Estaria mentindo se eu dissesse que não estava insegura com aquela decisão, que não pensei várias vezes em voltar atrás e cancelar tudo. Minha mente estava mais dividida nos últimos dias, eu estava uma bagunça. Embora as palavras de Demi me trouxessem confiança, a palavra "distância" me causava calafrios desagradáveis. Sentia o quanto ela queria fazer isso funcionar e ouvi-la dizer que eu era a razão de sua felicidade, fazia um sorriso tomar inteiramente minha face levando para longe todas aquelas perturbações por um momento.

Soltei um riso curto assentindo em resposta para a menina animada que tagarelava todos os nossos planos para o dia enquanto comia seu cereal colorido. Demi ouvia tudo sorrindo com diversão, alternando o olhar entre mim e Liz. Levei a caneca com café à boca bebendo outro gole e observando distraidamente o diálogo entre as duas na mesa. Aqueles momentos realmente me agradavam, quando estávamos apenas nós três juntas e às vezes me encontrava absorta pensando no futuro, como eu desejava que ele fosse. Eu queria construir uma família com Demi.

Talvez fosse muito cedo para pensar sobre isso. E como algumas pessoas dizem; a vida nunca é do jeito que queremos.

Sabia que não era como em um conto de fadas. Mas eu não me importava, simplesmente não conseguia sonhar com um futuro sem ela e me permitia imaginar uma vida perfeita ao seu lado. Uma casa só nossa, de preferência afastada da cidade movimentada com um grande quintal onde nossos futuros filhos poderiam brincar à vontade e vários animais de estimação, de cachorros até passarinhos…

- Não é, Sel?

Pisquei os olhos mirando os claros que me encaravam esperando por uma resposta.

- O que você disse, Liz? - Perguntei repousando a caneca de volta na mesa.

- Vamos comprar uma árvore de natal hoje, não é? - Perguntou ansiosa.

- Sim, claro! - Afirmei sorrindo para as duas. - Acho que essa casa precisa de uma.

- Dem, você vai ajudar a gente decorar, não é? - Perguntou Liz.

- Vou sim. - Sorriu fraco suspirando em seguida. - Mas agora eu preciso ir trabalhar, já deveria ter ido na verdade. - Se levantou terminando de tomar o suco.

- Ahh não! - Liz fez bico. - Você podia ficar de férias pra sempre. - Cruzou os braços pequenos sobre o peito encostando as costas na cadeira.

- Mas e as pessoas que precisam de mim? E como eu ia comprar os seus presentes de natal? - Levantou as sobrancelhas ganhando um sorriso travesso. - Se divirta com a Sel. - Depositou um beijo na cabeça de Liz, pegando a chave do carro em cima do balcão.

- Hey! - Chamei sua atenção quando estava prestes a deixar a cozinha, ela me olhou interrogativa e eu apontei para minha boca.

Um sorriso surgiu no canto dos lábios rosados que delicadamente colidiram com os meus em um beijo terno.

- Tenha um bom dia. - Desejei acariciando a bochecha macia.

- Vejo vocês a noite. - Ela disse me dando um último selinho antes de sair.

Olhei para Liz quieta sentada na minha frente, movimentando a colher no resto do cereal dentro da tigela com leite.

- No que está pensando? - Questionei me levantando e pegando o prato e copos usados sobre a mesa os levando até a pia.

- Em nada. - Respondeu em voz baixa. - É que…

- É que? - A incentivei começando a lavar a pouca louça.

- Selena... é verdade que você vai embora pra longe? - Perguntou cabisbaixa.

Fechei os olhos suspirando fraco.

- Demi falou alguma coisa com você? - Parei com o que fazia virando para olhá-la.

Ela negou com a cabeça.

- Eu ouvi ela e a tia Tay conversando ontem no quarto, é verdade? - Pediu com os olhos tristes.

- Bem... eu não vou embora, Liz. - Ela esboçou um pequeno sorriso que logo desapareceu. - Só vou estudar em outra cidade, por um tempo.

- Então eu não vou mais te ver? - Abaixou o olhar.

- Hey, é claro que você vai. - Sorri de lado me aproximando dela e agachando ao seu lado na cadeira. - Eu vou fazer o possível para vir pra cá sempre te ver, você e Dem!

- E vamos ser amigas pra sempre, você promete?

- Sim, eu prometo. - Estendi o dedo mindinho para ela que fez o mesmo, o cruzando com o meu sem hesitar. - Te amo, pirralha. Agora vai tirar esse pijama!

Liz sorriu e saiu correndo em direção de seu quarto. Deslizei a mão pelo cabelo deixando escapar um suspiro pesado ao retornar à pia. Porém antes que eu pudesse tocar em alguma coisa ouvi meu celular começar a tocar na sala. Olhei a hora no relógio preso ao lado na parede rumando para o cômodo preenchido pelo som do desenho animado na televisão. Peguei meu celular largado sobre o acento da poltrona certa de que a chamada seria de casa ou até mesmo minha melhor amiga que estava no outro lado do mundo com o namorado. Mas estranhei um pouco ao ler o nome no visor.

- Debby? - Atendi.

- Hey, nerd! - Respondeu com uma voz sonolenta.

- Você me ligando uma hora dessas? - Ri fraco. - O que foi, caiu da cama é?

- Ainda estou praticamente dormindo pra você saber. - Falou em meio a um bocejo. - Quero saber se você está livre hoje, só não me diga que vai passar mais um dia inteiro estudando, por favor! Por favor!

- Não. - Ri. - Na verdade já tenho planos, vou sair com Liz.

- E vocês vão aonde? Em algum parquinho? - Riu me fazendo rolar os olhos.

- Idiota, vamos fazer compras de natal… - Levei o polegar até a boca roendo a unha me distraindo com o desenho na tela plana na minha frente.

- Interessante... então eu encontro com você no shopping! Que horas?

- Ei, o quê? - Perguntei voltando a atenção para a voz do outro lado da linha.

- Que horas vocês vão?! - A garota arrojada repetiu impaciente.

- Ah, após o almoço…

- Ótimo, então até lá! Tchau, Sel!

- Okay, tchau! - Revirei os olhos rindo fraco.

TRÊS SEMANAS DEPOIS

- Selena, abre a porta!

O tom de voz autoritário me fez abraçar o travesseiro com mais força. Continuei com os olhos fixos na janela onde através do vidro outro relâmpago iluminou meu quarto parcialmente escuro. A chuva lá fora continuava assim como os pedidos da mulher do outro lado da porta. Soltei mais um suspiro entrecortado escutando o barulho da maçaneta.

- Por favor… - Ouvi a voz baixa.

Eu não queria vê-la naquele momento, nem ouvir o que tinha a dizer.

Ótimo jeito de começar um novo ano. Eu estava magoada e aquela era a segunda briga após nossa conversa sobre manter nosso relacionamento à distância. De uma hora para outra tudo havia se tornado uma bagunça, como se já não bastasse minha insegurança e o desejo de largar tudo para ficar com ela.

- Sel…

Engoli em seco ainda mirando a chuva, lutando contra a vontade de levantar e conceder a entrada, esquecer o que houve e envolvê-la em meus braços.

- Eu não vou embora até você abrir.

Rolei os olhos com a insistência da mulher deslocando o olhar em direção da porta trancada.

- Eu não quero conversar. - Falei pela primeira vez, tentando parecer indiferente disfarçando miseravelmente minha voz de choro.

Bufei sentando com as costas encostada na cabeceira, ainda abraçada ao meu travesseiro.

- Então eu espero aqui até você querer. - A voz suave foi abafada pelo som de outro trovão.

Por que tanta insistência, afinal? Horas atrás parecia tão certa ao falar sobre término. Fez com que todas aquelas palavras que me deram confiança sobre permanecermos juntas, parecerem tão sem importância, como se tivessem sido todas ditas de boca pra fora e não valiam mais nada. Decisão precipitada ou apenas mentiras?

Eu disse que a amava naquela manhã, algumas semanas depois ela parecia ter esquecido completamente aquele final de semana ao tocar no assunto que eu preferia ignorar por enquanto. Talvez meu lado pessimista esteja certo. Talvez não tivéssemos sido feitas para ficar juntas.

Virei o rosto para a porta ao escutar um barulho fraco na madeira e parei o movimento que fazia com o tecido do travesseiro entre os dedos, desistindo da ideia de esperar até que ela fosse embora.

Cocei os olhos que provavelmente estavam vermelhos, deixando um suspiro longo escapar e levantei da cama. Abri a porta hesitante e sem provocar barulho. Demi ainda estava ali, sentada no chão ao lado, encostada na parede.

Ela levantou o rosto e me encarou, o cabelo negro estava úmido com alguns dos fios colados na testa e bochechas. Desviei o olhar dos olhos castanhos e tristes abrindo a porta e dando passagem para ela entrar.

Cruzei os braços sobre o peito continuando com minha cara fechada.

- Pode falar. - Observei seu corpo, assim como o cabelo a jaqueta também estava molhada.

- Sei que está com raiva. - Começou com a voz rouca e fraca.

- Não estou. - Afirmei, ouvindo o raspar rápido de garganta seguido de uma fungada. - Só magoada. Muito magoada. - Sussurrei.

- Me desculpe, Sel. Eu fui estúpida. Eu sei. - Andou até mim, segurando meus braços com as mãos gélidas. Arrepiei com o toque frio me afastando lentamente ao sentir um fraco cheiro de bebida em seu hálito. - Eu quero consertar as coisas. Eu não quero terminar.

- Você disse que talvez fosse a melhor solução. - Falei em voz baixa.

- Eu sei o que eu disse. Mas você está prestes a ir morar em outra cidade e mal ficamos juntas desde que voltei a trabalhar. Merece uma namorada melhor que tenha tempo suficiente pra você, que te dê toda a atenção, que não sinta culpa de nada e…

- Pelo amor de Deus. - A cortei sem paciência para mais uma discussão sobre o assunto. - Você veio aqui pra continuar com isso, Demetria? - Perguntei incrédula.

- E que não se sinta mal por estar amando você, amando muito você. - Completou firme.

Engoli em seco mirando os olhos marejados, assistindo as lágrimas deslizarem pela face perfeita e o queixo tremer levemente.

- Demi… - Pausei e suspirei, a envolvendo em meus braços. Ela apertou minha cintura enterrando o rosto em meu pescoço. - Shh, não quero que se sinta assim, meu amor. - Sussurrei afagando o cabelo úmido.

- Desculpe, e-eu só não consigo… - A respiração quente se chocou contra minha pele.

- Eu sei, tá tudo bem...

Desde o início eu sabia que aquilo não seria fácil. Entendia como Demi ainda se sentia em relação a nós. Mas eu queria ela comigo, embora soubesse que me ter ao seu lado estava sendo algum tipo de traição em sua mente.

Para mim não importava quanto tempo levasse para ela superar, e sim se me deixaria permanecer com ela nessa jornada, se me deixaria amá-la.

Eu estava feliz apesar de tudo. Na verdade, felicidade e tristeza estavam unidas dentro de mim.

(...)

Mordi levemente o ombro molhado pressionando meus lábios na pele alva e quente, pressionando um beijo longo. O corpo entre minhas pernas, colado ao meu, se arrepiou e mais um espirro ecoou pelas paredes do banheiro acompanhado pelo barulho da água morna da banheira.

- Você não devia ter tomado chuva. - Sussurrei passeando com a ponta do nariz pelo pescoço.

Ela riu.

- Minha mãe ainda está brava por não termos passado o natal lá... - Comentou repentinamente após alguns minutos, deslizando as pontas dos dedos devagar em minha coxa nua.

- Eu sei... - Soltei um riso fraco. - Maddie me contou por telefone. - Podemos ir no próximo de qualquer maneira!

- Naquela noite em que voltamos de lá... quando deixei você aqui em sua casa e fui para o meu apartamento, eu liguei pra Taylor… - Pausou, franzi o cenho ouvindo um leve suspiro. - E então ela veio e me ajudou a fazer aquilo que tanto me incentivava a fazer, mas eu nunca ouvia. Em menos de uma hora retiramos as roupas de Miley do armário e no outro dia eu doei para pessoas necessitadas. Não foi tão difícil, sabe? Além disso eu precisava de espaço… bem, você ia precisar.

- Como assim baby? - Coloquei a franja solta do coque frouxo atrás de sua orelha.

- Eu ia te chamar para morar comigo naquele fim de semana. Seria um grande passo embora você estivesse praticamente já morando comigo, mas eu estava disposta a dá-lo...

- Demi… - Sussurrei surpresa. - Eu…

- Eu vou com você. - Virou o rosto me fitando.

- O que? - Minha voz saiu quase inaudível.

Fitei os olhos castanhos e profundos. Minha mente gritava a resposta e meu coração acelerou mas eu queria ter a certeza.

- Eu vou com você pra Nova York. - Sorriu ternamente.