POV DEMI
- Dra. Belle. - Elevei meu tom de voz chamando a atenção da mulher distraída ao meu lado.
- Desculpe. - Falou sem jeito. - É... - Olhou para o paciente deitado na cama hospitalar. - Robert Harris. Trinta e cinco anos. Internado com... - Pausou.
Suspirei.
- Carcinoma hepatocelular. - Terminou Swift.
- Então, Robert... - Olhei para o paciente e um sorriso galanteador tomou sua face.
- Então, Doutora... o que acha de jantar comigo quando eu sair dessa cama? - O sorriso do homem se alargou.
- E o que o senhor acha da Dra. Belle preparar você para a cirurgia? - Falei seriamente e ele soltou um riso baixo. - Me chame quando estiver tudo pronto. - Avisei antes de virar para sair.
Mal consegui me locomover até a porta. Senti minha visão começar a escurecer. Tombei para o lado e Swift me segurou.
- Demi, você está bem? - Ela perguntou.
- Estou bem, foi apenas uma tontura. Nada mais. - Saí do quarto, notando ela me seguir pelo corredor do hospital.
- Há quanto tempo você está aqui? - Questionou.
- Não sei. Muito.
- Você precisa de um tempo, você sabe... - Continuou. - Você anda trabalhando muito nos últimos dois anos. Não sei como permitam. Quantas horas na semana?
- Taylor, eu sei que somos amigas mas aqui dentro eu sou sua chefe e nesse momento quero que me deixe em paz. - Falei calma ao parar e encará-la.
- Está bem... - Suspirou. - Como quiser, Dra. Lovato. E por tocar no assunto em querer te ajudar, Nick estava te procurando mais cedo.
Ela estava certa. Todos eles estavam. Mas eu os ignorava. Não me lembrava da última vez em que saí cedo do hospital ou de alguma folga. Meus últimos dois anos se resumiam ao hospital. Cada dia que salvava uma vida eu me sentia uma pessoa melhor. O sentimento de ter impedido a morte de alguém era inexplicável para mim. Era a melhor coisa que eu sabia fazer. Me sentia viva.
Em minha casa só havia tristeza e apenas lembranças de uma época realmente feliz da minha vida. Toda vez que abria a porta do meu apartamento só o que encontrava lá era escuridão e um silêncio ensurdecedor. Não era mais recebida pelo sorriso perfeito da mulher que há dois anos foi tirada de mim.
- Demi? - Ouvi a voz de Jonas, ele vinha em minha direção. - Brian Teefey quer falar com você.
- Sim, eu sei. Já estou indo. - Falei. - Então, como foi a cirurgia? - Perguntei a ele enquanto caminhávamos pelo corredor em direção ao quarto da paciente.
- Você me conhece. Incrível. - Nicholas sorriu se gabando.
- Você seria um excelente cirurgião se não se achasse tanto, Dr. Jonas. - Brinquei.
- Hmm, Dr. Jonas? Por quê isso soa tão sexy quando você fala, hein? - Nick falou atrás de mim e eu bati meu cotovelo em seu abdome.
Às vezes ele realmente conseguia me irritar.
- Isso doeu. - Gemeu de dor.
- Olá, Selena. - Entrei no quarto e a garota desviou os olhos castanhos da televisão para mim. - Como está se sentindo hoje?
- Bem. Eu acho. Quero ir pra casa.
- Bem, você vai ter alta essa semana. - Sorri para a menina. - Sr. Teefey, o que queria falar comigo? - Olhei para o homem cansado.
- Exatamente isso, quando vou poder levar a Sel pra casa. - Ele sorriu. - E obrigado por tudo, Doutora.
- É só o meu trabalho. Então, Selena, o que você está assistindo? - Perguntei olhando para a televisão.
- Não sei, um filme qualquer. - Respondeu entediada e triste. - Na verdade eu queria ouvir músicas mas meu iPod estava no carro e… - Ela abaixou a cabeça, seus dedos brincando com a coberta.
- Hmm... - Coloquei a mão no bolso do meu jaleco retirando meu iPod. - Você pode usar o meu se quiser. - Entreguei o aparelho para ela que pegou roçando rapidamente a mão na minha.
- Obrigada. - Selena sorriu, colocando os fones nos ouvidos.
Deixei a garota e seu padrasto sozinhos novamente, sentindo meu celular vibrar dentro do bolso enquanto andava pelo corredor. Peguei o telefone e fitei o nome na tela.
Suspirei. Mais uma vez ia decepcioná-la.
- Demi? Você já tá chegando? - Perguntou a voz fina da garotinha de sete anos.
- Liz, me desculpe mas eu estou ocupada...
- Mas Demz, você prometeu!
- Eu sei, meu amor. Me perdoe, não posso deixar o hospital agora.
- Minha irmã mentiu quando disse que você nunca quebraria uma promessa. - A linha ficou muda.
Suas palavras eram tão fortes para uma criança de apenas sete anos de idade. Todas as promessas que havia feito sobre passar mais tempo com ela foram quebradas. Me sentia péssima. Perdi seus dois últimos aniversários e sentia a confiança que ela tinha em mim desaparecer com o tempo. Não estava conseguindo cuidar dela como prometi. Só estava falhando.
- Você deve ir. - Virei encontrando Taylor. - É a irmã dela.
- Não posso deixar o hospital. - Voltei a seguir meu caminho mas Taylor segurou meu braço me fazendo virar pra ela.
- Que isso, Taylor? Pirou? - Puxei o braço.
- Você pirou. - Rebateu. - Você está vendo alguém morrer aqui? Está tudo certo, Demi. Não existe só você de médica nesse lugar.
- Cale a boca. Você não entende.
- Entendo que parece que você morreu com a Miley.
- Não fala..
- Há dois anos você age como se a sua vida fora daqui não importasse mais. Só o que faz é ajudar as pessoas e isso é muito bom. Mas e você, Demi? É difícil, mas precisa superar.
- Cale a boca, Taylor. Eu mando em você aqui dentro e não tenho que ficar ouvindo as palavras de uma..
- Wow. - Me cortou. - Agora vai jogar na minha cara que é superior aqui, Lovato? Inacreditável, Demi. Quer saber, não vou falar mais nada pra você. - A loira alta deu às costas e saiu.
Senti uma lágrima cortar meu rosto e a limpei rapidamente, notando o olhar de três enfermeiras presentes ali.
- O que vocês estão olhando, hein? Não tem nada para fazer, não? - Falei ríspida.
(...)
Olhei a tela do meu celular. Era tarde e com certeza a festa de aniversário de Liz já havia terminado. Tentei expulsar da minha mente as malditas palavras de Taylor mas não conseguia. Andei até o elevador e após trocar de roupas, saí do hospital. Estava chovendo então me apressei até meu carro. Sorri fraco ao olhar para a caixa de presente deixada no banco de trás e comecei dirigir até a casa de Liz.
- Demi? O que você faz aqui essa hora? E está ensopada. Entre! - A mãe de Liz falou ao abrir a porta dando-me espaço para entrar.
- Desculpe pela hora, eu não pude vir mais cedo. Ela está dormindo?
- Não, ela está acordada...
- Tudo bem, eu vou subir e falar com ela.
- Está bem, querida.
Subi a escada com o presente de Liz em minhas mãos, cerrando a mandíbula ao fitar a porta ao lado do quarto da menina. Havia tantas lembranças naquele cômodo. Respirei fundo e abri a porta do quarto da garotinha, a encontrando deitada na cama com um livro ilustrado nas mãos.
- Demi, você veio! - Ela pulou da cama e correu até mim, envolvendo os pequenos braços em meu pescoço.
- E eu trouxe o seu presente! - Liz se afastou pegando a caixa da minha mão sem tirar o sorriso do rosto. - Desculpa ter perdido a festa.
- Tudo bem. Eu também tenho um presente pra você, Dem. - Ela andou até o criado mudo e pegou alguma coisa que escondeu rapidamente em suas costas. - Feche os olhos!
- Tudo bem, eles estão fechados. - Eu disse rindo.
- Pode olhar agora!
Abri os olhos divertidamente sentindo uma alegria misturada com tristeza ao olhar para o objeto nas pequenas mãos de Liz. Era um porta retrato todo colorido e cheio de desenhos com uma foto de Miley, Liz e eu. Aquela era uma das minhas fotos favoritas. Beijávamos as bochechas rosadas da menina na época com cinco anos enquanto ela sorria largo. Não consegui evitar e deixei as lágrimas escaparem, mas sorri, pegando o presente das mãos de Lizzie.
- Você não gostou? - Ela perguntou triste.
- Você está brincando comigo? - Sequei o rosto. - Esse é o melhor presente que já ganhei na vida!
- Mentirosa. O melhor presente é o seu colar. - Liz passou os dedinhos pelas pequenas iniciais em meu colar.
- Então digamos que os dois são os melhores. O que acha?
- Eu acho... - Liz fez uma carinha de pensativa levando a mão até o queixo - Perfeito!
- Escute Liz, eu tenho mais uma surpresa... - Ela se afastou olhando pra mim alegremente. - Nesse fim de semana eu sou toda sua e você escolhe o que vamos fazer!
- Sério? - Ela arregalou os olhos claros que lembravam os da irmã.
- Sério! Não vou quebrar mais nenhuma promessa, tudo bem? - Envolvi o corpo pequeno e frágil da menina em meus braços - Eu te amo, Lizzie.
- Você é a melhor, Dem!
