Voltei com mais um capítulo novinho em folha!
Sei que demorei e teve um motivo: a vida aconteceu! É clichê, sei disso, mas é a verdade. Com o isolamento social, a readaptação da rotina, a finalização da faculdade, os projetos que precisam ser concretizados, a saúde mental instável, infelizmente a escrita fica em segundo plano. Mas sem lamentações aqui, quero trazer felicidade e um tempo de bom proveito com esse capítulo.
Estamos agora na metade da história, e a montanha-russa de sentimentos ta indo para cima e para baixo com nossos personagens tão amados. Quando de um lado as coisas parecem que vão ficar melhores, a outra ponta afrouxa e tudo desanda. Tivemos um cliffhanger no último capítulo, eu sei, mas estou de volta pra mostrar como isso terminou... ou acabou de começar? Interprete como quiser.
Sem mais delongas, aproveite a leitura e me deixe saber depois o que achou e também o que acha que vem por aí!
Disclaimer: Eu não possuo Glee, caso contrário a série nunca teria um fim.
As primeiras notas soaram no ar denso enquanto seus dedos dançavam pelas teclas pretas e brancas do amplo piano. Sentiu os olhos se fecharem automaticamente enquanto a boca se abria para entoar a letra tão conhecida por ela.
"When tomorrow comes, I'll be on my own, feeling frightned of the things that I don't know...When tomorrow comes, tomorrow comes, tomorrow comes..."
Beth sentiu as primeiras lágrimas do dia encherem seus olhos, mas ela não os abriu em momento algum, e nem deixou que elas escorressem.
"And though the road is long, I look up to the sky and in the dark I found, I lost hope that I won't fly, and I sing along... I sing along... And I sing along...", esticou a última estrofe numa longa nota acompanhada da forte pressão contra a tecla.
Mais uma vez as lágrimas teimaram e sentiu os olhos arderem. Em seu peito algo pesado a sufocava e era como se a prendesse contra o chão. Aquela canção não havia sido escolhida por acaso, a letra tinha o misto da angústia que sentia e da esperança que procurava. E sabia onde encontrar, só estava sendo teimosa.
Respirou fundo, ainda de olhos fechados, e tomou o fôlego necessário antes de ouvir sua própria voz reverberar por todo o espaço no momento do refrão.
"I got all I need when I got you and I, I look around me and see a sweet life, I'm stuck in the dark but you're my flashlight, You're getting me, getting me through the night..."
Sentiu a primeira lágrima escorrer por sua bochecha, e dessa vez não a parou. Tomou outro fôlego para controlar o choro em sua garganta e continuou.
"Kick start my heart when you shine it in my eyes, can't lie it's a sweet life, I'm stuck in the dark but you're my flashlight... You're getting me, getting me through the night... Cause you're my flashlight..."
Teve que parar imediatamente quando um soluço teimoso subiu por seu corpo, impediu sua voz de sair e escapou pelos lábios. Esse, seguido de mais outros, deu início a uma torrente de lágrimas que molhavam suas bochechas coradas e pingavam em seu suéter. Suas mãos abandonaram as teclas do piano e foram para seu rosto, e ela não poupou o vazio do auditório de escutar seu pranto de angústia.
Sua vida era repleta de segredos. Beth sentia-se traída por sua própria família, sua própria mãe! A pessoa que ela mais amava, mais confiava, e mesmo que o relacionamento das duas não estivesse nos melhores termos, Shelby era uma das poucas pessoas que ela podia chamar de família. Estava tudo muito confuso em sua jovem mente ainda, sua mãe lhe contara coisas na noite anterior, mas a menina não havia processado tudo ainda.
E ainda tinha Rachel... Tudo isso deixava Beth furiosa com o mundo. Não havia sequer uma pessoa envolvida nessa história que estivesse livre da fúria da adolescente. E essa fúria, noite passada, havia se manifestado em forma de silêncio quando, após escutar tudo que sua mãe tinha para lhe falar, Beth apenas se levantou e subiu as escadas numa pressa que deixou Shelby sem reação. Beth tinha disso, ela fugia da maioria dos problemas. Mas agora, sozinha no auditório vazio da escola, antes mesmo do sinal da primeira aula tocar, essa fúria se manifestava através das lágrimas salgadas em seu rosto, na angústia em seu peito e na busca por uma vida sem segredos.
Shelby caminhou até o sofá e entregou a caneca de leite quente à Beth antes de se sentar ao lado da filha. Katie havia subido as escadas e se trancado no terceiro quarto da casa, dando o tempo necessário para que as duas conversassem.
Beth não conseguia olhar nos olhos da mãe. Encostou a borda da caneca em seus lábios e assoprou lentamente antes de bebericar o líquido adocicado, sentindo seu corpo relaxar minimamente com o acalento da bebida quente. Apesar de sua cabeça estar fervilhando.
Shelby, sentada na outra ponta do sofá, a observava atentamente. Uma das coisas que mais temia havia acontecido minutos antes, quando ouvira a voz espantada de Beth, e se virara vendo a menina encarar ela e Katie com os olhos verdes esbugalhados. Seria cômico se a situação não fosse séria. Shelby não podia imaginar que aquela história chegaria aos ouvidos de sua filha e da pior maneira. Mas agora ela precisava lidar com essa obra do destino e enfrentar todo e qualquer questionamento de Beth. Obviamente que ela poderia omitir partes da história que lhe favorecessem, mas não sentia que devia, não mais. Não depois da conversa com Rachel. Se o destino estava lhe dando todas as peças para que ela jogasse decentemente, Shelby precisava deixar as coisas claras, principalmente com uma das pessoas que ela mais amava no mundo. Ela só não estava preparada naquela noite.
Beth estava em fúria. Os primeiros minutos após ela escutar sua mãe e tia conversando na cozinha foram de completa incredulidade da menina. Ela pisou fortemente até se aproximar das duas mulheres com a expressão questionadora. Katie abria e fechava a boca sem saber o que dizer e havia perdido o rubor em seu rosto, enquanto Shelby mantinha os olhos fechados e tentava controlar sua respiração e ansiedade. O olhar de Beth era penetrante, ela chegou a pressionar a mãe para que falasse alguma coisa. Por fim Shelby a encarou de volta e suspirou antes de assentir com a cabeça, confirmando que sim, ela tinha uma neta. Beth ficara estupefata, dando passos para trás até se escorar na parede, a expressão de completo choque. Katie comprimira os lábios e abaixou a cabeça, sentindo-se culpada por aquele momento estar acontecendo na hora errada. O silêncio na cozinha era ensurdecedor.
Até Shelby resolver quebrá-lo. Alguém precisava tomar as rédeas, e ela sabia que Beth não o faria por choque e Katie por estar se sentindo a pior pessoa do mundo.
"Querida, vamos conversar, sim?", disse à filha, que nada respondeu.
"E-eu... Vou lá pra cima", Katie avisou e não esperou mais nenhuma resposta, o que Shelby ficou grata. Ela poderia se resolver com sua irmã depois, a prioridade agora era Beth.
E agora as duas se encontravam na sala, ainda com o silêncio pairando sobre elas. Com um último suspiro de coragem, Shelby tomou a iniciativa.
"Tem coisas que nem sempre os pais dizem aos filhos com o intuito de protegê-los. É clichê, eu sei, mas é a verdade. Porém, existem coisas também que os pais fazem para proteger a si mesmos de uma possível decepção", Shelby falava com os olhos atentos em Beth, que encarava um ponto fixo qualquer. "Não dizer a você sobre coisas do meu passado envolve não só proteger você, mas me proteger. Eu estou sendo o mais sincera possível aqui agora, querida. Não me orgulho do que eu fiz, mas está feito e agora eu preciso lidar com as consequências."
Beth levantou os olhos pela primeira vez e encarou a mulher mais velha. Shelby tinha tristeza nos olhos que estavam marejados, e isso fez com que a menina sentisse um puxão em seu estômago. Por mais surpresa e confusa que estivesse, não era nada bom o sentimento de ver sua mãe naquele estado.
"Eu... Eu só não queria ter descoberto dessa maneira. De uma maneira que eu nem devia estar escutando."
Shelby assentiu.
"Nem eu queria que você descobrisse assim. Eu iria lhe contar? Não sei, talvez algum dia, ainda mais que essa história está na minha vida novamente. Mas eu sentia que não era o momento e acabei sendo pega de surpresa. Talvez o momento tenha chegado sem eu perceber."
Mais alguns minutos de silêncio enquanto Beth bebia seu leite e Shelby organizava os pensamentos.
"É ela, não é?", Beth questionou com a voz baixa. "A mulher que estava aqui quando cheguei com a tia Katie. Ela é a sua filha."
Shelby respirou fundo e assentiu. Beth suspirou e terminou sua bebida, se inclinando para depositar a caneca vazia na mesinha ao lado do sofá. Se ajeitou novamente no sofá, colando as pernas junto ao peito e abraçando-as. Encarou Shelby novamente.
"E a sua neta? Você a conheceu? Quantos anos ela tem?"
A mulher sentiu o ar ficar preso em sua garganta e desviou os olhos. Ela não tinha certeza se Beth ligaria os pontos rapidamente, mas aparentemente a menina não sabia da relação de Rachel e Madison. Era Jesse quem buscava Madison na escola na maioria das vezes, e quando Rachel o fazia, a mulher nunca saía do carro. Shelby não tinha muita certeza de como Beth reagiria ao saber de Madison, mas ela podia imaginar que não seria algo bom.
"Sim, eu a conheci...", respondeu, temerosa. "Ela é alguns anos mais nova que você, tem quatorze."
Beth se espantou brevemente. Ela nunca imaginara sua mãe sendo avó, muito menos avó de uma adolescente. Por Deus! Beth era tia de uma menina três anos mais nova que ela.
"Uau", foi a única coisa que disse antes de continuar. "Mas o que aconteceu entre vocês? Quero dizer, por que vocês nunca se falaram? Por que eu nunca a conheci?"
Shelby voltou a encará-la.
"Muitas coisas aconteceram e essas coisas me fizeram tomar decisões que não foram fáceis. Rachel foi gerada por mim como barriga de aluguel para um casal homossexual, eu não tinha qualquer intenção de ser a mãe dela. Meu papel era apenas ajudar dois homens que tinham muito amor para dar a uma criança. Então fiz meu papel."
Aquela história nunca se tornava fácil, por mais que os anos se passassem. Shelby então continuou.
"Havia um contrato assinado antes mesmo de Rachel dar seu primeiro grito no mundo. Eu não poderia entrar em contato com ela antes dos dezoito anos, a não ser que ela me procurasse... Foi difícil, mas eu não podia exigir nada, afinal eu não era mãe dela", parou alguns segundos para tomar um fôlego. "Quando ela tinha dezesseis anos, eu tomei a decisão de procurá-la, mesmo sabendo que aquilo seria contra o acordo que havíamos feito, mas eu senti uma necessidade de conhecê-la, de saber como era, dos seus gostos, uma curiosidade incontrolável. Ao mesmo tempo que essa curiosidade me consumia, eu não podia desrespeitar a lei, então fiz com que minha vontade fosse atendida sem quebrar o contrato... Eu a fiz vir até a mim."
Beth arregalou os olhos, surpresa. Ela não imaginava que sua mãe pudesse fazer tal coisa. Pareceu um ato egoísta aos seus olhos, mas nada disse, apenas deixou com que a mulher continuasse a contar.
"Então eu a conheci", deixou de fora propositalmente o como isso aconteceu. Se envolvesse o nome de Jesse na história agora, Beth ligaria os pontos. Uma coisa de cada vez. "Ela veio me procurar depois de receber um presente meu. E quando nos conhecemos, eu me peguei numa situação que eu não imaginava que aconteceria. Ela não era mais o bebê que eu dera à luz anos antes, já era quase uma mulher, com personalidade, sonhos, ambições e que não fazia parte da minha vida. Eu não tinha o direito de fazer o que eu fiz, mas só percebi isso quando a vi e era tarde demais. Eu a machuquei quando decidi que aquilo não estava certo, então eu fui egoísta duas vezes. Não me orgulho disso, Beth, nem por um segundo. Mas naquela época eu achava que estava fazendo um ato de amor, então eu a deixei e segui minha vida a partir dali... Foi quando eu te encontrei." Terminou com um singelo sorriso tomando conta de seus lábios.
Aquilo chamou atenção de Beth. Ela sabia da história que rondava seu nascimento, mas agora sentia que não sabia de tudo. Em sua cabeça, seus pais eram dois adolescentes que não tinham condições de criar uma criança e Shelby decidira lhe adotar. No entanto, sentiu que havia mais coisa que Shelby não lhe contara.
"Fazia quanto tempo desde que você a conhecera? Você sabe... Quando eu nasci..."
"Algumas semanas"
"Oh", aquilo chocou Beth. "Eu a... Substitui, então?", sua voz embargou, sentindo algo esquisito tomar conta de si.
Shelby se levantou e se aproximou da filha, sentando ao seu lado. Pôs uma mão no ombro da menina e a outra em seu joelho dobrado.
"Querida, é claro que não." tratou de dizer, e era uma verdade. Por mais que pudesse soar como aquilo, Shelby nunca teve a intenção de substituir uma filha pela outra. Isso era incabível para ela, doía em seu coração imaginar isso. Tanto Rachel quanto Beth eram completamente insubstituíveis. "Meu pensamento nunca foi esse. Eu jamais substituiria uma filha por outra, jamais! Você foi um presente pra mim num momento repentino, mas que eu sentia que era pra ser. De tantas escolhas que fiz na vida, Elizabeth Caroline Corcoran, uma das que mais tenho certeza que foi a correta foi ter me tornado sua mãe."
Beth deixou as lágrimas em seus olhos escorrerem por seu rosto, as quais ela tratou de rapidamente enxugar com as costas da mão. Shelby se inclinou e beijou a bochecha da filha antes de tomar uma das mãos dela e segurar, fazendo um carinho com o polegar.
"Eu quero que isso fique sempre claro, Beth. Você não substitui a Rachel e nem vice versa. Vocês duas são minhas filhas e eu as amo muito, com todo meu ser, e meu coração tem espaço suficiente para tê-las. Eu não sei se um dia ela irá me perdoar, mas isso não muda nada entre você e eu, entendeu? Nada, jamais, vai mudar o que eu sinto por você."
Beth assentiu levemente e fungou, impedindo as lágrimas de deixarem seus olhos. Shelby percebeu que ela estava se esforçando para não desabar ali e se deixou sorrir, sua menina orgulhosa. Soltando a mão que segurava, Shelby abriu os braços e tomou a filha para si em um abraço apertado. Beth baixou as pernas e se inclinou sobre o peito da mãe, fechando os olhos e sentindo os braços quentes da mulher ao seu redor.
"Nós teremos que conviver todas juntas a partir de agora?", a voz fraca de Beth questionou depois de minutos em silêncio.
Shelby suspirou e depositou um beijo na cabeça da filha antes de responder.
"Eu não sei, querida. Tudo vai depender da Rachel e do que o tempo irá nos dizer. Ela sabe que pode vir até nós...", Shelby se interrompeu quando algo veio até sua mente e ela se afastou levemente da menina para olhá-la nos olhos. "Você... Você se importa? Quero dizer, é claro que sua opinião também será levada em consideração e eu vou entender perfeitamente se você não quiser conhecê-la. Como já disse, minha relação com a Rachel não muda nada na minha relação com você. Irei respeitar sua decisão."
Beth pensou por alguns minutos. Ela estava muito confusa ainda, um pouco chocada pelas revelações. Sentia que não sabia a resposta ainda. Quer dizer, ela tinha curiosidade sim, nunca teve irmãos e não sabia como era ter uma, havia um conflito interno e, não podia negar, uma pontinha de ciúmes. Mas ela não negaria isso à mãe, mesmo que ela mesma não quisesse conhecer Rachel, ela não impediria Shelby de ter uma relação com a mulher. Por mais que, em algum lugar dentro de si aquilo incomodasse e ela ainda não entendia o porquê desse incômodo, ela não queria ser a pessoa a estar no caminho entre as duas mulheres.
Se imaginou, por alguns instantes, no lugar de Rachel. Ela também era uma pessoa que cresceu, de certa forma, sem a presença de certas figuras em sua vida. Por mais que Shelby nunca fizera Beth se sentir como se não tivesse ninguém, a menina ainda era uma criança que não tinha em sua vida todas as figuras de parentesco. Não que isso importasse agora, mas era um fato constatado. E se colocando no lugar de Rachel, Beth fora aquela um dia a se questionar como seria ter seus pais biológicos em sua vida.
"Eu... Eu posso pensar por mais um tempo?"
"Claro, meu amor. Você pode pensar o tempo que precisar, saiba que eu vou estar aqui pra te ajudar. Não se sinta pressionada a nada, e por favor, me diga como está se sentindo para que eu possa lhe ajudar a enfrentar isso."
Beth assentiu e voltou a deitar a cabeça no peito da mãe, ainda sentindo seu peito angustiado e sem saber que caminho tomar.
O barulho do sinal da primeira aula soou pela escola, assustando Beth. A menina tratou de enxugar suas lágrimas, pegar sua mochila e caminhar para fora do auditório até o banheiro feminino. Ela tinha cinco minutos para disfarçar seu rosto vermelho e olhos inchados, precisava correr.
Depois que fora para a cama na noite passada, com tantas coisas martelando sua cabeça, havia um pensamento que lhe invadiu. É claro que sua história era algo que ficava em sua mente, às vezes em uma gaveta escondida e às vezes na parte frontal, porém estava ali. Deitada na cama sem conseguir dormir, novamente o pensamento sobre seus pais lhe atingiu. Pensar em Shelby com Rachel lhe fazia remeter a si mesma, em sua própria história. Sua mãe não lhe falava sobre seus pais, e Beth tinha receio de perguntar por medo de magoar Shelby. Mas agora que uma bomba tinha sido colocada em seu colo, outras perguntas surgiram. Shelby havia dito que a adoção de Beth havia ocorrido semanas depois que ela e Rachel se conheceram, será que a mulher mais nova poderia saber algo de seus pais? Será que ela sabia sobre Beth? Isso havia deixado Beth horas em claro durante a madrugada.
E agora novamente, pela manhã, enquanto andava a passos apressados pelo corredor abarrotado de alunos, esse pensamento lhe vinha à cabeça. Beth precisava arrumar um jeito de procurar essas respostas, mas como? Não tinha como ir até Rachel agora, elas nem se conheciam formalmente.
Beth precisava pensar. Ela tinha uma missão agora, e ela não descansaria.
BTY ~~~BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
Os acordes da canção de P!nk reverberavam por todo o auditório naquela tarde de quarta-feira. Hailey e Scott estavam posicionados no palco, suas vozes sintonizadas cantavam a letra de "Try" afinadamente enquanto seus corpos se moviam conforme a coreografia ensaiada. Ao redor, o restante da equipe também performava, todos desempenhando seu papel para que o dueto fosse o foco daquela apresentação.
Shelby estava satisfeita em sua mesa, observando atentamente o palco. Fazia o máximo para se concentrar completamente naqueles ensaios, faltava agora pouco mais de um mês para as Seletivas e ela precisava ter certeza que sua equipe estava pronta para a competição.
Quando sentia que poderia divagar para seus problemas pessoais, rapidamente "acordava" sua mente com um gole de água ou um comentário com algum aluno, tudo isso para que não se deixasse ser traída por seus pensamentos. Ter que ver Madison quase todos os dias dificultava esse processo, e agora com Beth ciente de parte da história deixava a mulher ainda mais aflita. Somando isso a vê-las juntas no palco fazia o coração de Shelby palpitar rapidamente e seu estômago dar saltos de nervosismo.
"Cinco minutos, pessoal!", anunciou ao fim da música, usando aquele momento para fazer algumas anotações em seu caderno.
Se passaram três dias desde sua conversa com Rachel e nem sinal da filha ela havia obtido. E esperava que isso fosse acontecer, Rachel havia pedido um tempo para processar tudo e Shelby respeitava aquela decisão, era muita coisa acontecendo e talvez elas pudessem fazer a escolha errada caso se precipitassem. Assim como Beth também esteve mais calada nesses dias, a menina mal falava durante as refeições e passava a maior parte do tempo presa dentro de sua própria mente, encarando algum ponto qualquer. Shelby praticamente podia ver as engrenagens dentro da mente adolescente.
A mulher temia que Beth pudesse estar querendo esconder seus sentimentos, e isso a apavorava. Shelby mesmo sabia o que esconder o que sentia pudesse causar, e ela jamais desejaria aquilo para a própria filha. Esperaria mais alguns dias para observar o comportamento de Beth, e caso a menina continuasse reclusa, procuraria ajuda com a família ou até mesmo com algum profissional. Talvez estivesse na hora de Beth ter um apoio que não fosse ela e que não estivesse envolvido em toda aquela história.
No corredor próximo à porta do auditório, de pé no bebedouro enquanto repunha água em sua garrafa, Beth escutou passos se aproximarem. Segundos depois o rosto de Hailey surgiu por detrás da pesada porta e a menina de cabelos claros sorriu em sua direção.
"Tava te procurando, mulher. A gente quase não se falou hoje."
"Eu tava só pensando numas coisas, nada demais. Coisa minha."
Hailey ergueu uma sobrancelha, ainda a encarando.
"E desde quando você não me conta as coisas?"
Beth suspirou e fixou os olhos em sua garrafa enchendo, quase transbordando por sua momentânea distração. Soltou o botão da fonte de água e fechou a garrafa antes de voltar a encarar a melhor amiga.
"Não é nada demais, Hales", mentiu, tentando sair dali e passar pela menina para voltar ao auditório.
"Beth, olha pra mim", pediu, a segurando levemente pelo braço. "Sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? Eu tô te notando muito quieta... É alguma coisa com a sua mãe?"
Beth sentiu seus olhos encherem, mas tratou de segurar o choro para não levantar mais ainda as suspeitas da amiga. Respirou fundo e balançou a cabeça.
"Já te disse que não importa muito, é algo meu que vou resolver sozinha. Eu preciso desse tempo sozinha, Hales. Por favor, não diga a ninguém."
Hailey soltou seu braço e uniu as sobrancelhas em completa confusão e preocupação. Beth não era assim, ela parecia temerosa. Suspirando, Hailey se aproximou e passou os braços pelo tronco da amiga num abraço carinhoso. Beth fechou os olhos e devolveu o gesto.
"Não se preocupa, eu não vou comentar com ninguém. Mas eu quero que saiba que eu tô aqui, ok? Quando sentir que precisa falar com alguém, eu tô aqui."
Beth se afastou do abraço e sorriu, assentindo. As duas então voltaram para o auditório e desceram até o palco onde o restante da equipe se preparava para voltar ao ensaio.
No dia seguinte, sentada em sua última aula do dia, Beth tentava se concentrar no que seu professor de Biologia lecionava. Sua cabeça ainda estava inundada de dúvidas e questionamentos, seus amigos estavam começando a desconfiar, mas ela não podia deixar transparecer o que rondava seus pensamentos. Ela precisava ir em busca de respostas primeiro para depois falar com alguém. Beth tinha medo que falasse a coisa errada com a pessoa errada, então preferia manter para si até ter certeza.
"Eu quero que vocês façam uma pesquisa relacionada à herança genética. Podem escolher a doença que preferirem, desde que seja de caráter hereditário, e montem um trabalho sobre descendência e genes. Vou passar para vocês um roteiro do que precisa conter no trabalho, mas resumindo, vocês irão pesquisar e calcular as probabilidades de descendentes herdarem uma característica genotípica de seus progenitores, envolvendo gene dominante e recessivo. Poderão até criar uma árvore genealógica da preferência de vocês para ilustrar, fica a critério. O trabalho é individual e deverá ser entregue daqui três semanas."
O sinal do fim das aulas tocou e os alunos foram dispensados. Beth reuniu seu material e saiu da sala até seu armário para pegar suas coisas, tentando a todo custo escapar de olhares questionadores. Enfiou o livro de biologia dentro de sua bolsa para começar suas pesquisas e fechou o armário, caminhando para fora do prédio sem falar com ninguém. De longe, Hailey, ao lado de Kaitlyn, observava Beth sair apressada sem se despedir e balançou a cabeça sutilmente. Tinha alguma coisa muito estranha acontecendo.
BTY ~~~BTY ~~~ BTY ~~~ BTY
Rachel encarava seu reflexo no espelho de corpo inteiro em seu closet enquanto alisava o tecido leve do macacão vermelho escuro que cobria seu corpo. Seus cabelos estavam bem esticados e penteados e em seu rosto uma maquiagem destacava seus olhos. Acenou satisfeita com seu visual e caminhou até o balcão central para colocar suas joias.
Sentiu os braços de Jesse abraçarem sua cintura e sorriu levemente, pondo uma pulseira em seu pulso esquerdo.
"Ei, você tá linda", ele comentou após depositar um beijo no ombro desnudo da esposa.
"Obrigada, amor."
"E eu acho que estamos um pouco atrasados", abafou sua risada nos cabelos da morena, dando outro beijo ali antes de se afastar.
"Até parece. Conheço aqueles dois, aposto que vamos chegar primeiro que eles ainda."
"A reserva é às 20h, já são 19h42min", apontou, olhando seu relógio de pulso.
"Estou quase pronta. Só vou terminar aqui e pegar um casaco", ela o encarou, pondo seus brincos. "Madison já está pronta?"
"Está lá embaixo vendo TV."
"Quer ver só que vamos ser os primeiros a chegar?", disse, indo até sua parte de casacos e escolhendo um sobretudo bege claro.
"Bom, se formos os primeiros vamos poder gritar 'Parabéns' assim que eles passarem pela porta", Jesse deu de ombros, dando uma última olhada em seu visual. Jeans escuros, camisa social e um paletó.
Rachel revirou os olhos, fechando sua bolsa.
"Ele nos mataria", riu. "Estou pronta, podemos ir."
Madison ouviu seu pai lhe chamar quando passos desciam pelas escadas e ela prontamente bloqueou a tela de seu celular e desligou a TV, indo encontrar seus pais no fim da escada. Rachel observou a menina e sorriu com a escolha de roupas dela.
"Ficou linda essa combinação. Não te falei?", ela piscou para a filha, se lembrando de quando as duas haviam feito compras alguns dias antes.
Madison sorriu assentindo, abaixando a cabeça para olhar seu look. Uma saia preta de cintura alta com algumas pregas e um cropped cor de vinho e mangas longas, completou com uma meia-calça preta e coturno nos pés. Seu cabelo caía naturalmente pelos ombros e costas e de maquiagem apenas o seu costumeiro lip tint nos lábios e maçãs do rosto.
"Todas prontas? Podemos ir?", Jesse perguntou, recolhendo as chaves do carro no aparador.
O restaurante ficava um pouco mais afastado de seu bairro, mas não muito longe. De acordo com o GPS, em trinta minutos eles chegariam.
"E aí, de quanto vai ser a aposta?", Madison anunciou por cima da música baixa que tocava dentro do veículo.
Rachel a encarou pelo espelho que ajeitava sua maquiagem e ergueu uma sobrancelha.
"Que aposta?"
"Papai e eu apostamos que seremos os primeiros a chegar e quanto tempo vai levar pros próximos chegarem", deu de ombros e sorriu inocentemente.
"Jesse!", Rachel ralhou. "Sabe que eu detesto essas apostas de vocês."
"Ah, amor. É só uma brincadeira para descontrair. Além do mais, é uma forma honesta de diminuir a quantidade de dinheiro que temos que dar a ela na mesada, afinal, ela sempre perde."
"Pai!", veio a reclamação do banco traseiro, fazendo Rachel balançar a cabeça negativamente. "Eu aposto que ainda vamos esperar por mais 20 minutos até os próximos chegarem."
"Madison, chega", Rachel chamou atenção.
"Pois eu aposto que ainda vamos esperar por mais... 43 minutos!", enfatizou a especificidade do tempo.
Rachel rolou os olhos, bufando. Aqueles dois eram piores que crianças.
"Cinquentinha?"
"Fechado!", Jesse ergueu uma mão por cima do ombro direito para bater com o punho da filha em um sinal de acordo.
"Vocês são impossíveis."
Quando puderam enxergar o letreiro do lugar, Jesse diminuiu a velocidade e parou em frente ao valet. O rapaz abriu a porta do carona e Rachel agradeceu gentilmente, e observou o rapaz fazer o mesmo com Madison antes de recolher as chaves com Jesse e entrar no carro para estacioná-lo. O local era bem localizado e luxuoso, havia poucas pessoas por conta de ainda ser uma terça-feira, mas assim era bem melhor. Assim que deram o nome ao maitre, foram encaminhados para a mesa reservada, e como esperavam, os oito assentos ainda estavam desocupados.
"Agora é esperar", Jesse sorriu de forma sorrateira para a filha ao se sentar numa ponta da mesa, Rachel ocupou seu lado esquerdo e Madison o lado direito.
"Aguarde e verá", a menina devolveu a provocação e rapidamente puxou seu celular da bolsa, digitando copiosamente uma mensagem para Zoe perguntando aonde estava a menina e seus pais.
Não demorou muito para os próximos chegarem. Rachel abriu um enorme sorriso ao avistar seus pais se aproximando da mesa, dando um abraço apertado em cada um deles e especialmente em Hiram, o aniversariante da noite. Jesse cumprimentou Hiram enquanto LeRoy babava e bajulava sua neta e depois Madison foi felicitar o outro avô.
"Desculpem o atraso, queridos. Não posso culpar o trânsito até porque Lima não nos permite isso, então me resta culpar ao meu marido mesmo", LeRoy brincou após se sentarem, arrancando risadas de todos.
"Eu precisava estar belíssimo, querido. É a minha noite", Hiram rebateu, lhe assoprando um beijo.
Madison sorrateiramente se inclinou para frente, checando o relógio no pulso de Jesse enquanto o mesmo estava distraído em uma conversa com os sogros, o braço direito que continha o acessório estendido na mesa, dando à menina a oportunidade de ver as horas.
"17 minutos! Eu ganhei por aproximação!", disse empolgada, chamando atenção dos quatro adultos. Rachel arregalou os olhos e lhe encarou sugestivamente, tentando lhe dizer para fechar a boca.
"17 não é 20, querida. Nós dois perdemos", Jesse lhe deu um olhar de falsa piedade.
Madison encolheu os ombros e bufou, cruzando os braços e se recostando no assento estofado.
"Acho que estamos perdendo algo aqui", Hiram brincou, bebericando seu vinho.
"Papai, ignore esses dois. É uma brincadeira ridícula entre eles que não vale nossa atenção", Rachel disse, intercalando seu olhar mortal entre o marido e a filha. De Jesse ela apenas recebeu um sorriso indulgente, e da filha uma carranca e uma revirada de olhos.
Após mais alguns minutos, Blaine, Kurt e Zoe se juntaram a eles e todos puderam finalmente fazer os pedidos. Madison melhorou seu humor consideravelmente com a chegada da amiga, e as duas papeavam entre si enquanto suas refeições eram aprontadas.
"Quero propor um brinde", LeRoy anunciou erguendo sua taça de vinho, todos ao redor da mesa imitaram seu gesto e aguardaram as palavras que viriam. "Ao meu marido, que nessa noite celebramos sua vida, seu amor, seu enorme coração e sua bondade. Ao homem, marido, pai, avô, sogro, amigo e pessoa incrível que ele é. Que tenhamos muitos mais anos de vida ao seu lado e que possamos sempre juntos celebrar. Ao Hiram! Parabéns, meu querido!"
O tilintar de taças foi ouvido e cada um bebericou sua bebida após o brinde. Hiram e LeRoy trocaram um beijo singelo e todos na mesa sorriram. Quando terminaram suas refeições, pediram sobremesas e aguardavam em meio a conversas e risadas. Rachel observava todas as interações na mesa e seu peito se enchia da mais pura felicidade, sua família ali reunida era tudo que mais lhe trazia paz e equilíbrio. No entanto, sentiu algo diferente ali, um puxão no estômago que automaticamente lhe remeteu a outra pessoa. Uma pessoa que vinha remoendo seus pensamentos nas últimas semanas desde sua conversa com ela.
Shelby.
Por mais que tentasse, era impossível não pensar na mulher. Elas haviam esclarecidos algumas questões e a mais velha estava lhe dando o espaço que fora pedido. Nada mais havia sido trocado entre elas, e vendo ali sua família reunida, seus pais juntos numa felicidade quase que palpável, lhe remetia à mulher que fizera parte daquilo para que se tornasse uma realidade. Shelby era, querendo ou não, parte daquilo, mesmo que indiretamente. Ela fora a mulher que seus pais confiaram gerar um bebê, unindo ainda mais a família. Pensar naquilo fazia seu peito doer com o vazio que sentira por tantos anos, o pequenino espaço que ainda não havia sido preenchido completamente.
Rachel achara que conseguiria preenchê-lo com respostas, mas ela estava enganada. Ver Shelby novamente e escutar sua versão da história fez com que o vazio no peito de Rachel pulsasse com a iminência de um preenchimento. Não com palavras apenas, mas com atitudes. Com um contato, uma relação.
Ali, sentada naquela mesa com um sentimento bom rondando o lugar, observando sua família ao redor rindo e brincando, ela teve a certeza que daria mais uma chance. Daria uma chance à felicidade, uma chance às relações e uma chance ao preenchimento. Sabia que era arriscado, poderia se machucar e pior, machucar aqueles que ama também, mas seu coração lhe dizia que precisava daquilo. Ou então, aquele vazio pulsaria para sempre.
Sentiu algo tocar sua mão e saiu de seu devaneio ao ver Jesse chamando sua atenção. Encarou o marido e sorriu levemente ao ver que ele lhe encarava franzindo o cenho.
"Tá tudo bem, amor?", murmurou para que só ela escutasse.
"Tudo ótimo. Só estava pensando em como estou feliz que tomamos essa decisão", lhe respondeu sem tirar o sorriso dos lábios.
De início Jesse não entendeu, mas logo a realização caiu sobre si e ele devolveu o sorriso, erguendo a mão da mulher até seus lábios para deixar um beijo nos dedos.
"Também estou feliz, e ver que você está feliz e nossa família está feliz é o que importa", lhe direcionou um olhar apaixonado antes de se inclinar e selar os lábios com ela.
"Hora do bolo!", LeRoy anunciou para que todos na mesa ouvissem, aplausos foram dados enquanto o garçom se aproximava da mesa com um bolo e uma vela acesa em cima.
Após mais felicitações, Hiram recebeu seus presentes e então era hora de ir. Queriam esticar a noite, mas precisavam lembrar que ainda era uma terça-feira e todos tinham compromisso no dia seguinte. Se despediram na calçada do restaurante e um por vez entrou em seu carro para seguir caminho.
A noite havia sido maravilhosa, e para Rachel, uma comprovação de que passo tomar a seguir.
Por hoje é isso! Espero que tenham gostado.
A música que Beth canta no início é "Flashlight", da Jessie J.
Como puderam ver, algumas coisas foram decididas nesse capítulo. E como eu já disse, uma vez que a verdade vem a tona, ela é jogada no ventilador e respinga em todos os lados. Vamos ver como esse pessoal vai administrar tanta coisa, e eu, como uma boa amante do drama, farei o máximo para deixar transparecer os sentimentos, sejam eles bons ou não tão bons.
Próximo capítulo teremos Halloween! E além disso, outra grande revelação será feita... TAN TAN TAN TAN!
Nos vemos lá! Beijos!
