Minhas mãos estavam ridiculamente frias e trêmulas dentro do bolso de meu agasalho. As fechei em punho soltando tensamente o ar preso em meus pulmões. Observei a cama de Demi ouvindo a porta do quarto atrás de mim ser levemente fechada. O silêncio reinou no cômodo. Engoli o caroço que se formou em minha garganta me virando para olhá-la. Os braços alvos se encontravam cruzados sobre o peito, a cabeça baixa, o olhar mirando algum ponto do chão.
Cada segundo que se passava sem nenhuma palavra entre nós me deixava mais nervosa. Confesso que no fundo eu estava aguardando aquele momento, e quando ela me chamou para conversar eu tinha uma ideia do que estava por vir.
No início eu ignorei o óbvio, eu estava feliz e surpresa. Mas na verdade eu não estava esperando que tudo funcionasse perfeitamente. Eu estava ciente que aquela decisão significava mais um passo grande na vida de Demi. Ela também estava fazendo aquilo por nós, porém em um momento me perguntei se ela tinha cem por cento de certeza.
Eu não tinha dúvidas sobre os sentimentos dela por mim, mas por uma razão eu não conseguia me sentir confiante o bastante e acreditar que ela estava genuinamente feliz apesar de se mostrar animada com o rumo que as coisas estavam seguindo. Pensei em insistir mais e fazê-la se sentir segura mas não cheguei a sentir firmeza. Se aquilo não era o que ela realmente queria, eu não podia deixá-la continuar. Se ela não tivesse me chamado para falar sobre o assunto, eu teria feito.
Umedeci meus lábios pensando em me aproximar, mas Demi levantou o rosto me olhando com os olhos minimamente lacrimejados.
- Eu não quero magoar você. - A voz baixa penetrou em meus ouvidos.
- Eu sei. - Fitei a face triste.
- Eu juro que pensei que eu fosse capaz disso, Sel. Mas eu não me sinto pronta pra começar uma nova vida com você longe de tudo, eu preciso ir mais devagar.
- Eu compreendo. - Eu disse sinceramente. - Desculpe se em algum momento eu fiz você se sentir pressionada. - As palavras saíram desordenadas da minha boca, deslizei o dorso de minha mão rapidamente pelo meu rosto secando uma lágrima que notei ter derramado.
- Não se desculpe, meu amor. Você não fez nada de errado. - Demi andou até mim segurando minhas mãos. - Sou eu.
- Eu… - Desloquei meu olhar para longe do dela respirando fundo. - Preciso ir pra casa. - Eu disse subitamente a fazendo franzir levemente o cenho
Me afastei em direção à porta sem dizer mais nada mas fui impedida de sair.
Demi segurou meu rosto entre as mãos pressionando os lábios macios com avidez nos meus, me beijando ferozmente. A segurei pelos ombros sem força e coragem para afastá-la, a beijando de volta na mesma intensidade.
- Eu amo você. - Sussurrou um pouco ofegante após quebrar o contato de nossas bocas, unindo nossas testas. - Você acredita em mim?
- Sim. - Respondi ofegante ainda com meus olhos fechados.
- Fique aqui essa noite. - Pediu. - É nossa noite juntas.
- Preciso arrumar minhas malas. - Abri meus olhos encontrando os castanhos intensos.
Foi uma desculpa estúpida e Demi percebeu, ela apenas assentiu com a cabeça selando nossos lábios suavemente.
- Me liga quando chegar.
- Okay.
Me dirigi para fora do quarto sem saber direito o que pensar, eu só sentia a necessidade de passar o resto da noite sozinha.
- Selena, olha! - A voz de Liz me fez parar meus passos.
Coloquei um sorriso no rosto olhando para a menina com quem eu brincava de desenhar minutos atrás.
- O que foi Liz? - Perguntei percebendo Demi aparecer na sala.
- Já terminei meu desenho! - Informou animada correndo até mim com uma folha de sulfite na mão.
- Ficou muito bonito! - Elogiei sem prestar muita atenção.
- Essa é você. - Ela apontou para uma bonequinha de vestido verde e com o cabelo pintado de marrom. - E essa é a Dem, eu e Miles!
Observei o desenho sentindo meu coração se apertar por um instante. No papel colorido, Liz estava entre mim e Demi de mãos dadas, enquanto no céu junto com as nuvens e arco-íris estava Miley.
- Seu desenho está muito lindo! - Sorri beijando o topo da cabeça da menina, olhando para Demi a poucos passos de nós assistindo tudo com um sorriso fraco no canto dos lábios. - Eu vou pra casa agora, Liz.
- Mas a gente ia jogar vídeo game! - Ela fez bico. - Não vai não, Sel! Por favor!
- Desculpe baixinha mas eu tenho umas coisas pra fazer. Prometo que outro dia a gente joga, tá bom?
- Tá. - Concordou cabisbaixa retornando para o sofá.
Peguei minhas chaves na bancada da cozinha rumando diretamente para a porta. Girei a maçaneta e Demi se aproximou segurando meu braço delicadamente.
- Estamos bem? - Perguntou próxima ao meu ouvido.
- Sim. Eu só preciso ir. - A beijei brevemente antes de sair.
(...)
"I'm bulletproof, nothing to lose. Fire away, fire away…" A música chegava abafada ao meus ouvidos.
Minha casa estava cheia de pessoas, algumas delas desconhecidas. Obviamente as coisas haviam saído um pouco fora de controle, mas eu estava ciente dessa possibilidade no momento em que autorizei Debby a chamar alguns de nossos amigos para uma simples festa de despedida.
Eu não estava muito de acordo com a ideia mas também não estava com cabeça para contestar alguma coisa. Apesar de conhecer bem pouco do pessoal, eu sabia que eram pessoas boas e legais. Além do mais, foi bom ter conhecido gente nova.
Eu estava sem ânimo para festa de qualquer maneira. E se eu não estivesse tão desanimada e absorta desde a noite passada, com certeza eu estaria enlouquecendo. Havia garrafas de cerveja e vários copos vermelhos espalhados por todo canto da sala de estar. Diferentes tipos de comida que eu não tinha ideia de onde vieram, ocupavam a mesa de centro e a bancada da cozinha entre outros móveis.
O som alto, as vozes e as risadas das pessoas se divertindo ecoavam por todos os cômodos. Eu não estava encrencada apesar de tudo, as duas pessoas que poderiam me castigar pela bagunça estavam fora da cidade então eu teria tempo suficiente para deixar tudo organizado antes que voltassem.
Suspirei correndo os olhos pelo quintal mais uma vez, sentindo meu cachorro se mover ao meu lado.
- Eu vou sentir sua falta, amigo. - Eu disse com a voz baixa acariciando a orelha de Baylor.
O vento fresco no jardim de casa se chocava levemente contra meu rosto. Fazia longos minutos que eu estava ali sentada no banco de madeira com meu cachorro me fazendo companhia. Permanecer dentro de casa forçando sorrisos estava me irritando.
Encarei a garrafa de cerveja pela metade em minha mão descansada em minha coxa, bebendo mais um gole em seguida. Baylor resmungou se deitando no gramado. Fitei a lua solitária no céu e fechei os olhos, desejando estar em outro lugar.
- Hey. - Ouvi uma voz feminina próxima a mim após um tempo em silêncio. - Posso sentar aqui? - Perguntou hesitante.
Fitei a mulher de pé em minha frente por breve segundos reconhecendo o rosto da loira e os olhos azuis. Acenei com a cabeça esboçando um simples sorriso educado e ela ocupou o espaço vazio do banco ao meu lado, soltando um longo suspiro.
- Essa festa é sua, certo? - Perguntou, talvez tentando puxar algum assunto.
- Sim, eu acho. - Respondi com os olhos fixos na minha garrafa.
- E por quê você não está lá dentro se divertindo?
- Não estou muito afim. - Torci a boca bebendo outro gole da bebida. - E você? - Olhei para a loira conhecida. - Por que veio pra cá?
- Estou sem ânimo. - Suspirou encostando as costas no encosto do banco. - Porém não posso ir embora porque minha carona está agarrada no pescoço de um cara. Sabe quando você está preferindo dormir por horas mas aceita sair para tentar se divertir mesmo sabendo que não vai adiantar? - Estreitou os olhos azuis esperando pela resposta.
- Sim. - Assenti, tomando um último gole da cerveja.
- Desculpe, você deve está querendo ficar sozinha e eu aqui incomodando. - Ela levantou mas eu a impedi de prosseguir.
- Tá tudo bem, não está incomodando. - Assegurei sinceramente e ela sentou de novo.
- Se eu desse uma festa dessa na minha casa no outro dia minha mãe me mataria. - Comentou após poucos minutos de silêncio. - Suponho que a sua não tem ideia do que está havendo aqui agora, né?
- Está quase para completar um ano que ela morreu. - Falei baixo.
- Oh… eu sinto muito. - Senti o toque leve da mão macia em meu braço e olhei para o afago fitando o rosto da loira em seguida. - Você lembra de mim, certo? - Arqueou uma sobrancelha.
- Claro.
- Hmm, então qual é meu nome? - Cruzou os braços sobre o peito com um sorriso no canto dos lábios.
Agradeci mentalmente por ter mudado de assunto.
- Ashley. Eu lembro de você na pizzaria onde conheci alguns amigos da minha amiga.
- Ótimo, boa memória, Selena! - Riu. - Mas aquela noite nós não trocamos nem três palavras…
- É, eu não estava sendo muito agradável… - Eu disse sentindo meu celular vibrar em meu bolso.
Repousei a garrafa vazia em cima do banco pegando o aparelho que sinalizava uma nova mensagem. Sorri ao ver que era Demi.
"Desculpe bby, eu vou sair daqui um pouco tarde."
Mordi meu lábio inferior automaticamente após ler, demorando um pouco para respondê-la. Demi não sabia sobre a festa, havíamos combinado mais cedo que passaríamos a noite em minha casa assistindo filmes. Eu tinha planos em minha mente, não queria que ficasse nada mal resolvido entre nós.
Franzi o cenho ao notar a aproximação da mulher ao meu lado, o perfume de Ashley penetrou minhas narinas. A olhei com o canto dos olhos tapando o visor do celular ao segurá-lo contra minha barriga.
- Sua namorada? - Indagou apoiando o braço no encosto de madeira.
- Sim. - Respondi meio confusa. - Como…
- Ouvi algumas coisas sobre você lá dentro. - Explicou.
- Oh… - Foi o que consegui dizer.
Era novo alguém comentar sobre mim. Eu não queria saber o que disseram de qualquer maneira.
- Também ouvi que vai se mudar… - Voltou a comentar.
- Uau, eu sou um assunto bem popular lá dentro, não? - Levantei uma sobrancelha tirando um riso curto da mulher.
- É... mas não se preocupe. Só ouvi coisas boas, eles gostam de você.
- Isso é bom. E um pouco estranho.
- Por quê?
- Eu nunca tive tantas pessoas por perto assim antes. - Eu disse, olhando novamente a tela do meu celular. - Minha vida mudou tanto…
- Mas para melhor, certo? - Sorriu.
- É... posso dizer que sim.
"Sem problema. x"
- Por quê ela não está aqui? - Ashley perguntou se referindo à Demi quando guardei o celular no bolso após respondê-la.
- Ela está trabalhando. - Respondi sorrindo de lado. - Ela é médica. - Completei.
- Sério? - Perguntou com as duas sobrancelhas arqueadas.
- Sim. - Ri fraco.
- Isso é incrível. Preciso dizer que ela também é sortuda. - Ashley umedeceu os lábios rosados deslocando os olhos dos meus para um ponto mais embaixo.
Pigarreei virando meu rosto um pouco desconfortável ao mirar minhas próprias mãos.
- Bom eu vou entrar e ver se minha amiga ainda está sóbria para me levar para casa, não conheço muito da cidade… - Levantou.
- Você não é daqui? - Perguntei antes de ela começar a caminhar de volta para dentro de casa.
- Não. Moro em Manhattan mas estou aqui fugindo das minhas responsabilidades. - Respondeu me lançando uma piscadela. - Até mais, Selena! - Ela disse já se afastando.
- Até. - Encostei as costas no encosto duro pretendendo permanecer ali por mais um tempo.
(...)
Estava quase amanhecendo quando finalmente deitei em minha cama. O sol já estava nascendo quando consegui dormir. Poucas horas mais tarde percebi que eu não estava mais sozinha debaixo do edredom. O braço alvo envolvia minha cintura levemente e a respiração quente e tranquila se chocava contra a pele de meu pescoço. Um sorriso brotou em meus lábios e eu repousei minha mão sobre a de Demi me permitindo dormir mais.
A claridade do sol já adentrava meu quarto, mas a última coisa que eu queria era levantar da cama e me afastar do calor do corpo e dos braços delicados que me abraçavam. Estiquei a mão em direção ao criado mudo em busca do meu celular e arregalei os olhos ao notar a hora adiantada. A imagem do andar de baixo de casa onde parecia que um furacão havia passado veio à minha mente, junto com o rosto zangado de Brian.
Me virei devagar avistando Demi dormir tranquila e acariciei a maçã do rosto sereno deixando um beijo terno em sua testa. Ao tentar me desvencilhar de seu braço ela soltou um gemido baixo de insatisfação.
- Fica aqui. - Pediu sonolenta sem abrir os olhos, firmando mais o braço em minha cintura.
- Eu não posso, preciso dar um jeito na bagunça lá embaixo. - Expliquei observando a face bonita.
Demi resmungou mais algumas palavras que não entendi e abraçou o travesseiro me deixando ir. Calcei minhas pantufas, bocejando, e escovei os dentes antes de sair do quarto. Parei no topo da escada observando o estrago. Ao descer encontrei Debby morta em um dos sofás da sala completamente desorganizada.
- Acorda! - Chamei em voz alta atirando uma almofada na garota deitada.
Ela se sentou assustada olhando em sua volta.
- Ai minha cabeça. - Reclamou esfregando a testa. - Que horas são? - Se espreguiçou.
- Já passa da uma da tarde. - Respondi, começando a recolher os copos e garrafas deixadas sobre a mesa de centro. - Levanta e me ajuda, isso foi ideia sua! - Acusei rumando para a cozinha.
- Mas você deixou. - Apontou me seguindo até o outro cômodo. - Por falar nisso, onde você esteve a noite inteira? - Perguntou com o cenho franzido.
- Eu… - Pausei quando um pedaço de papel preso com um ímã na geladeira atraiu minha atenção. - Fiquei no jardim com Baylor.
Larguei a garrafa e os copos sobre a bancada bagunçada pegando a nota.
"Me liga quando estiver em NY. Beijos, Ash!" e mais um número de celular preenchia o papel branco.
- Por Deus, Selena! Você vai embora na próxima semana e a noite passada era para você se divertir e esquecer dessa preocupação com sua namorada e você fica lá fora com o cachorro. Eu já… o que é isso aí?
- O que é o quê? - Levantei o rosto amassando o bilhete. - Nada. - Menti para evitar um questionário.
- Tá, que seja. Eu preciso de um comprimido. - Sentou na banqueta escondendo o rosto com as mãos.
- Eu vou pegar pra você. - Avisei saindo da cozinha. - E não fuja! Temos muito o que fazer!
