Amber franziu o cenho, olhando ao redor.

Os inomináveis tinham desaparecido, assim como o arco, mas ainda era o Departamento de Mistérios.

— Ei!

Ela levou a mão até o bolso à procura da varinha, até lembrar-se que não a tinha consigo.

— Não pode ficar aqui — um homem com roupas da manutenção mágica estava a alguns metros de si.

— Eu me perdi — ela disse — Pode me levar para fora?

Apesar de desconfiado, os seus olhos fixos no emblema de Beauxbatons em seu uniforme, ele a levou para fora e não chamou os aurores.

— Não se perca mais por aqui — foi apenas o que disse antes de voltar para o Departamento.

Ainda estava no Ministério da Magia.

Isso era bom.

Não sabia como viajaria de Paris até Londres sem ser detectada.

Mas sabia exatamente o que fazer.

Saiu do Ministério da mesma forma com que entrou: pela cabine telefônica. Assim que a cabine subiu para a superfície, ela refez os seus passos.

Metrô (que era uma bagunça comparado ao de Paris).

Certo, não era tão longe dali.

Precisou confundir um guarda para passar sem pagar pela passagem, já que não tinha dinheiro trouxa consigo. Na verdade, não tinha nada consigo além das roupas do corpo.

Se não fosse avaradora, estaria perdida.

Desceu na Angel Tube Station e teve que confundir outro guarda, já que no metrô londrino o Travelcard era usado tanto na entrada quanto na saída. Ela não tinha ideia do porquê disso. Eles cobravam a passagem duas vezes?

Tentou lembrar-se das ruas em que passaram quando saíram de Grimmauld Place. Era um pouco difícil por ser o caminho inverso, mas teve a ideia de perguntar a algumas pessoas no caminho para que lado ficava a rua Grimmauld e conseguiu orientar-se a partir daí.

Notou alguns olhares estranhados por suas roupas e por ser uma garota de 15 anos caminhando sozinha e perdida pelas ruas. Devia ser menos comum no mundo trouxa do que era no mundo bruxo. Afinal, se você tem uma varinha, não é uma preocupação tão grande você se perder por aí, era só estender a mão com a varinha para embarcar no Nôitibus ou fazer alguma magia em área trouxa para ser detectado pelo Ministério da Magia.

Amber hesitou quando chegou em frente às casas de número 11 e 13. Aos poucos, a casa 12 foi surgindo entre elas, empurrando-as para fora do caminho. Era uma sorte para ela que nem os trouxas nem os bruxos de dentro da casa sentissem essa movimentação.

Decidiu não bater à porta, apenas torcendo para poder se explicar antes de ser estuporada e então entrou.

O corredor estava na escuridão, como sempre. Astoria disse uma vez a ela que era por causa dos quadros dos ancestrais da família Black, para que eles não acordassem e ficassem falando.

Ela não achava que eles teriam coisas melhores a dizer do que Kreacher.

Escutou vozes na sala de estar, conforme se aproximou da escada, mas não chegou a entrar no cômodo. Sentiu uma varinha apontada para as suas costas.

— Sirius, chame Dumbledore agora! — escutou a voz de Tonks exclamar.

Remus se alarmou com o seu tom de voz e saiu da cozinha para vê-las na situação em que estavam. Ele pareceu ficar sem palavras.

— Não saiam daqui — ouviu Sirius dizer, antes que ele fosse até o corredor.

Duvidava que Harry obedeceria.

— Quem é ela? — ele perguntou.

— Não acha melhor chamarmos Dumbledore? — Tonks estava preocupada.

— É, chame Dumbledore para perguntar o meu nome — ela respondeu, um pouco irônica.

— Eu vou chamá-lo — disse Remus, afastando-se deles.

— Cozinha — Tonks cutucou as suas costas com a varinha, indicando que ela descesse as escadas — Anda.

Amber desceu e ficou aguardando sentada em uma cadeira da mesa de jantar por um tempo, sob a supervisão de Sirius e Tonks. Quando Remus reapareceu, estava acompanhado e parecia aflito.

Era difícil se lembrar que não estava em outro universo.

Que aqueles eram mesmo o Sirius e o Remus daquele universo.

Dumbledore parou de caminhar assim que parou os seus olhos nela. Pensou ter visto um brilho de desespero em seu olhar e considerou que ele fingiria não conhecê-la.

Não mesmo.

— Como conseguiu burlar o feitiço Fidelius? — o diretor foi direto, assim que recuperou-se do choque.

— Você realmente me tem em alta estima — não pôde evitar de soltar uma risada — Nem mesmo eu poderia burlar o Fidelius. Só há uma maneira de entrar: se o fiel, Albus Dumbledore, me desse a localização. E eu estou aqui, não estou?

Não sentia a menor vontade de compartilhar com ele onde esteve nos últimos dias.

— Eu estou bem, a propósito. Obrigada por perguntar — emendou — Imagino que Marlene tenha lhe dito que eu desapareci? Ou o senhor estava ocupado demais para abrir as suas cartas?

Sabia que tinha acertado ao ver a expressão dele.

Não precisava ser uma legilimente.

Nunca imaginou que deixaria Dumbledore mudo pela impressão. Poucos bruxos poderiam dizer que já tinham conseguido essa proeza.

— Marlene? — Sirius perguntou.

O nome mexia com ele.

— A minha madrinha, Marlene McKinnon — disse Amber com tranquilidade — Certamente que o professor Dumbledore contou a vocês.

— Marlene está morta há quinze anos — Remus franziu o cenho — Fez quinze anos há...

— Dez dias — o interrompeu.

— Senhorita... — Dumbledore tentou intervir.

— A conhece? — foi a vez de Tonks ficar desconfiada.

— É claro que conhece. Ele foi a minha casa quando eu tinha nove anos para dizer que eu não deveria escrever mais para Privet Drive 4 — disse Amber.

Os adultos demoraram apenas alguns segundos para reconhecer o endereço.

Não podia negar que estava se divertindo com aquela conversa.

— Diga o meu nome, professor — o desafiou, já que ele hesitou ao chamá-la de senhorita.

Chamá-la de Evans despertaria a desconfiança de Remus.

Chamá-la de Potter faria com que eles entendessem imediatamente.

— Por que veio até aqui? — perguntou Dumbledore.

Ele estava se esquivando.

Talvez ganhando tempo.

— Eu apareci no Departamento de Mistérios — ela disse — Era o único endereço que tinha em Londres, e a única pessoa que conheço daqui.

— É de Beauxbatons — Tonks observou o seu uniforme — Como Fleur.

— Conhece Fleur? — Amber franziu o cenho.

— Eu providenciarei uma chave de portal para que retorne em segurança — disse Dumbledore.

Ele pretendia mesmo afastá-la.

Levantou-se da cadeira e bateu as mãos com força na mesa.

— Não — disse, começando a irritar-se — Eu não vou a lugar algum. Eu vim aqui para esclarecer as coisas. Vim para fazer o que devia ter feito há quinze anos!

— Acalme-se — Tonks apontou a varinha para ela.

Viu Dumbledore pôr a mão em um bolso de sua túnica.

E então todas as varinhas voaram até o outro lado da cozinha, mesmo as que ainda estavam guardadas.

Amber ajeitou a postura sob os olhares chocados dos mais velhos e então forçou um sorriso.

— Eu te dei a chance de se explicar e o senhor acabou de desperdiçá-la — ela disse ao diretor, antes de virar-se para os outros — Marlene McKinnon não morreu no incêndio. Ela fugiu por uma chave de portal até Village D'Enchan Loire. Dumbledore sabe disso porque ela enviou um patrono a ele. Ele disse que ela deveria ficar lá para proteger-se e passou a informar tudo o que acontecia na Ordem. Ela pensou que vocês sabiam disso.

— Quem é você? — perguntou Tonks.

E dessa vez ela respondeu.

— Ambrose Lily Potter.

Remus parecia apenas ter confirmado uma suspeita.

— Está mentindo — murmurou Sirius, as mãos apoiadas na mesa e o rosto abaixado.

— Não, eu não estou — respondeu Amber.

— Ela nunca se esconderia no meio de uma guerra! Nós discutimos naquele mesmo dia por isso, porque ela se negava a se esconder apesar de estar sendo perseguida!

Ela sabia disso tudo.

Perseguida por Bellatrix.

— Ela nunca se importou com a possibilidade de morrer se não levasse alguém com ela — disse a garota, chamando a atenção dele, que levantou o rosto para olhá-la — Mas ela levaria, se não tivesse se escondido.

Percebeu que precisava ser mais clara para que entendessem o que ela queria dizer. Só tinha a sua dialética para convencê-los.

— Ela tava grávida — completou.

Dumbledore parecia derrotado por aqueles segredos estarem sendo expostos, mas não havia nada que pudesse ter feito. Se tentasse calá-la à força, os três partiriam em defesa da garota com razão.

Sirius saiu da cozinha em um rompante.

Tonks parecia não saber o que dizer, assim como Remus.

— Eu só quero conhecer o meu irmão — disse Amber — Quero ter o direito de frequentar Hogwarts. E quero que Marlene e Sarah parem de se esconder.

— Quando Bellatrix sair de Azkaban... — começou o diretor.

— Ela não saiu nos últimos catorze anos.

Sabia que ela sairia em breve.

Já tinha acontecido na outra dimensão.

Mas ela não podia deixar que o medo parasse a vida delas. O medo as consumiu por tempo demais.

— Não foi justo — ela o acusou — Não sabe ouvir quando dizem que está errado. Deixar Harry com os Dursleys pode tê-lo protegido fisicamente, mas só. Além do mais, se foi o sangue de minha mãe que o protegeu, ele poderia ter ido a qualquer lugar comigo.

— Com Marlene?

"Com duas crianças pequenas pra cuidar?" ele quis dizer.

— Ela teria Remus. E teria Sirius também se tivesse se preocupado com um julgamento justo — ela retrucou — Para a sua felicidade, não temos como provar a inocência dele e a minha madrinha não é madrinha legal dele. Só o que queremos é fazer parte da vida deles, o que é o nosso direito. Não pode nos negar isso.

Na realidade ele poderia.

Mas agora Tonks e Remus estavam ali.

— Foi mal se eu for indiscreta — disse a auror —, mas como você está viva? E como não ouvimos falar sobre você?

Ela voltou a sentar-se na cadeira, sentindo-se mais leve depois de despejar as acusações acumuladas de alguns anos.

— Não tem muito o que dizer. Nasci no mesmo dia que o Harry, poucas pessoas sabiam sobre mim, e quem sabia pensou que eu estava morta, já que Dumbledore não deu outra coisa a entender — respondeu Amber.

— Não tinha o direito — disse Remus ao mais velho.

— Foi melhor assim — disse Albus.

— Melhor pra quem?

Tonks não pareceu impressionada com o seu tom de voz mais agressivo, mesmo que ele fosse geralmente tão calmo. Mas Dumbledore tinha passado alguns limites.

— Eu vou atrás de Sirius — ele anunciou, antes de também deixar a cozinha.

— Eu vou... — o diretor começou.

— Apresentar a Ambrose ao Harry — Tonks o interrompeu, o tom de voz ameaçador — Ou melhor, deixe que eu faço isso. Ele está na sala de estar, vamos.

— Nymphadora, eu não acho que... — Dumbledore tentou dizer.

Isso piorou as coisas.

— Não me chame de Nymphadora — ela disse, pausadamente — E eu gostaria de vê-lo tentar me impedir.

A auror pôs a mão no pulso de Amber, puxando-as para as escadas, mas parou antes de subirem.

— Se quer um conselho, se ainda quer mesmo derrotar Voldemort, dividir a Ordem da Fênix não é a melhor estratégia. Afastar Ambrose vai fazer com que Sirius e Remus percam a confiança no senhor. E se Harry não puder ver Sirius, como acha que ele vai se sentir? — retrucou Tonks.

E então elas subiram as escadas, com ela atrás para protegê-la.

Não que elas pensassem que Dumbledore teria coragem para pegar a varinha ainda jogada no chão e atacá-la.

Os garotos estavam silenciosos na sala de estar, próximos de uma árvore de natal metade decorada. Era evidente que estavam decorando a casa para as festividades quando ela entrou pela porta e interrompeu o momento.

Harry não estava lá, e quando questionados, os adolescentes responderam que ele tinha ido atrás de Sirius.

Ir até a Muy Nobre y Antiga Casa dos Black era a parte fácil, até mesmo levar Sirius a Marlene seria fácil para ela, mas contar a Harry a verdade... Se o Harry da outra realidade agiu de forma estranha ao saber delas, era quase que uma garantia que esse Harry agiria da mesma maneira.

Subiu sozinha as escadas da Mansão, após considerar se deveria esperar que os três descessem. Sirius estava acariciando um hipogrifo enquanto conversava com Remus e Harry, que mais escutava do que falava.

— Eu quero pedir desculpas — ela disse, anunciando a sua presença — Eu estava com raiva de Dumbledore. Isso não justifica eu ter dito tudo do jeito que disse.

— Eu não acho que teria uma maneira certa de contar — Sirius ainda estava alimentando o hipogrifo.

— Harry, podemos conversar lá embaixo? — sugeriu Remus.

— Não fique com raiva dela. Não foi culpa dela, ela não sabia — disse Amber, ignorando os outros dois — Ela pensou que Dumbledore tivesse contado a vocês.

— Por que ela não voltou? Por que ela não nos contou? — Sirius parecia aborrecido — Achou que eu fugiria?

— Olha — ela pôs uma mecha de cabelo atrás da orelha, mantendo distância do hipogrifo para que ele não a atacasse, já que ela não considerava uma boa hora de reverenciar —, o que eu sei é que ela descobriu que tava grávida naquele dia, o dia do ataque. E então ela acordou no dia seguinte, enviou um patrono a Dumbledore, e ele disse para ela ficar ali. Ele a convenceu de que era melhor ela ficar ali sem ter Comensais da Morte a procurando do que voltar pra Londres e ter que se esconder sob o Fidelius.

— E ela achou que nós sabíamos? — ele perguntou, finalmente a olhando — Achou que eu aceitaria isso?

Ela desviou os olhos dele.

— Eu acho melhor você perguntar isso pra ela — respondeu Amber.

Sirius voltou a focar no hipogrifo.

Ele estava com medo. Eram anos sem se ver. E se ela tivesse seguido em frente? E se decidisse que simplesmente, depois tanto tempo, não era para acontecer?

Jilian saberia o que dizer naquela hora.

— Dumbledore não vai deixar que saia daqui, e duvido muito que vá permitir que ela venha até aqui — ela comentou.

— Isso não faz sentido, agora já sabemos sobre vocês — argumentou Remus.

— Ah, ele vai tentar, acredite — resmungou — Vocês dois não iam lá pra baixo?

Harry pareceu constrangido.

— Vamos deixá-lo sozinho — disse Remus, olhando especificamente para ela.

Eles saíram daquela espécie de sótão da casa, deixando Sirius a sós com o hipogrifo e os seus pensamentos. Esperava que ele e Marlene pudessem se reencontrar sem que Dumbledore interferisse.

Talvez se ela contasse a ela que Sirius tinha sido obrigado a ficar na casa em que passou a infância... Isso certamente a deixaria furiosa.

— Eu não entendi muito o que vocês estavam conversando — comentou Harry, depois de alguns minutos.

Que fofoqueiro.

— Imagine que a Hermione desaparece e você e todos pensam que ela está morta — disse Remus — E então depois de anos você descobre que ela não morreu.

Harry ficou em silêncio, esperando por sua conclusão.

— Marlene McKinnon era a melhor amiga dos... seus pais — ela disse — Ela até foi madrinha da sua irmã.

Fingiu não perceber o olhar repreensor de seu padrinho.

— Irmã? — ele repetiu — Eu não tive uma...

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Devia estar imaginando que não contaram a ele porque ela estava morta.

Isso tinha sido verdade no outro universo, mas não naquele.

— Então foi ela que eu vi — disse Harry, parecendo pensar em voz alta.

— Do que tá falando? — perguntou Amber, franzindo o cenho.

— No Espelho de Erised, no meu primeiro ano.

Não conseguiu esconder a surpresa que sentiu ao escutar aquilo.

— Aquilo aconteceu? — não pôde segurar a sua língua.

Percebeu o erro um segundo depois.

— Não os apresentei, certo? — Remus soou casualmente.

Ele era hilário. Quando ela fazia, recebia um olhar repreensor.

Tinha um padrinho muito hipócrita.

— Amber, você já conhece o Harry — ele continuou com o teatrinho — Harry, essa é Ambrose, e ela é a sua irmã.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Acabou com o joguinho? — perguntou.

— Acabei — ele retrucou.

Explicado o porquê de ele ser um maroto.

— Você é a minha irmã? — perguntou Harry, parecendo confuso — Tipo, de verdade? Eu tenho uma irmã? Mas como...?

Se Sarah estivesse ali, teria uma resposta bem maliciosa na ponta da língua.

— Eu estava em outro quarto — resumiu — A propósito, eu preciso te entregar as 270 cartas que escrevi pra você nos últimos anos. Eu tentei fazer isso antes, mas Dumbledore as recolheu.

— Então ele sabia.

Identificou um rancor na voz do irmão.

— Deveria escrever para a sua madrinha — sugeriu Remus, interrompendo o diálogo — Ela deve estar preocupada com o seu sumiço.

Ela devia estar subindo pelas paredes.

— Ela vai ficar muito feliz de saber que Dumbledore não moveu um dedo para me procurar — Amber disse, sarcástica —, mas você está certo.

Harry emprestou Hedwig para que ela pudesse enviar a carta, argumentando que Pigwidgeon, a coruja de Rony, não era a melhor opção.

Enquanto ela estava escrevendo, Remus tentou fazer com que as crianças se animassem novamente, apesar do clima estar um pouco tenso devido às recém descobertas.

Ela se sentia um pouco culpada por ter causado tudo aquilo.

"Não deixe que Dumbledore o manipule, você é a única que vai conseguir isso".

Ela duvidava.

Harry tinha uma mania de heroísmo que anularia qualquer tentativa dela.

Chérie marraine,

Eu estou bem. O que aconteceu comigo é muito complicado de explicar por carta, mas a questão é que eu estou em Londres agora. Não estava em meus planos, posso te garantir isso. A propósito, Dumbledore não leu as cartas que provavelmente enviou a ele.

Sabia que Sirius está trancado na antiga casa dele? Eu soube que Pettigrew está vivo.

Era uma nota bem curta, mas ela não sabia mais o que escrever. As palavras-chave "Dumbledore", "Sirius" e "Pettigrew" seriam o suficiente para ela, se a conhecia bem — e supunha que conhecia, já que viveu com ela por todos aqueles anos.

— Então você gosta de História da Magia? — tentou puxar assunto com Harry, depois de despachar Hedwig.

— Eu li os livros antes do primeiro ano — ele respondeu —, mas você não teve aula com o Binns.

Tinha se esquecido do professor fantasma.

— Pensei que fosse exagero de Marlene — ela deu de ombros — Ela dormia até em Astronomia, então pensei que Binns não poderia ser tão insuportável.

— Ele é — Harry declarou — Quando tiver aula com ele, saberá.

Escutou uma ponta de esperança na voz dele.

— Bom, isso não será esse ano — Amber disse, desviando o olhar dele — Eu não sei qual é a diferença na educação de Hogwarts e Beauxbatons. Precisaria me adaptar, talvez fazer algumas provas... Isso seria no começo do próximo período letivo. Se Dumbledore me permitir...

E duvidava que ele fosse permitir.

— Ele não pode te impedir! — ele exclamou.

Olhou-o curiosa.

Seria cedo demais para perguntar o que estava o afligindo em relação ao diretor?

Harry não parecia ser o tipo de pessoa que confiava nos outros com rapidez. Tendo sido criado por Vernon e Petunia, era bem compreensível.

Os dois entraram em um silêncio constrangedor depois desse diálogo.

Eventualmente, foram para o andar de baixo, onde a árvore já estava montada e a Srª Weasley parecia tentar encontrar formas de distrair as crianças, enquanto as atualizava do estado de saúde de seu marido.

— O que houve com o Sr Weasley? — ela perguntou.

— Ele foi picado por uma cobra — foi Ginny quem respondeu, apesar da pergunta não ter sido para ela.

Percebeu que Harry desviou o olhar, como se aquele assunto o incomodasse.

— Eu sinto muito — respondeu, mecanicamente.

Isso não tinha acontecido no universo em que veio.

— Ele vai ficar bem — Ginny afirmou, segura — Foi pego na hora certa.

Ela olhou diretamente para Harry quando disse isso, como que o desafiando a contrariá-la.

— Então você vai ficar por aqui?

Amber não soube o que responder, então apenas deu de ombros.

— Eu provavelmente vou voltar para a França — acrescentou.

Antes que pudessem continuar a conversa, o quadro da Srª Black começou a berrar quando a porta da frente da casa bateu bruscamente. A Srª Weasley, Remus e Tonks tiraram as varinhas de seus bolsos e instruíram as crianças a ficarem atrás deles.

Não era difícil de adivinhar quem era.

Depois de um estampido, os gritos pararam.

Os adultos pareceram ficar mais tensos conforme os passos percorriam o corredor até chegar à sala.

Marraine! — Amber exclamou, afastando-se do grupo — Como você...?

Antes que pudesse completar a frase, a mulher atirou-se em seus braços.

Podia imaginar a discussão que Marlene teve com Dumbledore para que o diretor desse a localização da casa para ela.

— Você desapareceu por quatro dias, Ambrose! — ela estava muito irritada.

— Tecnicamente foram três — corrigiu em um tom de voz baixo.

Marlene desfez o abraço, mas manteve as mãos em seus ombros, olhando-a nos olhos seriamente.

— Você vai me contar o que aconteceu — disse.

— Se você acreditar em mim — retrucou Amber —, mas agora não é uma boa hora.

Então a mais velha pareceu notar o resto dos habitantes da casa encarando-as.

— E aí? — cumprimentou casualmente.

Remus guardou a varinha em seu bolso antes de aproximar-se delas. Marlene apenas olhou-o nos olhos e concordou com a cabeça, antes de tirar as mãos dos ombros de Amber.

— Moony — ela disse.

Diferente do que pensou que aconteceria, ele deu um sorriso e a abraçou. Marlene olhou rapidamente para Amber, que desviou o olhar. Elas eram péssimas com aquele tipo de situação constrangedora.

— Sentimos sua falta — ele disse com sinceridade — Ele ficou devastado com a sua morte.

Sua madrinha desanuviou a sua expressão confusa, parecendo compreender que Amber tinha poupado a ela de contar a eles sobre o que tinha acontecido.

— Onde ele está? — Marlene perguntou com a voz trêmula.

— Eu estou aqui — uma voz rouca disse da porta.

Sirius havia ouvido os berros de sua mãe e descera para ver o que havia acontecido.

Remus afastou-se dela para dar espaço aos dois.

Amber só pensou que queria ir embora dali. Ela não queria ficar como telespectadora de um reencontro como aquele, mas também não queria chamar atenção para si e automaticamente distraí-los um do outro. Era muito bizarro como algumas pessoas ficavam olhando como se estivessem assistindo a uma novela mexicana.

— Sirius — Marlene não esperou antes de ir em sua direção.

Não pensou em nada. Não pensou em como ele pudesse reagir. Não pensou se ele a rejeitaria. Não pensou sequer se ele poderia estar com outra pessoa. Ela só precisava senti-lo entre seus braços mais uma vez. Nem que fosse a última vez.

— Lene... eu não sabia... eu teria ido atrás de você... eu juro... eu jamais teria sido tão imprudente se eu imaginasse... era o plano perfeito... eu já tinha perdido você... não tinha nada a perder... mas Harry precisava deles... se eu morresse salvando eles... — escutou-o murmurar, a cabeça enterrada no ombro de sua madrinha.

— Nós dois confiamos nas pessoas erradas... eu deveria ter desconfiado... deveria ter imaginado que nada impediria você de ir até nós... mas não adianta chorarmos pela poção derramada. O que está feito está feito.

Sirius se obrigou a se afastar e a controlar os sentimentos tumultuados.

— Amber disse que você estava grávida.

— Sim, eu descobri naquele dia. O nome dela é Sarah. Ela se parece com você — Marlene disse com um sorriso trêmulo. — Eu pensei em trazê-la, mas... não sabia como as coisas seriam.

— Eu gostaria de conhecê-la — a McKinnon se surpreendeu em ouvir três vozes diferentes dizer isso.

Ela olhou por cima do ombro e viu Remus sorrindo e Harry com o rosto corado.

Amber escondeu o rosto em suas mãos.

— Harry! — Marlene se aproximou do garoto. — Você deve achar que eu sou louca.

— Remus comparou você com minha melhor amiga, então eu entendo.

Ela o abraçou, e ele ficou paralisado por alguns segundos.

Céus, o que os Dursleys tinham feito com o seu irmão?

— Okay — Amber disse em voz alta, de forma nada natural — Hermione, por que você não me mostra a biblioteca, como você disse que faria agora mesmo?

Só então os outros parecem notar o quão intrometidos estavam sendo, o cabelo de Tonks até mesmo mudou de tonalidade.

— Não tão rápido, mocinha — Marlene a impediu de sair, voltando para o lado de Sirius — Você me deve explicações.

A Srª Weasley levou os adolescentes para outro cômodo e a metamorfomaga foi indo na direção deles.

— Ei, fica aqui — pediu Amber — A minha madrinha não se incomoda, não é?

Marlene levantou uma sobrancelha para ela, perspicaz.

Que faites-vous? — ela perguntou, aproveitando que só Sirius sabia francês naquela sala.

"O que está aprontando?"

Je ne sais pas de quoi tu parles — respondeu rapidamente.

"Não sei do que está falando".

Obviamente não foi levada a sério.

Contou a eles sobre como tinha ido parar em outra realidade, sobre como as coisas eram um pouco diferentes dali. Não havia muito para contar, então foi bem rápido.

— Como vão ser as coisas agora? — perguntou Harry, parecendo bem ansioso.

A única coisa que Amber tinha dito era que provavelmente não iria a Hogwarts por aquele ano, mas isso não explicava o que aconteceria. Elas voltariam para a França antes mesmo do natal? Ficariam ali? Marlene entraria para a Ordem mesmo com todas as desavenças com o diretor?

Ela trocou um olhar com Sirius, parecendo fazer-se as mesmas perguntas.

— Agora vocês vão buscar a Sarah — quem respondeu foi Amber.


Nota da autora:

Em pleno 2020, uns 5 anos depois de finalizar a saga "Laços de Guerra", eu me lembrei do motivo de nunca ter escrito o reencontro do Sirius com a Marlene. Eu sou PÉS-SI-MA com isso. A RhayaneSD escreveu essa parte e eu modifiquei para ficar mais próximo do que eu imaginava dos personagens. Rhay me salvando, nada de novo sob o sol.