Os pensamentos entraram em sintonia antes mesmo que Jilian abrisse os olhos.
Ela não tinha o privilégio de duvidar se estava na dimensão certa, a sua legilimência não a permitia isso, apesar de não conseguir escutar os pensamentos do andar de baixo.
Estava na Mansão Black. A arquitetura daquele quarto não deixava espaço para dúvidas, apesar de nunca ter pisado ali antes. Foi caminhando lentamente para fora, a madeira do chão abaixo de si rangendo.
Seria engraçado se o chão cedesse e ela caísse na mesa da Sala de Jantar.
— Fred, George, vocês não podem descer! — escutou Hermione reclamar autoritária.
Ela apressou-se a descer as escadas ao escutar passos e uma porta sendo aberta no andar de cima.
— Mas nós não estamos fazendo nada! — exclamou Fred, indignado.
Os gritos dos adolescentes pareceram chamar a atenção, pois assim que Jilian chegou ao primeiro andar, a porta do porão abriu-se e a Srª Weasley saiu de lá, parecendo furiosa. Eles já tinham tentado escutar a reunião mais cedo e levaram uma bronca enorme da mãe.
— Frederick e George Weasley, eu já disse que... — ela começou a gritar.
E então percebeu-a ali.
— Boa tarde, Srª Weasley — disse Jilian com tranquilidade — Eu...
— Remus, venha aqui! — Molly exclamou, antes mesmo que ela pudesse terminar.
E então abraçou-a, como se já a conhecesse há muito tempo.
— Jilian, você nos deixou tão preocupados — ela disse.
Tinha perdido alguma coisa?
A mulher afastou-se quando seu pai chegou ao andar de cima.
— Lia — o tom de voz dele era de alívio.
Todos a chamavam de Jill, mas Remus a chamava de Lia.
Era por isso, além do fato de ser legilimente, que ela sabia que o Remus da outra dimensão não era o que ela conhecia. Não tinha como ele saber disso, por mais que fosse inteligente.
Eles estavam tendo reuniões todos os dias desde o seu desaparecimento para tentar descobrir o que tinha acontecido com ela. Hannah tinha avisado a professora Sprout, mas eles perceberam que era sério quando chegou o recesso de natal e ela não tinha aparecido, então levaram o caso ao diretor.
Consideraram que Voldemort tinha ido atrás dela por saber que ela era irmã de Harry.
Remus tentou evitar pensar nisso, mas nem todos ali sabiam que ela era legilimente, e nem todos podiam simplesmente evitar.
— Entendo que esteja preocupado e que queira se assegurar que ela esteja bem, mas preciso conversar com Jilian — disse Dumbledore, assim que chegou à sala de estar.
Alguns outros integrantes da Ordem também não esperaram no porão, indo verificar o que tinha acontecido no andar de cima.
— Por que pensaram que ele sabia? — ela foi direta — Houve mais alguma coisa além do meu sumiço?
— Do que está falando, Lia? — Remus ficou confuso.
Não duvidaria se Dumbledore orientasse os seus colegas a praticarem oclumência.
— Preciso falar com ela agora — o diretor foi firme — Jilian é legilimente, sugiro que se afastem.
Era tão legal quando falavam dela como se fosse uma doença.
Sirius indicou um escritório, que devia ter pertencido ao seu pai, para que os dois conversassem a sós.
— Então vamos pôr as cartas na mesa — disse Jilian, sem sentar-se em uma das cadeiras empoeiradas do cômodo — De fato, Voldemort foi o culpado por meu sumiço, mas não do jeito que imaginaram. O Voldemort de outra dimensão descobriu sobre a existência dos universos paralelos, resolveu fazer um experimento, e tanto eu quanto outras garotas fomos parar em outro universo. Todas nós somos Potters em nossos respectivos mundos.
Dumbledore ficou em silêncio por alguns segundos, meditativo, antes de perguntar:
— Que tipo de experimento?
— O que acha que Voldemort faria se descobrisse que há outras realidades e que ele pode ter acesso a elas se invadir o Departamento de Mistérios?
"Procuraria outra forma de derrotar Harry".
— Está no Departamento de Mistérios? — ele murmurou para si mesmo, parecendo extremamente preocupado.
Jilian conseguiu captar uma única palavra no meio de toda a sua proteção psíquica muito bem estruturada.
"Profecia".
— Isso é tudo, professor? — ela perguntou.
— Não — ele respondeu, saindo de seus próprios pensamentos — Gostaria de pedir para que não conte a Harry...
— Esta é uma ordem ou um pedido?
— Deve entender o quão perigoso seria para você se Lord Voldemort descobrisse de sua existência.
Jilian concordou com a cabeça.
— Dispenso vossa preocupação — ela disse — Se quiser continuar mentindo para Harry em relação a outras coisas, o problema é seu, mas eu não vou continuar fingindo.
— Não seria um fingimento. Vocês dois nunca foram próximos na escola.
Verdade.
Eles eram de casas diferentes.
Além do mais, Harry sempre se restringia a Hermione e Rony, raramente envolvendo os outros Weasleys e os seus colegas de quarto.
Mesmo que contasse a ele sobre seu parentesco, jamais alcançaria aquele nível de intimidade. Eram muitos anos de atraso e uma distância de salões comunais.
— Eu tive que escutar muitas coisas quando Snape contou a todos sobre a condição de meu pai — disse Jilian — Pessoas se afastaram de mim, pensando que eu seria lobisomem como ele, me tratando como se eu fosse uma doença contagiosa.
Se fosse listar todas as coisas que já aconteceram em Hogwarts que poderiam ter sido evitadas por uma preparação adequada por parte dos professores... Bullying devia ser o tema mais básico de se tratar. E mesmo assim Harry constantemente sofria por causa disso.
Perda significativa de pontos no primeiro ano, os boatos da sua ofidioglossia no segundo ano, ter sido sorteado pelo cálice de fogo contra a sua vontade no ano anterior.
— O meu pai passa grande parte do seu tempo nesta casa, desde antes das minhas aulas começarem. O senhor não pode continuar me afastando porque nada do que fizer poderá me proteger de Voldemort — ela continuou — Mesmo que ele jamais saiba que eu sou uma Potter, para todos os efeitos eu sou uma Lupin, e isso pode ser tão perigoso quanto.
Dumbledore não interrompeu, escutando com atenção o que tinha para dizer, e permaneceu em silêncio depois, como que esperando se ela acrescentaria algo.
— Portanto, eu sinto muito, professor, mas não vou obedecer — ela disse, audaciosa — Harry merece saber que não está sozinho. Os seus tios não são bons para ele, seu padrinho está preso nessa casa, eu estou ao seu lado todo o tempo, mesmo que ele não saiba disso.
Não esperou que ele respondesse, indo em direção à porta.
— Agora, se me der licença, eu preciso ir.
A reunião evidentemente tinha sido interrompida pela saída do diretor.
Snape não pareceu ter paciência para esperar, tendo ido embora antes mesmo que ela retornasse à sala.
Sirius estava indignado com Remus. Isso estava evidente em seus pensamentos. Ele nunca tinha contado a ele sobre Jilian. Não podia entender o porquê. O diretor estava envolvido nisso também?
Dumbledore só tinha dito que uma aluna da Hufflepuff tinha desaparecido dentro do castelo e que ele acreditava que Voldemort estava envolvido. Não explicou o porquê. Isso não explicava como a Srª Weasley sabia que deveria chamar ao seu pai dentre todos da Ordem ali.
— É complicado — escutou Remus dizer.
— Você sabe, um cara cortou o próprio dedo e explodiu a rua inteira para se fingir de morto e me culpar — disse Sirius — Isso eu considero complicado!
Estava aproximando-se deles para entrar na conversa, mas o seu foco desviou-se quando reconheceu um dos integrantes da Ordem.
— Cedric?
As conversações na sala silenciaram. Não tinham percebido que ela saiu do escritório antes.
Dumbledore surgiu na porta atrás dela.
— Acredito que devido aos últimos acontecimentos, seja melhor encerrarmos a nossa reunião por hoje — ele disse com bastante tranquilidade para quem foi peitado por uma guria de quinze anos — Uma boa tarde a todos.
Vários integrantes da Ordem saíram quase que imediatamente após a retirada do diretor.
Jilian ignorou toda a movimentação, o olhar fixo em Cedric. Ele parecia o mesmo que da última vez em que se viram. Só de pensar que ele poderia ter morrido naquele Torneio Tribruxo... Ela não conseguia imaginar como seria o mundo sem ele. Só de pensar nisso, já sentia uma dor no peito e uma vontade ridícula de chorar.
Ela estava tão frustrada com ele por causa de Amos Diggory e toda a lei anti lobisomem antes de ser levada a outro universo. Sentia-se mal por não parecer mais um problema tão grande.
Bom, ele não tinha culpa de ter um imbecil como pai, de qualquer forma. Ele era novato no Departamento, não tinha muita voz. Apesar de não saber o porquê ele decidiu seguir no Ministério em vez de jogar quadribol ou procurar outra carreira.
A não ser que a Ordem tivesse a ver com isso.
— Quando foi recrutado? — Jilian perguntou a ele.
Não podia ver como Dumbledore iria atrás dele.
— Depois do Torneio — respondeu Cedric — Ele viu que eu tentei defender Harry, que eu acreditei sobre a volta de Voldemort.
Ele não tinha medo de falar o nome.
É claro que ele gostaria de ajudar... Isso era tão ele.
— Perguntou se eu queria ajudar a te proteger — ele completou.
— Não preciso de proteção — saiu mais ríspida do que esperava — Então você sabe?
— Sobre o quê?
— Sobre o Harry, sobre... mim.
Remus interferiu na conversa. Já tinha quase se esquecido que ele estava lá. Ainda bem que não disse ou fez nada de constrangedor.
— Não acho que aqui seja o melhor lugar para falar sobre isso — ele apontou para as escadas.
Sim, provavelmente os adolescentes estavam escorados no corrimão escutando tudo.
Talvez tivesse uma orelha extensível pairando acima de suas cabeças.
— Preciso falar contigo — Jilian disse a Cedric —, mas agora não dá.
Precisava falar com Sirius e Remus.
— Eu preciso ir — ele concordou com a cabeça — Posso voltar outro dia.
— Isso seria bom.
Ele murmurou um "certo" antes de sair.
Foi uma despedida estranha, mas não se sentia confortável de abraçá-lo sendo observada por Remus e Sirius.
— Vocês não têm nada melhor pra fazer não? — ela resmungou, assim que ele saiu da casa.
— A minha lista está limitada — respondeu Sirius, indicando a casa — Então... Filha? Uau, isso é bem surpreendente, já que nem quando James e Lily estavam vivos você se permitia estar com alguém.
Remus apenas suspirou, como se já esperasse que a conversa seguisse aquele rumo.
— Você sabe que a Jilian não é minha filha — ele disse — Não de sangue.
Ele a observou, como que se perguntando se ela tinha ficado magoada com a forma com que falou.
Não tinha.
— Você podia ter mencionado nesses últimos meses. Pensei que tivéssemos deixado para trás as desconfianças — Sirius reclamou.
— Eu sei, eu não sei o porquê de ter escondido isso.
Acabou se tornando uma conversa mais entre os dois do que ela planejava que fosse.
— Seguinte — interferiu, chamando a atenção dos adultos — Eu quero que Harry saiba a verdade, mas preciso da ajuda de vocês para isso.
— Eu deveria perguntar qual a sua relação com o menino Diggory? — perguntou Sirius, ignorando o que ela tinha dito.
Merlin lhe desse paciência.
— Não, você deveria tomar conta da sua vida — ela retrucou.
— James não gostaria disso — ele pareceu divertido.
Ela queria não ter lido a sua mente.
Ela não queria saber quantos homens babaram pela sua mãe enquanto ela estava na escola. Isso era nojento.
— Bom, a minha mãe certamente ficaria do meu lado — Jilian respondeu segura —, mas essa não é a discussão.
Percebeu pelo olhar do maroto que tinha caído direitinho na sua armadilha. A última coisa que queria era ter uma aula sobre garotos com aqueles dois marotos.
Ele estava gostando de tirar uma com a sua cara. Não precisava ler seus pensamentos para entender isso.
— Quer que chamemos ele para conversar? — Remus resolveu interceder por ela.
— Vocês o conhecem melhor do que eu — ela disse — Sabem como ele reagiria melhor a tudo isso. Talvez se eu deixasse que ele se aproximasse por si só...
— Esperaria até se formar em Hogwarts — respondeu Sirius — Acho que o fato de seus pais terem ficado juntos só no último ano já demonstra a lerdeza que vocês carregam no DNA.
Ela não era tão lerda assim.
Ela sabia que gostava de Cedric, só não tinha encontrado um momento para falar sobre isso. Nem sabia se ele sentia o mesmo, já que a apanhadora da Ravenclaw ficava no pé dele.
Se bem que ele tinha convidado ela para ir ao baile, e não Cho Chang.
— Esperar o tempo dele parece uma boa ideia — Remus ficou do seu lado, revirando os olhos para o amigo — Você virá conosco?
— Eu não sei.
A legilimência podia ser tanto um dom quanto uma maldição às vezes. Harry era muito fácil de ser lido, ela percebeu isso na outra dimensão. Não sabia se gostaria de saber como ele se sentia em relação a ela antes que ele se acostumasse.
O seu pai entendeu a sua preocupação e apenas assentiu.
— Talvez se Rony e Hermione estivessem com ele, ele se sentiria melhor — ela sugeriu — Bom, ele vai contar a eles depois de qualquer forma.
— Depois precisamos conversar sobre o que aconteceu — disse Remus.
Precisaria contar a ele sobre a outra dimensão.
Às vezes ela gostaria de poder transmitir os seus pensamentos da mesma forma que podia ler o dos outros.
— Tá bem.
A parte mais difícil seria se lembrar de Dianella, Astoria, Scarlet e Amber.
Ela não tinha contado detalhadamente ao diretor, sentia que era algo pessoal demais.
Queria manter aquelas memórias consigo.
Por uns momentos gostou de ter quatro irmãs tão diferentes entre si.
Como Dianella estaria se saindo agora em seu universo? Esperava que ela ficasse bem, que todas elas ficassem bem depois daquilo. Odiaria que Voldemort em algum lugar descobrisse sobre aquela viagem e as torturasse para conseguir informações.
Não sabia se poderia fazer algo para impedi-lo de dominar o multiverso.
— Acha que se meus pais estivessem vivos, eles teriam tido tantos filhos? — ela puxou o assunto mais tarde com Remus.
Harry estava confuso e estranho, como ela imaginava que ele estaria.
Remus e Sirius conversaram com ele, Rony e Hermione depois daquele momento mais cedo. Não tinha ficado na conversa, e tentou se ocupar de outras formas para não escutar os pensamentos deles depois disso.
Tonks esteve a evitando um pouco, não por achar que ela era filha de Remus, mas porque ela tinha... dito algumas coisinhas para a auror. Digamos que ela tinha começado o seu plano de juntá-los.
— Eu não sei — respondeu o seu pai — É difícil acreditar que eles teriam seis filhos.
É, eles seriam a família Weasley 2.0.
— Eu não duvido — Sirius disse, sem se preocupar em fingir que não estava escutando, apesar dos tons de voz baixos.
Jilian resmungou, pondo as mãos nos ouvidos.
— Eu não quero saber! — ela reclamou.
Ele gargalhou, soltando um latido no processo.
— Ignore-o, Lia — Remus a aconselhou, lançando um olhar repreensor para o amigo.
— Posso te chamar de Lia? — perguntou Sirius.
— Não, você não pode — Jilian retrucou.
— Merlin, eu amava irritar a sua mãe. Você é igualzinha a ela.
Ela cruzou os braços, tentando não se mostrar tão emburrada, sabia que ele apenas riria mais dela.
Pensou em dizer que ele deveria arrumar uma namorada, mas então se lembrou de Amber. Se aquilo fosse igual nos universos, significava que ele teve uma namorada há muito tempo, mas que ela estava morta agora. Não cutucaria aquela ferida.
— E você é irritante — ela não pôde evitar retrucar, apesar de ter sentido a nostalgia vinda dele com a menção de sua mãe.
Levantou o olhar, vendo Harry observá-los do outro lado do cômodo.
Ele estava sentado próximo de seus amigos, jogando xadrez bruxo com Rony, enquanto Hermione lia um livro.
Era sempre assim que eles agiam em Hogwarts.
— Como Moony se sai? — perguntou Sirius.
— Você sabe — ela deu de ombros, desviando o olhar — Ele é muito responsável.
O maroto olhou para o amigo, que apenas os observava se alfinetarem.
— Já superou aquela ladainha? — ele perguntou.
— Sirius, não comece — alertou Remus, já na defensiva.
— Que ladainha? — Jilian perguntou, apesar de já saber a resposta.
— Que ele não pode se envolver com alguém por causa do probleminha peludo — Sirius respondeu, sem dar tempo para o amigo protestar.
— Ah sim, ele continua com isso — ela revirou os olhos.
Ele resmungou algo como "Vou falar com Molly", antes de levantar-se e afastar-se deles.
Era a oportunidade que ela estava esperando.
— Tenho um plano e você vai me ajudar — Jilian intimou o animago.
— Ao seu dispor, general.
Ela juntaria Remus e Tonks ou não se chamava Jilian Lupin.
Jilian Potter.
Ah bem, ou não se chamava Jilian.
