Voltei, galerinha! Mais um capítulo fresquinho para vocês!
Vai parecer repetitivo, mas desculpe pela demora! Quase 1 ano sem dar notícias, mas é difícil conciliar a vida real com isso aqui. Eu faço o possível para escrever sempre que posso, e às vezes a consequência é a demora na postagem! Por isso, me desculpem!
Não posso deixar de agradecer a quem comenta, segue e favorita a história! Muito obrigada pelo carinho, pessoal! Isso move a gente.
Tenho alguns recadinhos para dar:
- Os capítulos anteriores foram revisados. Nesse meio tempo que não atualizei eu reli os capítulos postados e fiz algumas mudanças, nada muito grandioso que afete a história, apenas pequenas inconsistências e coisas que não me agradavam. Para quem acompanha desde o início se quiser voltar e reler, fique à vontade!
- E o segundo recado é em relação ao futuro da história. É com alegria que lhes digo que nessa última semana eu sentei a bunda em frente ao computador e tirei da cabeça tudo o que planejo para esta história. Achei que, dessa forma, eu iria conseguir ter um foco em onde quero chegar, porque o final eu tenho prontinho, o que precisava era o caminho para chegar lá. E eu consegui! Tenho planejado o que quero que aconteça até o capítulo 40, que é a quantidade de capítulos que eu quero que a história tenha mais ou menos. Mas ao longo do caminho vamos conversando, até lá estejam comigo!
Sem mais delongas, vamos ao capítulo 16!
Disclaimer: Eu não possuo Glee, caso contrário a série nunca teria um fim.
"Mad! Hey, espera!", Madison ouviu seu nome e se virou a tempo de ver Daniel caminhando em sua direção. Segurando uma alça da mochila no ombro direito, ele sorriu quando parou em frente à menina.
"Bom dia, Daniel", ela o cumprimentou, apertando seu livro e caderno da primeira aula contra o peito.
"Hey", ele acenou. "Você desapareceu ontem, e nem responde às minhas mensagens. Tá tudo bem?"
Madison queria responder que não estava nada bem. Que o mundo estava praticamente desmoronando, que ela queria, por um segundo, que uma cratera se abrisse e a sugasse para o centro da Terra, longe de todos os problemas acontecendo em sua vida. Mas se ela começasse a falar, não pararia, e consequências viriam se ela abrisse a boca mais do que deveria. E, é claro, ela não queria que Daniel soubesse o que ela tinha feito no fim de semana. Eles eram amigos há pouco tempo, mas Madison se importava com o que o garoto pensava dela.
"Tudo indo. É que meu celular teve um problema e eu ficarei sem ele por algum tempinho", mentiu deslavadamente. Óbvio que ela não contaria a ele que estava de castigo.
"Entendi...", ele suspeitou, mas não disse nada sobre aquilo. "Você também não foi ao ensaio ontem. A treinadora Corcoran perguntou de você."
Apenas a menção daquela mulher fazia Madison tremer por dentro. Ela desviou os olhos por alguns segundos, fingindo olhar algo em suas unhas. Madison não queria que Daniel visse a fúria em seus olhos, não queria que ele enxergasse a raiva estampada em sua expressão, porque era aquilo que o nome de Shelby significava agora. Mas mais do que isso, significava dúvida, e Madison não gostava desse sentimento. Sua família não era mais a mesma e tudo por causa da presença daquela mulher em suas vidas novamente.
Sua mãe estava sempre cautelosa, como se esperasse o pior acontecer a qualquer momento. Seu pai tentava amenizar o ambiente, e sempre que Shelby era mencionada, era como se de repente houvesse um enorme elefante entre eles, de tão pesada e tensa que se tornava a atmosfera. Madison pisava em ovos o tempo todo, com medo de dizer algo indevido que magoasse sua mãe.
Não estava sendo fácil. Era como se, de um dia pro outro, eles tivessem se tornado estranhos, cautelosos com o próximo passo a ser dado, pensando antes de falar e evitando certos assuntos. Ainda havia o incômodo que um castigo sempre carregava, Madison mal falava com seus pais a não ser o necessário. De certa forma isso ajudava, pois assim evitava que ela dissesse algo sobre sua treinadora ou até mesmo que ficasse por muito tempo no mesmo ambiente que seus pais.
Madison balançou a cabeça para espantar os pensamentos, ela tinha o péssimo hábito de devanear em momentos inconvenientes. Levantando os olhos, ela se lembrou da presença de Daniel e que ele esperava algum tipo de resposta para a pergunta implícita.
"Eu, hmm... Essa semana não poderei ir ao ensaio. Recomendações médicas", ela apontou o próprio nariz, dando um sorriso tristonho. Ufa, escapou rápido.
Daniel pareceu desapontado, ao mesmo tempo que um flash de preocupação perpassou em sua expressão. Ele seguiu o olhar para o nariz de Madison e franziu as sobrancelhas.
"Oh, claro", assentiu. "Está certo. O melhor é se recuperar 100% para que possa ir com tudo para as Seletivas", ele disse e então se interrompeu na própria fala, arregalando os olhos. "Você ainda vai participar, não é?"
Madison queria dizer que não, que ela não queria estar no mesmo ambiente que aquela mulher, que não queria ter nada a ver com ela mais, mas havia o conflito interior entre sua paixão por cantar e seus assuntos familiares. Sem contar que sair repentinamente do New Directions iria levantar muitas suspeitas, e a última coisa que Madison queria naquele momento era chamar atenção para si. Ela já tinha muito o que lidar.
"Hum, claro, claro", ela pigarreou, dando um sorriso pouco convincente. "Acredito fortemente que me recupero em cerca de três dias, pelo menos foi o que a médica disse. Logo estarei novinha em folha", o sorriso agora foi mais expressivo. "Não vão se livrar de mim tão fácil."
Daniel riu e balançou a cabeça.
"Ah, cara... Foi bom enquanto durou", ele retorquiu a brincadeira. Ajeitando a mochila no ombro, ele lembrou. "Mas hein, você podia aparecer no ensaio amanhã. Sei que não pode de fato ensaiar, mas seria bom que você assistisse o que estamos preparando. A treinadora Corcoran aprecia que os alunos, quando não podem ensaiar, pelo menos assistam para ficarem por dentro do que está acontecendo."
Madison torceu os lábios, pensando na desculpa perfeita. Ela não podia falar de seu castigo, mas ela também não conseguia pensar em nada bom o suficiente para dizer a Daniel.
Por fim, ela suspirou.
"Vou ver com meus pais. Sabe como é, preocupados como eles são, podem pensar que eu estou tentando escapar das ordens médicas", riu nervosamente.
"Ah, isso não será um problema. A treinadora não deixará você ensaiar até que receba sinal verde do médico. Ela pode ser uma bruxa às vezes, mas se preocupa com o bem estar do time, principalmente se isso vai afetar as competições", Daniel deu uma piscadela. "Pode dizer a eles para ficarem despreocupados."
Madison ia retrucar mas foi interrompida pelo som do primeiro sinal de início das aulas. Eles agora tinham cinco minutos para chegarem em suas salas de aula.
Salva pelo gongo!
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
"É lógico que Friends é melhor do que How I Met Your Mother! Você tá louca?"
Madison revirou os olhos, ouvindo a discussão insistente entre Zoe e Olivia. Sentados ao redor de uma mesa no pátio externo da escola estavam, além das três, Scott, Daniel e Melanie.
A discussão das duas meninas já estava rolando há alguns minutos, e Madison encarou sua bandeja de comida com certo tédio. Oh o que ela não daria para ter seu telefone em mãos naquele momento...
"Friends é um saco! Sem contar que não representa a realidade! Como um grupo de amigos ferrado de dinheiro e pulando de emprego em emprego consegue manter um apartamento em Manhattan?! Sem noção, cara!", Olivia rebateu antes de jogar uma batata na boca.
"Por isso eu prefiro Gilmore Girls! Retrata muito mais a realidade", Melanie acrescentou à conversa.
"A melhor série que existe é The Walking Dead e apenas a minha opinião importa!", Scott deu seu ponto de vista, querendo acabar a discussão que, pelo visto, duraria o resto do almoço. "Podemos trocar o disco agora?"
"Sim, por favor!", Madison praticamente suplicou. Não é que ela não gostava de séries, ela adorava na verdade. Mas todos ali naquela mesa sabiam que a discussão não terminaria se ninguém intercedesse.
"Mas sério, falando em série, eu nunca entendi por que o nome do primeiro episódio é 'piloto'. Alguém sabe dizer?", perguntou Daniel antes de beber sua água.
"É porque é o episódio que coloca a série 'no ar', duh!", Zoe disse como se fosse óbvio. Todos a encararam. "O que foi?"
"Na verdade isso foi muito inteligente", Madison disse à amiga. "Estamos surpresos, só isso."
Zoe deu um tapa no braço da menina, que riu, dando de ombros.
"Nossa. Nunca tinha pensado por esse lado", Daniel disse à ela.
"Gente, faz todo sentido", Zoe continuou.
"Olha, olha, temos um Einstein no grupo, não é mesmo?", Scott zomba.
"A beleza exterior não é tudo na vida, querido. O que importa de verdade é a beleza que há em seu interior", retorquiu, jogando o cabelo loiro por cima do ombro.
"E é agora que o demônio que possui o corpo dela cora de vergonha", disse Madison, arrancando gargalhadas da mesa. Olivia cuspiu a água que bebia.
"Liv!", Scott reclamou com a menina quando parte da água caiu em seu braço.
"É só água, princesa", Olivia revirou os olhos e estendeu o guardanapo ao amigo.
"Não, é o seu cuspe!"
"Gente, alguém quer minha batata? To cheia...", perguntou Madison, empurrando o recipiente para o meio da mesa.
"Dá aqui, eu faço esse sacrifício por você", Daniel piscou, rindo ao pegar a batata.
Madison sorriu e ouviu Zoe soltar um riso baixo ao seu lado. Ela encarou a amiga e revirou os olhos quando a viu mexer as sobrancelhas.
O sinal anunciando o fim do intervalo tocou e arrancou gemidos de todos.
"Tudo que é bom dura pouco!", reclamou Zoe. "Agora temos uma longa hora de matemática pela frente", disse, se referindo à Olivia e Scott.
"Nem me lembre", Scott suspirou.
Madison sentiu o estômago apertar quando se lembrou que sua próxima aula era com Shelby. Ela vinha evitando a mulher a todo custo, mas dessa vez não tinha como escapar. Ela não queria acrescentar matar aula à sua sentença de morte.
Shelby entrou na sala de aula carregando nos braços uma pilha de livros, sendo seguida pelo bibliotecário da escola, que carregava uma segunda pilha. Ela depositou sobre sua mesa e agradeceu quando o rapaz atrás dela fez o mesmo. A professora de inglês então se virou para a classe, que a encarava.
"Boa tarde, meninas e meninos. Nós vamos começar hoje com 'O Sol é Para Todos'. Venham até a mesa e peguem um exemplar."
Um a um, os alunos do primeiro ano se levantaram e caminharam até a mesa, como pedido. Madison arrastou seus pés por entre o corredor de carteiras e se aproximou da mesa, os olhos presos na figura de Shelby. A mulher a encarou de volta, sua expressão neutra, disfarçando qualquer desconforto que ela estava sentindo com aquele olhar da menina. Madison podia ter os olhos e a aparência do pai, mas o olhar penetrante era definitivamente herança de Rachel.
Isso lhe enviou calafrios espinha abaixo.
Balançando a cabeça, Shelby voltou a se concentrar na aula.
"Vocês terão 30 minutos de leitura silenciosa. Obviamente que não terminarão o livro hoje, mas leiam até onde conseguirem nessa primeira meia hora. Em seguida abriremos a discussão do que foi entendido até o momento. Não se preocupem, eu não espero nada muito elaborado e nenhuma reflexão profunda. Por agora...", instruiu quando cada um tinha seu exemplar em mãos. "Por enquanto começaremos com algo mais simples. O complexo vem depois. Podem começar."
Dez minutos haviam se passado e Madison alternava seu olhar entre a página aberta em sua mesa e a figura de Shelby sentada na frente da turma, fazendo anotações. Vez ou outra a mulher observava a sala silenciosa, e quando Madison via que o olhar se aproximava dela, desviava de volta para sua leitura.
Shelby, por outro lado, estava perdida em pensamentos. Ela vigiava seus alunos, mas a mente estava longe dali. E todas as vezes que seu olhar caía sobre Madison, seu coração dava um solavanco. Ela não tinha ideia o quanto Madison sabia de toda a história, mas pelos olhares lançados à ela por parte da menina, alguma coisa ela sabia. E aparentemente Shelby não tinha uma imagem positiva na vida da jovem menina.
E ela não podia exigir diferente. O que fizera no passado era digno de fazê-la receber olhares de reprovação. Mas isso não deixava de incomodá-la. Sua mente já a julgava o suficiente todos os dias, ela não precisava daqueles olhares vindos de uma garota de quatorze anos de idade.
Ela só precisava seguir em frente, mais uma vez encaixotando os demônios de sua cabeça em um canto onde pudesse fingir que eles não zombassem da cara dela.
Como vinha fazendo nos últimos dezoito anos.
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
Madison encarou a prateleira de cereais a sua frente com certo tédio.
Um dos programas que ela menos gostava de fazer era ir ao supermercado, e ainda assim sua mãe a arrastou até o estabelecimento depois de buscá-la na escola. Rachel estava no setor de frios pegando algumas coisas e mandou Madison ir buscar os cereais e aperitivos que ela gostava, como uma oferta de paz entre as duas. Madison não estava contente com seus pais no momento, então Rachel esperava que aquilo pudesse pelo menos melhorar o humor da menina.
Mas isso não mudava o fato que ela odiava fazer compras. Normalmente quando seus pais a obrigavam a ir com eles, Madison apenas conectava seus fones de ouvido ao iPod e ignorava o programa inteiro, apenas seguindo eles ao redor do supermercado com algum pop estourando em seus ouvidos. O problema era que no momento ela não tinha seu iPod nem o celular para se distrair. Isso estava tornando a tarefa três vezes mais entediante.
"Ugh, que tortura!", ela murmurou para ninguém em especial, pegando uma caixa de Lucky Charms e uma de Cheerios.
Madison caminhou até a sessão de doces e pegou quantos pacotes de guloseimas seus braços pudessem carregar. Ela ainda segurou um pacote de M&M's entre os dentes. Seguiu então para a sessão de frios e olhou por todo o lugar até avistar sua mãe na fila de queijos frescos. Marchando até a mulher, todo seu descontentamento pode ser percebido por quem quer que estivesse ao redor delas ao jogar as coisas que carregava dentro do carrinho.
"Nossa, quanta delicadeza", Rachel ironizou, dando um olhar sério à menina.
Madison decidiu ignorar sua mãe e apenas cruzou os braços, se aproximando do stand frio para observar a variedade de queijos ali resfriados.
"Ainda vai demorar muito? Estou com fome", choramingou depois de alguns minutos torturantes naquela fila. Um rapaz, que estava atrás delas, deu uma risada abafada, o que resultou em um olhar seco de Madison em direção a ele.
"Só falta os queijos, os pães e o suco. Se você quiser ir pegar pão e o suco, vai adiantar nossa vida."
Madison debateu internamente. Além disso fazer com que elas saíssem dali mais rápido, ela iria evitar os olhares debochados que o rapaz atrás dela na fila de queijos estava lhe dando. Ele parecia ser pouco mais velho que ela e estava acompanhado de um outro homem mais velho, talvez seu pai dado que eles eram muito parecidos, mas o cara alto pouco fazia para repreender o garoto, muito mais interessado em algo no próprio celular.
"Tá, eu vou", resmungou, virando em seus calcanhares para ir até a sessão de padaria.
Cerca de trinta minutos mais tarde, mãe e filha já estavam a caminho de casa, para alegria geral da nação - isso, segundo Madison. Rachel deixou que a menina pelo menos ligasse o som do carro, já que a mesma proclamara abstinência de música. O resto do trajeto foi preenchido apenas com o cantarolar de Madison, e quando Rachel estacionou na garagem, Madison praticamente voou para fora do carro, recolhendo algumas bolsas no porta-malas junto com sua mochila e quase correndo para dentro de casa.
"Hey", Jesse cumprimentou a filha assim que a viu, a mesma apenas acenou com a cabeça, indo deixar as bolsas na cozinha. Jesse balançou a cabeça, Madison pouco falava quando ela estava de castigo. Principalmente com eles.
"Oi, amor", Rachel saudou o marido, entrando em casa pela porta da garagem. Jesse recolheu as bolsas das mãos dela, que agradeceu e lhe deu um beijo.
"Vocês demoraram. Mercado cheio?", perguntou, entrando na cozinha com Rachel logo atrás de si. Madison terminava de beber água perto da pia e já se preparava para sumir da vista deles.
"Nem fala, filas quilométricas. Parece que Lima inteira resolveu fazer compras hoje", Rachel resmungou, indo até a geladeira pegar água para si própria. Ela viu Madison escapar dali rapidamente. "Você não disse que estava morrendo de fome? Reclamou tanto da demora...", se dirigiu à menina.
"Sim, eu vou comer depois. Primeiro quero tomar um banho", disse apressadamente antes de subir as escadas.
Rachel suspirou, dando um olhar ao marido. Jesse soltou uma risada pelo nariz, balançando a cabeça.
"Você deixou algum queijo para o resto da população de Lima, meu amor?", Jesse questionou, tirando as mercadorias das sacolas.
Rachel revirou os olhos, terminando sua água.
"Você sabe como são Blaine e Kurt. Se eles puderem trocar o jantar por queijo, eles farão", brincou.
"Você vai querer acender a churrasqueira na sexta?"
"Hmm estive pensando, acho melhor não. Vou usar o forno mesmo, fazer um peixe, o que acha? As meninas adoram..."
"Por mim tudo bem. Vai fazer a torta de grão de bico também?"
"Vou", ela se aproximou do balcão, o ajudando com as sacolas.
"O que é isso, meu Deus?", Jesse questionou, atônito com a quantidade de doces dentro de uma das bolsas.
"Sua filha ainda vai ser a minha morte, St. James", a mulher suspirou. "Eu nem tive forças para impedir, já estava quase perdendo a paciência com ela no mercado."
Jesse estalou a língua, colocando os produtos no armário.
"Toda vez é isso. É só ela ficar de castigo que perde a noção dos limites. Ela que pense que vai comer tudo isso."
"Zoe vai estar aqui na sexta, temos que ficar de olho nelas."
"Não sei quem é pior", ele suspirou.
Madison desceu minutos depois já tomada banho e entrou na cozinha. Seu pai estava perto da pia fazendo café e sua mãe longe de ser vista. A menina então caminhou até um dos armários onde ela sabia que eram guardados os doces e abriu uma porta, ficando na ponta dos pés para averiguar qual doce ela comeria primeiro. Jesse se virou a tempo de vê-la puxar um pacote de Sour Patch Kids.
"Ei, ei, ei, ei. Devolve isso. Nem pensar", balançou a cabeça de um lado a outro. Madison o encarou com os olhos grandes.
"Mas, paaaaiiii"
"Está quase na hora do jantar. Você pode comer uma fruta, tomar um iogurte, mas doce agora não."
Ela bufou, mas fechou o armário e cruzou os braços.
"Posso tomar café então?", ela ergueu uma sobrancelha, parecendo a mãe dela. Jesse sorriu.
"Descafeinado, pode. Se quiser faço pra você."
Ela revirou os olhos.
"Não, obrigada", e com isso, abriu a geladeira e pegou um cacho de uvas, caminhando até as escadas sem dizer mais nada.
Jesse ergueu as sobrancelhas e deu de ombros, voltando a preparar o café para ele e Rachel.
A mulher apareceu segundos depois, ainda olhando por cima do ombro até as escada. Ela havia encontrado Madison no caminho e a menina tinha cara de poucos amigos. Rachel encarou Jesse, confusa.
"O que aconteceu?", perguntou ao marido.
"Aparentemente eu sou o pior pai do universo por querer que minha filha coma frutas ao invés de deixá-la se entupir de besteira", ele explicou, estendendo uma caneca de café em direção à esposa.
"Obrigada", agradeceu antes de sorver a bebida quente.
Jesse também serviu uma caneca para si e suspirou audivelmente, se recostando no balcão.
"Ainda falta muito para a faculdade?"
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
No dia seguinte, após deixar seu escritório, os cliques dos saltos de Shelby podiam ser ouvidos pelo corredor que aos poucos se esvaziava, evidenciando o fim do dia de aulas para alguns. Outros grupos de alunos ainda tinham atividades a cumprir na escola, e o destino de Shelby era justamente o auditório, onde seu grupo a esperava para mais um dia de ensaio.
Entretanto, seu trajeto pelo corredor foi abruptamente interrompido ao se deparar com a figura baixa de sua aluna do primeiro ano, os longos cabelos escuros, no momento presos em um rabo de cavalo, reconhecíveis a qualquer distância. Ela estava de costas, pegando algo em seu armário. Isso passaria despercebido pela treinadora se não fosse o fato da dita menina estar usando as roupas que ela havia chegado na escola àquela manhã e a mochila pendurada no ombro.
Onde estava seu uniforme? E por que ela ainda estava no corredor, e não no auditório como Shelby esperava que todo o time já estivesse?
Ah, a quem ela queria enganar. Obviamente que aquela menina não passaria despercebida por Shelby nem ali nem em um milhão de anos. Depois do que fora revelado há apenas uma semana - parecia décadas -, Madison não passaria despercebida nunca por Shelby.
"Madison?", Shelby a chamou.
Madison se virou num átimo ao som daquela voz, instintivamente apertando os braços ao redor de si. Shelby era a última pessoa que ela queria ver naquele momento.
"Sim, treinadora?", sua voz era aguda, nervosa. "A-algum problema?"
Shelby também estava nervosa, mas sua máscara era impecável.
"Eu quem pergunto se há algum problema", ergueu uma sobrancelha. Madison sentiu um arrepio subir na espinha com o quão semelhante Shelby era à sua mãe, "Por que não está no auditório? O ensaio começa em cinco minutos."
Madison suspirou. Mais uma vez ela teria que inventar uma desculpa sobre sua ausência. Já tivera que mentir para Daniel, agora Shelby. A situação ali era ainda pior porque ela não queria arrastar sua avó para sua intimidade e assuntos pessoais. Shelby não merecia.
"E-eu...", gaguejou antes de fechar os olhos e suspirar outra vez. "Eu não posso ir ao ensaio hoje, treinadora. Ordens médicas."
O olhar de Shelby automaticamente caiu sobre o nariz ainda com hematomas e ela assentiu levemente.
"Entendo", afirmou. "Mas isso não impede você de comparecer ao auditório e assistir ao ensaio, afinal você também estará se apresentando nas Seletivas."
Madison queria revirar os olhos.
"Estou apenas seguindo regras, treinadora. Meus pais-" se interrompeu imediatamente. E percebeu a sutil mudança na expressão da mulher alta a sua frente.
"Pois bem, senhorita. Eu também tenho as minhas regras e uma delas é que os membros da minha equipe compareçam aos ensaios, a não ser que estejam impossibilitados de caminhar até o auditório, o que claramente não é o seu caso."
A menina apertou as mãos ao redor de seus braços, controlando a raiva que subiu por seu âmago. Ela encarava Shelby friamente.
"Eu não posso. Não hoje", insistiu. "Prometo que na semana que vem, com o aval médico, estarei de volta nos ensaios."
Aquela menina era teimosa, mas Shelby também era.
"Então eu serei obrigada a agir de maneira justa, como faria com qualquer membro do time", retorquiu. Dessa vez Madison não pode conter o riso de escárnio. Até aquele momento Shelby parecia querer ignorar o parentesco entre as duas, mas então aquele simples comentário trazia à tona o fato que elas não eram meras aluna e professora. "Qualquer um que não cumpra as regras estabelecidas, é convidado a se retirar da equipe. Se não vai colaborar, não tem porque continuar sendo parte do time."
Os olhos azuis de Madison se arregalaram. Aquilo era uma ameaça?
"É uma brincadeira?"
Shelby ergueu a sobrancelha, surpresa com o atrevimento e a imagem que invadiu sua mente. Isso a teletransportou para anos antes, uma situação semelhante com um certo rapaz de cabelos cacheados e olhos azuis idênticos aqueles à sua frente.
"Desculpe?"
"Não pode me expulsar do time porque eu estou respeitando ordens médicas!"
Shelby respirou fundo para manter a paciência.
"São as regras, Madison. Se não está contente, é livre para sair."
"Mas-"
"Madison!" outra voz a chamou, e Madison se virou, fazendo seu cabelo voar e bater em seu rosto com tamanha velocidade que seu pescoço se moveu.
Seus olhos se arregalaram. Aquilo não seria nada bom.
Shelby sentiu o estômago saltitar quando a figura de Jesse St. James caminhou na direção dela e de Madison. Ela estava sendo jogada de frente ao seu passado mais uma vez em uma semana, era mais do que podia suportar.
"Jesse", o nome escapou de seus lábios como um sussurro. Aquele nome que tantas vezes ela pronunciou, seja para um elogio, para uma bronca, para uma ordem ou para um pedido. Sua jovem estrela que a ajudara em tantas conquistas. O menino que a levara até um dos motivos de seus fantasmas interiores.
Fantasmas esses que teimaram em assombrá-la mais do que o normal nesta última semana.
"Madison, o que está fazendo? Eu estava te esperando no carro há quinze minutos e nada. O combinado era às três horas!", ele repreendeu a filha.
"P-pai, eu...", gaguejou. Seu olhar então caiu em Shelby como se estivesse pedindo algum tipo de ajuda ali.
E a mulher percebeu. Pela primeira vez em dezoito anos, ela tinha que fazer alguma coisa certo.
"Foi eu quem a segurou até agora, Sr. St. James", era esquisito chamá-lo dessa forma, mas Shelby achou que fosse o mais apropriado . "Me desculpe. Eu só estava tentando entender o porquê de Madison não estar no ensaio desta tarde."
Jesse queria dizer algumas verdades àquela mulher. Mas ali não era hora nem lugar.
"Minha filha está afastada de atividades físicas por atestado médico, Srta. Corcoran", a formalidade seria cômica se a situação não fosse séria. "Como a senhorita mesma sabe, ela se acidentou semana passada."
"Sim, e entendo perfeitamente. O que acontece é que eu estava dizendo à Madison que eu aprecio que os membros da minha equipe compareçam aos ensaios mesmo em situações que não possam de fato ensaiar. Ela está perdendo as coreografias e os arranjos para a próxima competição."
Madison assistia ao embate como se estivesse diante de uma disputa acirrada de pingue-pongue. Sua cabeça movia de um lado a outro.
"Compreendo. Mas a situação aqui é diferente, Srta. Corcoran", disse em um tom calmo. Madison fechou os olhos, esperando o que vinha a seguir. "Madison, além de estar machucada, está afastada das atividades que gosta por conta de um castigo. Ela está sendo punida, e por mais que não precisemos lhe dar explicações de nossa vida pessoal, faz parte dessa punição ela ficar uma semana sem ir ao ensaio."
Naquele instante, Madison teve certeza. Se uma cratera se abrisse no chão, ela não esperaria ser sugada. Por conta própria, ela se jogaria lá dentro.
Shelby sentiu o aperto no peito com a frieza que Jesse falava com ela. Mas outra vez ela manteve a expressão neutra. Ela merecia aquilo do marido de sua filha. Talvez não de sua versão jovem e brilhante estrela adolescente, mas com certeza do marido de Rachel.
"Oh", foi o que pode dizer diante da revelação. Madison ao lado do pai parecia mais vermelha que um pimentão.
De repente a curiosidade do que acontecera lhe abateu, mas se reteve. Não era da sua conta afinal.
Se Madison tivesse dito antes que não podia ir ao ensaio por ordem dos pais, talvez eles evitassem aquele momento constrangedor no corredor agora, graças a Deus, vazio. Mas obviamente existia uma lei que, caso quebrada, feriria o orgulho adolescente.
Não diga a ninguém que está de castigo.
E talvez também houvesse a parte em Shelby que interpretaria aquilo como um afastamento definitivo de Madison da equipe por causa de quem ela era.
Por algum milagre divino que Shelby acreditava piamente não ser merecedora, essa não era a situação. E ela, de repente, se viu grata.
"Pois bem", finalmente proferiu, após angustiantes segundos de silêncio. Pareceram horas. "Já que agora está claro o que aconteceu, peço desculpas mais uma vez por atrasar Madison. E, se me permitem perguntar, quando Madison voltará aos ensaios? É realmente importante que ela não perca..."
"Semana que vem", Jesse respondeu sem pestanejar. "Semana que vem ela volta, não se preocupe. Eu sei bem o que é perder um ensaio e realmente não quero que Madison perca mais, no entanto vimos que era necessário dada a circunstância."
Shelby assentiu e ergueu a postura, pronta para sair dali.
"Fico contente. Espero vê-la então, Madison. Passem bem", e com isso ela se virou e saiu.
Jesse e Madison viram ela virar o corredor e sumir. Ele suspirou profundamente antes de encarar a menina e passar um braço pelos ombros dela, beijando o topo de sua cabeça.
"Vem, vamos para casa."
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
Shelby suspirou de cansaço, entrando em sua casa logo após Beth. A garota tratou de tirar os tênis perto do armário e se encaminhar para as escadas. Shelby fez o mesmo com seus sapatos e colocou sua bolsa e chaves sobre o aparador.
"Depois desça com o seu cesto de roupas sujas, por favor. Eu vou jogar algumas roupas na máquina daqui a pouco", ela pediu à filha, que apenas murmurou assentindo e continuou seu caminho até o segundo andar.
Shelby só parou na cozinha para tomar um copo d'água antes de também seguir para seu quarto para se refrescar. O calor ainda perpassava Lima e, apesar de estarem se aproximando do outono, os dias ainda eram aquecidos. Sem contar que ela havia acabado de sair de mais um ensaio exaustivo onde seus queridos pupilos pareciam fazer de tudo para testar sua paciência, deixando seus nervos à flor da pele.
Após um merecido banho e já livre das roupas de trabalho, Shelby viu que eram poucos minutos depois das sete da noite. Ela então desceu até a cozinha e foi direto para a geladeira ver o que ainda tinha de sobras, retirou os potes onde havia separado a comida cozinhada no dia anterior e colocou tudo sobre o balcão para preparar dois pratos. Após esquentar o primeiro no micro-ondas, colocou o segundo ao mesmo tempo que Beth entrava na cozinha, já tomada banho e livre do suor do ensaio, uma toalha enrolada em seu cabelo molhado. Ela entregou o cesto de roupas para a mãe e sentou em um dos bancos do balcão para jantar. Shelby logo se juntou à filha depois de colocar o cesto na lavanderia.
"A vovó ligou...", Beth anunciou após alguns minutos em silêncio.
"Pro telefone de casa?", Beth assentiu. Shelby não ouvira tocar. Deve ter sido quando estava lá em cima. "O que ela queria?"
"Ela disse que tentou te ligar, mas estava dando caixa de mensagens... Ela quer que eu passe um fim de semana com ela e o vovô."
Shelby assentiu, ainda mastigando.
"Se você quiser, pode ir... Depois do seu castigo."
Beth revirou os olhos.
"Eu não disse à ela quando, mas acho que vou no mês que vem."
Shelby balançou a cabeça outra vez, concordando.
"Posso te levar para Akron na sexta depois da aula, ou no sábado de manhã."
"Não precisa, o vovô já disse que vem me buscar. E no domingo ele ou a tia Katie vem me trazer."
Shelby ergueu uma sobrancelha. Aparentemente eles já tinham tudo planejado.
"Ok, então. Vou ligar para eles depois e combinar tudo direitinho."
"Ok."
Enquanto jogava as peças de roupa dentro da máquina, cerca de uma hora mais tarde, Shelby voltou a pensar no encontro daquela tarde. Isso trouxe um nó em sua garganta e um incômodo ao estômago, pensar em toda àquela situação de volta em sua vida.
Toda vez que pensava em Jesse, o que lhe vinha à mente estava longe de se parecer com a figura em sua frente horas mais cedo. Pensava no garoto prodígio, talentoso, ambicioso e com sonhos maiores que o alcance de sua voz. Aquele que esteve ao seu lado quando resolveu que tentaria com Rachel. Aquele que levou uma bronca quando ela soube que havia se apaixonado por sua filha, mas que ela acolheu mesmo assim, como se fosse seu próprio filho.
Aquele Jesse a enchia de orgulho, de uma paz interior que há muito não sentia.
O Jesse que encontrou naquela tarde não trazia nada a não ser angústia e incerteza. O Jesse Pai era outra pessoa. O Jesse Marido de Rachel era definitivamente outra pessoa. Era um Jesse que a encarava com um olhar frio e carregado de mágoa. Um olhar que ela só havia visto em uma pessoa, dezoito anos antes.
Balançando a cabeça, Shelby terminou sua tarefa na lavanderia tentando não se afundar ainda mais em pensamentos que eram como facas cortantes diretamente em seu peito. Após concluir com as roupas, seguiu para a cozinha para preparar seu chá noturno. Ouviu passos no andar de cima, Beth já devia estar se preparando para a cama. Logo ela iria também e poderia, finalmente, esquecer pelas próximas horas do martírio mental que a consumia na maior parte do tempo.
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
"Está aqui", Madison anunciou no domingo a tarde, uma semana e meia depois, ao encontrar seus pais sentados à mesa na varanda dos fundos de sua casa. "Meu dever está cumprido."
Rachel apoiou seu copo de chá gelado sobre o tampo de madeira e ergueu as folhas grampeadas que a filha colocou sobre a mesa.
"Os perigos da maconha: uma breve pesquisa", ela leu em voz alta no topo da página antes de folhear o restante, satisfeita com o empenho de Madison.
"Muito bem", Jesse disse à menina, um sorriso em seu rosto. Ele aceitou o trabalho que Rachel lhe estendia e passou seus olhos pelas páginas antes de encarar a filha. "Considere-se livre da sua condenação."
Madison revirou os olhos, mas não pode conter o sorriso que apareceu em seu rosto. Foram as duas semanas mais longas de sua vida!
Mas agora ela estava ansiosa por outra coisa...
Seus olhos brilharam de excitação quando ela viu seu pai se levantar e tirar do bolso dos shorts seu precioso telefone. Ele estendeu o aparelho em sua direção e Madison foi agarrá-lo com fome.
"Ah, ah", Jesse a parou, erguendo o celular fora de seu alcance. Rachel, em sua cadeira, não pode conter o sorriso com a expressão desapontada de sua filha. "O que falta?"
Madison suspirou e deixou os ombros caírem, resignada.
"Me desculpe por ter saído às escondidas com a Leah, por ter mentido e me colocado em situação arriscada. E por ter fumado maconha", ela proclamou, arrependida. "Eu aprendi minha lição e prometo nunca mais fazer isso novamente."
Rachel e Jesse assentiram, satisfeitos. Mas eles tinham plena noção que ainda haveriam situações onde eles estariam em posição semelhante.
Jesse outra vez lhe estendeu o telefone, só para puxar o braço novamente quando Madison foi pegá-lo.
"Paaaai!", resmungou, dessa vez arrancando risadas dos seus pais. "Vocês são insuportáveis."
"Ohhh. Quer voltar ao castigo?", Rachel ralhou, ainda sorrindo.
"Não, obrigada", disse e se virou entrando em casa, finalmente com a posse de seu amado celular.
Na manhã seguinte, após deixar Madison na escola, Rachel resolveu passear pelas ruas de Lima e comprar algumas coisas para sua casa. Com as mãos ocupadas carregando sacolas de frutas e flores da feira, ela de repente parou ao se deparar com um cartaz chamativo.
Seus olhos brilharam.
Ali, diante dela, estava o genuíno teatro comunitário de Lima. Um lugar que recebia a população de braços abertos e proporcionava oportunidades para quem não podia buscar algo maior. E ali, bem a sua frente, um cartaz brilhava.
Rachel então teve uma ideia. Após fotografar o cartaz, ela seguiu seu caminho com um sorriso enorme no rosto.
