Repousei a bandeja vermelha sobre a mesa do refeitório do colégio, sentando em meu lugar de sempre. As vozes irritantes das garotas na mesa próxima chegaram aos meus ouvidos e eu revirei os olhos ao ouvir uma parte da conversa irrelevante. Peguei a caixinha de suco e bebi dois goles antes de começar a comer meu hambúrguer enquanto esperava por Hay que tinha esquecido de pegar sua fruta.
Olhei na direção da senhora do lanche, avistando minha amiga surgir entre os alunos na fila, caminhando até nossa mesa.
- Até que enfim, você foi pegar sua maçã em alguma macieira? - Brinquei quando ela sentou em minha frente.
- Nem me fale, ainda me acusaram de cortar a fila. - Revirou os olhos. - Ah, Sel... depois vou precisar do seu caderno.
- Pra quê? - Arqueei uma sobrancelha.
- Perdi algumas partes da aula da Srta. Lopez. Mas tudo bem, eu tenho você. - Sorriu.
- É claro. - Ri.
Subitamente, um ruído alto e agudo preencheu o refeitório provocando reclamações e xingamentos. Com uma careta, levei minha mão até meu ouvido, o massageando enquanto ouvia a voz masculina sair das caixas de som espalhadas pelo espaço grande e aberto.
- Estou interrompendo o intervalo de vocês para informar que as votações para rei e rainha do Baile já estão abertas.
Ao ouvirem o comunicado, as garotas que sonham com isso o ano inteiro, comemoraram feito loucas uma com as outras. Rolei os olhos entediada com a cena e terminei de comer meu lanche.
- E aos demais que quiserem participar, falem com a Srta. Lopez. Obrigado pela atenção!
- Até quando a escola vai fazer essas coisas? É tão estúpido. - Comentei olhando brevemente para a mesa dos populares.
- Vai votar em alguém? - Hay perguntou.
- Como se eu fosse perder meu tempo com esse povo que não tem o mínimo de respeito por mim.
- Estou com você! - Hay concordou, dando uma mordida na maçã.
- Hey, Gomez. Por que não se inscreve para rainha do baile? - Ouvi a voz indesejada atrás de mim e o ignorei. - Mas aí precisaria de outra rainha e isso não é impossível. - O garoto entristeceu a voz propositalmente e Hay o fuzilou com o olhar enquanto as pessoas riam.
Cerrei os dentes ao fechar os punhos com força e me levantei bruscamente saindo dali.
(...)
Apertei com mais força o controle do vídeo game em minhas mãos, tocando meu polegar nos botões rapidamente sem tirar meus olhos da luta na tela grande em minha frente. As gargalhadas altas e provocativas do homem sentado ao meu lado no sofá, se misturavam com o som do jogo toda vez que conseguia facilmente derrubar meu lutador.
Suspirei cansada na terceira derrota e larguei o controle de lado encostando minhas costas no sofá macio.
- Vai desistir assim tão fácil? - Perguntou Brian, levantando uma das sobrancelhas. Nunca o deixei ganhar uma luta.
- Estou sem ânimo pra jogar. - Dei de ombros.
- Hey, o que foi isso? - Ele pousou o controle na mesa de centro. - Você sempre acaba comigo nesse jogo mesmo sem vontade. O que está havendo, parceira?
- Nada, só... tem muita coisa na minha cabeça.
- Quer falar sobre isso? - Ofereceu singelo.
- Acho que não...
- Tudo bem... mas se precisar estou aqui, viu? - Assenti com um sorriso fraco. - Como foi na escola hoje? - Perguntou.
- Horrível. - Bufei deitando a cabeça na almofada e descansando minhas pernas no colo do meu padrasto.
- Aconteceu alguma coisa, Sel? - Perguntou.
- Quando você estava na escola as pessoas eram más com você?
- Não que eu me lembre. Por quê? Estão fazendo alguma coisa com você? - Perguntou preocupado.
Eu o olhei rapidamente. Não podia confirmar. Brian não tinha ideia sobre o motivo de eu ser atormentada no colégio e eu não queria que ele descobrisse dessa maneira.
- Não... comigo nada, apenas queria saber... - Menti o deixando desconfiado. - Você não precisa terminar o seu projeto? - Eu o lembrei ao olhar brevemente para o relógio na parede.
- Ainda tenho um tempinho sobrando. E sabe como vou usá-lo? - Sorriu misterioso.
Franzi o cenho assistindo o sorriso no rosto do homem se alargar.
- Como? - Perguntei desconfiada.
- Desse jeito!
Rapidamente o braço forte segurou minhas duas pernas as prendendo em seu colo enquanto a mão livre foi em direção dos meus pés descalços os atacando com cócegas. Minhas gargalhadas altas preencheram a sala de TV junto de meus pedidos para Brian parar com aquela tortura.
- P-Pare! - Pedi em meio à gargalhadas. A risada grossa se misturou com a minha. - P-Pare. M-Maria! - Tentei chamá-la.
- A garotinha precisa de ajuda? - Brian riu, distanciando a mão dos meus pés. - Mas tudo bem, já consegui o que queria.
- N-Não é justo. - Solucei, ainda rindo.
Levantei meu corpo secando as lágrimas dos meus olhos.
- Agora posso terminar meu trabalho. - Ele levantou. - Qualquer coisa estou no escritório. - Avisou antes de sair.
- Isso vai ter volta! - Gritei ouvindo uma risada debochada em resposta.
Levantei do sofá. Precisava de água depois do ataque de cócegas. Adentrei a cozinha e me dirigi até o refrigerador. Peguei uma garrafinha de água e bebi com sede.
Através da porta de vidro, observei as folhas das árvores balançarem com o vento forte. Já se passava das oito horas da noite e as luzes da piscina iluminavam o lado de fora.
Devolvi a garrafa na geladeira e abri a porta do armário em seguida, pegando um pacote de doritos antes de voltar para a sala. Relaxei no sofá ao encontrar o controle remoto e comecei a assistir um dos meus filmes favoritos que passava em um canal.
Deixei que o pacote já vazio de doritos que ainda segurava em minha mão caísse no chão. Lutei contra meus próprios olhos cansados para continuar a prestar atenção no filme mas em um certo ponto acabei sendo derrotada. Me aconcheguei no sofá quente e macio e me entreguei ao sono.
(...)
Me revirei ao ouvir um barulho ecoar em minha mente me despertando do cochilo. Pisquei notando a televisão desligada e me sentei preguiçosamente esfregando os olhos e franzindo a testa ao me deparar com Demi parada ao lado na sala mal iluminada com um porta retrato nas mãos. Procurei seu olhar confusa e com o coração disparado. O que ela fazia ali?
Meu estômago revirou. Fazia semanas que não a via.
- Desculpa te acordar, não foi minha intenção. - Repousou o objeto no lugar sobre a estante. - Acabei esbarrando na foto quando me virei pra sair.
- T-Tudo bem. - Levantei do sofá, abraçando meus braços frios. - Estava indo embora? - Perguntei, me aproximando de Demi e sentindo seu perfume doce a cada passo.
Mordi o lábio contendo minha imensa vontade de abraçá-la.
- Sim, você estava dormindo, então… achei que não era uma boa hora. - Sua voz era calma.
- Há quanto tempo está aqui? - Perguntei curiosa.
- Alguns minutos. Maria me atendeu e avisou que você estava aqui, então eu… - Pausou, os olhos brilhantes caíram para suas mãos juntas na frente do corpo.
- Por acaso você estava… me olhando enquanto eu dormia? - Perguntei sorrindo.
Demi soltou um riso pelo nariz e me fitou com um sorriso enfeitando seu rosto.
- Não resisti. - Encolheu os ombros.
Sorri mais largo e meu olhar deixou o dela por um segundo ao cair para os lábios carnudos.
- Senti sua falta. - Confessei, fitando os bonitos olhos castanhos. - Eu não espe… - Fui interrompida pela boca que se chocou com a minha.
Apertei meus braços delicadamente em volta de sua cintura concedendo prontamente a passagem da língua ávida em minha boca. Nos beijamos com saudade e o beijo logo se tornou mais intenso, desesperado e quente. Diferente das outras vezes.
Toda a saudade que sentia estava acabando ali enquanto minhas mãos passeavam pelas costas de Demi, colando mais seu corpo contra o meu enquanto nossas línguas alvoroçadas se enlaçavam. Da mesma forma que começou o beijo, Demi terminou, separando nossas bocas. Minha respiração estava completamente descontrolada e o peito da mulher em minha frente se movia no mesmo ritmo que o meu. As mãos que seguravam minha nuca deslizaram para os meus ombros e Demi tocou seus lábios nos meus novamente em um selinho longo e delicado.
- Isso q-quer dizer… - Sussurrei.
Demi assentiu com um pequeno sorriso. Senti uma felicidade preencher meu peito.
- Mas… Sel… você tem certeza? Quero dizer... acho que nem sei mais como… como é estar com alguém desse jeito. E você é jovem, com certeza vai aparecer meninas melhores na sua vida, sabe… livres, sem complicações e problemas… e eu nã..
- Shhh. - Pressionei meu dedo indicador sobre seus lábios a interrompendo. - É você que eu quero. Só tenho olhos pra você...
Ela sorriu fraco, segurando minha mão e depositando um beijo.
- Você é uma garota incrível, sabe?
Sorri, observando o carinho que o polegar fazia em minha mão.
- Tenho uma coisa pra você. - Falei.
- O que? - Arqueou perfeitamente uma sobrancelha.
- Vem comigo. - Pedi, com um sorriso.
Entrelacei nossos dedos enquanto levava Demi comigo em direção à escada. Soltei um riso baixo a notando confusa pelo caminho e andamos até a porta do meu quarto. A abri dando passagem para Demi entrar e fechei a porta em seguida. Sem explicar nada, fui até minha mochila aberta em cima da cama e retirei meu caderno de dentro, procurando pelo desenho rapidamente encontrado no meio das folhas.
Sorri ansiosa ao entregá-lo para Demi, vendo o sorriso bonito se alargar quando ela fitou sua própria ilustração em preto e branco no papel. As batidas do meu coração aceleraram loucamente.
- Sou eu. - Me olhou sem tirar o sorriso do rosto. - Você fez isso?
- Sim... mas não achava que teria a chance ou coragem de te dar...
- Você é muito talentosa, Sel. Está incrível. Nunca me desenharam antes. - Soltou um risinho curto.
- Obrigada. - Agradeci corando. - Posso… fazer uma pergunta? - Mordi o canto do lábio.
- Claro. - Ela assentiu.
- Como… nós estamos? Quero dizer... como a gente... fica agora em diante? - Perguntei receosa.
- Bem... pra começar depende de você.
- D-De mim? - A olhei confusa, apontando o indicador para meu peito.
- Sim. Quer sair comigo, Selena?
Ao assimilar suas palavras, abri a boca várias vezes tentando responder mas nada saiu.
O sorriso perfeito que enfeitava os lábios rosados da mulher em minha frente tirava todo o ar dos meus pulmões. Puxei o corpo atraente para perto do meu a segurando pela cintura e pressionei meus lábios nos dela deixando vários beijos. Fiz o mesmo nas bochechas, queixo e nariz tirando vários risos gostosos dela.
- Eu quero. - Sussurrei em seu ouvido, roçando meu nariz na pele sensível e cheirosa.
Admirei o sorriso perfeito em seu rosto deixando meu lábio inferior ser sensualmente sugado pelos sedentos dela. Nossas línguas se encontraram e eu senti sua mão direita em minha cintura levantar delicadamente a barra da minha camiseta. Um arrepio percorreu meu corpo inteiro ao sentir as pontas dos dedos acariciarem minha pele.
Demi separou nossas bocas com breves beijos, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
- Quando? - Perguntei, sem tirar minhas mãos dela.
- Quando quiser. - Sorriu fraco, envolvendo os braços em meu corpo.
- Amanhã? - Mordi o lábio.
- Já? - Ergueu as sobrancelhas.
- Rápido demais? Está ocupada? Quero dizer, tudo bem...
- Não, não. É que… eu só estava pensando em algo. Amanhã está ótimo.
- Perfeito. - Falei com um sorriso.
- Sel, está aí? - A voz grossa do lado de fora do quarto junto de duas batidas na porta fez Demi me soltar rapidamente.
- S-Sim, estava tomando banho pra dormir. - Menti.
- Está bem, só queria saber. Boa noite, Sel!
- Boa noite! - Respondi, puxando a mulher para perto de mim novamente. - O que foi isso?
- Ele não sabe que estou aqui e já tá tarde. Eu não saberia como reagir se seu padrasto me encontrasse em seu quarto. O que íamos explicar para ele?
- Hmm… que eu te trouxe pra cá para dar o desenho… ou poderia simplesmente dizer que ele nos atrapalhou.
Demi balançou a cabeça negativamente com um sorriso nos lábios.
- Não quero problemas com seu padrasto, Sel.
- Relaxe. Ele gosta de você. - Biquei os lábios brevemente.
Demi suspirou me beijando na bochecha.
- Preciso ir pra casa. Tenho que estar em uma reunião amanhã cedo.
- Tudo bem... - Peguei a mão delicada, entrelaçando nossos dedos.
Acompanhei Demi até a porta e nós nos despedimos com mais um beijo longo e intenso antes de eu assisti-la chegar até seu carro. Fechei a porta de casa quando o automóvel se foi, sem conseguir tirar o sorriso do rosto. Foi difícil de acreditar que o que acabara de acontecer foi real e não apenas um sonho perfeito.
- Muito bem, mocinha...
Me virei assustada ao escutar a voz grossa de meu padrasto e levei a mão ao peito sentindo meu coração palpitar acelerado. Brian se aproximou com os braços cruzados sobre o peito parecendo sério.
- Pode explicar porquê você e a Dra. Lovato estavam se beijando?
