Cobri a cabeça com um travesseiro. O sol quente já brilhava lá fora e os raios adentravam meu quarto através das janelas. Sentei na cama me espreguiçando e pisquei os olhos os esfregando. Levantei com pouca vontade, escovei os dentes e lavei o rosto. Desci para a cozinha ainda vestida em meu pijama sentindo um cheiro delicioso de cookies de chocolate.
- Hmm, biscoitos pra mim? - Falei animada para a mulher na cozinha.
- Oh, não querida. Sinto muito mas esses aqui não são para você! - Maria sorriu, retirando os biscoitos do forno e os colocando em cima da bancada.
- Não? - Franzi o cenho. - São pra quem então? - Perguntei, enciumada.
- Debby. Uma garota educada que me ajudou com as compras hoje. Ela está lá na sala, você não a viu?
- Não... e eu poderia ter ajudado você. - Bufei ao sentar em uma banqueta apoiando os cotovelos no mármore.
- Que bico é esse, Sel? Por que não vai conhecê-la e fazer amizade, eu acho que ela tem a sua idade.
- Tanto faz...
Deixei a cozinha um pouco emburrada e cheguei na sala de estar encontrando uma garota de cabelos castanhos claros e lisos. Ela parecia compenetrada na minha revista em quadrinhos. Limpei a garganta chamando sua atenção e ela se assustou largando a revista de lado.
- Eu… fiquei curiosa. - Falou envergonhada.
- Sem problemas... - Me aproximei sentando ao seu lado no sofá - Gosta dessas coisas?
- Hm, sim. Tenho algumas. - Sorriu. - Sou Debby, aliás. - Estendeu a mão.
- Selena. - A cumprimentei.
- Eu já te vi pelo bairro antes… com uma garotinha.
- Oh, você mora por aqui?
- Sim, três quadras daqui. - Seus olhos se desviaram do meu rosto para algo atrás de mim.
Virei vendo Maria se aproximar com os cookies.
- Aqui estão! - Maria sorriu.
- Uau, não precisava mesmo, mas obrigada! Parecem deliciosos, Sra. Maria.
- Senhora não, apenas Maria por favor. - Riu. - Sobre o que estão conversando? - Perguntou ao pousar a tigela de cookies na mesinha.
- Eu estava dizendo que já tinha visto a Selena no bairro. - Sorriu, pegando um cookie.
- Oh. Podem ser amigas agora, não?
Cocei a nuca pensativa. Eu não precisava de novas amigas...
- Claro! - Concordou Debby. - Podemos fazer alguma coisa hoje a noite. O que acha, Selena?
- É... eu... não sei, talvez. - Dei de ombros.
- Aceite, querida. Você quase não sai, nem quando Hay está aqui. - Disse Maria, tentando me convencer.
- Está bem, eu acho… aonde vamos? - Perguntei para a garota.
- Se quiser, vai rolar uma festa hoje a noite.
- Hmm... tudo bem, pode ser...
Debby contou que havia se mudado para o bairro fazia pouco tempo. Além de gostar de revistas em quadrinhos, ela tinha bom gosto para músicas e filmes. Nos conhecemos um pouco melhor enquanto comíamos os cookies e antes de ir embora, ela me deu o número dela.
(...)
- Não deveríamos estar aqui. - Olhei para a casa grande, movimentada e com música alta.
- Por quê? - Debby perguntou confusa ao estacionar o carro.
- É meio complicado, o dono da festa é um imbecil e me odeia...
- Eu nem o conheço. - Riu. - Mas por que ele te odeia?
- É que… bem, deixa pra lá. Vamos embora daqui.
- Está brincando? Qual é Selena, vamos entrar. Foda-se se esse garoto odeia você, mostra que não se importa e aproveita da própria festa do cara.
- Você é louca. - Ri nervosa. - E se eles nos expulsarem?
- Não vão, com certeza não vão nem notar nossa presença.
- Duvido...
Andamos até a entrada da casa luxuosa onde tinha vários garotos bêbados, alguns deles eram do meu colégio e me olharam estranho e surpresos. Os que não conhecia pareciam me comer com os olhos exibindo um sorriso malicioso e nojento. Havia vários copos e garrafas de bebidas espalhados pela casa cheia de adolescentes e casais se pegando pelos cantos. Comecei a me sentir desconfortável temendo que Justin me visse, então Debby me puxou pela mão e saímos para a área da piscina também lotada de gente. Demorei um pouco para me soltar e curtir, aceitando um copo de bebida da garota.
Fiz uma careta sentindo a bebida descer quente pela minha garganta.
Durante uma conversa descontraída com Debby, senti uma mão em meu ombro e virei assustada com medo de encontrar o rosto conhecido. E foi o que aconteceu, o garoto parecia furioso enquanto fitava meu rosto.
- O que pensa que está fazendo aqui?
- Eu..
- Então você é o imbecil? - Falou Debby.
- O que? - Ele a encarou. - Quem é você? Quer saber, não dou a mínima. Quero as duas fora daqui.
- Calma playboyzinho. - Debby ergueu as mãos. - Isso não é uma festa? Então, eu e Selena só queremos nos divertir.
- Hmm... quer se divertir, Selena? - Ele sorriu para mim, e eu conhecia aquele sorriso cínico.
- Não, eu vou embora. - Tentei sair mas a mão do garoto segurou forte meu pulso.
- Não, agora você fica e se diverte. - Afirmou, antes de virar a garrafa de cerveja nos lábios.
- Foi fácil. - Debby sorriu. Ela não fazia ideia mas Justin ia aprontar algo. Eu podia sentir.
O garoto jogou a garrafa vazia no gramado e virou o boné para trás, sorriu diabolicamente para mim antes de chamar seus colegas. Eu estava prestes a correr dali mas os garotos chegaram e cercaram a gente.
- O que acha de darmos uma volta, Selena? - Justin se aproximou segurando meu queixo. Bati em sua mão me esquivando.
- Me deixe em paz, Justin!
- Ela não vai a lugar nenhum com vocês. - Afirmou Debby. Justin revirou os olhos.
- Tirem essa desconhecida daqui. - Mandou.
- Me solta! - Debby se debateu quando um dos garotos a segurou pelos braços. - Me solta! Selena! - Gritou sendo levada pelo garoto.
Engoli em seco assustada.
- Justin, por favor...
- Justin, por favor. - Me imitou.
- É sério, pare com isso e me deixa em paz. Eu vou embora da sua festa, okay? Eu não sabia que..
- Cale a boca lésbica do caralho! - Gritou furioso me fazendo piscar. - Você vai se divertir agora.
Um dos amigos de Justin me segurou forte pelos braços. Eu gritei para me soltarem mas ninguém se importou. Todo mundo estava bêbado e chapado e riram do que estava acontecendo comigo. Eu estava com medo e arrependida de ter saído de casa.
Fui levada para a garagem onde havia alguns carros e empurrada para dentro de um deles. Em seguida Justin começou a dirigir ao som de uma música alta enquanto seus amigos sentados ao meu lado riam e bebiam. O carro estava muito rápido e eu estava congelada de medo.
- Ei, cara... - Justin falou com o garoto no banco do passageiro. - Você podia fazer ela começar a gostar de homens, não acha?
Engoli em seco completamente assustada.
- Não, irmão. Não vou comer essa garota. - Riu, bebendo a cerveja.
- Toma. - Jogou uma garrafa de whisky no meu colo me assustando. - Beba tudo, queria se divertir, não é? - Justin riu pisando no acelerador.
- E-eu não quero. - Minha voz tremeu.
- Beba essa merda logo, Selena. - Gritou.
- Pra onde está me levando?
- Lugar nenhum. Beba logo!
Comecei a abrir a garrafa e sem escapatória comecei a beber, fechando os olhos com uma careta enquanto eles gargalhavam.
- Beba tudo, quero ver você bêbada. - Riu.
- Justin nã…
- Cale a boca e beba!
Deixei a garrafa na metade me sentindo tonta e perdida. Olhei para os rostos distorcidos dos garotos ao meu lado e quis vomitar. Só queria sair dali e ir para a minha casa.
- Tome isso, vai se sentir melhor. - O garoto no banco da frente me entregou um comprimido. - Pode tomar.
Pisquei algumas vezes tentando enxergar corretamente o comprimido azul em minha mão e impensadamente o joguei dentro da boca.
(...)
O frio arrepiou minha pele quando me expulsaram para fora do veículo. Estava tudo escuro e eu não tinha ideia da onde eu estava. Andei cambaleando pela rua e peguei meu celular no bolso, apertando os olhos com a claridade da tela. Parei zonza ao procurar pelo número de Demi. Por algum motivo queria escutar sua voz naquele momento. Ela me acalmava. Levei o telefone à orelha rindo sozinha.
- Selena? - Ela atendeu.
- Demi! - Ri contente.
- Tudo bem?
- Não sei... não sei onde estou.
- O quê? Como assim?
- Tô no meio do nada, até que é legal mas tá muito friiiiio.
- Selena, isso é algum tipo de brincadeira? - A voz da mulher soou séria.
- Nããão, eu juro. Só que tá frio.
- Por quê me ligou?
- Queria ouvir sua voz. Estou com medo. E acho que preciso de ajudar.
- Onde você está?
- Já disse, linda. No meio do nada. - Ri.
- O que vê ao seu redor?
- Uhhh... - Percorri o olhar confuso pelo local e o descrevi para a mulher no outro lado da linha.
- Deus, Selena. Como foi parar aí? Fique onde está, okay?
Assenti como se ela pudesse me ver e em seguida me sentei desequilibrada na sarjeta, abraçando meus joelhos e cantarolando alguma música. Um tempo depois, avistei dois faróis de um carro vindo em minha direção. Tapei o rosto com o braço mas sorri ao ver que era Demi.
- Como veio parar aqui, Selena? - Perguntou preocupada.
- Oi pra você também, linda!
- Você está bêbada?!
Dei de ombros.
- Vem... - Me ajudou a levantar. - Vou te levar pra sua casa.
- Não, por favor. - Pedi, rapidamente. - Maria não pode me ver assim, p-por favor.
Demi suspirou.
- Tudo bem... - Ela abriu a porta do carro e eu entrei me sentando no banco do passageiro. - O que aconteceu com você? - Perguntou ao sentar atrás do volante.
- E-Eu... não lembro direito. - Solucei sentindo o gosto do whisky. - Eu estava numa festa aí eu… - Ri e Demi me olhou confusa. - Eu não queria beber, ele me obrigou...
- Quem?!
- Justin. E... eu estava assustada... - Comecei a me desesperar. - Por favor, não conta pra ninguém sobre isso. - Implorei para a mulher dirigindo.
- Fica calma. - Tentou me tranquilizar.
- Para onde estamos indo? - Perguntei aflita.
- Para a minha casa.
(...)
- Cuidado... - Demi me segurou ao entrarmos pela porta de sua casa.
- Sua casa é liiinda! - Sorri olhando ao redor enquanto ela fechava a porta.
- Vem. Você precisa de um banho frio e um café forte.
Fiz uma careta.
- Não quero café. Tem refri?
- Vamos. - Ela me segurou pela cintura e seguimos por um corredor mal iluminado.
Enquanto andávamos, levantei a mão e passei as pontas dos dedos na pele macia do rosto bonito e ela se esquivou me fazendo parar. Comecei a rir admirando a beleza da mulher.
Demi abriu uma porta e nós entramos, ela me soltou e eu andei até a cama me jogando no colchão macio e cheiroso. Abracei um travesseiro sentindo o perfume conhecido.
- Tome. - Me estendeu uma camiseta e um short. - Vá tomar um banho, o banheiro fica ali. - Apontou para uma porta ao lado.
- Eu tô bem assim. - Falei ainda abraçada no travesseiro. - Você tem um cheiro tão bom. - Suspirei.
- Selena, por favor. Apenas faça o que pedi. - Sentou na cama. - Vai se sentir melhor.
- Já estou melhor. - Sorri. - Mas por você eu faço qualquer coisa.
- Vem logo... - Levantou estendendo os braços para mim.
Segurei nas mãos macias e ela me guiou até o banheiro.
- Demi? - Fitei seus olhos.
- Sim?
- Eu.. e-eu.. estou apai.. - Não consegui terminar a frase.
Ajoelhei em frente ao vaso sanitário e vomitei tudo o que havia tomado.
- Ainda bem que estamos no banheiro... - Ouvi Demi falar.
Depois de um banho gelado eu me senti um pouco melhor. Saí do banheiro vestindo as roupas de Demi e sentindo meu corpo tombar para o lado ao passar pela porta. Ainda me sentia levemente tonta. Caminhei até a cama grande e sentei, avistando Demi entrar no quarto segurando uma caneca.
- Beba. - Falou suave ao me entregar a caneca.
Tomei um gole do líquido preto e suspirei.
- Obrigada... - Falei baixo. - Não devia ter te incomodado.
- Está tudo bem, Selena...
- Mesmo? - Ela assentiu. - Isso não era pra ter acontecido...
- Durma... amanhã a gente fala sobre isso. Vou ligar para a sua casa para avisar que está aqui, okay?
Assenti a vendo se levantar para sair.
- Demi? - Chamei. - Eu ia dizer algo no banheiro e..
- Eu sei.
- S-Sabe? - Gaguejei receosa. - O que?
- Boa noite, Selena. - Sorriu antes de deixar o cômodo.
(...)
Acordei ao ouvir um barulho vindo de fora do quarto. Por um segundo eu estranhei mas logo um flash de lembranças passou pela minha mente. Eu estava na casa de Demi. Eu tinha passado a noite ali, em sua cama.
Sentei sentindo minha cabeça doer. Esfreguei o rosto e suspirei exausta, olhando ao redor. O quarto estava um pouco escuro mas dava para ver que era todo organizado. Saí da cama e abri a porta. Andei silenciosamente pelo corredor e parei ao encontrar uma das portas entreabertas. Empurrei a madeira de leve e avistei Demi lá dentro, pintando uma parede. Ela se erguia nas pontas dos pés descalços alcançando até onde podia. Havia uma lata de tinta rosa ao seu lado e alguns jornais velhos espalhados pelo piso.
Soltei um riso baixo ao ouvi-la praguejar quando alguns respingos de tinta acertaram seu rosto. Ela virou para a porta onde eu estava e não resisti. Comecei a rir ao olhar direito para ela quase toda coberta de tinta, até as pernas descobertas estavam com marcas rosas.
- Não é engraçado. - Afirmou tentando soar séria.
- Desculpe, é que… - Entrei no quarto olhando em volta. - Você quer pintar as paredes ou a si mesma? - Ri, recebendo um empurrãozinho no ombro.
- Como se sente? - Perguntou.
- Minha cabeça... quero arrancá-la e jogá-la longe.
- Você precisa comer alguma coisa. Vamos lá na cozinha. - Largou o rolo de pintura passando as mãos na camisa larga.
Segui Demi para fora do quarto até a cozinha do apartamento. Era tudo bem arrumado e limpo, parecia até que não morava ninguém ali de tão ordenado que era. Os móveis eram de cor escura e os sofás e poltronas eram pretos. Sentei em uma cadeira enquanto ela pegava algo na geladeira.
- Eu não sei se isso desce. - Fiz careta ao ver ela se aproximar com uma jarra de suco e torradas.
- É melhor comer.
Suspirei.
Demi sentou na cadeira em minha frente e começou a passar geleia em algumas torradas. Observei seu rosto sujo de tinta e os cabelos frouxamente presos. Ela estava adorável.
Comi apenas duas torradas e tomei um pouco do suco de laranja, lembrando de algumas coisas que aconteceram na noite anterior e de suas palavras antes de sair do quarto.
- Desculpe ter tomado conta da sua cama. - Falei sem jeito.
- Sem problemas. - Ela levantou guardando a jarra de suco de volta na geladeira. - Preciso terminar de tentar pintar o quarto...
- Eu ajudo. - Falei prontamente.
- Obrigada. - Sorriu. - Você quer uma aspirina para a dor de cabeça?
- Seria bom.
- Tudo bem, já volto.
Assenti e enquanto ela andava em direção ao corredor meus olhos percorriam seu corpo perfeito e o movimento dos quadris. Menos de um minuto depois ela retornou, preenchendo um copo com um pouco de água.
- Aqui. - Falou suave ao me dar o remédio.
- Obrigada. - Agradeci fitando seus olhos ternos.
Logo depois nós voltamos para o quarto e eu a ajudei com a pintura das paredes. Conversávamos sobre várias coisas enquanto pintávamos. Demi contou que pretendia tirar férias pois estava trabalhando muito. E eu contei sobre como fui parar na festa de Justin. Havia algo que eu estava louca para perguntar mas tinha medo, então questionei sobre o quarto que estávamos pintando.
- Então... por que estamos pintando? - Perguntei, com a atenção na tinta que cobria a parede.
- Quero transformar esse quarto para Liz.
- Oh... legal!
Sorrimos uma para a outra e continuamos a pintar. Estava divertido. A dor insuportável em minha cabeça foi desaparecendo enquanto eu falava com Demi. Estávamos quase completando a última parede do quarto quando eu senti algo gelado deslizar pelo meu braço. Ela tinha passado de propósito o pincel na minha pele. A fitei estreitando os olhos e ela riu pintando a parede.
- O quê? - Me olhou risonha. - Não vou ser a única que vai sair suja daqui.
- Oh é mesmo? - Arqueei as sobrancelhas e passei meu pincel no braço pálido.
- Está revidando? - Apertou o olhar.
- Não... só acho que você é muito branca. - Dei de ombros. - Precisa de uma corzinha. - Ri, voltando minha atenção para a parede mas não demorou muito para sentir a tinta em mim novamente.
- Ops.
- Está me surpreendendo, Doutora.
- Estou? O quê? Achou que eu fosse uma mulher séria que não iniciaria uma guerra de tinta? - Riu, e antes que eu pudesse dizer algo, vários respingos de tinta voaram em meu rosto e camiseta me fazendo fechar os olhos.
- Mais ou menos isso.
Avancei em Demi com meu pincel tentando alcançar sua face mas suas mãos seguraram meus braços. Rimos da nossa situação; uma querendo atacar a outra com tinta rosa.
Em um momento, consegui empurrar Demi enquanto ela tentava acertar meus cabelos mas antes que eu fosse capaz de fazer algo, seu corpo caiu me levando junto com ela para o chão. Demi tinha tropeçado na lata de tinta enquanto eu a empurrava. Gargalhamos descontroladamente até eu notar a maneira em que nos encontrávamos. Meu corpo por cima do dela, um joelho em cada lado de seu corpo e nossos rostos a centímetros de distância.
Fitei os lábios curvados em um sorriso a observando rir. Os cabelos tinham se soltado e os fios negros estavam espalhados pelo chão. Quando os risos cessaram, seus olhos se fixaram nos meus e suas mãos seguraram meus ombros.
- Vai ficar em cima de mim? - Perguntou sorridente.
- N-Não, me desculpe. - Falei sem graça começando a me levantar, porém suas mãos me impediram, me segurando pela nuca.
Demi me olhava do mesmo jeito daquela noite em seu carro quando fomos ao cinema. Meu coração disparou quando ela me puxou lentamente para mais perto de seus lábios convidativos. Senti o hálito quente da mulher sob mim se chocar contra meus lábios.
- Fica. - Sussurrou roçando o nariz no meu.
Ao ouvir aquilo, não esperei nenhum segundo para juntar nossos lábios, deixando a língua de Demi invadir facilmente minha boca. Beijá-la era um dos meus maiores desejos e estava sendo melhor do que eu imaginava. Nossas línguas se encontravam em um beijo lento. Seu gosto era maravilhoso e seus lábios tão macios.
Sem parar de me beijar, Demi levantou o tronco se colocando sentada e me fazendo permanecer sobre seu colo.
Eu não queria que acabasse, mas ela terminou o beijo depositando demorados selinhos em meus lábios. Sorri a envolvendo em um abraço, sentindo o perfume gostoso do pescoço quente onde deixei um beijo.
O barulho da campainha me assustou e infelizmente precisei sair da posição em que estava. Demi não disse nada sobre o que acabara de acontecer, apenas sorriu e avisou que ia atender a porta. Assenti a observando deixar o quarto e nem preciso dizer que o sorriso tomou inteiramente minha face, né?
Mordi meu lábio inferior pensando nos minutos atrás ao tocá-los com as pontas dos dedos.
Eu tinha beijado Demi. Nós tínhamos nos beijado e foi o melhor beijo da minha vida.
Saí do quarto ao ouvir uma voz conhecida mas não me lembrava a quem pertencia. Andei devagar até a sala, encontrando uma cena desagradável. Os braços da mulher familiar envolviam a cintura de Demi enquanto as bocas se tocaram em um rápido beijo. Cerrei os dentes com ciúmes e engoli em seco tentando me controlar, afinal... eu não tinha nada com Demi, ao contrário daquela mulher.
- Hey você. - Ela me olhou surpresa - Selena, não é? - Assenti, desviando meu olhar para Demi que parecia desconfortável.
- Então Vitoria, por que está aqui? - Demi perguntou.
- Não acredito que esqueceu, Dem. - A mulher fez bico. Revirei os olhos. - Vamos almoçar juntas!
- Oh é verdade... - Demi levou a mão até a testa. - Desculpe, esqueci completamente.
- Imaginei. - Suspirou. - Mas por quê estão as duas sujas de tinta? - Perguntou confusa.
- Selena estava me ajudando a pintar o quarto para Liz.
- Oh... que gentil você. - Sorriu para mim, retribui falsamente. - Então Dem, vamos almoçar ou não? - As mãos começaram a mexer na camisa de Demi.
- É... uh, preciso levar Selena pra casa e..
- Não, Demi. Não precisa se incomodar. - Interrompi. - Eu posso ir sozinha, não quero atrapalhar seu almoço.
- Viu? Espero aqui enquanto você toma banho. - Falou Vitoria.
Demi assentiu antes de se dirigir para o quarto. O desconforto era perfeitamente visível em sua expressão. Cruzei os braços sobre o peito observando a mulher elegante em minha frente mexer no celular. Trinquei a mandíbula e me apoiei no sofá, vendo a mulher guardar o aparelho na bolsa e sorrir para mim, dessa vez não me esforcei em parecer simpática.
- Essa camiseta é da Demi? - Indagou com o cenho franzido, seus olhos percorrendo meu corpo.
- Sim. - Respondi simples.
- E eu posso saber por que está usando? - Andou alguns passos em minha direção.
- Acho melhor você perguntar pra Demi, eu não lembro direto. - Dei de ombros a deixando confusa.
- Já saquei a sua, menina... - Sorriu cínica.
- Não sei do que está falando.
- Tenho certeza que sabe. E esteja ciente que não vai conseguir nada com a Demi. Ela está comigo.
- Que eu saiba.. - Parei ao ouvir os passos no corredor se aproximarem.
Vitoria se afastou colocando um sorriso no rosto ao ver Demi.
- Selena, tome um banho antes de irmos, suas roupas estão no banheiro. - Demi me avisou enquanto Vitoria a puxava para seus braços.
Assenti notando seus lábios se moverem em um "me desculpe".
Estava tudo perfeito antes daquela mulher aparecer. Porém a presença desagradável de Vitoria não conseguiu acabar completamente com a minha alegria.
Só conseguia pensar em Demi e na gente se beijando sujas de tinta.
