Oi, povo bonito! Cheguei com mais um capítulo novinho para vocês!
Esse capítulo (creio eu) é um dos mais esperados dessa história, mas sou suspeita pra falar. Ele está bem emotivo e alguns de seus trechos estavam escritos há muito tempo, só esperando o seu momento de brilhar!
Antes de deixar vocês mergulharem na leitura, preciso dizer que eu sou muito grata ao feedback que recebo nesta história. Todos os comentários, favoritos e acompanhamentos, cada um de vocês que dedica um tempo aqui está com certeza em meus pensamentos! É por nós que eu escrevo isso aqui, e sou muito feliz com esse projeto. Obrigada de coração!
Aproveito para dizer também que eu criei um perfil no Twitter para falar um pouco mais sobre as minhas histórias, então se você tiver interesse (e uma conta no Twitter) passa lá pra dar uma olhadinha, prometo que não vai se arrepender. Lá eu coloco detalhes que não é possível colocar aqui, pode rolar umas fotos... Uns spoilers... Fica por conta de vocês! Um adendo: a conta é privada, logo se você tiver interesse peça uma solicitação para me seguir que eu irei seguir de volta! Dessa forma a gente fica na privacidade e se torna um cantinho só nosso! O link está na minha bio aqui. Divirtam-se!
Agora sim, espero que gostem desse capítulo. Ele é um dos meus favoritos!
Disclaimer: Eu não possuo Glee, caso contrário a série nunca teria um fim.
"Olá, Shelby."
"R-Rachel, eu...", a mulher mais velha gaguejou. "Eu não esperava."
Seu coração estava acelerado, Rachel podia senti-lo batendo em seus ouvidos. Os olhos castanhos, agora marejados, encaravam de volta aqueles cor de esmeralda e ela podia sentir toda sua confiança anteriormente adquirida se dissipando como o vento ao redor. De pé ali na varanda de Shelby, de frente à mulher que fora razão de muitas de suas lágrimas num passado não tão remoto, Rachel se sentia como aquela menina de dezesseis anos outra vez, com sonhos maiores do que sua pouca idade e que tanto queria conhecer sua mãe. Essa mesma mãe que lhe dissera que era tarde demais para elas, que elas podiam ser gratas uma à outra, à distância. Que lhe deu as costas sem pestanejar.
Sentindo o queixo tremer, Rachel engoliu o nó na garganta e endireitou os ombros. Ela não deixaria que Shelby tomasse as rédeas outra vez e decidisse por elas duas. Se Shelby queria mesmo Rachel fora de sua vida, ela teria sua vontade concedida, mas não sem antes dar as respostas que Rachel precisava.
"Sei que não esperava, aliás você deixou isso claro da última vez."
Alfinetar era um bom começo? Ela não tinha certeza, mas já o tinha feito e sentiu o gosto amargo daquelas palavras tocarem sua língua. Não pode evitar sentir seu estômago saltar com o olhar visivelmente machucado de Shelby.
"Me desculpe, eu...", mais uma vez Shelby estava se desculpando e nem tinha mais certeza sobre o quê exatamente. "Eu, er... Você quer entrar?"
Idiota. Shelby pensou consigo mesma. Era óbvio que elas não podiam ter aquela conversa na varanda. Seria um espetáculo e tanto para os vizinhos.
Balançando a cabeça, Shelby deu espaço na porta permitindo que Rachel entrasse antes que pudesse responder. A mulher mais nova o fez, não podendo deixar de olhar em volta do espaçoso e aquecido cômodo que a recebeu. Retirando o casaco, Rachel o colocou dobrado sobre o braço até que Shelby o viu e se ofereceu para pendurá-lo.
Estava agindo no automático. Em um momento estava sozinha em casa num domingo chuvoso, um seriado qualquer na TV para preencher o silêncio do cômodo enquanto planejava as aulas da próxima semana no sofá. E no minuto seguinte ela vê sua filha biológica de pé no foyer, visivelmente sem jeito e sem saber onde por as mãos. Não era para ser assim. Mas aquele era o resultado de suas escolhas e agora ela precisava enfrentar o tapa do passado.
"Você, hmmm... Quer beber algo? Água, um chá, café..."
"Não, obrigada."
"Por favor, sente-se", pediu, indicando o sofá na sala de estar ao lado.
Rachel o fez, colocando sua bolsa ao lado. Ela observou a mulher mais velha se sentar na poltrona perto da lareira. Lareira essa, Rachel pode notar, que sustentava porta-retratos com fotos de pessoas que ela não conhecia. Havia uma menininha loira na maioria delas, Beth obviamente, mas também havia outras pessoas que ela nunca ouvira falar.
"Beth não está?", a curiosidade foi mais forte ao observar uma das fotografias onde Beth parecia ter cerca de dez anos, segurando o braço de um violão. Ela precisava ser cautelosa se a menina estivesse por perto. Rachel podia sentir toda a mágoa que estivesse em seu âmago e direciona-la à Shelby, mas ela não era uma destruidora de lares. E Beth era só uma menina, não precisa daquele estresse em sua vida.
"Não. Ela está na casa dos meus pais em Akron."
Rachel assentiu em entendimento. E mais uma vez o cômodo foi preenchido pelo mais profundo silêncio.
"Eu devo confessar que estou surpresa", Shelby foi quem o quebrou depois de alguns minutos.
Rachel desviou os olhos das fotografias e encarou a versão mais velha de si mesma. Suspirando, ela começou a brincar com os dois anéis em seus dedos, reorganizando seus pensamentos.
"E eu confesso que estar aqui foi e está sendo muito difícil. Levou cerca de uma semana para eu tomar a decisão de que precisava vir."
Shelby engoliu em seco, observando Rachel encolher os ombros e mexer com as mãos. Ela não gostou do sentimento que se alastrou dentro de si ao ouvir que, para Rachel, estar ali era algo difícil. O gosto amargo que isso trouxe fez ela querer correr e se esconder de tudo.
Mas ela não podia. Não outra vez.
"Eu sinto muito", Shelby baixou os olhos, encarando seus pés.
Rachel a observou e outra vez sentiu aquele solavanco no estômago. Ela precisava se explicar, afinal, por mais que estivesse com raiva, aquela ainda era a casa de Shelby e ela merecia uma explicação.
"Eu... Eu precisava estar aqui porque... Porque eu tenho que lhe perguntar uma coisa."
Aquilo atraiu a atenção de Shelby e ela levantou a cabeça, as sobrancelhas franzidas expressando confusão.
"Oh. Mas é... É claro. O que quer perguntar?"
Respirando fundo, Rachel encarou outra vez suas mãos agitadas. Parando aquilo, ela apoiou as mãos no colo. Shelby observou todo aquele movimento e depois olhou nos olhos de sua filha quando a mesma se endireitou no sofá.
"Por que, Shelby?", saiu, finalmente, em uma voz embargada. Como a disparada de uma arma. "Por que você teve que ir embora?"
Era como levar um soco na boca do estômago. A expressão, a voz dolorida, a súplica naquele olhar. O mesmo olhar da menina de dezesseis anos, implorando por algo que Shelby não sabia se podia dar.
Tudo aquilo foi como um soco em Shelby.
Era isso. Rachel a questionava sobre algo que por muito tempo ela não soube encontrar a resposta apropriada. Apropriada para sua filha biológica e apropriada para si mesma. Algo que pudesse preencher o vazio que sentia de ter se afastado por dezoito anos. Algo que pudesse espantar todos os demônios interiores que tiravam seu sono à noite.
Sentiu o peito apertar conforme a insegurança a encobria e sua mente enuviava. Shelby odiava o sentimento de insegurança, era o que mais lhe assombrava. Perder o controle das coisas e deixar o sentimento de medo tomar conta. Abrir aquela gaveta em sua mente com todas as escolhas que a levaram exatamente para aquele momento ali, com Rachel em sua sala, implorando por um porquê que ela tanto temeu em responder.
Rachel encarava a mulher com fúria e mágoa nadando em seus olhos. Seu coração estava acelerado pela adrenalina do momento, os olhos esverdeados de Shelby a fitavam sem saber por onde começar exatamente. Sem saber como dar à ela aquilo que tanto queria.
Ela então continuou.
"Sabe, Shelby... Por muito tempo eu me perguntei o que eu tinha feito de errado. Por muito tempo eu quis saber se eu não era suficiente, porque eu não consegui atender às suas expectativas. Você não queria fazer parte da minha vida, alguma coisa eu tinha que ter feito pra merecer isso", Rachel suspirou, dando uma pausa antes de prosseguir, sentindo as primeiras lágrimas descerem por suas bochechas. "E hoje eu ainda não sei a resposta pra isso. Porque, sinceramente, eu não consigo pensar em nada que eu possa ter feito que pudesse fazer você ir embora. Então estou aqui perguntando a você pra poder, finalmente, esclarecer esse pedaço na minha história."
Em suas inúmeras sessões de terapia, Rachel havia aberto aquela ferida e feito aqueles mesmos questionamentos. Se sentia novamente sentada no consultório de móveis escuros e sofá aconchegante, de frente a uma mulher de meia idade com óculos redondos e sorriso amável. Se lembrava dos sentimentos que encobriam seu corpo todas as vezes que esteve lá, que teve que abrir aquela gaveta de memórias e que teve que colocar em palavras o que sentia em relação à Shelby. Não eram sentimentos bons, mas de acordo com a terapeuta, necessários para ela enfrentar aquela dor.
Sentada ali, dezoito anos depois, ela se sentia da mesma forma. A diferença era que do outro lado não havia uma senhora de sorriso amável e óculos redondos. Havia o motivo de todos aqueles sentimentos assombrosos.
O ar estava preso em sua garganta, Rachel falava em sua direção e Shelby apenas conseguia encará-la sem dizer nada. Rachel estava tão convicta em achar as respostas, havia determinação em seus olhos, apesar das lágrimas, e ela não se importava que aquilo poderia estar machucando a mulher mais velha. Ou não tinha plena noção. Porque, em seu interior, Shelby sentia doer no mais profundo âmago, todas as decisões que tomara vinham à tona como tijoladas desgovernadas sem precedentes.
Ela queria correr, tomar Rachel nos braços e dizer que ela não havia feito nada que pudesse mandar Shelby para longe, que ela não tinha culpa. Mas simplesmente não conseguia. Era como se os mesmos tijolos que foram derrubados sobre seu peito estivessem prendendo-a na cadeira e ela não podia se mexer. Sua garganta estava seca e sua visão, de repente, embaçada.
Foi como se tivessem passado horas que elas estavam ali. Rachel finalmente soltou um longo suspiro resignado, mais uma vez ela não teria suas respostas visto o silêncio que Shelby lhe dava. Aquela mulher mais uma vez se mostrava covarde.
Então, sem mais ter o que fazer ali, Rachel pegou sua bolsa e se levantou para sair, sem mais nada a dizer.
O movimento foi como um impulso para Shelby. Ela finalmente liberou o ar preso, seus pulmões queimavam pela respiração interrompida. Ela fechou os olhos com força e finalmente encontrou a coragem que lhe havia abandonado minutos antes, mais precisamente quando se deparara com Rachel a sua frente.
"Não vá...", sua voz vacilou, mas obteve o sucesso pretendido quando viu Rachel parar.
A mulher mais nova então deu a volta em seus calcanhares e encontrou o olhar suplicante de Shelby. Pela primeira vez em anos ela conseguiu enxergar algo que tanto desejou e nunca conseguiu. Ela enxergou sinceridade ao pedir que ficasse.
Com uma fungada e um longo suspiro, uma mão segurando a alça da bolsa pendurada em seu ombro, ela ficou.
Shelby respirou fundo para controlar a vontade de chorar e dar tempo de organizar os pensamentos.
"Eu... Eu não sabia, naquela época, o erro que eu estava cometendo em deixar você."
Rachel quis rir de escárnio, mas deixou que Shelby continuasse. Ela se sentou no mesmo lugar que ocupava antes e ouviu.
"Eu achava que você não precisava de mim."
"E você assumiu isso com base em quê? No alcance da minha voz?", retrucou, a ironia derramando em cada palavra dita.
"Eu não queria, te juro. Mas eu senti que precisava. Tive medo que, se eu me intrometesse naquilo que você tinha com seus pais, estragaria tudo", Shelby não conseguia encarar Rachel, os olhos presos em um ponto inespecífico no tapete. E então soltou um riso sem humor, balançando a cabeça. "Eu me frustrei quando te vi naquele dia no auditório, Rachel. Eu me frustrei bastante, pra ser sincera. Sempre que pensava em você, a única coisa que eu via era um bebê rosado se esgoelando nos braços de uma enfermeira. Aquele bebê que não era meu de verdade. E então-", Shelby se interrompeu para fungar as lágrimas indesejáveis. "Então você apareceu no meio do meu ensaio, uma bela menina de dezesseis anos com dois pais amorosos, uma voz incrível e uma ambição gigantesca. E quem era eu no meio disso tudo? Apenas a barriga de aluguel dos seus pais."
Rachel a encarava em choque. As lágrimas escorriam por seu rosto sem interrupção, a ferida em seu peito sangrava mais do que nunca. Shelby estava tão vulnerável quanto ela ali, e apesar disso estar sendo doloroso para ambas as partes, ela enxergava sinceridade naquelas palavras. E essa sinceridade era o que machucava ainda mais.
"Eu não correspondi às suas expectativas, é isso? Eu te... Te frustrei?"
Shelby sentiu a punhalada direta em seu coração ao levantar os olhos e enxergar a dor nos olhos de Rachel. Ela estava fazendo tudo errado de novo. Mas agora ela precisava dizer tudo, uma vez que aquela torneira foi aberta agora precisava esvaziar toda a caixa.
"Eu me frustrei quando a vi, sim, porque sempre que imaginei nosso reencontro eu pensava que sentiria algo forte e inquebrável dentro de mim, um laço que dizem que todas as mães possuem com seus filhos. Mas não foi isso que senti. Eu senti medo, me senti uma intrusa na verdade. E aquilo foi o que me frustrou. Eu não era sua mãe, Rachel. Não tinha porque eu me intrometer na sua vida de uma hora para outra e bagunçar tudo. E então eu parti."
"Sim, e adotou Beth logo em seguida, porque você queria um bebê", Rachel desviou o olhar, passando os dois braços ao redor de si mesma em forma de proteção. Ela não ressentia Beth, pelo menos não mais, no entanto aquele assunto ainda doía.
Pelo o que parecia a primeira vez em horas, Shelby se permitiu dar o primeiro sorriso sincero.
"Beth foi algo que aconteceu na minha vida como uma reviravolta. Ela era uma criança que estava sem família no minuto que deu o primeiro choro no mundo, e eu era uma mulher que desejava ter um bebê nos braços. Pareceu se encaixar perfeitamente."
O sentimento de rejeição que Rachel sentiu naquele momento foi inevitável. Ela sentiu a nova onda de lágrimas se formar atrás de seus olhos e não se esforçou em segurá-las. Shelby não estava muito diferente.
"Agora eu entendo... E me desculpe por não ser o que você precisava", Rachel divagou, torpe.
Shelby a olhou confusa e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
"Rachel, eu te amava. Eu te amo. Isso nunca foi uma dúvida para mim. Eu te amei quando soube que te carregava aqui dentro, quando escutei seu coração bater pela primeira vez, quando senti você chutar. Eu te amei quando escutei seu choro naquele quarto de hospital, quando você, nos braços de uma enfermeira, virou a cabeça para me olhar. Eu te amei quando soube que te entregava para uma família que te amaria e cuidaria de você, e eu te amei por todos esses trinta e quatro anos. Nunca duvide disso, por favor."
Enquanto falava, Shelby observava a mulher mais nova abaixar a cabeça e seus ombros balançavam por causa dos soluços de seu choro.
"E por te amar que eu parti, porque você tinha com seus pais o que nós duas nunca teríamos. Um vínculo. E eu achava que se eu interrompesse sua vida naquele instante, estragaria tudo. Mas então...", Shelby suspirou, se sentando ereta na poltrona, sem nunca tirar os olhos de Rachel. "Então eu percebi, tarde eu confesso, que não era justo eu sair assim com um simples motivo. Eu fui muito egoísta em dois momentos: quando eu decidi que queria te conhecer e quebrar o contrato, e depois quando eu fui embora porque não havia encontrado o que eu esperava. Eu não deixei que você se expressasse... Na verdade você expressou muito bem como se sentia com aquilo tudo, eu quem não quis enxergar. Mais uma vez egoísta", lamentou.
"E-eu queria te conhecer ta-também", Rachel soluçou. Shelby deixou seus lábios formarem um sorriso tímido.
"Eu sei, Jesse me contou..."
"E ainda assim você se foi."
Assentindo, Shelby mordeu o lábio inferior.
"E talvez eu nunca me perdoe por isso, mas saiba que todas as minhas escolhas eu fiz por amor. De uma forma meio torta, mas havia amor ali e eu achava que estava sendo uma mãe melhor se não atrapalhasse."
"Eu entendo...", Rachel finalmente secou suas lágrimas e a encarou. "Agora eu entendo, mas não torna nada menos difícil."
"Eu sei, querida...", outra vez ela se inclinou para frente, tentando, de alguma forma, se manter perto da filha. Mesmo que, emocionalmente, elas estivessem à quilômetros de distância. "Não é fácil e eu também entenderia se você não entendesse. Você era uma menina. Eu mesma ainda processo tudo isso com ajuda profissional."
O silêncio que pairou sobre as duas foi suficiente para fazer Shelby se levantar e deixar o cômodo. Rachel a seguiu com o olhar, o corpo ainda tremendo com os soluços. Quando a figura de Shelby desapareceu do seu campo de visão, ela abaixou a cabeça com os dedos se entrelaçando em seus cabelos e deixou a frustração sair em forma de mais lágrimas. Suas respostas estavam dadas, mas elas não eram nada fáceis de engolir. Era o que ela sempre dizia à Madison: a verdade, por mais que doa, é sempre a melhor coisa a ser dita.
As verdades estavam postas na mesa e doíam como o inferno.
Seus pensamentos foram interrompidos quando ela viu os pés de Shelby, a mulher de pé a sua frente. Estava tão absorta em sua dor que nem ouvira ela voltar. Ergueu a cabeça e a encontrou com um sorriso tímido e os olhos inchados, lhe estendendo um copo de água.
"Imaginei que estivesse com sede."
Rachel encarou o copo por segundos e então aceitou, bebendo a água devagar. Sua garganta seca aceitou de bom grado o frescor do líquido e seu peito se encheu do mais profundo sentimento de insegurança e mágoa. O copo d'água, com tanto significado, representou ali toda a tristeza que estava sentindo. Mas, acima de tudo, ela podia sentir um peso sendo tirado de seus ombros. Ao mesmo tempo que a sede representava sua tristeza, a água lhe dava o alívio necessitado.
Ela não tinha feito nada — pelo menos não propositalmente — para que Shelby não a quisesse em sua vida. Claro, havia muita complexidade em um relacionamento entre pai e filho, ela podia compreender essa parte e até mesmo compreender os motivos de Shelby, no entanto a ferida estava lá e ela não podia simplesmente apagá-la.
Podia sentir seu estômago dando voltas e suas mãos trêmulas. Terminou de beber e segurou o copo com uma mão, o apoiando na palma da outra e com um dedo rodeava a borda, os olhos presos naquele movimento mecanizado.
"Eu fiz terapia por muitos anos para, você sabe, tentar entender tudo", sua voz saiu rouca, mas Shelby ouviu. "Minha família e amigos também foram fundamentais em minha vida. Mas eu sentia que ainda faltava um espaço que tinha de ser preenchido. Uma resposta..."
"E agora você a tem, mesmo que não seja a que você queria."
Rachel a encarou.
"Para falar a verdade eu nem sei o que eu queria...", deu de ombros. "Eu só tenho que processar e ver se vou conseguir seguir em frente."
Shelby assentiu. Ela merecia essa frieza, era muito que Rachel ainda estivesse ali e não atirando coisas ou fugindo. Provavelmente era o que ela teria feito no lugar de Rachel.
"Como se sente agora?", Shelby não pode evitar a pergunta.
Rachel soltou um riso sem humor e deu de ombros, balançando a cabeça.
"Não faço ideia... Magoada? Cansada? Aliviada? Não sei..."
"Ainda com sede?", Shelby arriscou.
Rachel a encarou e naquele olhar havia tanto que Shelby quase pode sentir-se atingida por algo.
"É, talvez..."
Shelby sorriu tristemente e se levantou, pegando o copo vazio e o levando para a cozinha para enchê-lo outra vez. Quando voltou, Rachel estava parada na mesma posição, sentada com os braços ao redor de si e encarando um ponto qualquer no chão.
"Beth sabe de alguma coisa?", ouviu a voz dela murmurar suavemente. Isso a pegou de surpresa, mas tratou de responder quando ocupou seu lugar na poltrona novamente.
"Ela sabe que é adotada, mas não sabe nada sobre Quinn e Noah. Ela nunca perguntou por eles e eu nunca trouxe o assunto à tona com ela..."
"Ela sabe sobre mim?", sua voz se tornou menor ainda. Sentia-se como uma menininha assustada.
Shelby suspirou.
"Não", afirmou. "Não consegui contar sobre o meu passado com você. Ela sabe que foi adotada quando nasceu, mas nada além disso."
Rachel respirou fundo quando outra coisa lhe ocorreu, e dessa vez ela levantou os olhos para encarar a mulher mais velha.
"Sua... Família. Eles sabem sobre mim?"
Shelby sentiu o estômago saltar e teve vontade outra vez de tomar Rachel nos braços. Ela parecia tão machucada, tão frágil ali na sua frente. Isso era evidente em sua voz.
"Sabem. Eu tenho dois irmãos mais novos, quando engravidei o Owen tinha nove anos e a Katie era um bebê de dois anos, logo eles não sabiam de nada na época. Para os meus pais eu contei um tempo depois, não tinha coragem de encará-los sabendo o que eu tinha feito, eu estava em Nova York e tinha 21 anos, era para eu estar ingressando em uma faculdade que era o desejo deles. Quando souberam que tinham uma neta que eles não conheciam, ficaram super chateados. Eles queriam conhecer você a todo custo, mas eu tive que explicar que havia um contrato. Você já estava com dez anos", explicou. "À Katie e ao Owen eu contei anos depois, quando os dois já estavam adultos. E novamente eu tive que enfrentar a ira da minha família por ter concordado em assinar um contrato que não me permitia estar com você. Embora, quando contei à Katie, ela ficou do meu lado. Isso aconteceu já depois que você e eu nos reencontramos... Ela ficou sabendo de tudo, do nosso reencontro inclusive, e ficou triste por mim e por tudo que aconteceu entre nós."
Rachel ouvia atentamente enquanto Shelby falava. Então ela tinha tios e avós... Não. Eles não eram sua família. Shelby havia decidido assim.
"Quando adotei Beth, eles ficaram felizes por mim. Sabiam do meu desejo de ter filhos e que eu não podia mais de forma natural...", sorriu tristemente. "Mas saiba que eles não te amaram menos por isso. Eles ainda desejam conhecer você, inclusive. Mas no momento que você fez dezoito anos a decisão passou a ser sua e não minha ou dos seus pais."
"Mas não foi isso que aconteceu e nós sabemos bem disso", Rachel alfinetou.
Shelby sentiu e recuou.
"Claro, a decisão havia sido minha dois anos antes...", riu sem humor.
Rachel suspirou.
"Eu não estou pronta ainda para conhecê-los... Talvez um dia, não sei."
"A decisão é completamente sua agora. Você sabe a verdade e faz o que for melhor para você. Eu apoiarei."
"Obrigada."
"Não precisa agradecer", Shelby sorriu. "É o mínimo que eu posso fazer depois de errar tanto."
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
"Até mais, Liv. E obrigada mais uma vez pela carona", Madison disse à amiga, saindo do carro com a mochila pendurada no ombro.
"Sem problemas. Nos vemos amanhã na escola. Até, Maddy."
"Tchau. Até amanhã."
Madison entrou em casa após ver o carro de Olivia desaparecer pela rua. Tudo que encontrou foi o silêncio, estranhando.
"Alguém em casa?"
Nada. Ela franziu as sobrancelhas, colocando sua mochila no chão perto da entrada. Não se lembrava de seus pais terem dito que iam sair naquela tarde.
"Mãe? Pai?", tentou outra vez, subindo as escadas.
"No quarto, filha", ouviu seu pai responder.
Terminou de subir as escadas correndo e entrou no quarto de seus pais no fim do corredor. Encontrou Jesse sentado na cama, encostado na cabeceira com um livro nas mãos.
"Oi, papai."
"Oi, meu amor", sorriu colocando o livro na mesinha de cabeceira para abraçar a menina. "Quem trouxe você?"
"A Olivia estava de carro e me deu uma carona", deu de ombros, se jogando de costas na cama espaçosa. "Onde a mãe tá?"
"Saiu pra se encontrar com o Kurt. Eles tinham coisas a resolver do teatro."
Madison assentiu e então uniu as sobrancelhas, erguendo a parte superior de seu corpo e se apoiando no colchão pelos cotovelos.
"Com o tio Kurt? Tem certeza?"
"Sim, foi o que ela disse."
"Faz quanto tempo que ela saiu?"
"Uma hora mais ou menos. Aproveitei que estava sozinho e resolvi subir pra ler um pouco", Jesse explicou e encarou a menina, que tinha a expressão completamente confusa. "O que foi, querida?"
"Tem vinte minutos que eu saí da casa da Zoe e tenho certeza absoluta que o tio Kurt estava em casa. Inclusive, assistindo um filme com o tio Blaine."
Jesse ergueu uma sobrancelha. Por que Rachel mentiria sobre onde iria? Ela não era disso. Madison viu seu pai ficar pensativo e se sentou na cama, preocupada.
"Pai?"
"Eu não estou entendendo. Ela falou que precisava resolver algumas pendências no teatro antes de começar o novo projeto amanhã. E disse que o Kurt ia junto", Jesse divagou. "De repente seu tio não pode ir ou não precisavam dele..."
"É, talvez...", Madison deu de ombros.
Jesse ainda achava aquilo muito estranho. Rachel havia dito que iria se encontrar com Kurt e que não tinha hora para voltar. Buscando seu celular na mesinha de cabeceira, ele abriu a caixa de mensagens com a esposa.
"Vou pro meu quarto fazer lição de casa", Madison anunciou se levantando. Jesse assentiu ainda distraído com o telefone.
'Rach, ta tudo bem? Vai demorar muito ainda pra voltar pra casa? Maddie já chegou... Me responda assim que possível. Te amo' ~ J.
Ele clicou em 'enviar' e esperou. A mensagem havia ido, mas não tinha sido visualizada. Rachel devia estar ocupada no teatro, mas ele sabia que assim que ela visse, responderia.
Voltando a se recostar na cama, Jesse pegou o livro e abriu na página marcada, mergulhando novamente na leitura interrompida.
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
"Maddie", Rachel chamou, subindo as escadas do duplex.
Ela rolou os olhos quando ouviu os passinhos apressados pelo corredor e o som de risadas infantis.
"Você não me pega, mamãe!"
"De novo não, senhorita", Rachel brincou e correu atrás da menina, que se escondeu no closet no quarto de seus pais.
"Adivinha onde estou primeiro!", gritou a voz infantil.
"Onde será que a Maddie foi? Será que está debaixo da cama junto com os chinelos da mamãe?"
Mais sons de risadas e Rachel sorriu, entrando em seu closet.
"Será que ela foi engolida pelo paletó do papai?"
Fazendo suspense exagerado, Rachel se abaixou e encontrou a menininha encolhida no fundo do armário, abraçando as perninhas e tentando abafar o riso.
"Você me achou, mamãe!"
"Eu mereço um prêmio por isso, não acha? Você é a melhor do mundo em se esconder, foi muito difícil!"
Madison assentiu e pulou nos braços da mãe, fazendo Rachel soltar um gritinho e cair sentada no chão. A garotinha gargalhava quando seu rosto corado foi preenchido por beijos.
"Para, mamãe!"
"Ok, mocinha. Hora do banho."
Rachel ficou de pé com a filha ainda nos braços e acomodou Madison em seu quadril, a sustentando. As duas saíram do closet e Rachel caminhou até o banheiro no corredor.
"Depois podemos brincar de Barbie?"
"Hoje não, amor. Está quase na hora de você ir para a cama. Podemos ler um livro, o que acha?"
"Cachinhos Dourados e os Três Ursos?"
"Claro. Mas primeiro um banho, sua fedorentinha."
Não eram todas as noites que Rachel ou Jesse tinham a oportunidade de cumprir a rotina da hora de dormir com a filha, então sempre que não tinham que trabalhar eles aproveitavam o máximo. Madison estava crescendo rápido demais diante de seus olhos, e eles conheciam muito bem os ossos do ofício.
Depois de banhada e vestir sua camisola da Pequena Sereia, Madison deitou em sua cama e Rachel se deitou ao seu lado com o livro. Com uma mão, Madison enrolava em seu dedinho uma mecha do cabelo da mãe e com a outra sustentava o copo infantil com tampa contendo leite morno. Seus olhos azuis estavam atentos à história da família de ursos quando ela interrompeu a mãe.
"Mamãe, você tem dois Papai Ursos?", questionou em sua inocência de cinco anos e meio.
Rachel foi pega de surpresa, mas sorriu antes de responder.
"Sim, amor. O vovô Hiram e o vovô LeRoy são meus Papais Ursos."
Madison processou aquela resposta por alguns segundos e logo voltou a perguntar.
"Você não tem Mamãe Urso?"
Rachel encarou a filha por segundos antes de voltar os olhos ao livro.
"Bom, a mamãe sempre teve dois papais, como já te expliquei. Todas as famílias são diferentes umas das outras e a nossa também é."
"Igual a família dos ursos, que tem três ursos e uma menina."
"Isso mesmo, espertinha", Rachel riu e fez cócegas na barriga da menina, que se contorceu rindo.
"A Madison é linda", Rachel ouviu Shelby murmurar depois de silenciosos minutos.
"Sim, ela é...", Rachel sorriu minimamente. Depois de abrir tantas feridas, aquele definitivamente era um assunto aliviador.
"Você e Jesse a criam muito bem. Ela é uma menina especial."
Rachel observava a mulher derramar elogios à sua filha e sentiu algo diferente no peito, um sentimento quente.
"Maddie definitivamente foi uma surpresa em nossas vidas, mas não menos amada por isso. A tive com vinte anos, estava ainda consolidando uma carreira profissional e com um bebê nos braços. Não foi fácil."
"Imagino..."
"Jesse foi fundamental. Ele e nossos amigos me mantiveram de cabeça erguida a cada rejeição num projeto, a cada fase difícil. E ela é meu equilíbrio. Me mantinha com os pés no chão ao mesmo tempo que me dava forças para acreditar que eu podia alcançar os meus objetivos. A maioria das coisas que fiz na vida foi por ela. Por mim também, é claro."
Shelby não pode deixar de rir. Rachel era como ela quando era mais nova, e talvez fosse pretensioso ela gostar de saber disso.
"Os filhos fazem isso conosco... Fazemos tudo pensando neles antes de nós mesmos. Na maioria das vezes."
Rachel mordeu a língua para evitar retrucar aquilo, mas era verdade o que Shelby tinha dito, ela não podia negar.
Como se adivinhasse o tema da conversa entre as duas, o barulho de chaves na porta se fez presente seguido do som de vozes conversando animadamente. Shelby sentiu o corpo gelar ao reconhecer aquelas vozes.
"Mãe, chegamos!", a voz de Beth anunciou da entrada.
"Me desculpe, Rachel", Shelby encarou sua filha mais velha com um olhar de lamentação.
"Hey, Shelbs. Como vo-", sua irmã entrou na sala naquele momento e parou de supetão ao ver que Shelby não estava sozinha. "Olá."
Katie reparou três coisas ao se deparar com aquela cena:
Shelby tinha os olhos inchados.
A outra mulher tinha os olhos inchados.
A outra mulher era a cópia mais nova de sua irmã.
Não podia ser... Podia?
"A tia Katie-", Beth entrou falando e também se interrompeu ao ver o que estava acontecendo. "Err... Oi?", seu tom de voz era incerto.
Shelby suspirou. Não era para ser daquele jeito, mas aparentemente o destino adorava pregar peças.
"Beth, Katie, essa é a Rachel. Minha... Amiga. Rachel, conheça Beth, minha filha, e Katie, minha irmã caçula."
Rachel sentiu como se pudesse desmaiar a qualquer momento. Ela não estava preparada para aquilo. No entanto, ela faria jus ao Tony Award em sua prateleira em casa.
"Olá. É um prazer conhecer vocês", fingiu um sorriso.
De pé, ela cumprimentou as duas. Ao apertar a mão estendida de Katie, sentiu a mulher encará-la de uma forma diferente e dar um sorriso afável.
"O prazer é meu, Rachel", Katie a cumprimentou de volta, balançando a mão.
"Tá tudo bem por aqui?", Beth também havia reparado nos olhos inchados de quem esteve chorando, além de captar o clima tenso. Shelby tratou de limpar a garganta para disfarçar a voz rouca e sorriu encorajadamente para a filha.
"Está sim, querida. Nós só estávamos conversando."
"Já está ficando tarde, é melhor eu ir", Rachel disse depressa. Ela pegou sua bolsa no sofá e se virou para sair. "Foi realmente um prazer conhecê-las. Me desculpe se parecer rude da minha parte, mas é que eu realmente preciso ir agora."
"Não há problemas, Rachel. Não se preocupe", Katie a garantiu, sorrindo novamente.
"Eu a levo até a porta", Shelby se prontificou. Ela não queria que Rachel fosse ainda, mas entendia a situação. E sua irmã estava atirando olhares significativos a ela.
"Até mais, Beth e Katie."
"Tchau", elas disseram em uníssono.
Na porta, Rachel pisou na varanda e se virou para olhar Shelby.
"Nós, hmmm... Podemos marcar algo, quem sabe? Um jantar talvez...", Shelby balbuciou.
Rachel quis rir da ironia da situação, mas se conteve em apenas morder o lábio.
"Eu preciso de um tempo para pensar."
"Oh. Claro", Shelby não pode conter o desapontamento, mas ela entendia. E sentiu que merecia. "Leve o tempo que precisar, Rachel. E quando quiser conversar, eu estarei aqui. Novamente, me desculpe."
Rachel assentiu e desceu os poucos degraus, caminhando até seu carro. Quando o veículo sumiu na rua, Shelby fechou a porta e se virou, dando de cara com sua irmã mais nova a observando com uma sobrancelha perfeitamente arqueada, os braços cruzados e o quadril levemente erguido.
Shelby conhecia aquela posição. Suspirando, ela passou uma mão pelos cabelos.
"Katie, agora não..."
"Nada disso. Já mandei Beth lá pra cima e nós duas vamos agora mesmo conversar sobre o que eu vi aqui. Eu não trabalho amanhã então só volto para Akron na parte da manhã. É uma longa viagem e eu estou cansada", Katie disse tudo aquilo em um único fôlego e viu a irmã mais velha revirar os olhos. Shelby sabia que não tinha escapatória. "Vem, eu achei uma garrafa de vinho no seu armário."
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
Jesse desviou os olhos da TV quando percebeu Madison entrar na sala carregando mais livros e fichários do que ele imaginava que os finos braços poderiam suportar. Arqueando uma sobrancelha, ele observou a menina abrir os braços, jogando tudo em cima do sofá.
"Cansei de ficar no quarto."
Ela então se sentou na parte seccional do sofá, procurando a posição perfeita junto com sua manta favorita antes de pegar um dos livros e começar a folheá-lo, ignorando a presença de seu pai a partir daquele momento. Jesse balançou a cabeça e voltou os olhos para a tela plana.
Se passaram cinco minutos e ele escutou a primeira bufada, olhando para o lado e vendo Madison esfregar a borracha com força contra a folha, uma carranca firme em sua expressão.
"Matéria idiota!", esbravejou.
"Matemática?", Jesse perguntou em um tom divertido.
"Sim. E eu odeio cada dia mais!"
"Ódio é uma palavra muito forte", ele riu.
"E perfeita pra expressar o que eu sinto por essa matéria."
Eles foram interrompidos pelo som de chaves abrindo a porta da frente. Jesse se levantou do sofá e seguiu para o foyer, encontrando a esposa em um estado completamente diferente do que ela havia saído quase três horas antes.
"Rach."
"Onde está nossa filha?", foi a primeira coisa que ela perguntou. Jesse franziu o cenho.
"Na sala, fazendo lição", ele observou ela tirar o casaco e pendurá-lo junto com a bolsa no armário. Estava nítido que ela não estava bem, Jesse a conhecia perfeitamente e sabia dizer quando ela havia chorado. "Amor, o que aconteceu?"
O tom carinhoso na voz de Jesse foi suficiente para fazer com que as lágrimas se juntassem atrás de seus olhos. Não sabia nem como ainda as tinha. Mas ela não iria desmoronar com Madison por perto.
"Eu tive uma reunião estressante e preciso subir e tomar um banho. Estou com dor de cabeça."
Jesse balançou a cabeça assentindo, ao mesmo tempo que tentava sondar a esposa.
"Ok. Se quiser eu preparo uma banheira pra você. Você está tensa."
Fechando os olhos por breves segundos, Rachel deixou que Jesse a abraçasse. Ela encostou a cabeça no ombro dele e inspirou o familiar cheiro que a acalmava enquanto os braços dele a rodeavam amorosamente. Não pode evitar a fungada que escapou.
"Meu bem? Me conta...", ele acariciou os cabelos dela.
Rachel se afastou e balançou a cabeça.
"Não com a Mad por perto. Depois conversamos."
"Eu posso dizer à ela para subir..."
"Não. Deixe-a fazer a lição. Não quero interrompê-la e fazê-la se trancar no quarto", suspirou sob o olhar atento de Jesse. "Eu vou tomar um banho e relaxar. Vai ficar tudo bem."
"Vem, vamos subir e eu vou preparar uma banheira enquanto você toma um analgésico", ele pegou a mão dela e a puxou levemente para as escadas. "Você comeu?"
"Não estou com fome..."
Na suíte, enquanto Jesse ligava a torneira com água morna e separava os sais de banho, Rachel estava de pé em frente ao balcão da pia procurando uma cartela de analgésicos na caixa de remédios. Ela encontrou, descartou dois comprimidos da cartela de alumínio e encheu o copo que eles deixavam ali com água da torneira. Após engolir os dois comprimidos, ela depositou o copo no balcão e se apoiou ali, as duas mãos segurando o mármore como um ponto de sustentação e a cabeça abaixada, deixando com que seus cabelos formassem uma cortina escura ao redor de seu rosto.
Jesse se virou quando a banheira começou a encher e a encontrou nesta posição. Seus ouvidos bem treinados da carreira profissional puderam ouvir os sons das técnicas de respiração usada por cantores. Rachel estava tentando controlar a sua.
"Amor?"
Ele se aproximou dela, pensando que estava passando mal, e quando esteve ao seu lado Rachel ergueu a cabeça e ele viu o olhar amedrontado dela, a vermelhidão ao redor da íris castanha e as bochechas coradas. Rachel apertou os olhos quando viu a imensa preocupação nas orbes azuis de Jesse e foi tudo que faltava para ela quebrar.
Jesse sentiu Rachel jogar o corpo contra seu peito em seguida o som dos soluços que escapavam seus lábios.
"Oh, Rach."
Não dava mais para segurar. As lágrimas venceram a luta e se deixaram escorrer por seu rosto enquanto seu corpo tremia e ela se segurava em Jesse como se fosse um porto seguro. E ele de fato era o seu.
Jesse deixou que ela chorasse em seu peito, enquanto acariciava suas costas e hora ou outra beijava o topo de sua cabeça. Ele só se afastou minutos depois para fechar a torneira da banheira e voltou para o lado dela, passando os braços ao redor de sua cintura.
"Vem, vamos para a cama."
Sentado na cama com as costas na cabeceira, ele acomodou Rachel em seu colo com a cabeça em seu ombro. Ela afundou o rosto no pescoço dele e deixou os soluços saírem juntamente com a dor em forma de lágrimas torrenciais.
Por mais alguns minutos ela chorou copiosamente até que sentisse que podia começar a se acalmar. Aos poucos os soluços diminuíram e se tornaram ocasionais, assim como as fungadas. Jesse apertou os braços ao redor dela e inclinou a cabeça para conseguir olhá-la nos olhos.
"Se sente melhor?"
Rachel assentiu e se afastou um pouco, permanecendo sentada onde estava. Ela o encarou e sorriu minimamente, acariciando seu rosto e sentindo os resquícios da barba pinicando a palma de sua mão.
"Obrigada."
"Você não tem que me agradecer, sabe que vou estar aqui sempre que precisar", ele também sorriu e se inclinou para depositar um singelo beijo nos lábios dela. "Quer conversar?"
"Quero. Mas antes precisamos descer e falar com a Maddie. Ela vai estranhar o nosso sumiço..."
"Você não vai fazer nada. Eu vou descer e falar com ela, ver algo para comermos e enquanto isso a senhorita vai tomar um banho. Vai te fazer melhor."
Rachel queria relutar, mas ela sabia que Jesse estava certo. E ela não queria que Madison a visse naquele estado, ela iria fazer perguntas e Rachel não queria mentir mais ainda. Por fim ela assentiu e recebeu outro beijo.
"Obrigada."
"Não precisa agradecer, mas de nada. Agora vai tomar o seu banho que eu volto daqui a pouco e podemos conversar."
Madison levantou os olhos quando seu pai entrou na sala novamente. Ela já havia terminado toda a lição e agora estava deitada no sofá assistindo um filme.
"Cadê a mamãe?"
"Ela está lá em cima no quarto. Chegou da reunião não se sentindo muito bem. A deixei tomando banho e depois vai deitar", Madison deixou a preocupação surgir em sua expressão e Jesse se sentou ao seus pés, acariciando o tornozelo da menina. "Tá tudo bem, ela só tá com dor de cabeça. Já tomou um remédio e quando ela descansar vai se sentir melhor."
"Ok", assentiu mais calma e voltou os olhos para a TV.
"Você quer pedir algo para jantar?"
Seus olhos se iluminaram e ela assentiu sorrindo. Jesse não pode deixar de rir e balançou a cabeça.
"Podemos pedir tailandês?"
"Pode. Liga e pede salada de arroz para sua mãe. Pra mim pode ser qualquer coisa."
"Tá bom."
Quando a comida chegou, Jesse deixou que Madison fosse comer no quarto dela enquanto ele levou uma bandeja com seu prato e o de Rachel. A encontrou na cama, recostada em travesseiros na cabeceira e com o celular em mãos. Seu cabelo estava úmido do banho e ela vestia uma camisola. Quando o viu entrar carregando a bandeja, fez uma careta.
"Eu disse que estava sem fome..."
"Pedi uma salada pra você, é leve e vai te fazer bem. Não pode ficar sem comer, querida."
Eles comeram em silêncio até Rachel o quebrá-lo.
"E Maddie?"
"No quarto. Disse que ia maratonar Once Upon a Time. Já sabe, só teremos notícias dela amanhã."
Rachel se deixou rir e tomou um gole de sua água. Quando eles terminaram, Jesse desceu com a bandeja e deixou no balcão da cozinha, ele podia limpar mais tarde. Agora era hora de cuidar de sua esposa.
Assim que se acomodou na cama, abriu os braços para que Rachel pudesse se aconchegar nele. Ela respirou fundo apoiando uma mão no peito dele e sentiu o beijo delicado em seus cabelos molhados.
"Você pode me contar o que aconteceu?", perguntou carinhosamente.
Novamente sentiu as lágrimas vindo. Estava exausta de chorar, mas parecia que não adiantava, por mais que se esforçasse as lágrimas teimavam em vir. Havia chorado mais na banheira, sozinha, deixando toda a dor tomar conta de seu peito. E agora, com o marido tão carinhoso e paciente com ela, teve vontade de chorar de novo.
Não tinha como escapar. O trauma havia sido revisitado depois de anos guardado no fundo de sua mente. Estava vivo e sangrando bem ali diante dos olhos de quem quisesse enxergar.
Jesse a abraçou apertado quando sentiu sua camisa molhar onde o rosto dela estava encostado.
"Eu não fui ao teatro hoje...", confessou.
Jesse sentiu o corpo enrijecer levemente, sentindo-se enganado. Mas agora não era hora para isso, primeiro ele deixaria que Rachel se explicasse e então eles poderiam falar sobre o porquê ela sentiu a necessidade de mentir para ele.
"Ok?"
"Me desculpa por mentir, mas eu sabia que se dissesse o que iria fazer você ia me impedir. Eu não precisava disso. Eu precisava ir acertar as contas com o meu passado."
Jesse se mexeu fazendo com que ela erguesse o corpo e o encarasse.
"Onde você estava, Rachel?"
"Eu fui até a casa de Shelby."
Ela esperou tudo. Qualquer reação frustrada do marido depois dele ouvir aquela informação. Esperou que ele gritasse, que brigasse com ela, que dissesse que ela não deveria ter ido lá sozinha. Mas nenhuma dessas coisas aconteceu.
Jesse a encarou de volta, olhando em seus olhos com tanto amor que Rachel sentiu como se pudesse se afogar naquele oceano azulado. O que ele fez a surpreendeu.
Ele abriu os braços para recebê-la em seu peito novamente. O abraço foi tão comovente que Rachel deixou mais lágrimas rolarem por suas bochechas úmidas.
"Me desculpa. Sei que não deveria ter ido sem falar nada, mas eu precisava fazer isso pra poder enfim resolver esse assunto."
"Shhh. Fica calma, tá tudo bem", ele sussurrou em seu ouvido. "Eu sei o quão esse assunto te amedronta, eu jamais ficaria com raiva. Shhh."
Jesse permaneceu com ela nos braços até que pudesse se acalmar novamente. Ele havia voltado da cozinha com outra garrafa de água e ofereceu à Rachel quando as lágrimas deram uma pausa. Ela então contou ao marido o que ela e Shelby haviam conversado.
"Eu senti, a minha vida toda, esse buraco que não conseguia ser preenchido desde que eu soube que tinha uma mãe por aí no mundo. Eu conheci meus amigos, conheci você, temos as nossas famílias, tivemos a Madison, e ainda assim o buraco estava lá. Foi difícil descobrir o que era, mas eu finalmente consegui. Eu precisava de respostas."
Jesse assentiu e suspirou. Ele acompanhou Rachel durante alguns anos do seu longo processo de cura contra o trauma que Shelby havia deixado na jovem menina. Ele havia presenciado algumas crises, sabia o quanto aquilo abalava sua esposa. E ele também sabia que uma ferida como aquela não se fechava de um dia para o outro, e a certeza disso foi quando Rachel descobriu que Shelby estava de volta na vida deles.
"Eu não estou com raiva, como já te disse", ele começou. "Eu só estou realmente preocupado, Rach. Você podia ter falado comigo. Tudo que você teve que ouvir sozinha..."
"Foi muito difícil sim, eu não vou mentir. Mas foi necessário para que eu pudesse seguir em frente. Eu sei que você me apoiaria como vem fazendo todos esses anos, Jess, mas eu senti que precisava fazer aquilo sozinha. Eu tinha que enfrentar o meu passado que tava batendo na minha porta e tirando o meu sossego. Nem você, nem meus pais, nem os nossos amigos poderiam resolver aquilo pra mim e me dar as respostas que eu precisava."
"Eu sei, meu amor. E eu sinto muito que teve que ser dessa forma."
Rachel sorriu tristemente e se deixou ser abraçada outra vez, seus lábios encontrando o caminho muito conhecido até os lábios de Jesse.
"Obrigada por estar comigo", ela murmurou quando se separou do beijo, colando sua testa na dele e permanecendo de olhos fechados.
"Sempre, meu bem. Sempre."
Eles deitaram abraçados debaixo da coberta enquanto Jesse a consolava. Havia sido um dia muito longo e ela estava exausta, nenhuma palavra mais precisou ser dita.
Aquele assunto não estava encerrado ainda. Muitas conversas ainda aconteceriam, eles precisavam agora decidir o que fariam com toda aquela informação. Rachel tomaria o seu tempo para processar e ele estaria ao seu lado durante todo o trajeto, como vinha fazendo todos esses anos que estavam juntos.
No entanto, naquele momento, ele só precisava estar ali para segurá-la nos braços e ser o suporte que ela precisava. E que ela precisaria nos dias a seguir.
BTY ~~~ BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
"Ok, pode contar tudo."
Shelby bufou.
"Contar o que, Kathryn? Não tem nada para contar!"
"Por favor né, Shelby", a mulher mais nova desdenhou. "Eu entro na sua casa e tá você e uma outra mulher com a cara de quem perdeu um ente querido. Mulher essa que é a sua cópia!"
Shelby fechou os olhos, massageando as têmporas. Óbvio que Katie havia reparado em todos os detalhes.
"Eu não sei o que você está querendo com isso, Kathryn. Rachel é uma colega..."
"O inferno que é!", esbravejou. "E não me venha com 'Kathryn'. Aquela é a Rachel, não é?"
Shelby a encarou como se ela tivesse duas cabeças.
"Não foi o que eu acabei de dizer?"
"Não se faça de sonsa, palhaça. Você sabe do que eu to falando."
Soltando uma lufada de ar raivosa, Shelby levou as mãos aos cabelos e os puxou levemente.
"Sim. Ok, você venceu!", exasperou. "Aquela é a Rachel, o bebê que eu gerei como barriga de aluguel."
"Eu sabia!", Katie sorriu de forma maníaca.
"Fala baixo, por favor", olhou brevemente para as escadas. "Beth não sabe dessa história."
"Ok, desculpa...", Katie diminuiu o tom. "Shelbs, que coisa! Como isso foi acontecer?"
"Foi tudo muito rápido. Em um minuto nós estávamos vivendo nossas vidas normalmente e no minuto seguinte eu sou treinadora da filha dela."
"O quê?!", Katie gritou outra vez, os olhos azuis arregalados.
Shelby se deu conta do que havia feito e gemeu descontente. Para que ela foi abrir a boca?
"Katie!", ralhou com a irmã.
"Como assim você tem uma neta?", Katie ainda estava incrédula.
Ela jogou aos ventos seu tom de voz, aquela informação era inacreditável demais para ser sussurrada.
"Você tem uma neta?!"
Shelby sentiu os ombros caírem e os olhos fecharem lentamente com a voz elevada vinda do pé das escadas.
Só podia ser uma piada.
Por hoje é isso, meus amores!
Capítulo delicado, não? Eu amei escrevê-lo, amo um drama familiar. E como nada nessa vida é simples, as coisas não podiam terminar apenas envolvendo Shelby e Rachel, não é mesmo? Agora que tudo foi jogado no ventilador, vai se espalhar em todos os cantos. Aguarde e verá!
OBS: De vez em quando enquanto estou escrevendo, eu gosto de colocar uma playlist aleatória como som de fundo no cômodo, e ironicamente enquanto eu escrevia as cenas de Shelby e Rachel tocou "Shake It Out" de Florence + The Machine. Coincidência ou não, se encaixa perfeitamente. Se você não conhece essa música, veja a letra e saiba do que eu estou falando.
Espero que tenham gostado e me digam suas opiniões. E NÃO DEIXEM DE OLHAR O TWITTER!
Nos vemos em breve!
