Hey, mais um capítulo fresquinho! Vinte páginas do word e mais de sete mil palavras...UFA!

Antes de qualquer coisa, eu espero de coração que vocês estejam se cuidando, sei que o momento é crítico e é importante que estejamos seguros e nos cuidemos de todas as formas possíveis! Juntos nós passaremos por isso!

Como vocês puderam notar, no final do capítulo anterior teve uma breve passagem de tempo (cerca de quase duas semanas) para que a história caminhasse. Nesse capítulo também há uma passagem pequena, estamos já em meados de outubro, quase Halloween (que aliás já tem uma cena escrita muito bacana). De vez em quando a história caminha lentamente, mas às vezes preciso dar essa guinada afinal, por mais drama que esses personagens vivenciem, tem horas que dias monótonos e rotineiros aparecem.

Outra coisa é que tive que mudar uma música da setlist das Seletivas. Eu havia colocado que o dueto seria "Like I'm Gonna Lose You", mas depois de uma rápida pesquisa vi que essa música só foi lançada em 2016 então não faria sentido eles apresentarem ela, já que a história está atualmente em 2015. Por isso resolvi mudar pra "Try", e isso já foi consertado no capítulo que a setlist foi mencionada. As outras duas músicas permanecem.

Sem mais delongas, aproveitem o capítulo!

Disclaimer: Eu não possuo Glee, caso contrário a série nunca teria um fim.


O clima já se mostrava típico da época, as ruas cheias de folhas vermelhas, laranjas, amarelas e marrons pelo chão e consequentemente árvores peladas adornavam as calçadas de Lima. O vento se tornava cada vez mais gélido com o passar dos dias, avisando que eles estavam se afastando cada vez mais do quente verão e se encaminhando para o frio inverno.

Madison gostava dessa época do ano, apesar de aumentar a dificuldade de sair da cama com o céu ainda escuro e um vento cortante nas primeiras horas da manhã, o ar gélido no rosto era gostoso, sem contar que o clima frio fazia maravilhas com suas madeixas escuras.

"Eu amo o outono", murmurou para ninguém em particular, sorrindo com os olhos fechados enquanto sentia o vento no rosto.

Ocupando uma mesa e seus bancos de concreto em uma praça estavam Madison, Zoe, Olivia, Scott e Daniel. Depois da escola, os cinco haviam decidido fazer alguma coisa juntos porque era uma sexta-feira e eles não queriam ir para casa ainda, então após uma parada no Lima Bean para comprar bebidas quentes, eles se dirigiram para a praça que ficava perto da cafeteria. Madison e Olivia se acomodaram em cima da mesa com pernas de índio e bebericando suas bebidas, enquanto Zoe, Scott e Daniel cada um ocupava um banco de concreto, sustentando copos de papel com tampa iguais aos das meninas.

"Prefiro o inverno", Olivia retorquiu após dar uma golada em seu chocolate quente. "Lareira acesa, mantas no sofá para assistir TV e a neve caindo. Eu fico até mais empolgada para sair de casa."

"Eu gosto do verão porque significa que não temos aula", Scott riu e levantou a mão para bater um high-five com Zoe, que tinha opinião semelhante a do garoto.

"Também gosto do inverno, mas para ficar em casa apenas", Daniel opinou e deu de ombros. "O verão também é legal."

"Um menino de polos opostos", Madison debochou dele, escondendo o sorriso atrás de seu copo enquanto bebericava o chá de limão e mel.

"Eu gosto do diferente", Daniel deu seu famoso sorriso de lado e piscou um olho para a menina. Zoe soltou uma risada pelo nariz com o nada sutil flerte. Ela não via a hora daqueles dois admitirem que tinham uma queda um pelo o outro. Só cego não via.

Madison sentiu seu estômago dar um salto e agradeceu silenciosamente quando Scott mudou o assunto da conversa e tomou a atenção para si. Mas ela não podia deixar de sorrir, tomando outra golada de seu chá para disfarçar.

Horas depois, quando a tarde já chegava ao fim, eles começaram a se despedir. Olivia e Daniel estavam de carro, então a garota ofereceu uma carona para Scott que morava em seu caminho para casa enquanto Daniel levou Zoe e Madison. Zoe ficou primeiro, por insistência da própria garota, porque ela não tinha nada de boba. Antes de sair do carro ela deu uma piscadela para a amiga e um sorriso sacana. Madison revirou os olhos.

"Tchau, Zoe!", ela quase gritou para a garota loira, que fechou a porta do carro rindo.

Minutos depois, Daniel estacionou na frente da casa de Madison. A menina viu apenas o carro de seu pai estacionado na entrada da garagem, o de sua mãe longe de ser visto.

"Entregue", ele brincou, sorrindo.

"Muito obrigada, senhor", ela devolveu. "Depois manda a conta do mês para que eu pague seu salário."

"Salário?", ele franziu as sobrancelhas ruivas, um riso brincando em seus lábios finos.

"Sim... De motorista particular. Você tem me dado mais caronas que os meus pais."

Daniel deu de ombros.

"Faço porque gosto."

Madison sentiu o rosto esquentar e rapidamente desviou o olhar. Seu estômago deu outro solavanco e ela sentiu as palmas das mãos úmidas. Não dava para negar mais, ela estava gostando de Daniel e isso a deixava nervosa. E o garoto parecia demonstrar o mesmo, eles só não davam o primeiro passo juntos por sei lá qual motivo do destino. Talvez a timidez, ela não sabia.

"Valeu, mais uma vez."

"Por nada", ele sorriu. "Mas hein... Eu ainda te devo uma saída", lembrou.

Seu coração acelerou. Mais um solavanco no estômago.

"Ah, é-é verdade. Você disse que ia me mostrar a cidade, me fazer lembrar de Nova York..."

"Pois é, parece que estou um pouco atrasado. Já tem quase dois meses que vocês se mudaram e eu ainda não cumpri minha promessa."

"Você não prometeu...", ela inclinou a cabeça, o encarando.

"Pra mim é quase isso", fingiu seriedade antes de rir. "Então, o que acha?"

Madison balançou a cabeça, sorrindo, antes de responder.

"Podemos ir... Na próxima sexta, se você quiser. Não temos ensaio nem nada e é fim de semana..."

Daniel sentiu o rosto iluminar com a resposta dela. Ele também estava nervoso, mas isso estava demorando demais e ele não sabia se podia esperar mais tempo. Ele estava muito afim de Madison.

"Claro, como quiser... Sexta é um bom dia", concordou. "Hmmm, te busco às 7?"

"Está ótimo. Vou ver com meus pais e te aviso."

"Oh, claro", ele quis se bater mentalmente, é óbvio que eles tinham que pedir permissão.

"Eu acho que não vai ser um problema, não se preocupe", Madison o garantiu, percebendo-o ficar desconfortável.

"Ok", ele assentiu.

"Ok, então. Nos vemos?", ela indicou depois de segundos em silêncio, pegando sua mochila no chão do veículo.

"Claro, claro", ele balançou a cabeça. Estava se comportando feito um idiota ultimamente. "Desculpa."

Madison apenas riu e se inclinou para lhe dar um abraço.

"Até mais, Daniel."

"Até, Mad. Boa noite", ele queria beijá-la, mas sabia que ela podia interpretar de forma equivocada e se chatear com ele. Era só ter calma.

"Boa noite."

Ela observou o carro dele acelerar para longe antes de entrar em casa, deixando suas coisas no foyer e indo para a cozinha. Após pegar uma garrafa de água na geladeira, ela foi em busca de seu pai, o encontrando na lavanderia no porão tirando roupas limpas da máquina de secar.

"Hey", ela o cumprimentou.

"Oi, querida", Jesse sorriu, levantando brevemente para cumprimentá-la. "Chegou agora?"

"Sim, acabei de entrar", o abraçou antes de saltar para cima da máquina de lavar, balançando as pernas no ar. "Onde está a mamãe?"

"Ela ainda não voltou do teatro. Hoje era a reunião com o pessoal do local."

"Hmmm", assentiu. "Ela está empenhada nisso."

"Sim, está. É uma oportunidade dela se manter fazendo o que gosta e ocupar a mente. Sabe como é, não é fácil ficar longe dos palcos... Ela arrumou o que fazer por aqui mesmo. Não é a Broadway, mas é o que ela ama."

"Imagino... Vocês nunca ficaram tanto tempo fora da Broadway."

Jesse a encarou outra vez e sorriu. Isso era verdade, desde que ele e Rachel ascenderam em suas carreiras, era mínimo o tempo que eles ficaram longe de um projeto. Madison nasceu em meio a isso e era até estranho não ver seus pais atuando ou dirigindo qualquer coisa. Mas agora que aparecera uma oportunidade de sua mãe voltar a fazer o que gosta, ela estava contente.

"Mas a gente não se arrepende. É o melhor para todos nós."

"Sei disso...", desviou o olhar, se distraindo com a garrafa em suas mãos. "Ela vai ficar com o trabalho?"

"Não sei, mas acredito que sim. Ela e seu tio Kurt, na verdade. Sua mãe o convidou para entrar nisso com ela."

"Claro", ela riu, Jesse a imitou. "Ei, pai...", o chamou, após alguns segundos de silêncio.

Ela observava Jesse terminar de tirar as roupas da secadora, ele depositou o cesto agora cheio ao lado da menina e juntos eles começaram a separar e dobrar as peças.

"Diga."

"Eu estava pensando... Um amigo me convidou pra sair, dar uma volta."

Jesse parou o que estava fazendo e a encarou, erguendo uma sobrancelha.

"Amigo, hm?"

"Sim, amigo...", Madison continuou, procurando um pé do par de meia. "O Daniel, na verdade. Filho do Diretor Schuester."

Jesse soltou um pigarro, limpando a garganta enquanto tomava tempo para pensar no que dizer. É óbvio que ele já havia percebido, Rachel já até havia comentado com ele o quanto Madison e Daniel estavam próximos. Eles não se opunham, certamente estavam atentos a isso, por mais que Daniel fosse filho de seu ex-treinador, a preocupação não desaparecia automaticamente. Madison ainda era nova e mesmo que fosse madura e responsável, Daniel ainda era dois anos mais velho e, bem, eles sabiam o que os garotos pensavam nessa idade.

Madison encarou seu pai, esperando ele dizer algo. Jesse terminou de dobrar uma camiseta antes de responder.

"Sei quem é... Bem, quando seria isso?", tentou outra abordagem, ele não queria negar isso à menina. Ela estava se comportando ultimamente e Daniel vinha se mostrando um jovem decente.

"Na sexta que vem. Ele viria me buscar, já que não temos ensaio. Eu não sei bem o que vamos fazer, mas Daniel me disse que iria me mostrar alguns lugares legais na cidade e que me fariam matar as saudades de Nova York..."

Jesse ergueu novamente uma sobrancelha e assentiu. O garoto era esperto.

"Bom, não vejo problema, desde que tenham cuidado e não volte tarde para casa", Madison abriu um sorriso com aquela resposta. "Quando sua mãe chegar, falamos com ela e vemos o que ela acha."

"Mas se você já deixou...", ela questionou, franzindo as sobrancelhas.

"Criança, nós somos um time. Temos que estar todos de acordo, lembra?"

"Isso é só mais uma das caretices de vocês", Madison revirou os olhos, o que fez com que ganhasse uma blusa sendo jogada em seu rosto.

"Pare de reclamar e continue trabalhando."

BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY

"All the leaves are brown...", a voz de Beth soou pelo auditório, clara e afinada, puxando o primeiro verso da canção.

"(All the leaves are brown)", o coro de seis estudantes no fundo cantou.

"And the sky is gray", a menina continuou.

"(And the sky is grey)"

"I've been for a walk on a winter's day", foi a vez de Daniel. Sua voz era forte, mas aveludada.

"(On a winter's day)"

"I'd be safe and warm if I was in L.A... California dreamin' on such a winter's day", os dois líderes cantaram, juntos e em sintonia, finalizando a primeira estrofe da canção original de The Mamas & The Papas, interpretada pela cantora Sia.

Shelby, de sua mesa na plateia, balançava a cabeça apoiada em suas mãos entrelaçadas no ritmo da música enquanto seus olhos estavam presos no palco, assim como seus ouvidos treinados estavam atentos, tentando não deixar passar nada despercebido. A coreografia estava boa, havia ainda alguns toques que dar em um aluno ou outro, os quais ela tratou de anotar em seu caderno antes de voltar os olhos para o palco.

Beth e Daniel, como líderes, iriam introduzir e então todo o time entraria para a coreografia e performaria o resto da canção. Ela havia feito um mash-up entre as versões da Sia e de The Mamas & The Papas, para animar o público.

A música terminou e, no palco, o time posava, em seus rostos suados o sorriso mil watts brilhava, assim como Shelby havia dito para fazerem.

"Muito bem, pessoal. Cinco minutos."

O grupo se dispersou em busca de água e toalhas para secar o suor, alguns ainda saíram para usar o banheiro. Shelby fez mais algumas anotações para passar com eles após o intervalo.

"Hey, gente", Zoe chamou atenção de Madison e Melanie enquanto elas se sentavam no palco para descansar. "Conversei com meus pais esse fim de semana e eles concordaram de eu chamar algumas amigas para dormirem lá em casa no sábado. O que acham?"

Melanie foi a primeira a expressar sua resposta, sorrindo amplamente.

"Eu to dentro! Preciso falar com meus pais antes, mas super topo."

Madison deu de ombros.

"Acho que meus pais não vão se opor."

"Ótimo", Zoe bateu palmas. "Vou chamar a Olivia também. Vamos passar a noite vendo filmes, comendo besteira e fofocando."

As duas outras meninas riram. As três se levantaram quando Shelby chamou o time para continuar o ensaio. Melanie ficou de pé rápido demais e não viu que Beth passava por ali naquele instante, esbarrando na menina mais velha.

Beth grunhiu quando sentiu a cotovelada na lateral do corpo.

"Olha onde pisa, novata!"

Melanie franziu as sobrancelhas, pronta para se desculpar, quando Madison a interrompeu.

"Nossa, educação mandou lembranças."

Beth a encarou e estreitou os olhos esverdeados.

"Ninguém falou com você, pirralha."

Zoe foi a próxima a se intrometer, se colocando entre as amigas e Beth.

"Ei, não fala assim com elas. Não viu que foi sem querer?"

"Não se intrometa, garota. Quem acha que é pra falar assim comigo?"

"Quem VOCÊ pensa que é? A Rainha da Cocada Preta?"

"Olha aqui, sua aprendiz de intrometida-", Beth começou a ir para cima de Zoe quando foi empurrada por Madison.

"Você não vai bater nela, tá ouvindo?"

"Tá maluca, garota?!", Beth gritou, empurrando Madison de volta.

"Ei, ei, ei! O que está acontecendo aqui?", Shelby subiu no palco quando ouviu a confusão crescente. Ela colocou as mãos no quadril e encarou as quatro meninas.

Beth bufou e cruzou os braços.

"Nada, mãe."

"Então por que essa gritaria? Vamos voltar ao ensaio, andem logo!", ordenou. "Temos muito o que fazer. Beth, vai pro seu lugar. Vocês três também."

Elas se dispersaram, não sem antes Beth murmurar para Madison e esbarrar em seu ombro.

"Você me paga ainda!"

"Do início, pessoal!", Shelby anunciou no microfone de sua mesa.

BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY

Madison praguejou sob a respiração pela terceira vez ao sentir o ferro quente do babyliss contra sua pele do polegar. Ela estava tentando enrolar as pontas do cabelo, mas o nervosismo que ela sentia estava atrapalhando na tarefa.

Finalmente era sexta-feira e um rápido olhar para a tela de seu telefone em cima do balcão da pia de seu banheiro lhe disse que já eram 6h30min da noite. Madison sentiu a ansiedade lhe atingir com mais intensidade ao ter que acelerar o que estava fazendo em suas madeixas escuras. Ela ainda precisava se maquiar!

Duas batidas na porta de seu quarto fez ela dar um salto de susto, se queimando pela quarta vez, antes de xingar baixo e permitir que a pessoa entrasse.

"Maddy?", a voz de sua mãe soou pelo quarto.

"Banheiro", avisou. Segundos depois a figura da mulher apareceu, e pelo espelho ela viu sua mãe sorrir e cruzar os braços, se recostando no batente.

"Está linda, meu amor."

"Obrigada...", Madison olhou brevemente sua escolha de roupas para aquela noite.

Um par de jeans skinny pretos com alguns rasgos, um suéter de gola larga cinza claro com finas listras douradas e alguns brilhos sutis espalhados e os pés ainda descalços, mas ela planejava calçar seu par de Vans Slip-On. Era casual o suficiente para um encontr- quer dizer, um passeio entre amigos. Ela não estava tão preocupada com a escolha de roupas visto que Daniel havia dito que eles não iriam a nenhum lugar chique, mas isso não significava que ela estivesse totalmente desencanada com sua aparência. Afinal ela ainda se importava com o que Daniel pensava dela. E ela queria que ele pensasse que ela estava bonita.

E fora esse pensamento que fizera com que ela gastasse os minutos em frente ao espelho com o aparelho de babyliss e quatro diferentes queimaduras na mão.

"Aonde vocês vão essa noite?", Rachel perguntou casualmente.

"Eu não faço ideia, Daniel disse que seria uma surpresa. A única dica que deu foi que eu mataria saudades de Nova York."

Rachel emitiu um som de entendimento. Finalmente Madison se deu por satisfeita com o penteado e tirou o aparelho da tomada, deixando-o esfriar em cima de uma toalha. Em seguida ela começou a maquiagem. Não que usasse muita, ela não gostava de rebocar a cara e nem tinha muita habilidade nisso. Apenas um corretivo para esconder as olheiras, um mínimo de base para tampar algumas espinhas, um lip tint nas maçãs do rosto e nos lábios e rímel nos cílios. Olhando seu reflexo, estava satisfeita com o resultado.

"Aqui", sua mãe disse, se aproximando e pegando uma palheta de iluminador em cima do balcão. Ela pegou um pouco na ponta do dedo e passou delicadamente sobre o nariz da menina. Bem sutil, quase não dava para notar. "Prontinho."

Sorrindo, Madison encarou novamente o espelho e arrumou as madeixas, deixando que caíssem sobre seus ombros e colo.

"O que achou?"

"Linda. Vai arrasar o coração do pobre menino", Rachel piscou, rindo.

"Mãe!", Madison gemeu, saindo do banheiro e indo até o closet em busca dos sapatos. "Ele é só meu amigo, sabe disso."

"Tá bom, tá bom", a mulher ergueu as mãos em rendição. "Não está mais aqui quem falou."

Madison revirou olhos e se sentou na beirada da cama para calçar os tênis. Um olhar para o relógio em sua mesinha de cabeceira lhe informou que agora eram 6h48min. Ela respirou fundo.

"Agora só falta arrumar a bolsa."

"E o quarto vai ficar desse jeito?", Rachel ergueu uma sobrancelha, olhando ao redor. Havia algumas roupas da semana jogadas e o material escolar de Madison estava espalhado sobre a escrivaninha.

Madison saiu novamente do closet colocando uma bolsa transversal sobre o tronco e parou na porta do armário, olhando ao redor do cômodo antes de lançar um sorriso inocente para sua mãe.

"Prometo que arrumo quando eu voltar. Não consigo arrumar tudo em dez minutos."

Rachel balançou a cabeça e caminhou em direção à porta do quarto.

"Quero só ver, Madison. Quero só ver", disse em tom de aviso antes de sair pelo corredor.

Seu celular apitou com a chegada de uma mensagem e Madison sentiu o estômago dar um salto ao ler o nome de Daniel.

'Chego em 5' ~ DS

Mordendo o lábio inferior, Madison respondeu a mensagem com uma carinha sorrindo e terminou de pegar suas coisas antes de deixar o quarto.

Seus pais estavam na sala com a TV ligada quando ela desceu.

"Ele já chegou?", Rachel perguntou de seu lugar no sofá assim que Madison apareceu na sala.

"Tá chegando."

"Já sabe as regras, não é, senhorita?", Jesse a encarou erguendo as sobrancelhas. "Não use nada ilegal, não saia sozinha por aí e esteja em casa às onze."

"Já sei, pai", ela queria revirar os olhos, mas se conteve.

"E nos ligue se precisar de qualquer coisa", ele pontuou seriamente.

"Não vou precisar, mas não se preocupem, eu o farei."

"E divirta-se", finalizou com um sorriso.

A campainha tocou.

Madison correu até a porta e respirou fundo antes de abri-la.

"Hey", o sorriso contagiante de Daniel brilhou em sua direção.

"Olá", ela sorriu de volta e se aproximou para lhe dar um abraço.

Rachel e Jesse surgiram atrás de Madison e Daniel sorriu simpaticamente, dando um aceno com a cabeça.

"Boa noite, Sr. e Sra. St. James. Como vão?"

"Boa noite, Daniel. Estamos bem. E você, querido?", Rachel sorriu amavelmente para o jovem rapaz.

"Vou muito bem, obrigado."

"E como estão seus pais?"

"Estão muito bem também, Sra. St. James. Meu pai lhes manda um abraço."

"Oh, querido. Diga a ele que retornamos outro. Nós precisamos nos ver em breve."

"Vou dizer sim, pode deixar."

"Então, vamos?", Madison sugeriu após alguns segundos de silêncio. "Não quero que fique tarde para... Seja lá o que formos fazer."

"Não se preocupe, estamos no tempo certo", Daniel a tranquilizou e se voltou novamente para os dois adultos. "Prometo trazê-la em segurança."

"Obrigado, rapaz", Jesse deu um aceno em sua direção. "Divirtam-se, e não façam nada que reprovaríamos", ergueu uma sobrancelha em tom de aviso.

"Pode deixar, senhor", respondeu seriamente. E então encarou Madison. "Pronta?"

"Já tem uns 6 minutos...", brincou, fingindo olhar um relógio imaginário em seu pulso.

"Tomem cuidado, crianças", Rachel disse observando os dois caminharem até o carro do garoto.

Eles voltaram para dentro e se acomodaram novamente no sofá para terminarem de assistir um filme.

"O que acha que eles vão fazer?", Jesse questionou de repente.

Rachel revirou os olhos bem humorada.

"É necessário mesmo todo esse suspense?"

Daniel riu para a nada sutil impaciência da menina sentada no banco do carona.

"Mas aí não vai ser uma surpresa."

"E por acaso vamos ter que esconder um corpo?"

"É isso que se costuma fazer em Nova York?", fingiu espanto, a olhando de relance antes de encarar a estrada.

"Dependendo da situação...", ela entrou na brincadeira.

"Não se preocupe, já estamos chegando", avisou. "E não vamos fazer nada ilegal."

Mais alguns minutos no trajeto e finalmente Daniel estacionou em uma área aberta com um número grande de pessoas circulando. Era sexta-feira, ele esperava que estivesse movimentado. Mas isso não estragaria em nada o passeio.

Madison saiu do carro e olhou ao redor, seus olhos azuis se arregalando quando ela viu do que se tratava. Ela encarou Daniel quando ele deu a volta no carro e parou ao seu lado, sorrindo.

"O que...?"

"E aí, sabe patinar?"

Ela voltou a olhar ao redor e observou a grande pista de patinação ao ar livre. Não era no gelo como a Rockfeller, mas parecia igualmente divertido. As pessoas usavam patins com rodinhas alugados e deslizavam pela pista lisa rodeada por uma barra de ferro.

"Uau. Eu não esperava por isso", ela confessou, maravilhada.

"Bem, eu pensei que isso pudesse fazer você se lembrar de casa. Confesso que tive que pesquisar, e vi que eles estavam com essa pista montada por tempo limitado aqui, e pensei 'por que não?'. E valeu a pena."

Valeu a pena pelo rosto radiante da menina ao seu lado.

"O que estamos esperando? Vamos lá!", ela se empolgou, o puxando pela mão até o stand de ingressos.

Após comprarem os ingressos e alugarem dois pares de patins junto com os apetrechos de segurança, os dois se sentaram nos bancos dispostos por ali para calçarem e em seguida entraram na pista.

"Faz tempo que eu não faço isso", Daniel comentou, tentando achar o ponto de equilíbrio.

Madison, mais familiarizada com o esporte, estendeu a mão para o amigo.

"Vem, me dá a mão que eu te ajudo."

Por toda uma hora eles patinaram pela pista extensa. Houve tombos, é claro, das duas partes. Mas nada que não pudesse ser recuperado com risadas e brincadeiras.

"Eu disse que fazia tempo", Daniel comentou quando eles entregaram os patins no stand.

Madison não conseguia parar de rir enquanto eles caminhavam.

"A última vez que eu patinei foi no inverno passado", ela o contou. "Meus pais me levaram para patinar no gelo, e eu quase quebrei um braço nesse dia."

"Você parecia familiar com os patins lá dentro."

"Eu sempre gostei de patinar, seja no gelo ou fora dele", deu de ombros e sorriu. "Nossa, eu me diverti muito. Obrigada por isso."

"De nada", respondeu e a encarou. "Mas ainda não terminou."

Madison o encarou de volta e ergueu as sobrancelhas.

"Mais surpresa?"

"Eu não podia encerrar nossa noite sem te levar para comer o melhor cachorro-quente que Lima já viu", ele apontou uma lanchonete de decoração moderna na esquina. "Acho que pode ser até melhor que o de Nova York!"

"Essa eu quero ver."

BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY

"Terminou de arrumar suas coisas?", Shelby questionou à filha ao adentrar o quarto da menina.

Beth, de pé em frente à penteadeira, guardou alguns itens em uma necessaire e se virou para colocá-la em sua mochila em cima da cama.

"Quase. Falta apenas as coisas de higiene", informou à mãe, que assentiu.

"Terminou toda a lição de casa?"

Beth, de costas para a mulher, revirou os olhos.

"Já, mãe. Não se preocupe", disse em um tom impaciente. "Eu não ia querer passar o fim de semana com a vovó e o vovô me preocupando com coisas da escola."

"Claro. E a sua tia Katie com certeza já tem um monte de estripulias na cabeça para vocês fazerem."

Beth não pode deixar de rir. Sua tia já a havia enviado uma mensagem de texto dizendo todos os planos que ela tinha para o fim de semana de Beth em Akron.

Kathryn, ou Katie como ela gostava de ser chamada, era a filha mais nova de Victoria e Bill Corcoran. Com trinta e sete anos, é a caçula entre os três irmãos, sendo Owen o filho do meio e irmão mais novo de Shelby. Katie é uma mulher alegre, de bem com vida e um espírito livre. Por opção ela não teve filhos ou se casou, preferindo se dedicar ao máximo em seu trabalho como assistente social familiar e no tempo livre, além de viajar, mimar suas sobrinhas Beth e Addie, filha única de seu irmão Owen e da esposa Noelle.

"Tia Katie tem sempre as melhores ideias."

Shelby revirou os olhos, mas não pode deixar de sorrir. Sua irmãzinha era realmente um caso a parte.

"Estou pensando em pedir comida. Alguma preferência?", ela perguntou à menina agora sentada na cama terminando de fechar a bolsa.

"Podemos pedir naquele restaurante mexicano? Estou sedenta por alguns tacos..."

"Ok. Vou pedir alguns nachos também. Boa escolha", ela se aproximou da filha e deu um beijo no topo de sua cabeça. "Assim que chegar eu te chamo."

"Ok."

O filme da vez era Pitch Perfect. Beth estava acomodada em uma ponta do sofá comendo seus tacos e Shelby ocupava a outra, sua própria comida em seu colo. Ela não gostava muito que comessem na frente da TV, mas era sexta-feira e havia sido um longo dia.

Naquela tarde, depois da escola, Shelby havia deixado Beth em casa e depois seguiu para sua consulta semanal com sua terapeuta. Ela vinha fazendo terapia há um tempo já, pouco mais de dois anos, para tentar se entender com seus demônios. E o encontro daquele dia havia sido particularmente difícil.

Ela havia deixado transparecer toda sua insegurança com relação à volta de Rachel e Jesse e com a descoberta de Madison. Sua ansiedade estava mais apurada nas últimas semanas e a Dra. Jay estava sendo peça fundamental naquele processo.

No entanto, por mais que fosse praticamente impossível, Shelby resolveu que naquela noite ela iria tentar se distrair com sua filha e esquecer um pouco os seus problemas. Beth iria passar o fim de semana fora de casa então ela queria aproveitar aquelas horas com a menina. Seu pai viria buscá-la no dia seguinte por volta das dez da manhã, e ela sabia que Beth dormiria até o último segundo.

Sua atenção foi capturada novamente pela voz de Beth comentando algo sobre o filme, e Shelby sorriu para a filha e voltou a se concentrar na noite com sua menina.

BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY

"Então, o que acha?"

"É uma delícia!", Madison respondeu após terminar de mastigar um pedaço de seu cachorro-quente. Ela limpou a boca com um guardanapo e levou o canudo de seu refrigerante aos lábios. "Realmente, eu nunca comi nada parecido."

"Eu te disse. Não é uma barraca no meio do Central Park, mas não deixa a desejar no sabor."

"Não mesmo", concordou. "E então. Mais alguma surpresa essa noite?"

"E esgotar o estoque em apenas um dia? Nada disso! Ainda teremos muitas oportunidades."

Madison sentiu o costumeiro solavanco no peito, suas bochechas tomando um tom rosado.

"Vamos, é?"

Daniel percebeu ela corar e sorriu, de repente mais tímido.

"Claro, ué. Isso se... Você concordar", desviou os olhos, brincando com seu canudo.

Madison mordeu o lábio antes de sorrir.

"Digamos que, dado o resultado dessa noite, talvez eu esteja curiosa sobre o que mais Lima pode oferecer."

Os olhos de Daniel brilharam.

"Então temos um acordo!"

"Fechado!"

Eles ainda conversaram sobre outros assuntos e nem viram o tempo passar. Foi um breve olhar para o relógio de pulso de Daniel que Madison se assustou ao ver que já passava das dez da noite.

"Caramba! A hora voou", ela exclamou.

"Nossa, é verdade. Você precisa ir agora?"

"Tenho que estar em casa até onze horas. Já podemos ir pagando a conta."

"Tudo bem."

No caminho para casa, eles cantaram juntos com o som do carro. E os assuntos entre eles não acabava, as risadas preenchiam o veículo enquanto Daniel dirigia pela estrada. Quando estacionou em frente à casa de Madison, ainda faltava dez minutos para o toque de recolher da menina.

"Valeu mais uma vez, Daniel. Eu amei o passeio."

"Por nada. Se gostou tanto, podemos repetir. Daqui a pouco eles vão transformar aquela pista em gelo por conta do inverno. Podemos até marcar de ir com o pessoal."

"Sim, vai ser divertido."

Um silêncio se instaurou entre os dois antes de Madison quebrá-lo.

"Bom, er... Vou indo, então."

"Claro", ele pareceu sair de um transe mental.

Madison se inclinou sobre o console do carro e o abraçou antes de virar o rosto e deixar um beijo em sua bochecha. Daniel retribuiu e sorriu quando ela se afastou.

"Nos vemos segunda?"

"Com certeza", ele acenou. "Boa noite, Mad."

"Boa noite, Daniel."

Ela então saiu do carro e acenou outra vez antes de caminhar até a entrada de casa. As mariposas em seu estômago estavam afoitas e ela podia sentir o rosto quente, principalmente onde Daniel havia deixado o beijo. Mordendo o lábio, ela sorriu e finalmente entrou em casa.

Daniel, dentro do carro, também não conseguia evitar o sorriso. De fato havia sido uma noite ótima, Madison era uma menina maravilhosa em sua opinião, e ele esperava que eles pudessem sair juntos muito em breve.

Ainda pensando nisso, ele ligou o carro e acelerou para longe dali.

BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY

Madison acordou no sábado com o som da chuva batendo contra o vidro de sua janela. Esfregando os olhos para espantar o sono, ela alcançou seu celular na mesinha de cabeceira, franzindo o cenho quando a luz do aparelho brilhou em seu rosto. Os números grandes na tela lhe mostravam que eram poucos minutos depois das dez da manhã, decidiu se levantar e agitar as coisas para a festa do pijama na casa de Zoe mais tarde. Ainda precisava arrumar uma bolsa de roupas e, após uma breve olhada ao redor, precisava dar um jeito em seu quarto também. Sua mãe já vinha pedindo isso há uns dois dias, mas ela sempre postergava. E ontem depois que chegou em casa, ela só queria sua cama. Hoje com certeza não escaparia, principalmente depois de ouvir música soando em algum canto da casa. E sua mãe cantando.

É, hoje era definitivamente um dia de faxina.

Após uma passada no banheiro para esvaziar a bexiga e escovar os dentes, ela desceu as escadas em busca de café da manhã. Encontrou sua mãe de pé sobre uma escada perto dos armários, organizando as louças que ali ficavam. A inconfundível voz de Celine Dion deixava a caixinha de som bluetooth conectada ao celular de sua mãe.

"Bom dia", cumprimentou, abrindo a geladeira.

Rachel virou a cabeça para a voz e sorriu antes de voltar ao trabalho nos armários.

"Bom dia, Maddy", a mãe respondeu.

Após pegar o galão de leite e sua caixa de cereais junto a uma tigela no armário, se sentou no balcão-ilha e começou a se servir.

"Dia de faxina, uh?", murmurou.

"Sim, senhora. E hoje a senhorita não escapa de aspirar aquele quarto e guardar aquelas roupas. Está imundo, Madison. Dá até vergonha."

A menina revirou os olhos, levando uma colherada à boca. Sua mãe era tão exagerada.

"Sem drama, mãezinha. Prometo que vou arrumar tudo antes de ir pra casa da Zoe."

"Acho bom mesmo, senão você nem põe o pé na rua hoje."

Jesse apareceu na cozinha naquele momento, uma mão segurando uma vassoura e a outra um balde e um espanador.

"Prontinho. Móveis limpos, chão varrido e carpetes aspirados. O aspirador é todo seu, querida", informou ao passar pela filha em direção às escadas para o porão, depositando um beijo na cabeça da menina.

Madison bufou e enfiou outra colherada na boca.

Após decidir uma playlist em seu iPod e acoplá-lo no dock, Madison começou a recolher suas roupas espalhadas e separá-las em limpas para guardar e sujas para jogar no cesto em seu closet. Realmente ela precisava parar com a mania de tirar todas as roupas dos cabides enquanto se arruma, mas dessa vez havia sido por um motivo importante.

Lembrar da noite anterior trouxe um sorriso besta em seus lábios, o que a fez balançar a cabeça. Estava se sentindo uma boba, eles haviam saído apenas como amigos. No entanto isso não expulsava as insistentes mariposas de seu estômago. Eles haviam se divertido e Daniel era uma ótima companhia.

Foi enquanto cantarolava as letras de "Fight Song" que viu a tela de seu celular se iluminar e um pin de notificação chamar sua atenção para o aparelho em cima da cômoda. Correu até o aparelho e o sorriso crescendo em seu rosto a denunciou sobre quem era o remetente da recente mensagem de texto.

'Bom dia ; ) Dormiu bem?' ~ DS

E o típico saltar do estômago deu o ar da graça outra vez e ela mordeu o lábio antes de digitar uma resposta.

'Bom dia, D. Muito bem, obg. E vc?' ~ M

Apertou enviar e mordeu uma pele solta no canto do polegar. Vocês são apenas amigos, Madison. Pelo amor de Deus!

'Fico feliz. Tbm dormi bem, obg.' ~ DS

Chegou a mensagem, seguida de outras.

'Estava lembrando da nossa noite ontem, e o quanto foi divertido' ~ DS

'Desculpe se estiver sendo um chato, já to te perturbando a essa hora, né?' ~ DS

Mal Daniel sabia que a última coisa que ela estava achando naquele momento era que ele era um chato.

'Tbm me diverti muito. Vc não ta sendo chato haha já acordei tem um tempinho... dia de faxina : (' ~ M

'Que droga... Espero não estar atrapalhando' ~ DS

'Que nada! É bom que dei uma pausa hahahahaha' ~ M

'Oh. Td bem entao. Te ajudei' DS

'Sempre me salvando. Obg por isso' ~ M

"Madison?"

"Meu Deus!", a menina saltou com a voz repentina na porta de seu quarto, pondo uma mão no peito. "Que susto, mãe!"

"Eu hein", Rachel balançou a cabeça. "Você não disse que ia arrumar? Tô te vendo nesse celular aí..."

"Só estava respondendo uma mensagem", balançou o telefone no ar e o depositou novamente na cômoda. "Das meninas."

"Uhum...", assentiu, não acreditando. Pelo sorriso idiota que a menina estava dando segundos atrás com a cara enfurnada no telefone, Rachel sabia que ela não estava falando com nenhuma das meninas. "Não demora com esse aspirador aí. Preciso dele daqui a pouco", avisou, saindo do quarto.

"Tá bom."

Rapidamente ela terminou de arrumar sua escrivaninha e prateleiras. Em seguida plugou o aspirador na tomada e começou a passar o aparelho pelo chão de todo o quarto. Outro pin de notificação apitou em seu celular e ela correu para ver.

'Faço o que posso ; ) gosto de ajudar quem eu me importo' ~ DS

"Gosto de ajudar quem eu me importo. Hmmm claro que sim!", Zoe zombou, esticando o braço para deixar o celular da amiga, em sua mão, fora do alcance da mesma.

"Me dá esse celular, Zoe!"

As duas estavam sobre a cama de Zoe, Madison em cima da amiga enquanto tentava recuperar seu telefone que havia sido pego pela menina mais velha no momento que ela comentara sobre sua saída com Daniel. Olivia ria de seu lugar no tapete enquanto pintava suas unhas dos pés e Melanie, ocupada escolhendo uma cor de esmalte para si, balançava a cabeça achando graça das duas doidas.

"Uhhh, aí sim hein, Maddy!", Olivia implicou.

Madison finalmente conseguiu recuperar o celular e deu um tapa no braço de Zoe antes de sair de cima dela, se sentando na cama. Zoe também se sentou e a encarou.

"Parem vocês! Não é nada disso!", a menina mais nova pediu, o rosto rosado.

"Não somos nós que estamos dizendo, amiga. É o Daniel", Zoe disse, cantarolando o nome do garoto. "Bem, ele e esse rosto vermelho seu. Você entrega fácil, Mads, não adianta fingir."

A garota de cabelos loiros recebeu uma almofadada após o comentário, o que a fez rir mais ainda. Madison caía muito fácil na pilha, e isso era divertidíssimo.

"Cala a boca."

"Se está tão incomodada pelos comentários é porque é verdade", Olivia atiçou, recebendo, à distância, sua própria almofadada.

"Vocês são insuportáveis", Madison revirou os olhos, mas sorriu. "Tá, e daí se eu tiver gostado e queira repetir?"

"Ah!", as meninas tiveram que tapar os ouvidos com o grito de Zoe. "Sabia!"

"Hmmm parece que alguém foi picada pelo bichinho do amor", Melanie brincou.

Naquele momento elas escutaram batidas na porta, interrompendo as risadas.

"Meninas? Posso entrar?", Zoe ouviu a voz de um de seus pais no outro lado da porta.

"Entra."

Blaine apareceu pela fresta que abriu e sorriu.

"Tudo bem por aqui?"

"Tudo ótimo, paizinho. Algum problema?"

"Não, é que eu ouvi gritos...", ele riu. "Era só vocês sendo adolescentes."

"Nada demais, tio Blaine. Elas que são umas chatas mesmo", Madison sorriu inocentemente para seu tio.

"Vocês são demais", ele balançou a cabeça. "Vim avisar que pedimos algumas pizzas para o jantar, tudo bem para todas?"

"Tudo ótimo", Olivia concordou. Melanie também assentiu.

"Ótimo então. Assim que chegar aviso vocês", ele informou, já fechando a porta. "Não se matem, por favor. Preciso entregar vocês inteiras amanhã."

"Tchau, pai!"

"Já to saindo, já to saindo."

Assim que a porta se fechou, Zoe se virou para Madison.

"Voltando ao que interessa..."

"Não, chega! Me deixem em paz!", ela gritou. "Por que não falamos do fato da Olivia NUNCA admitir seu interesse pelo Scott?"

E assim ela jogou, sem cerimônias.

"O quê?!", Melanie arregalou os olhos, encarando a menina de cabelos curtos, que rolou os olhos.

"Ih, me errem, valeu?"

"Nananinanão! Eu também já percebi! Na verdade acho que só cego não viu", Zoe cantarolou.

"Scott é meu amigo, só isso. Sem contar que...", ela terminou de pintar a última unha do pé e tampou o vidro de esmalte antes de continuar. "Ele não faz o meu tipo."

"Ele pode não fazer o seu tipo, mas com certeza você faz o tipo dele", comentou Madison, enrolando a ponta do cabelo distraidamente.

"Como assim?"

"Nunca viu o jeito que ele te olha? Aff, Liv, dá pra notar a quilômetros", disse Zoe, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo bagunçado. "A verdade é: ninguém aqui escapa, ok? Também tô de rolo com um carinha..."

"Ei, não me metam nisso, ok?", Melanie levantou as mãos.

"Nem eu. Não tô 'de rolo' com ninguém", Olivia fez aspas no ar.

"Ainda, baby. Ainda", Zoe piscou para ela, rindo. Melanie revirou os olhos e voltou a pintar as próprias unhas.

"Você tá saindo mesmo com o Brian?", Olivia perguntou, fazendo uma careta.

"Saindo, saindo ainda não. Mas estamos trocando mensagens... Qual o problema? Ele é legal."

"Ele é um idiota", Olivia bufou.

"Bem, ele pode ser idiota às vezes, mas tem um papo legal e é um gatinho. Por que não?", Zoe deu de ombros.

"Ele tá é te enrolando...", Madison observou, distraída em seu celular.

Zoe a encarou e se esticou, puxando o aparelho das mãos da menina rapidamente.

"Olha quem fala, aquela que foi em um encontro e nem beijou."

"Me devolve, sua chata. E eu já disse mil vezes que não foi um encontro, nós apenas saímos como bons amigos."

"Blá, blá, blá."

"Seja o que for que você chame, você está certa, Maddy", Melanie disse à amiga. "Nós, mulheres, temos que nos fazer de difíceis. Sempre."

"Olha elaaa", Olivia cantarolou, empurrando levemente a menina sentada ao seu lado no tapete.

"Eu não me fiz de difícil, nós só somos amigos..."

"Tá bom, continua mentindo que a gente continua fingindo que acredita", Zoe disse, pegando o controle da TV em sua mesinha de cabeceira. "Então, gente, já decidiram o que vamos assistir?"

"Por mim tanto faz", Olivia deu de ombros.

"Saiu a segunda temporada de 'How To Get Away With Murder' na Netflix...", Melanie sugeriu.

"Já sei. Em homenagem à minha amiguinha aqui que tá saindo da pista e ela tanto insiste ao contrário,", Zoe indicou Madison, que apenas revirou os olhos. "vamos assistir 'Amizade Colorida'!"

"Cala a boca, Zoe!"

BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY

Sentindo a brisa gélida das primeiras horas da manhã, Rachel bebericou de sua recém feita caneca de café enquanto observava a chuva fina cair, sentada na mesa da varanda dos fundos. Apesar de ser domingo, ela gostava de levantar cedo e apreciar a calmaria da manhã, e o som da garoa tornava tudo aquilo ainda mais calmo.

Muito diferente do turbilhão de emoções acontecendo dentro dela.

Não estava sendo fácil engavetar aquilo e esconder de sua família. Mesmo colocando um sorriso no rosto no momento que saía da cama pela manhã, ela sabia que Jesse e Madison estavam pescando os sentimentos que atormentavam a mulher. Não queria admitir, mas Shelby estava afetando ela mais do que gostaria, e toda a busca por respostas que tanto fez durante anos estava retornando com uma intensidade que pesava sobre seu peito em uma forma muito dolorida de angústia.

Anos de terapia para quê? Para serem ignorados no momento que pusera os olhos em Shelby. No momento que soube que aquela mulher era uma figura presente na vida de Madison, inferno, que mesmo soubera da existência de Madison. Aquilo a deixava vulnerável e insegura. E além dela estar sendo afetada, sua família também estava. Ela não perdia os olhares que Jesse lançava à ela. Ele era quem tentava mediar as coisas dentro de casa, amenizando o ambiente, entretendo Madison quando via que Rachel estava a ponto de desmoronar, ou mesmo os olhares incertos que sua filha lhe dava. A última coisa que ela queria era piedade de sua família.

E era em momentos como esse, com o relógio marcando não mais que sete da manhã, sozinha em sua varanda com a presença apenas da chuva e do silêncio, que ela não precisava sorrir, que ela podia deixar os sentimentos fluírem sem medo de serem testemunhados.

As perguntas eram tantas. Por quê? Por quê ela? Por quê naquele momento? Por quê aquilo? E nenhuma delas tinha a resposta que satisfaria o vazio em seu peito. Ela precisava saber o que tinha acontecido, o que ela tinha feito para que Shelby fizesse o que fez. Ela era insuficiente? Ela tinha defeitos? Shelby não a amava? Podia ser tudo isso ou uma outra coisa qualquer, Rachel só precisava de respostas.

E ela iria buscar.

Durante toda sua vida não diziam que uma de suas maiores qualidades era a determinação, a ambição? Pois bem, ela iria fazer jus à isso que diziam dela. Ela iria buscar as respostas que precisava para conseguir seguir em frente.

Mais tarde naquele dia, ela informou ao marido que precisava ir encontrar Kurt para resolver as coisas do seu novo trabalho no teatro comunitário. Havia sido repentino, mas ela não deixou passar a oportunidade de ocupar a cabeça com o que amava fazer. Ela e Kurt se tornariam os novos tutores e, juntos com uma equipe, eles levariam para frente projetos com alunos que quisessem realizar sonhos no mundo das artes.

Rachel dirigiu pelas ruas de Lima com um objetivo. Jesse que a perdoasse pela mentira, mas ela precisava fazer isso sozinha. E ela sabia onde estava indo, se lembrava do marido comentar com ela sobre aquele endereço. Aquilo vinha se conjurando em sua cabeça há pouco mais de uma semana, mas não dava para esperar mais.

Em minutos estava parada em frente à casa mediana. Reunindo todas as forças que tinha, ela respirou fundo algumas vezes antes de sair do carro e caminhar lentamente pelo jardim até a varanda da frente. De repente teve vontade de correr, mas não o faria. Não o faria porque aquilo era o que ela faria, e Rachel não queria ser covarde. Ela ergueu uma mão trêmula até a campainha e, respirando fundo uma última vez, tocou.

Agora não tinha mais volta. Ela ouviu um farfalhar do outro lado da porta e, em seguida, o trinco sendo aberto, a maçaneta girando e a madeira revelando a figura atrás dela.

Tudo parecia em câmera lenta.

Quando finalmente ergueu os olhos, o que encontrou foi um rosto completamente pálido e olhos verdes espantados.

"R-Rachel!"


TAN TAN TAN TAAAAAANNNNN! Eu sei, cruel, mas o que é a vida sem um pouco de suspense?

Se cuidem, cuidem daqueles que amam, pratiquem a empatia e fiquem em casa (se puderem)!

Nos vemos no próximo capítulo!