Disclaimer: Eu não possuo Glee, caso contrário a série nunca teria um fim.


A luz clara da manhã foi diretamente em seus olhos quando se abriram para o dia seguinte. Droga, havia esquecido as cortinas abertas. O som descontente que deixou sua garganta foi inevitável.

Sua mente ainda estava turva, mas não se esquecera de sua aventura noite passada e, consequentemente... Bem, as consequências disso. Sua única vontade era de rolar para o outro lado e voltar para o mundo inconsciente, mas sabia que seria impossível. Conhecendo seus pais, a qualquer momento um deles viria chamá-la. Podia ouvir vozes no andar de baixo, mas não distinguira seus donos por conta da porta fechada e a mente ainda nublada de sono. Depois de um longo suspiro, resolveu enfrentar sua condenação.

O relógio em seu celular mostrava que eram alguns minutos depois das nove da manhã, se surpreendeu que ninguém ainda tivesse vindo acordá-la. Com o rosto lavado, os dentes escovados e os cabelos menos revoltos, Madison desceu as escadas lentamente, um degrau de cada vez, postergando seu destino. Ela nem se preocupou em trocar o pijama por roupas apropriadas, faria isso mais tarde após um merecido banho. Agora o que queria era sair logo da mira de seus pais, e ela não deixaria a casa tão cedo, então se trocar parecia perda de tempo.

As vozes agora eram reconhecíveis, vindas da cozinha. Estavam lá, além de sua avó e seus pais, Lauren e Tim, e podia ouvir também a voz animada de TJ. Respirando fundo, ela desceu o último degrau e apareceu no portal.

Lauren parou no meio de sua frase quando viu Madison. Todos os outros presentes a encararam, menos TJ que estava entretido com seu prato de panquecas, e Madison sentiu suas bochechas tingirem de vermelho.

"Olha quem acordou, a encrenqueira número 2", Jesse comentou, cruzando os braços sobre o peito, de seu lugar recostado no balcão.

Madison optou por encarar seus pés descalços ao invés dos rostos em sua direção. Ela havia percebido que Leah também estava presente, sentada na mesa do canto junto com TJ, seu próprio prato de panquecas à sua frente e rezando para ser engolida por algum buraco negro. Os cinco adultos estavam em volta do balcão-ilha, alguns de pé e outros sentados, todos tinham uma caneca em mãos.

"Vá se sentar e comer alguma coisa", Rachel mandou, os olhos presos na figura encolhida da filha. Ela ainda estava decepcionada, e imaginar que aquela mesma menina, que agora trajava um par de pijamas do Garfield, estivera na rua tarde da noite e fazendo Deus sabe o quê, só piorava a situação. Ela ainda era uma criança, pelo amor de Deus!

Madison não ousou retrucar, apenas arrastou os pés, de cabeça ainda baixa, até a mesa e assentiu quando sua avó lhe entregou um prato de panquecas.

"Obrigada", respondeu em um tom quase inaudível.

Enquanto as crianças comiam, os adultos continuaram sua conversa, ignorando os olhares que tanto Leah quanto Madison lhes davam de vez em quando. As duas meninas não podiam conter a inquietação, esperar por aquela conversa era tortura suficiente.

Rachel e Jesse haviam conversado minutos mais cedo e haviam decidido o castigo de Madison. Havia privilégios que eles podiam tirar da menina e era nisso que eles estavam focando, além, é claro, das tarefas que ela receberia. E, obviamente, uma senhora conversa.

Depois que elas terminaram de comer, Madison foi enviada para o quarto que seus pais estavam hospedados enquanto Leah foi para o que Madison dormira. Os quatro pais resolveram conversar com as meninas separadamente, sem interferências de ambas as partes. Louise permanecera no primeiro andar, assistindo TV com TJ.

Madison se sentara na cama de casal e esfregou os olhos, já sentindo-os marejarem com a bronca que viria. Seus pais estavam ambos de pé à sua frente, parecendo muito desapontados e com olhares reprovadores.

"Madison, eu não sei nem por onde começar com você", Rachel foi a primeira a falar, os braços cruzados sobre o peito, "Todas as escolhas que você fez ontem foram erradas."

"Mas a Leah-"

"Não estamos falando da Leah!", Rachel a cortou, vendo Madison engolir em seco, "Independentemente do que Leah planejou fazer ontem à noite, você decidiu que faria também. Ela não te obrigou, você foi porque quis e, principalmente, sabendo o quanto seu pai e eu reprovamos isso."

Madison abaixou a cabeça, fungando.

"Olhe para nós quando estamos falando com você, mocinha", Jesse repreendeu.

Rachel esperou que ela levantasse os olhos novamente para continuar.

"Todas as escolhas que você fez ontem a noite foram erradas. Imagine só, sua avó vai se deitar pensando que suas duas netas estão vendo um filme e que logo irão para a cama também, só para ser acordada no susto com as tão queridas netas desaparecidas. Imagina o que seu pai e eu pensamos quando não encontramos vocês em casa. Nós pensamos o pior, Madison Louise!"

"Desculpa."

"Nós apreciamos o pedido de desculpas, mas não vai ser suficiente", Jesse disse à filha.

Outra vez a menina engoliu em seco com o tom de voz do pai.

"Você tem ALGUMA noção de que o que fez ontem foi errado?"

Madison hesitou em responder, mordendo o lábio inferior para segurar as lágrimas. Sim, ela sabia que seus pais não ficariam contentes, mas ela também pensara que ninguém descobriria. E, além do mais, ela não queria estragar a noite de sua prima.

"Responda sua mãe, Madison."

"E-eu... Leah disse que seria divertido, e que ela fazia isso o tempo todo e não havia problema. Eu só... Eu só não queria que ela pensasse que eu era um bebê por não querer sair aquele horário."

"Então quer dizer que estava tudo bem, já que Leah faz isso o tempo todo?", Rachel perguntou, indignada.

"Não. Quero dizer... Eu não sei. Leah fez parecer que não tinha problema..."

"Tudo, absolutamente tudo está errado. Leah sabe que os pais dela não aprovam esse comportamento. É por isso que nesse instante ela também está tendo uma conversa séria com eles. E mesmo que fosse o contrário, Madison, você sabe o que seu pai e eu pensamos disso e você foi contra nossas regras."

"Eu sei..."

"Nós deixamos você fazer o que gosta, dentro da razão. Você se diverte com seus amigos, você vai à festas. Nós confiamos em você para seguir nossas regras, elas não existem à toa", a mãe continuou.

"O que vocês tinham em mente? O que pretendiam dizer à nós?", Jesse perguntou.

Madison hesitou outra vez, a ponta de seu nariz ganhando um tom avermelhado, sinal claro de um choro chegando.

"A gente pensou que se chegássemos em casa antes de vocês voltarem do restaurante, não haveria problema", optou pela verdade, não havia escapatória mesmo. E também em sua atual situação, mentir não a ajudaria.

Rachel e Jesse encararam a filha com uma expressão desacreditada.

"Então podemos adicionar mentir na sua lista", Jesse constatou.

"Não!", ela tentou recuar, "Quero dizer... Não era uma mentira. Era uma... Omissão."

Rachel riu de escárnio, encarando a menina enquanto balançava a cabeça. Ela não podia estar ouvindo aquilo.

"Você vai mesmo vir com essa agora? Nem se dê ao trabalho, mocinha!", Rachel a repreendeu, "Mentir por omissão é mentir do mesmo jeito. Você sabe muito bem qual a nossa principal regra. Não mentir. E é exatamente o que você ia fazer."

"Mas não fiz!"

"Não interessa!", Rachel ergueu a voz, "Você planejou fazer isso e saiu pelas nossas costas, ainda sim mentiu! Não só saiu, fez coisas piores!"

Madison queria retrucar mais uma vez, mas ela sabia que perderia a batalha. Ela entendera sua posição justa nesta causa e sabia sua condenação certa. A culpa já borbulhava dentro de si, mas era inevitável tentar rebater contra o que seus pais lhe acusavam. Era apenas sua mente adolescente tentando provar seu ponto de vista. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto e ela ouviu seu pai suspirar antes de falar.

"Você precisa nos provar que entendeu porque o que você fez não era certo. A confiança foi quebrada aqui e vai levar tempo até ela se restabelecer."

"Eu sei", Madison assentiu. Ela fungou e enxugou a bochecha antes de continuar, "Eu errei ontem e sei que decepcionei vocês. Sei que a decisão de sair ontem foi minha também e não apenas da Leah, e prometo que isso não vai se repetir. Foi estúpido."

Os dois pais suspiraram dessa vez. Ambos sabiam que ela não podia prometer isso, mas ouvi-la admitir que estava errada era um primeiro passo. Por mais que a primeira vontade fosse de esganar ao vê-la no estado que estivera, eles mais ficaram decepcionados do que com raiva do que a menina havia feito.

"Pois bem. Nós vamos para casa depois do almoço, você pode ir se trocar e depois traga aqui seu celular e iPod. Em casa nós recolheremos o resto de seus eletrônicos, serão propriedade nossa pelas próximas duas semanas", Jesse anunciou.

Madison bufou, mas não disse nada. Ela sabia como os castigos eram, aquela não era a primeira vez e provavelmente nem a última.

"E,", Rachel ergueu a mão para interromper qualquer reclamação que pudesse vir, "nesse meio tempo também não sairá com seus amigos."

"Que ótimo", Madison cruzou os braços com raiva.

Rachel respirou fundo para manter a paciência com a filha antes de pronunciar seu último veredito. Naquela manhã quando haviam conversado sobre o castigo de Madison, decidiram que, além dos eletrônicos e das saídas, havia algo mais que eles achavam que Madison merecia.

"E, por uma semana, você não irá aos ensaios do coral."

Madison ergueu os olhos arregalados para sua mãe, em seguida para seu pai, e sentiu o corpo paralisar.

"O que?! Como? Não!", ela gaguejou, indignada. "Mãe! Pai! Vocês não podem fazer isso! Sabem o que o clube Glee significa pra mim!"

"Sim, sabemos, e é por isso que você será afastada dele essa semana. O clube Glee é um privilégio, se você apronta, você perde seus privilégios."

"Mas, mãe-"

"Já está decidido, Madison. Esta semana você vai direto para casa após a escola, seu pai ou eu estaremos lá esperando às 15h. Se você não aparecer, ficará mais dias sem ir ao clube do coral. A escolha é sua."

Madison não podia acreditar no que estava ouvindo. Seus pais sabiam ser rigorosos quando se tratava de punições. E eles também sabiam o quanto o clube significava para ela. Madison sentiu o corpo tensionar com raiva.

"Vocês não podem fazer isso. Nós... Nós estamos ensaiando para as Seletivas!"

"Quer continuar a discussão? Nós podemos aumentar para duas semanas, junto com o resto do castigo", Jesse ergueu uma sobrancelha.

Madison abriu a boca para retrucar, mas optou apenas por um grunhido de raiva, desviando os olhos e fazendo uma carranca.

"Melhor assim", Jesse concluiu.

"Pra finalizar-", Rachel pontuou.

"Tem mais?!", Madison interrompeu a mãe. Rachel apenas lhe deu um olhar severo antes de continuar.

"No final dessas duas semanas nós queremos uma pesquisa sobre o uso impróprio da maconha. Não importa quantas linhas, quantas páginas, o objetivo é que você nos prove que compreendeu as consequências de seus atos."

Madison queria rir sem humor. Aquilo só podia ser brincadeira. O que há com todos os adultos em sua vida querendo pesquisas sobre os perigos do mundo? Eles tinham combinado? Ela duvidava muito que Leah estivesse recebendo a mesma tarefa.

"Isso é piada?"

"Com licença?", Rachel estava indignada com tamanha petulância.

"Isso é muito sério, Madison. Nós pensamos que nessas duas semanas você teria mais tempo livre visto que não sairá de casa a não ser para ir à escola, então ocupamos esse tempo para você", Jesse respondeu.

"Oh, claro. Obrigada", respondeu ironicamente.

"Agora, pode ir buscar seu celular e iPod", Rachel apontou para a porta. Madison levantou com raiva e passou por sua mãe, revirando os olhos ao estar longe da vista dela.

Ela só não esperava o tapa no traseiro que veio em seguida.

"Ai!"

"Não revire os olhos. Vá."

Minutos depois, Jesse e Rachel desciam as escadas, Madison logo atrás, e encontraram apenas TJ na sala com alguns brinquedos. Louise estava na cozinha, eles souberam pelo som de pratos vindo de lá, mas nenhum sinal de Tim, Lauren ou Leah.

"Vá para o sofá, mas lembre-se: nada de TV", Jesse informou à menina, que bufou e seguiu a ordem. Rachel e Jesse foram para a cozinha.

TJ sorriu assim que viu a prima se jogar no sofá.

"Oi, Mad. Quer jogar UNO comigo?"

Madison queria recusar, mas ela não teria mais nada de interessante para fazer, e além disso o sorriso de TJ era tentador demais para negar qualquer coisa a ele. Um truque.

"Tá", ela assentiu e foi se sentar em frente a mesinha de centro, onde TJ havia espalhado as cartas coloridas, "E você sabe como jogar?"

"Claro, né", o menino revirou os olhos, fazendo com que Madison erguesse as sobrancelhas. "Você se meteu em encrenca também?"

"Hmm?"

"Em encrenca, sabe? Porque a Leah tá super hiper encrencada. Toda vez que a mamãe e o papai levam ela para o quarto, ela sai de lá brava e, na maioria das vezes, de castigo. Você também está de castigo?"

Madison sentiu as bochechas esquentarem enquanto observava o primo distribuir as cartas do jogo. Era ridículo que ela estivesse sem graça por causa de uma pergunta, mas sim ela estava.

"Err... Digamos que eu tenha feito algumas coisas que deixaram meus pais um pouco chateados."

"Você entrou numa briga?", ele perguntou, quase esperançoso.

"Hmm não", Madison mordeu o lábio. Ela não diria ao seu primo de sete anos o que ela e a irmã dele haviam feito.

"Ah, que pena", ele disse, decepcionado. Madison queria rir, aquela criança gostava de ouvir sobre brigas, "Tá, chega de conversa. Eu deixo você começar, já que está encrencada."

Passos na escada se fizeram ouvidos e os dois viraram as cabeças a tempo de ver Leah e os dois adultos descerem, e assim como TJ dissera, a menina sustentava um semblante irritado.

"Sente-se. Nós sairemos em quinze minutos", Lauren disse à filha, que resmungou algo e foi sentar-se em uma poltrona mais distante de onde seu irmão e prima estavam. "TJ, querido. Arrume suas coisas, ok? Nós já estamos indo."

"Ahh. Agora que eu comecei a jogar", o menino suspirou, mas começou a juntar os brinquedos de qualquer forma. Madison deu um pequeno sorriso encorajador ao primo.

"Adolescentes", Lauren resmungou assim que entrou na cozinha com o marido logo atrás. Rachel, Jesse e sua mãe conversavam no balcão. Ela foi até a geladeira pegar uma garrafa d'água, absorvendo o líquido gelado em uma grande golada.

"E como foi lá em cima?", Rachel perguntou aos cunhados, que pareciam exaustos.

"Ah, como sempre é. Cansativo, mas necessário", Tim disse a eles, "Ela está de castigo por três semanas."

"Madison tem tarefas extras, além do castigo também", Jesse informou, "Quando foi que essas meninas deixaram de ser aquelas crianças tranquilas e obedientes?"

"Quando elas foram tranquilas, maninho?", Lauren retrucou, pondo uma mão sobre a barriga dilatada, "Eu só espero que esse aqui venha mais calmo. Eu terei cabelos brancos cedo, cedo."

"Ah, os filhos", Louise riu, "Eles começam a voar e a gente a ter rugas."

"Nem me fale", Lauren suspirou, "Bem, nós já vamos. Temos uma encrenqueira emburrada para dar conta hoje."

"Nós vamos esperar o almoço. Mamãe insiste que a gente coma antes de pegar estrada", Jesse disse.

"Boa sorte a nós, precisaremos com aquelas duas."

Tim chamou as crianças na sala enquanto Lauren se despedia de Jesse e Rachel perto da porta. Madison veio minutos depois se despedir dos tios e sentiu as bochechas enrubescerem quando sua tia lhe deu um tapa no traseiro ao abraça-la e beijar o topo de sua cabeça. Leah também recebeu um abraço de Rachel e Jesse, sentindo-se envergonhada por achar que a culpa fora sua de ter arrastado Madison para fora de casa. Rachel a assegurou que Madison também errara ao escolher ir e que a confiança poderia ser restabelecida se as meninas se esforçassem para recuperá-la. Elas estavam sendo punidas para repensarem o que fizeram, isso que importava.

Com isso dito, Leah foi para o carro de cabeça baixa, e os cinco adultos puderam ver ela enxugar uma lágrima de sua bochecha. Quando os quatro entraram no carro, o resto da família acenou da varanda, observando o automóvel sair da garagem e sumir pela rua.

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A viagem de Akron para Lima foi relativamente calma, os únicos sons dentro do carro eram as conversas ocasionais de Rachel e Jesse e a playlist aleatória tocando no rádio. Era quase fim de tarde, por volta das quatro horas, o céu estava limpo com o sol de verão ainda brilhando forte, um vento fresco correndo e as árvores passando rápido pela paisagem. Eles estavam quase em casa.

Madison dormiu boa parte do tempo. Sem mais nada o que fazer, sem o celular ou o iPod, tudo o que restara à menina foi ou conversar com seus pais ou dormir, e ela optou pela segunda opção. Ajudava também que seus comprimidos para dor a deixavam sonolenta, então aquela soneca fora bem-vinda quando Jesse já dirigia pela estrada entre as duas cidades.

Já em Lima, eles resolveram parar em um restaurante e comprar o jantar, visto que nem Rachel nem Jesse estavam com ânimo para cozinhar qualquer coisa. Jesse estacionou e saiu para comprar a comida enquanto Rachel permanecera no carro, Madison ainda desmaiada no banco traseiro, um braço jogado sobre o rosto tampando os olhos e o outro segurando seu inseparável macaco de pelúcia. Rachel suspirou voltando a olhar seu celular depois de uma espiada em Madison pelo espelho retrovisor. O dia seguinte já era segunda-feira, a rotina voltaria ao normal e eles teriam de enfrentar Madison resmungando toda a semana sobre o clube do coral.

Jesse retornou com as sacolas do restaurante e entregou à Rachel antes de dar ré no carro e sair do estacionamento, finalmente dirigindo para casa. O fim de semana havia sido longo o bastante e eles estavam prontos para chegar em casa.

O carro parou na calçada e foi tarefa de Jesse persuadir Madison para fora do mundo dos sonhos, se ela dormisse por mais tempo seria impossível ela ir para a cama em um horário decente naquela noite. E eles já tinham mais do que o suficiente para lidar, não precisavam adicionar uma Madison de mau humor na manhã seguinte.

"Já estamos em casa?", ela balbuciou em um estado semi acordado. Jesse riu, parado ao lado da porta traseira aberta.

"Sim, senhorita. Hora de acordar. Vamos, você pode dormir mais tarde", Madison piscou lentamente e soltou um longo bocejo, esfregando os olhos para espantar o sono, "Me ajude a descarregar o carro."

Madison rolou os olhos quando o pai virou as costas, mas desfez seu cinto e pulou para fora do veículo, espreguiçando todo o corpo antes de caminhar até o porta-malas agora aberto.

Quase uma hora mais tarde a família já estava ao redor do balcão na cozinha, com seus pratos feitos e comendo em silêncio. Madison mais empurrava os vegetais em seu prato do que comia, ela até estava com fome, mas odiava quando sua mãe insistia que ela comesse vagem. Ela odiava vagem. O frango xadrez parecia apetitoso, assim como o purê de batatas e o brócolis, mas a vagem a fazia empurrar a comida ao redor do prato. Ela espetou o legume verde com o garfo e o ergueu até a altura dos olhos, inspecionando-o antes de levá-lo lentamente até os lábios, fazendo uma careta ao mastigá-lo. Jesse rolou os olhos observando a peculiar interação de sua filha com a vagem, e Rachel decidiu ignorar aquilo. Madison fazia aquilo toda vez, mas acabava comendo de qualquer jeito. Pequena Rainha do Drama.

"Posso pegar um refrigerante?", arriscou perguntar, mesmo já sabendo a resposta.

"Não. Você pode terminar sua comida e beber água, ou leite se preferir", Rachel respondeu a encarando cuidadosamente, e então comeu uma garfada de sua comida. Madison estreitou os olhos para sua mãe e então bufou.

"Chata", Madison murmurou baixo demais para qualquer um de seus pais ouvirem. Sorte a dela. "Posso então beber um suco pelo menos?"

"Acho que acabou, você bebeu o resto na sexta se não me engano", a mãe informou. "Iremos fazer compras amanhã."

A menina suspirou resignada e voltou a se concentrar em seu jantar. Jesse puxou outro assunto com Rachel, mas Madison desviou a mente daquilo e desligou seus ouvidos.

O que na verdade ocupou sua mente foi, de repente, Shelby. Eles ainda não haviam conversado sobre o encontro de sua mãe com a mulher mais velha, mas Madison duvidava se sua mãe iria mesmo tocar no assunto. Tudo mudaria agora que Shelby sabia sobre ela. Ela não seria mais "apenas" sua professora, e mesmo que os papéis não estivessem firmados entre a família, se é que ela pudesse dizer que eram uma família, Shelby ainda era sangue de seu sangue. E pior, ela tinha plena noção disso.

Madison outra vez sentiu o embrulho no estômago de toda aquela situação. Era tão ruim sentir aquilo, a insegurança, a incerteza do que fazer em seguida. Ela tinha certeza que o dia seguinte seria pior do que a semana anterior tinha sido.

"Madison?"

A menina saiu de seu devaneio com a voz de seu pai lhe chamando, ela o encarou e viu a expressão confusa em seu rosto. Madison balançou a cabeça para espantar qualquer transe mental e voltou a prestar atenção em seus pais.

"Desculpe, tava viajando aqui. O que você disse, pai?"

"Falei pra você ir buscar seu notebook e o controle da sua TV, visto que já terminou de comer."

"Ah. Okay..."

Madison deixou a mesa e subiu para buscar o que seu pai pedira. Ela nem fizera muito caso sobre aquilo, sua mente muito distante com outras preocupações, até para tentar negociar o castigo com seus pais. Seria em vão de qualquer forma.

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Era início do anoitecer de domingo e Zoe estava esparramada em um dos sofás da sala, os olhos presos na tela da TV. A tela de seu celular acendeu informando uma nova mensagem de texto, ela leu o remetente e viu ser de Olivia. A menina estava perguntando sobre o projeto de História que elas fariam juntas, Zoe tratou de responder rapidamente quais dias estavam disponíveis já que elas se reuniriam em sua casa.

Blaine entrou na sala naquele instante e bagunçou o cabelo da filha ao passar por ela, indo para outro sofá. Zoe empurrou a mão dele para longe e soltou um resmungo antes de voltar a se concentrar em seu celular.

"O que estamos assistindo?", Blaine perguntou, se jogando no sofá e olhando para a TV.

"Criminal Minds", respondeu, sem ainda tirar os olhos do aparelho em suas mãos.

"Oh. Legal."

"Pai, tudo bem Olivia vir essa semana para fazermos um projeto de História?", Zoe finalmente encarou o pai, que tirou os olhos da TV para responder à filha.

"Claro, querida. Depois do ensaio?"

"Não. Decidimos vir na sexta, já que terça e quinta ela tem clube de teatro e segunda e quarta eu tenho ensaio."

"Combinado, então", Blaine acenou e voltou a assistir a série. Então ele se lembrou de algo que Kurt e ele haviam decidido mais cedo. "Hey, tia Rachel fará um jantar na sexta e convidou a todos nós. Você acha que o trabalho vai tomar muito tempo?"

Zoe queria gemer em desgosto. Ela e Madison ainda não estavam se falando e agora teria que aguentar toda uma noite na casa dos St. James, ainda por cima com seus pais o tempo todo observando as duas meninas. Kurt e Blaine já desconfiavam que as duas estavam se estranhando, e eles haviam comentado com Rachel e Jesse sobre isso, os quatro só esperavam que fosse impressão. Esse jantar diria se eles estavam de fato enganados.

"O que foi?", Blaine franziu as sobrancelhas, observando a careta no rosto da filha, "Você adora jantar na casa dos seus tios. Adora passar um tempo com a Mad... Algum problema?", ele tentou jogar verde.

Zoe o encarou e forçou um sorriso. Ela tratou logo de responder.

"Não é nada. Só estava pensando em outras coisas, você sabe, sobre a escola", disfarçou, desviando o olhar para a TV.

"Uhum", Blaine a encarou ainda por alguns segundos e suspirou por fim, também desviando os olhos. Ele não acreditava na menina, mas por agora deixaria passar. Ele e Kurt já haviam conversado e estavam de olho nela por qualquer sinal de desavença.

Os dois se acomodaram novamente prestando atenção ao episódio da série. Kurt se juntou a eles minutos depois, recebendo um beijo do marido ao se aconchegar ao lado dele no sofá. Os dois observaram Zoe por alguns segundos antes de se encararem e suspirarem quase em uníssono. Kurt deu um sorriso confortante ao marido e apertou levemente sua mão.

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"Esse fenômeno chama-se Trigonometria!", disse Sr. Finley em uma voz muito animada para aquele horário.

Madison bocejou longamente, encarando seu professor de matemática. Com a cabeça apoiada em uma mão, seus olhos estavam presos na figura de meia idade usando calças e suspensórios sobre uma barriga protuberante, dizendo palavras que a jovem mente não conseguia processar por estar distante dali, muito provavelmente ainda em sua cama.

Acordar havia sido um processo difícil, talvez ela ainda nem o tivesse feito na verdade, mas o que se provou grande dificuldade mesmo foi deixar sua cama e enfrentar a longa semana de castigo. Sempre que despertava pela manhã, o primeiro instinto era esticar o braço e alcançar o celular na mesinha de cabeceira, mas naquela manhã tudo o que encontrara foi o tampo de madeira vazio. Com um longo suspiro resignado, se lembrou que seu precioso aparelho era propriedade de seus pais pelos dias a seguir.

Ela não havia tido notícias de Daniel ou mesmo Zoe desde o dia anterior. Havia chegado na escola em cima da hora e não teve tempo de procurar por qualquer um deles. Zoe ainda não estava muito amigável com ela, mas seus pais estavam começando a desconfiar e ela precisava conversar com a menina logo. O problema era que, sem seu celular, era ainda mais difícil contatar Zoe. Ela esperava ter um tempo com a menina no intervalo do almoço.

O Sr. Finley começou a distribuir os exercícios para que a classe iniciasse, mas eles poderiam finalizar depois como dever de casa. Madison suspirou lendo as questões na folha, ela não era tão ruim em matemática, mas também não era das melhores, e além do mais sua cabeça estava em qualquer lugar menos na sala de aula. Sem mais nada o que pudesse fazer, ela tentou se concentrar na primeira questão para que o tempo passasse mais depressa.

O sinal finalmente tocou e ela não havia finalizado nem a terceira questão. Juntou seu material, aliviada que podia se preocupar com aquilo mais tarde, e foi em busca de sua primeira missão do dia: achar Zoe.

Madison sabia que a menina estaria saindo da classe da Srta. Corcoran, em outro corredor, mas que agora ela iria ter Geografia, se Madison não estava enganada. Madison tinha classe de Espanhol em seguida, e ela sabia que a professora dava uma pequena tolerância aos alunos, por isso aproveitou aquele momento. Ao longe ela avistou Zoe fechando seu armário, então apressou o passo a fim de pará-la antes que ela entrasse na sala. Tinha agora três minutos antes que a aula de Zoe começasse.

"Zoe!", chamou por entre o corredor de estudantes se apressando para suas salas de aula.

Zoe levantou o rosto procurando a voz que lhe chamara, revirando os olhos ao perceber Madison lutando para chegar até ela. Alguns alunos pareciam não se dar conta que estavam no caminho. Madison acreditava ser propositalmente.

"O que você quer?", perguntou com pouca paciência.

Madison finalmente a alcançou e respirou fundo antes de falar qualquer coisa. A menina mais alta não estava contente, sua pose demonstrava isso de longe, uma mão apoiada no quadril levemente erguido, uma sobrancelha clara perfeitamente erguida. A imagem perfeita de Quinn Fabray.

"A gente precisa conversar."

"Sobre?"

"Zoe!", Madison ralhou, franzindo as sobrancelhas, "Para com isso, tá? A gente não pode continuar desse jeito. Olha,", Madison fechou olhos, suspirando, e voltou a abri-los, "eu sei que fui uma idiota, mas é que aconteceu tudo tão rápido e eu surtei, ok? Eu sei que fiz besteira e agora a equipe inteira deve querer me estrangular por causa de sábado, mas eu me arrependo."

Zoe a encarou enquanto ela monologava, e Madison encarou de volta sua amiga com os olhos em súplica. Zoe respirou fundo e finalmente relaxou a pose impaciente.

"Tá, tá, eu sei que você achou que tava fazendo o certo. Você sempre faz isso", Zoe observou a mágoa perpassar por milésimos de segundos sobre os olhos azuis a fitando, então tratou logo de continuar, "Mas eu só queria que tivesse falado comigo, poxa. Você meteu todo mundo em encrenca por causa de uma "boa ação". Enfim, já passou."

Madison ergueu uma sobrancelha.

"Quer dizer que tá tudo bem, então? Você me desculpa?"

"Ei, calma lá. Não foi isso que eu disse. Eu só quero que isso acabe logo porque meus pais estão no meu pé já, e isso é irritante."

"E um pedido de desculpas resolve?", Madison deu um sorriso suplicante.

Zoe sorriu de lado e a empurrou de leve no ombro.

"Vai, sua chata. Eu preciso mesmo que a gente se fale novamente. Você sabe, sobre certos assuntos", Zoe deu uma piscadela.

Madison abriu um sorriso genuíno dessa vez e assentiu. Sim, elas precisavam conversar. Sobre um assunto. Garotos.

Dois, especificamente.

Mais tarde, no fim das aulas, Madison teve o infortúnio de se lembrar de seu castigo. Às três horas em ponto ela saiu pelo portão e avistou o carro de seus pais na área de despache de alunos. Com um longo suspiro e uma alça da mochila sobre o ombro, ela desceu lentamente as escadas da frente da escola e caminhou para o carro como se caminhasse à forca. Rachel, atrás do volante e camuflada pelo papel filme dos vidros, não pode conter o sorriso. Sua pequena rainha do drama. Assim como ela.

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"Cinco, seis, sete, oito!", Shelby anunciou no microfone, sentada em sua mesa no auditório, enquanto seus alunos no palco iniciavam a coreografia de California Dreamin.

Ela havia observado a ausência de Madison com um leve franzir de sobrancelhas, enquanto os alunos aqueciam minutos antes. Depois de quarta-feira, do inevitável encontro com Rachel, ela havia passado o fim de semana remoendo toda a culpa carregada por anos. Rachel a odiava, disso não tinha dúvida. E ela merecia.

No entanto, o afastamento de Madison do ensaio era no mínimo esquisito. Era óbvio que a menina não estaria ensaiando de fato por conta do nariz fraturado, mas isso não a impedia de ir aos ensaios e assistir, afinal ela ainda participaria da competição. Se qualquer membro de sua equipe não pudesse ensaiar por qualquer razão, ela contava que eles pelo menos assistissem ao ensaio. Ela definitivamente não contava com a ausência da menina.

Minutos depois ela deu o primeiro intervalo, e aproveitando a deixa, caminhou até onde Daniel bebia água. Ela podia conversar com ele sem ninguém desconfiar, afinal ele era o capitão de sua equipe e deveria, pelo menos, saber dos membros. Assim como Beth, mas Shelby duvidava que a filha soubesse ou mesmo se importasse com a ausência de Madison.

"Hey, Srta. Corcoran. Algum problema?", Daniel tratou de perguntar, logo em seguida sorvendo mais de sua água.

"Você por acaso saberia me dizer de Madison St. James? Ela não está por aqui."

"Oh", pego de surpresa, Daniel piscou algumas vezes antes de responder, "Eu não sei, ela não me avisou nada, nem mesmo a encontrei hoje. Às vezes almoçamos juntos, mas tive um imprevisto com um trabalho e passei o intervalo do almoço na biblioteca."

"Hmm. Bom, se souber de alguma coisa, me avise", Shelby o observou assentir e então se afastou para ir até seu escritório.

Daniel aproveitou esse momento para checar seu telefone e ver se havia mensagem de Madison avisando alguma coisa. Mas não havia nada. A última mensagem trocada entre eles havia sido no sábado quando ela dissera que estava em Akron visitando a família. Nem mesmo durante a segunda-feira ela havia mandado qualquer mensagem para ele, então resolveu mandar algo para ver se tinha sucesso.

'Tudo bem? Vc não veio ao ensaio hj... espero que esteja tudo bem com o nariz ;) ' - D.

Em seguida guardou o telefone e voltou ao palco. O que quer que tivesse acontecido, ela responderia.

Shelby retomou o ensaio do início, mesmo que sua mente estivesse um pouco distraída. Mil situações passaram por sua cabeça, e até as piores hipóteses surgiram em meio a confusão de pensamentos.

Se Rachel e Jesse tivessem afastado Madison da equipe por causa dela.

E, para falar a verdade, ela não se surpreenderia.