irem se divertir que a noite era toda dela com os netos.
Lauren e Tim haviam ido para casa mais cedo para se vestirem, eles iriam a um restaurante e depois para um bar com música ao vivo e karaokê pelos arredores de Akron. Rachel estava animada, em Nova York ela não tinha a oportunidade de fazer muito esses programas devido ao trabalho sugar seu tempo. Obviamente que ela e Jesse saíam a sós de vez em quando, mas essas saídas não eram frequentes.
"Mãe, estamos saindo", Jesse gritou descendo as escadas, Rachel vindo logo atrás. Louise veio da cozinha encontrá-los.
"Uau, Rach. Que linda!", ela elogiou com um enorme sorriso.
Duas cabeças viraram para olhar por cima do sofá. Leah e Madison sorriram ao mesmo tempo. Rachel sorriu de volta para sua sogra e as duas meninas. Seu vestido preto alcançava pouco acima do meio das coxas, soltinho e de mangas longas com um corte bem desenhado nas costas, os saltos tinham a sola vermelha e seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo bagunçado sofisticadamente com as pontas onduladas e um topete no alto da cabeça, nenhuma joia além dos brincos de argola. Jesse também se vestira bem com calça cáqui e uma camisa quadriculada com as mangas dobradas.
"Amei o look, tia Rae-Rae."
"Está linda mesmo, mãe. E você, pai, também não está nada mal", Madison piscou para seu pai, que piscou de volta.
Rachel caminhou até o sofá e beijou a bochecha das duas meninas, assim como o topo da cabeça de TJ.
"Não fiquem acordadas até muito tarde, ok? Eu sei que vocês não irão dormir assim que a vovó mandar, mas tentem pelo menos ir para a cama em um horário razoável. Sejam boas meninas."
"Claro, claro", veio a resposta em uníssono. Rachel sabia que elas não iriam ouvi-la.
TJ estava muito entretido no filme para prestar atenção. E o menino demonstrava não demorar muito para cair no sono ali mesmo.
"E Mad, não esqueça seus remédios. Se começar a sentir muita dor, coloque gelo e avise à vovó para ela lhe ajudar."
"Eu sei, mãe", respondeu em tom impaciente, "Vá se divertir, a gente vai ficar bem."
"Não nos esperem acordados. Ouviram?", Jesse especificou seu aviso com um olhar para a menina de olhos azuis idênticos aos seus que sorriu inocentemente em sua direção, "E comportem-se!"
"Nós somos uns anjos", Leah declarou, piscando delicadamente.
"Eles vão se comportar perfeitamente. Eles sabem que a vovó Louise fica muito brava com quem não se comporta", Louise colocou as mãos na cintura para enfatizar.
Jesse foi se despedir das meninas com um beijo na testa de cada uma e bagunçou os cachos de TJ, que empurrou a mão do tio para longe sem tirar os olhos da TV.
"Juízo vocês dois", Madison deu o aviso enquanto observava seus pais caminharem até o foyer.
"Divirtam-se, queridos", Louise os beijou já na saída e praticamente os empurrou porta afora.
