Olhei para o céu azul sem nenhuma nuvem. Estava no meio da tarde, passava das três horas para ser exata e só podia se ouvir os gritos animados das crianças que brincavam e corriam pelo lugar aberto.

- Você não vai mesmo para o acampamento esse ano? - Perguntou Hay, enquanto andávamos pelo parque próximo de casa.

- Pra quê? Pra me humilharem enquanto eu estiver lá? De jeito nenhum. Já aguento o suficiente no colégio.

- Você não pode deixar de se divertir por causa dessas pessoas estúpidas, Sel. - Afirmou ela.

- Eu sei… mas já decidi.

- Se eu pudesse eu ficaria com você mas meus pais já pagaram então sou obrigada a ir. - Sentou em um dos bancos de madeira.

- Tudo bem, Hay. - Sentei ao seu lado. - Você deve ir, é divertido e ninguém te odeia lá.

- Justin odeia. Porque sou sua amiga. - Revirei os olhos, aquele garoto era tão estranho. - Mas mudando de assunto, Sel… o que vai fazer durante esses dias sem aula?

- Não tenho ideia. - Suspirei, olhando para as crianças brincando nos balanços. - Eu estava pensando em visitar meus avós, mas sei lá...

- Parece legal… mas por quê você não passa todo esse tempo no hospital? - Ela riu, tocando meu braço. - Ao lado da Doutora Sexy Lovato. - Completou, maliciosamente.

- Até parece… espera. - A olhei confusa. - Como sabe que chamo ela assim? - Perguntei franzindo o cenho, não me lembrava de ter comentado sobre o apelido secreto com Hay.

- Eu… ai meu Deus você chama ela assim? - Fingiu surpresa. - Que coincidência, Sel. Somos mesmo melhores amigas né?

- Hay, sem essa. Fale logo como sabe!

- Okay... quer mesmo saber? - Assenti. - Apenas não fique constrangida, está bem?

- Mas por quê eu ficaria? - Perguntei confusa.

- Bem... ontem a noite quando cheguei na sua casa, Maria avisou que você estava no banho... - Engoli em seco. - Então eu subi até o seu quarto para esperar mas aí quando entrei... comecei a ouvir um som abafado vindo do seu banheiro misturado com a água do chuveiro... e ouvi você falando esse apelido aí… em meio a gemidos. - Começou a rir.

Eu não tinha onde esconder minha cara naquele momento, estava completamente envergonhada. Passei as mãos pelo meu rosto corado e encarei Hay ao meu lado que continuava rindo da minha situação.

- Você devia ter avisado que estava no meu quarto.

- Ah eu não quis atrapalhar a sua… o seu… - Disse ela, procurando a palavra mais certa.

- O meu nada! - Afirmei, envergonhada.

- Relaxe Sel... o mais engraçado de tudo foi a cara que Maria fez quando desci a escada rindo sem conseguir parar.

- Você Hay, é uma ótima amiga. Muito bem, continue sempre assim. - Falei sarcástica.

- Foi você quem quis saber. - Encolheu os ombros.

Continuamos a andar pelo parque onde as crianças acompanhadas de seus pais ou babás, se divertiam nos brinquedos.

Ainda me sentia um pouco envergonhada por minha amiga ter ouvido um dos meus momentos mais íntimos e apenas queria esquecer aquela conversa constrangedora.

Paramos para tomar um sorvete no caminho de volta pra minha casa e enquanto Hay esperava pela casquinha dela, meus olhos foram de encontro à uma garotinha de cabelos claros sentada na calçada em frente à sorveteria com uma pequena bicicleta cor de rosa jogada ao seu lado. Andei até ela com meu sorvete em mão ao notar que ela chorava.

- Você está bem? - Perguntei, ela olhou para mim negando com a cabeça enquanto tentava secar as lágrimas.

- Vamos, Sel! - Chamou Hay, parando ao meu lado. - Quem é ela? - Perguntou antes de lamber seu sorvete de morango.

- Eu não sei. Qual é seu nome, menina? - Perguntei para a garotinha.

- Lizzie. - Respondeu ela, soluçando.

- E por quê você está chorando? - Perguntou Hay.

- E-Eu, eu… estava andando de bicicleta e q-quando fui voltar p-pra minha casa... eu não sabia como. - Contou chorando.

- Está perdida? - Perguntei me agachando ao seu lado e ela assentiu, passando as mãozinhas nos olhos vermelhos de chorar.

- Por qual lado você chegou aqui? - Perguntou Hay, se agachando do outro lado da menina que apontou seu dedinho para o lado esquerdo da rua.

- Vamos ajudar você, tudo bem? Pode ficar com meu sorvete. - Sorri, entregando a casquinha de chocolate à ela.

A garotinha se levantou saboreando o doce gelado enquanto eu peguei sua bicicleta do chão, a empurrando enquanto começávamos a andar para o lado no qual ela havia vindo.

Caminhamos mais de cinco quadras e conforme andávamos eu perguntava para a menina se ela lembrava do lugar onde estávamos ou de algo parecido para que pudéssemos encontrar sua casa ou alguém conhecido. A princípio ela negou mas quando viramos a esquina de uma rua com pouco movimento seus olhos claros brilharam e ela soltou a mão de Hay gritando "mamãe" ao começar a correr em direção à uma mulher loira que parecia preocupada enquanto falava ao telefone. A moça desligou o celular quando avistou a menina se aproximando, a abraçando no mesmo instante.

Eu e Hay fomos até elas presenciando a cena de mãe e filha. A mulher que antes parecia preocupada agora tinha uma expressão mais aliviada no rosto. Ela depositou um beijo na cabeça da menina e se colocou de pé.

- Muito obrigada por ajudarem minha filha. Eu não sabia o que fazer, procurei por todos os lados e nada. Estava a beira de um surto. - Disse ela, acariciando o cabelo da filha. - Há tantas pessoas ruins no mundo, estou muito grata por terem a encontrado.

- Não precisa nos agradecer, senhora. Vi ela chorando em frente à uma sorveteria e tive que ajudar. - Falei olhando para a menina que sorriu.

- Muito obrigada, o que posso fazer para recompensá-las?

- Oh, não se preocupe com isso. - Protestou Hay.

- Aceitem pelo menos um suco ou refrigerante. - Insistiu a mulher gentil.

- Aceita, Selena! - Pediu a menina.

- Tudo bem, nós aceitamos. - Sorri.

Seguimos a mulher e a menina para dentro de uma das casas e esperamos sentadas em um dos sofás enquanto a mãe de Lizzie pegava dois copos de suco para mim e Hay que começou a brincar com a menina, tentando montar um quebra-cabeça de desenho. Corri o olhar pelo cômodo e levantei, andando até uma estante onde haviam porta-retratos e alguns objetos de porcelana. Comecei a olhar as fotos da família enquanto esperava a bebida, estreitando os olhos para uma das imagens.

O rosto conhecido rapidamente prendeu minha atenção. Estava enlouquecendo ou aquela era mesmo Demi? Mas por que tinha uma foto dela naquela casa?

Ela parecia mais nova na foto, com mais cara de menina e seus cabelos estavam castanhos. Peguei o porta retrato admirando de perto o sorriso largo que tomava quase toda a face bonita. Ela estava abraçada com uma bela garota de olhos claros.

- Aqui estão seus sucos, meninas! - Devolvi o objeto no devido lugar ao ouvir a voz da dona da casa e voltei para o sofá pegando o copo de suco de laranja. - Você sabe que vai ficar de castigo, certo? - A mulher disse para a filha.

- Mas eu não tive culpa. - Choramingou.

- Mas..

De repente a porta da casa abriu e uma Demi ofegante e desesperada apareceu ali, me encarando confusa, mas aliviada ao olhar para a menina sentada no chão.

- Demi! - A menina correu até Demi que se abaixou para abraçá-la.

- Nunca mais faça isso, Liz. Por Deus, quase me matou de preocupação! - Disse Demi, beijando a cabeça da menina.

- Desculpe Demz, não foi minha intenção. - A garotinha choramingou. - Mas Selena e Hay me ajudaram!

- Como? - Perguntou Demi, sorrindo confusa.

- Eu e Hay… - Minha amiga acenou para Demi sendo retribuída com um sorriso. - Nós encontramos ela chorando em frente à uma sorveteria e ajudamos ela a voltar pra casa. - Expliquei.

- As garotas chegaram com Liz logo depois que você desligou. Tentei ligar de volta para avisar que estava tudo bem mas você não atendeu. - Explicou a mãe.

- Esqueci meu celular no hospital. - Disse Demi. - Mas… muito obrigada, Selena e Hayley. - Ela se aproximou de mim. - Isso é uma bela coincidência. Não sabe como estou agradecida.

Então ela me puxou para um abraço. Envolvi os braços em sua cintura e fechei os olhos aproveitando aquele momento.

Logo depois me juntei à Hay e Liz para tentar terminar de montar o quebra-cabeça enquanto Demi conversava com a mãe da menina na cozinha. Fiquei curiosa para saber mais da ligação dela com a família, será que ela morava ali? E quem era a garota da foto?

Levantei do chão ao vê-la voltando para a sala.

- Selena, posso falar com você? - Perguntou.

- Claro. - Respondi contente ignorando o sorriso sutil e malicioso que se formou no rosto de minha amiga.

- Vamos lá fora. - Ela andou até a porta a abrindo. - Eu sei que não quer nada. Mas quero fazer alguma coisa para te agradecer. Só palavras não bastam pra mim. Aquela menina é minha vida e você praticamente a salvou. Então... será que tem algo que posso fazer por você?

Meu Deus, o que eu ia dizer? Pra ser honesta, havia tanta coisa...

- Talvez... - Falei tímida.

- Pode dizer. Qualquer coisa!

- Você… quer, uh... quer almoçar comigo amanhã? - Perguntei, receosa.

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

- Claro.

Meu estômago revirou.

- Então… te pego no hospital? - Sugeri e ela assentiu. - Uh, posso perguntar uma coisa?

- Sim... claro...

- Qual seu parentesco com Liz?

- Na verdade sou só... muito próxima da família.

- Oh... ela é muito adorável. - Demi assentiu sorrindo. - E… você fica muito bonita com o cabelo castanho. - Comentei a deixando confusa.

- Como sabe? - Me olhou sorridente e intrigada.

- Vi uma foto sua lá dentro. A garota ao seu lado era sua... - Pausei.

- Sim. - Cerrou a mandíbula abaixando os olhos.

- Selena! Minha mãe está louca e já ligou três vezes! - Hay apareceu do lado de fora da casa exageradamente desesperada. - Precisamos ir e eu estou encrencada.

- Está bem, Hay. Calma. - Ri.

- Eu levo vocês. - Demi se ofereceu. - Só vou me despedir e já volto. - Avisou, entrando novamente na casa.

- O que a Doutora Sexy Lovato queria com você? - Questionou Hay.

- Cale a boca! - Falei baixo. - Não chame ela assim aqui. - Repreendi, olhando para ver se alguém havia ouvido.

- Ai, Sel… relaxa. Então o que ela queria?

- Ela quer me agradecer então a convidei para um almoço. - Contei animada.

- O que?! Você tem um encontro com ela?! - Ela praticamente gritou.

- Fala baixo, Hay! E não é um encontro.

- Vamos meninas? - Demi nos chamou, fechando a porta da casa atrás de si.

Entramos em seu carro e enquanto ela dirigia, eu observava discretamente o perfil bonito do rosto sério, sentindo seu perfume no ar.

Minutos depois, Demi deixou Hay na casa dela e depois me levou até a minha. Ela parecia pensativa e quase não falou durante o trajeto.

Passei a língua nos lábios e soltei o cinto de segurança, enrolando para sair de seu carro.

- Então... nos vemos amanhã? - Ela perguntou suave.

- Claro! - Sorri.