POV DEMI
- Você tá ficando velho, Mike. - Zombei de meu cunhado ofegante após acertar com facilidade a bola laranja na cesta de basquete.
O boné preto virado para trás escondia metade dos cabelos castanhos. Ele limpou rapidamente o suor da testa, apoiando as mãos nos joelhos em seguida, respirando com dificuldade.
- E você continua a mesma baixinha irritante. - Rebateu brincalhão.
Peguei a bola do chão, a quicando algumas vezes antes de atirá-la em sua direção.
- Vamos lá, Manning. Tente não perder muito feio.
Ao nosso lado na parte de fora da garagem onde jogávamos, o rapaz magro com os cabelos castanhos e bagunçados encostado na lateral do carro estacionado em frente à minha antiga casa, não deixou de vaiar. Segurei o riso desviando os olhos de meu velho amigo ao me posicionar na frente de Mike, o observando atentamente quicar a bola por entre as pernas antes de começar a avançar em direção à cesta, protegendo a bola com o corpo.
- Acabe com isso, Dem! - Ouvi Nolan gritar.
Em um movimento rápido, Mike avançou atirando a bola em direção à cesta que para o seu azar, não atravessou o aro. Rapidamente peguei o rebote e o corpo forte e cansado veio para cima de mim. Me livrei dele sem muito esforço, arremessando a bola na cesta em seguida.
- Você não está facilitando, está Mike? - Arqueei uma sobrancelha, fitando os olhos claros que minha irmã mais velha tanto amava.
- Acredite se quiser, estou dando o máximo de mim mas parece que você só melhorou. Quando foi a última vez que ganhei? Cinco anos atrás?
- Espere... você nunca ganhou. - Ri, brincando com a bola em minhas mãos.
- Por pena, D. Não queria ferir o corpo frágil da minha querida cunhada.
- Cale a boca. - Atirei a bola no perdedor.
- Hey vocês dois! - A voz de minha irmã adolescente nos chamou atenção.
A garota se aproximou de nós, os belos cabelos escuros e lisos paravam no meio das costas.
- Dallas está furiosa. A mamãe chega daqui a pouco e ao invés de vocês ajudarem, estão aqui fora jogando basquete. - Levou as mãos para a cintura, nos olhando seriamente.
Deixei um riso escapar observando a postura da garota.
- Já estamos indo, Maddie. - Disse Mike. - Da próxima vez, acabo com você. - Ele me avisou sério.
Gargalhei.
- Vai sonhando, Mike! - Soquei seu braço de leve. - Além de perder pra mim terá que acalmar a sua mulher.
- Dallas não vai gostar nem um pouco de te ver nesse estado. - Maddie apontou para a camisa úmida de suor dele.
Mike não perdeu mais tempo e largou a bola de lado, se dirigindo para dentro de casa.
- E a baixinha ganhou outra vez. - Riu Nolan parando ao meu lado com um sorriso.
- Mike que é um banana. - Dei de ombros pousando meu olhar na saia curta preta que Madison usava. - Desde quando usa essas roupas?
- Desde quando cresci. - Respondeu, analisando as unhas pintadas de preto.
- Ohh… claro. Esqueci que minha irmãzinha está se tornando uma adolescente.
- E tem até um namorado. - Nolan comentou baixo e eu o olhei rapidamente.
- Como é que é? - Encarei a menina.
Ela revirou os olhos.
- Okay, vou deixar as duas irmãs discutir o assunto a sós.
Meu amigo bagunçou os cabelos de Maddie antes de correr em direção à porta.
- Vai fazer igual o papai e pedir todas as informações de Derek, não é? - Cruzou os braços.
- Hmm… então esse é o nome do pivete. - Estreitei os olhos e Maddie bufou me fazendo rir. - Relaxa, pequena. Só acho que você é muito nova para ter um namorado.
- Dallas disse a mesma coisa. - Suspirou.
- Viu? Temos razão. Agora vamos entrar senão dona Dianna chega e nós estamos aqui fora. - Peguei a mão de minha irmã enquanto andávamos até a porta.
- Ela vai ficar mais feliz com a sua presença do que com a surpresa. - Riu, me abraçando de lado.
- Estou até vendo a cara que ela vai fazer…
(...)
Limpei o espelho embaçado fitando meu reflexo por um momento. Me sentia feliz e agradecida por estar em casa com minha família depois de um tempo distante. Um leve sorriso brotou em meus lábios ao pensar em Selena. Era incrível e assustador como ela conseguia abalar todas as barreiras que construí dois anos atrás. O olhar sincero da garota fazia meu coração pulsar assustadoramente. Uma sensação boa e completamente esquecida me tomava sempre que via o sorriso doce que parecia iluminar minha vida.
Suspirei e saí do banheiro. Fui até minha mala aberta sobre a cama e peguei uma roupa.
Meu quarto continuava do mesmo jeito que deixei quando fui para a faculdade. Até mesmo os pôsteres de bandas e cantoras continuavam pendurados nas paredes. E perto da escrivaninha o mural de fotos permanecia intacto repletos de fotografias minhas com minha família, meus amigos do colégio e com Miley. Uma das melhores épocas de minha vida.
Desci para o andar de baixo vestindo um jeans claro e uma camiseta escura. A casa estava cheia de parentes e amigos que não via há anos. Todos a espera de minha mãe que não tinha a mínima ideia do que se passava em sua casa no momento.
Os olhos alegres de minha irmã mais velha me fitaram quando parei no primeiro degrau da escada. Dallas usava um vestido longo e florido e seus cabelos castanhos claros estavam presos em uma trança.
- Então, está legal? - Ela perguntou animada se referindo ao quadro retangular pousado próximo a nós.
Me aproximei da simples surpresa, observando cada foto antiga e recente presas no quadro sustentado por um suporte. As bordas estavam decoradas de dourado e cheio de brilho com "Feliz aniversário, mamãe!" escrito.
Sabíamos o quanto nossa mãe amava presentes feito a mão e a ideia da festa surpresa tinha sido de Madison. Ela pediu para nosso pai tirar mamãe de casa antes de minha chegada pela manhã e permanecemos mais de uma hora dentro do quarto do casal, sentadas na cama grande escolhendo as melhores fotos para colocar.
- Está perfeito, Dallas. - Sorri.
- Obrigada por estar aqui hoje, Dem. - Senti a mão delicada tocar minhas costas. - Ela sente muito sua falta.
- Eu sei. E não poderia desejar mais um parabéns por telefone.
- Ela só não faz as malas e vai até você porque o papai a impede. - Riu fraco. - Eu acho que mamãe nunca vai se acostumar com você morando longe. Mas ela está muito orgulhosa. - Sorriu. - Todos nós estamos.
Suspirei ganhando um abraço de minha irmã.
- Amor, eles chegaram. - Mike avisou ao parar perto de nós.
Madison rapidamente pegou o quadro, o tirando de vista e apagou as luzes escurecendo a sala decorada com alguns balões dourados e brancos. O pessoal se escondeu e por alguns minutos voltei para minha infância, relembrando minhas festas de aniversário naquela casa.
Logo a porta foi aberta e meus pais entraram.
- SURPRESA! - Todos gritaram ao mesmo tempo em que as luzes acenderam.
Minha mãe levou a mão à boca aberta a tapando, os olhos completamente surpresos. Assim que me avistou junto de Dallas e Maddie, ela correu para me abraçar.
- Demetria, minha filha! - Exclamou contente.
- Oi, mãe. - Sorri ao abraçá-la saudosamente. - Feliz aniversário!
- Meu Deus, não acredito que está aqui minha filha! - As mãos macias tocaram todas as partes do meu rosto, me puxando novamente para seus braços. - Estava com tanta saudade!
- Eu também, mãe. Eu também.
Após minha mãe esquecer completamente do resto das pessoas presentes na sala enquanto matávamos toda a saudade, ela me deixou e foi cumprimentar seus amigos e parentes.
Uma música calma tocava na sala movimentada. Dallas e Mike trocavam carinhos próximos à escada e minha irmã mais nova digitava sorridente no celular.
Algumas pessoas vinham até mim para saber como eu estava e eu os respondia com sorrisos forçados.
Tomei mais um gole do meu vinho, sentindo meu celular vibrar no bolso da calça. Suspirei cansada ao pegá-lo e fitar o nome de Vitoria na tela, recusando a chamada.
Mais tarde quando algumas pessoas foram embora, Maddie e Dallas me chamaram para presentear a mamãe.
Os olhos dela brilharam ao ver o presente.
- Vocês fizeram isso? - Perguntou olhando admirada para as fotos.
- Sim, e a ideia foi totalmente minha. - Madison afirmou, nos fazendo rir.
- Eu tenho as melhores e mais lindas filhas do mundo! - Os olhos lacrimejados nos fitaram com amor e nós a abraçamos. - Eu amo vocês, minhas meninas.
- Nós te amamos mais! - Beijei a bochecha de minha mãe.
(...)
Andei em passos silenciosos pelo corredor do andar de cima com a caixa preta de veludo em minha mão. Vi a luz do quarto dos meus pais acesa e bati levemente na porta entreaberta que rangeu quando a empurrei. A mulher sentada na cama com as pernas esticadas me olhou por cima dos óculos de leitura e sorriu fechando o livro que lia.
- Tudo bem, filha? - Perguntou.
Assenti ao entrar no cômodo.
- Tenho algo para te dar.
- O que? - Falou animada. - O que é isso? - Sorriu olhando para o objeto em minha mão.
- Seu presente. - Sentei ao seu lado na cama, entregando a caixinha para ela.
Sorri a assistindo abrir a caixa preta revelando o lindo colar que comprei antes de viajar. Uma expressão surpresa e deslumbrada tomou seu rosto.
- Demi, isso é… muito lindo, filha. Mas parece muito caro.
- É o mínimo que a senhora merece. E nem pense em negar.
- Eu te amo, Demi. - Me puxou para seus braços. - Minha menina doce.
- Também te amo, mãe. Muito. - Deus, como sentia falta desses momentos. - Eu… tem tempo para uma conversa antes de dormir? - Perguntei ao olhá-la.
-É claro, filha. Sobre o que quer conversar? - Perguntou, pousando o colar no criado mudo. - Vem cá. - Bateu as mãos sobre as próprias coxas e eu sorri relaxando minha cabeça em seu colo. - E então?
- Eu… - Suspirei hesitante. - Eu estou gostando muito de alguém. - Contei, sentindo a mão delicada passear por meus cabelos.
- Isso é maravilhoso, Demi. - Ela se alegrou. - Qual o nome dela? - Perguntou.
- Selena. - Respondi após alguns minutos em silêncio. - Ela foi minha paciente...
- Lindo nome.
- É... ela é linda. - Sorri fraco. - Deus... estou parecendo uma adolescente no seu colo falando sobre garotas...
Minha mãe riu baixo.
Porém meu sorriso foi desaparecendo conforme as lembranças me invadiam a mente. Eu e minha mãe naquela mesma posição enquanto eu confessava meus sentimentos por Miley.
- Estou com medo, mãe... - Confessei em um sussurro. - Sei o que quero mas não sei se consigo. Não quero... esquecer Miley.
- Oh, querida... isso é impossível. Ela vai estar sempre aqui... - Gesticulou para o lado esquerdo do meu peito. - Lembra do seu aniversário de dezessete anos? - Assenti, fitando o rosto sereno. - Você estava toda irritada e triste e não queria saber de mais ninguém, apenas da sua namorada que ia viajar com os pais naquele dia. Não queria passar a data especial longe dela e nada mais te importava... - Meus olhos rapidamente lacrimejaram e eu suspirei saudosa com o peito apertado. - E o que aconteceu no final?
- Ela apareceu. - Sussurrei.
- Ela brigou com os pais deixando de viajar só para te ver feliz. O que acha que ela quer agora, querida? - Engoli em seco. - Ver a garota... a mulher que amou sofrendo e sozinha? - Fechei os olhos, sentindo sua mão secar delicadamente as lágrimas que escaparam.
Abracei minha mãe me rendendo a um choro baixo que me sufocava.
