Rufus Scrimgeour devia acreditar que jogar um livro grosso em cima de uma mesa era uma ótima maneira de intimidar uma garota de quinze anos.
Era surpreendente que os inomináveis tivessem permitido que os aurores colaborassem com a sua investigação ao interrogar quatro garotas que surgiram sem explicações no meio do Departamento de Mistérios.
Amber não se sentiu intimidada.
— O que estava fazendo no Ministério da Magia às duas da manhã? — perguntou Scrimgeour.
— Eu não sei como vim parar aqui — ela respondeu.
Já conseguia imaginar as suposições dos aurores.
Quatro garotas resolveram explorar o Departamento de Mistérios durante a noite e foram flagradas ao mexer em algo que não deviam.
Ela nem sequer conhecia as outras três.
— É claro que não sabe — o auror deu um sorriso debochado.
— Eu estava em Beauxbatons — ela tentou explicar — Quando acordei, estava no Departamento.
— Então você é sonâmbula?
Aquele tom complacente a irritou.
— Senhor, como acha que três garotas em idade escolar poderiam sair de Hogwarts sem serem pegas e entrarem no Departamento de Mistérios? — perguntou Amber — Três porque elas usavam o uniforme de Hogwarts, eu uso o de Beauxbatons. Acha mesmo que eu conseguiria sair da França e vir até a Inglaterra com tanta facilidade? Eu estou em dúvida se está questionando o sistema de proteção de Hogwarts, de Beauxbatons, do Ministério, ou se está questionando todos ao mesmo tempo.
A aplicação de sua lógica pareceu surtir efeito.
— Podem não ser de Hogwarts e Beauxbatons — Rufus disse.
— Tenho certeza de que vocês têm meios de verificar isso. Feitiços, poções, registros... — retrucou.
Foi deixada sozinha outra vez na sala de interrogatório.
Puxou a manga da sua jaqueta azul para deixar a pele de seu braço exposta o suficiente para beliscá-la. Apenas para ter certeza de que estava acordada, de que aquilo estava mesmo acontecendo.
Uma mulher assumiu o lugar do auror, ela parecia menos agressiva, apesar de rigorosa.
— O meu nome é Amelia Bones — ela apresentou-se — Eu sou do Departamento de Execução das Leis da Magia. Qual é o seu nome?
Lembrou-se do que sua madrinha dizia a ela.
Nunca diga o seu verdadeiro nome.
— Amber Evans — respondeu.
— Você estuda em Beauxbatons, certo?
Perguntava-se se o seu uniforme azul celeste não era evidência suficiente.
— Sim, senhora.
— Pode me contar o que estava fazendo quando você "apareceu" no Departamento? — Amelia perguntou.
Como se ela tivesse alguma escolha.
— Eu estava no dormitório feminino do quinto ano — ela disse, observando uma pena de repetição rápida mover-se sobre o caderno aberto — Estava sem sono, então eu decidi dar uma revisada na matéria. Então eu vi uma luz muito forte.
— De algum lugar específico? — a mulher perguntou.
— Eu não sei. Foi tudo muito rápido. E então eu estava no Ministério com aquelas quatro garotas...
Amelia interrompeu-a, demonstrando surpresa.
— Você disse quatro?
— Sim, tinha outra garota com a gente, mas ela fugiu antes que os inomináveis chegassem — Amber contou — Deve ter se assustado com a sirene. Não tenho ideia de como ela conseguiu sair com aquele corredor cheio de portas...
Ela viu como funcionava aquele mecanismo quando foi escoltada para fora. Podia imaginar que os funcionários apagariam as suas memórias por isso, tudo o que faziam era sigiloso.
— Obrigada, Amber.
As perguntas pareciam ter acabado.
Ela se coçava para pedir que chamassem por Marlene, mas o Ministério não sabia que ela estava viva.
— Senhora Bones? — ela chamou-a quando esta chegou à porta — Eu não conheço muitas pessoas aqui na Inglaterra, então eu gostaria de pedir que chamasse o professor Dumbledore.
Amelia demonstrou surpresa e um leve desconforto.
— Dumbledore? — ela repetiu.
— Ele sabe quem eu sou — respondeu com firmeza.
Não obteve uma resposta antes que ela saísse. Supunha que não dependia dela.
Na sala ao lado, Scarlet aguardava pela chegada dos aurores. Tentava pensar em como tinha saído do Salão Comunal da Gryffindor e ido parar bem no Ministério da Magia.
Justo quando o ministro estava perturbando a Harry e Dumbledore pela volta de Você-Sabe-Quem. Aquilo seria um prato cheio para os jornalistas, ela já podia ver as manchetes.
"Filha de funcionário do Ministério é expulsa de Hogwarts por invadir o Departamento de Mistérios".
Merlin sabia que ela tinha um histórico com aparatações acidentais, mas desaparatar de Hogwarts? Hermione vivia dizendo que não era possível aparatar na escola, que isso estava escrito em "Hogwarts, uma história" e todas aquelas baboseiras que nem ela nem seu irmão Rony prestavam a atenção.
Rony.
Será que ele e Harry aprontaram outra vez? Não, uma passagem direta de Hogwarts ao Ministério ultrapassava todos os limites possíveis.
Se bem que Quirrell, o basilisco, o Torneio Tribruxo...
Antes que pudesse concluir o raciocínio, a porta da sala se abriu e uma mulher entrou. Sentou-se à sua frente e se apresentou como Amelia Bones.
Ah, sim, seu pai tinha lhe contado muito sobre ela.
— Qual é o seu nome? — Amelia perguntou com tranquilidade.
— Scarlet Weasley.
A advogada lançou-lhe um olhar estranho.
— É parente de Arthur Weasley?
Era séria aquela pergunta?
A voz de Hermione em sua cabeça a impediu de dar uma resposta engraçadinha.
— Eu sou filha dele — ela respondeu.
— Filha? Mas Arthur só tem sete... — Amelia estava estupefata.
Ah, então era isso.
— Bom, eu sou adotada — ela deu de ombros — Fugi do orfanato em que morava quando tinha uns sete anos, fui parar em Ottery St Catchpole e a minha mãe, Molly Weasley, me abrigou.
A mulher ficou em silêncio e então levantou-se da cadeira.
— Um momento, por favor.
Evitou outra resposta engraçadinha.
Jilian tentava entender o que tinha acontecido. Resolveu refazer os seus passos.
Ela tinha descido para jantar no Salão Principal.
Ela chegou atrasada porque demorou respondendo a uma carta de Cedric.
Assim que chegou, sentou-se na mesa da Hufflepuff, como todas as noites.
Se alimentou.
Se hidratou.
Jogou conversa fora com Hannah, Susan, Ernie e Justin.
Tentou ignorar os comentários imbecis de Zacharias sobre Harry Potter e Dumbledore.
E então assim que o jantar acabou, ela voltou para o Salão Comunal da Hufflepuff com seus colegas.
E foi dormir.
E acordou caindo no chão de pedra do Departamento de Mistérios.
Isso parecia muito com algum de seus sonhos. Ou quando ela se perdia demais na imaginação.
Seu pai a mataria por estar se metendo em encrenca com o Ministério. Principalmente agora com as leis anti lobisomens e o ressurgimento da Ordem da Fênix.
Ela não deveria chamar atenção para eles e tinha acabado de fazer isso.
A porta da sala abriu-se e Amelia Bones entrou. Jilian a conhecia de vista. Ela era a tia de Susan.
— Olá, eu sou... — a mulher parecia cansada.
Ela devia ter falado com as outras garotas antes, por isso a sua postura.
— Amelia Bones — Jilian completou — Eu sei, você é a tia da Susan.
Por um segundo, ela viu medo nos olhos da mulher.
— Conhece Susan? — Amelia perguntou.
— Estudamos no mesmo ano e na mesma casa — ela apontou para o emblema do texugo em suas vestes.
Estava tão cansada que tinha ido dormir de uniforme.
— E qual é o seu nome?
— Jilian Lupin.
A advogada contemplou-a em silêncio. Ela parecia estar em um estado de completa descrença e ao mesmo tempo tentando encontrar quais eram as informações que faltavam.
O que poderia explicar a ida de Jilian para o Ministério, porque ela não poderia dar essas respostas.
— Com licença — ela levantou-se e saiu.
Aquilo não era parte do protocolo.
Sem mais perguntas?
O que tinha dito de errado?
Astoria estava dormindo quando a porta se abriu.
Era quase quatro da manhã e ela estava exausta! Não podiam julgá-la por isso.
— Eu me chamo Amelia Bones, sou do Departamento de Execução das Leis da Magia. E você quem é?
Nossa, falava rápido demais para que o raciocínio recém acordado de Astoria pudesse pensar.
— Astoria Greengrass — ela respondeu, coçando os olhos.
— Ótimo, um nome conhecido e possível — Amelia suspirou, antes de sentar-se à sua frente — Se não se importa, eu...
— Eu tenho quinze anos, não pode me interrogar sem a presença de meus responsáveis. Se não o meu pai, o professor Dumbledore ou o diretor da minha casa, professor Snape, são responsáveis por mim — ela disse.
Não recuou diante do olhar da mulher.
— Conheço os meus direitos.
Amelia pareceu frustrada ao levantar-se, mas ela melhor do que ninguém conhecia as leis e a jovem estava certa. Ela não podia interrogá-la sozinha.
A presença de Dumbledore parecia inevitável. Ou isso seria um prato cheio para o ministro, ou ele pediria por sua cabeça.
Não era a melhor forma de agradar aos inomináveis, que já não estavam satisfeitos com a sua intervenção na investigação.
— Como três estudantes de Hogwarts entraram no Departamento de Mistérios no meio da noite sem que Dumbledore percebesse? — Fudge perguntou, assim que ela aproximou-se dele.
Estava no corredor estreito que separava as salas de interrogatório do Ministério. Com ele, estava Rufus e um inominável que Amelia não conhecia.
Como se ela pudesse descobrir tudo em apenas uma conversa.
Mas Dumbledore era a palavra mágica. O ministro estava uma mistura de alegria por poder criticar o diretor e medo. Ele acreditava piamente que o bruxo estava tentando derrubá-lo de seu posto, considerando até a hipótese de que ele estivesse formando um exército com seus alunos.
Completamente descabido.
— Elas dizem se chamar Amber Evans, Scarlet Weasley, Jilian Lupin e Astoria Greengrass — informou com cautela — As senhoritas Evans e Greengrass pediram pela presença do diretor. Todas dizem que não sabem como vieram e que estavam em seus dormitórios.
Emendou antes que o ministro a interrompesse:
— Outra coisa: a senhorita Evans disse que havia outra garota.
— Não, eram quatro — o inominável disse.
— A quinta garota escapou antes que chegassem — Amelia explicou.
— Talvez ainda esteja lá, é difícil sair por aquele corredor — sugeriu Scrimgeour.
O inominável deixou-os para apurar essa nova informação.
— O que faremos, ministro? — ela perguntou.
— Chame Dumbledore, Arthur Weasley e Remus Lupin — Fudge a instruiu — Talvez seja hora de oferecermos um suco às garotas?
Ela sabia o que aquilo queria dizer.
— Isso é ilegal, senhor — viu-se no dever de informá-lo.
— Às vezes um suco é só um suco, Bones — disse Scrimgeour, antes de afastar-se.
Provavelmente tentaria interrogá-las mais uma vez.
— Vá — ordenou o ministro.
Ela seguiu pelo caminho contrário do auror no corredor.
