Minha pele inteira estava arrepiada. Aos poucos fui despertando, podia ouvir os pássaros cantando do lado de fora. Estreitei meus olhos me acostumando com a claridade do cômodo. Os raios de sol se infiltravam pelas cortinas de seda da sacada do quarto, levemente esvoaçadas pelo vento fraco. Escutei um riso abafado, sentindo o movimento suave das pontas dos dedos percorrendo minhas costas nuas continuar com lentidão.

Pisquei algumas vezes observando Demi com um sorriso meigo nos lábios, deitada ao meu lado na cama com o cotovelo apoiado no colchão e a mão sustentando sua cabeça, enquanto a outra livre me causava os arrepios.

Corri brevemente meus olhos pelo seu corpo notando que ela já estava completamente vestida com suas mesmas roupas da noite anterior. Suspirei me espreguiçando.

- Bom dia. - O sorriso bonito se estendeu.

- Bom dia... - Eu disse sonolenta esfregando meus olhos. - Está me olhando dormir há quanto tempo? - Perguntei com a voz rouca.

- Uns dez minutos eu acho, não quis te acordar..

- Espera. - Me sentei com pressa, os olhos confusos logo se esquivaram para os meus seios que ficaram expostos. Sorri de lado cobrindo meu peito desnudo com o lençol. - Acabei esquecendo do café da manhã... só espera um minuto enquanto eu me troco e desço pra..

- Hey, Sel. Relaxa. - Segurou meu pulso antes que eu pudesse sair da cama. Estava um pouco aflita pois tinha apenas mais algumas horas com ela. - Eu já fiz isso.

- Você fez?

- Bem, sim. - Ela assentiu. - E você sabe... - Sorriu maliciosa afastando a franja do meu olho. - Eu acho extremamente sexy você com seu cabelo todo desordenado assim mas... por que não se veste e me encontra lá embaixo? - Selou nossos lábios morosamente.

- Okay... - Concordei com um sorriso abobalhado em meu rosto.

Acompanhei com o olhar Demi sair do quarto admirando seus quadris. Lembranças da noite anterior vieram à minha mente me fazendo sorrir mais largo. Abandonei o lençol que envolvia meu corpo despido e saí da cama, encontrando minhas roupas sobre a poltrona. As peguei rumando na direção do banheiro.

Fechei meus olhos sentindo a água morna se chocar contra minha nuca.

Tudo o que eu conseguia pensar era que, em dez horas eu estaria dentro de um avião voando para longe da pessoa mais importante pra mim. Ela era a única razão para eu querer ficar, mas ao mesmo tempo eu também desejava ir e esse era o meu problema. Chegava a me sentir meio egoísta em ainda pensar que Demi poderia ir comigo, mas eu sabia que ela não estava pronta para tudo isso.

Deslizei minhas mãos pelo meu cabelo deixando a água cair em meu rosto.

(...)

- Então eu presumo que você não vai precisar de uma carona para o aeroporto? - Meu padrasto ocupado no outro lado da linha indagou.

- É... Demi vai me levar. - Eu disse tentando terminar de vestir minha jaqueta enquanto descia a escada segurando o celular em minha orelha.

- Certo, e a propósito eu já contratei uma pessoa de confiança para cuidar da casa.

- Isso é ótimo, obrigada!

- Não precisa me agradecer, Sel. Então nos vemos no almoço? Chegarei em casa em algumas horas.

- Uh... na verdade não. Eu e Demi vamos passar a tarde com Liz, preciso me despedir dela e tudo mais...

- Tudo bem, dirija com cuidado por essas estradas. Até mais tarde.

- Pode deixar. Tchau. - Encerrei a chamada me encontrando na sala de estar.

Percorri os olhos pelo cômodo quieto guardando meu celular no bolso traseiro da calça.

- Dem? - Chamei caminhando até a cozinha.

- Estou aqui fora. - Ela gritou em resposta.

Atravessei a porta de vidro aberta encontrando Demi na varanda falando no celular. A brisa fresca da manhã agitava levemente os fios brilhantes do cabelo escuro. Um sorriso brincou em seus lábios quando me aproximei.

- O quê? Não. Entrega para o Nick, ele sabe o que fazer...

Observei seu cenho franzir por alguns segundos e esquivei meus olhos para a pequena mesa de madeira, avistando as coisas que eu havia comprado no dia anterior. Havia alguns pães em uma pequena cesta repousada de um lado, algumas torradas com geleia de outro e uma jarra com suco no centro da mesa protegida por uma toalha branca.

Um sorriso tomou conta de meus lábios. Voltei a prestar atenção na mulher em minha frente falando sobre exames e ditando ordens para alguém.

A ligação foi finalizada alguns segundos depois e seus olhos encontraram os meus.

- Você demorou. - Ela disse colocando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.

- Eu estava tomando banho... isso parece delicioso. - Eu disse me referindo ao café da manhã.

Demi soltou um riso baixo.

- Eu sei que você ia fazer isso, mas se não se importa... - Arrastou uma das cadeiras para eu sentar.

- Está perfeito, Dem. Eu estou morrendo de fome!

Com um riso fraco Demi ocupou a outra cadeira. Poucas palavras foram ditas enquanto comíamos escutando os passarinhos cantando em meio ao barulho das folhas das árvores que balançavam com o vento.

(...)

Os latidos alegres de Baylor se misturava com a voz fina de Liz. Assisti o cão sair correndo pela grama, atrás da bolinha vermelha que a menina havia atirado. Brincavam sob o sol a alguns passos de onde estávamos desfrutando da sombra de uma das árvores do parque. O dia estava lindo e nós estávamos apenas aproveitando.

Repousei minhas mãos sobre minha barriga movendo minha cabeça descansada sobre o colo de Demi. Observei a face risonha mirando os olhos cor de chocolate através da lente do óculos de sol que usava. A luz do dia destacava as sardas que salpicavam o nariz e as maçãs do rosto.

Demi levou mais uma jujuba à boca, ainda assistindo a garota se divertir com Baylor. Seu maxilar se movia lentamente e no pescoço pálido pequenas marcas deixadas por mim lembravam a noite passada. Permaneci com meus olhos fixos na mulher distraída comendo as jujubas de Liz. Nunca me cansava de admirá-la.

- Você vai ser uma artista incrível, eu sei disso. - Comentou repentinamente me fazendo sorrir.

- Como tem tanta certeza assim? - Perguntei a fazendo olhar para mim.

- Você é talentosa e tem força de vontade. - Ela disse aproximando uma jujuba vermelha de meus lábios, porém quando abri minha boca ela afastou a mão para longe ligeiramente, me deixando somente na vontade.

- Às vezes me esqueço que você é a mais velha aqui... - Rolei os olhos com diversão quando ela comeu o doce.

- Eu também. - Encolheu os ombros colocando os óculos no topo da cabeça.

Gostava quando ela agia dessa maneira, não era mais novo para mim vê-la assim. Lembrei de quando estávamos na casa de sua família em Dallas, da noite em que me disse que comigo ela estava sendo ela mesmo após muito tempo. Isso fez eu me sentir especial de certa forma.

- Dem... - Cruzei minhas pernas esticadas sobre a grama começando a brincar com a barra de minha camiseta. - Você realmente acredita que eu tenho futuro nessa profissão? - Perguntei, por um motivo me sentia um pouco insegura.

- É claro, meu amor. O que te faz pensar ao contrário? - Perguntou atenciosa.

- Não sei... quer dizer, minha mãe sempre dizia que o mundo não dá valor a isso e tal... que desenhar não é uma grande coisa... - Suspirei lembrando das palavras de minha mãe. - Ela gostava dos meus desenhos, é claro. Mas eu provavelmente estaria indo estudar direito em Harvard ou algo assim se ela não tivesse... - Respirei fundo deslocando meus olhos para as folhas verdes.

- Ela só queria o melhor pra você pensando no seu futuro. Mas você tem que fazer o que você deseja. Fazer por você. - Sorriu meiga. - Tenho certeza que você tem uma grande carreira pela frente, Sel.

- Obrigado por acreditar em mim. - Suspirei vendo seu sorriso se alastrar, e mais uma vez aproximou outra jujuba da minha boca. - Não vou cair nessa de novo. - Afirmei negando com a cabeça.

- Mas agora eu não estou brincando. - Disse risonha. - Não quer? Sei que você quer, você ama essas guloseimas. - Arqueou uma sobrancelha.

Fitei a jujuba rosa entre seus dedos com anseio e estreitei meus olhos mirando a morena brincalhona. Ela obviamente repetiu a brincadeira afastando a mão quando abri minha boca e sua risada alta se alastrou pelo ambiente quando abocanhou o doce. Ouvi-la gargalhando era uma das minhas coisas favoritas no mundo, assim como esses pequenos momentos bobos repletos de sorrisos sinceros que sempre compartilhávamos.

Levantei um pouco minha cabeça de seu colo e segurei o rosto bonito entre minhas mãos a puxando delicadamente para baixo no mesmo instante, juntando nossos lábios.

- Hmm... - Murmurou concedendo a passagem de minha língua que adentrou sua boca doce.

Deslizei minha mão esquerda até sua nuca sob seus cabelos enquanto com a outra procurei pelo pequeno pacote de jujubas em sua posse, conseguindo pegá-lo facilmente. Terminei o beijo intenso com alguns selinhos, mordiscando seu lábio inferior.

Me afastei acomodando novamente minha cabeça sobre suas coxas. Demi abriu os olhos lentamente com um sorriso enfeitando seus lábios.

- O que foi isso? - Perguntou limpando o canto da boca com o polegar.

- Só um beijo. - Dei de ombros retirando uma jujuba de dentro do pacote agora em minha mão, atirei o doce na minha boca lançando uma piscadela para a minha namorada.

- Esperta. - Estreitou os olhos encostando as costas no tronco da árvore.

- O que eu posso dizer? Você não consegue resistir a mim. - Brinquei movendo minhas sobrancelhas.

Ela riu balançando a cabeça.

- Tão convencida... mas está certa.

(...)

Estava com meus olhos direcionados para a tela plana em minha frente mas sem prestar a mínima atenção no filme de comédia. Em algum momento no meio me encontrei concentrada em meus pensamentos. Esbocei um pequeno sorriso observando os dedos delicados exercerem uma leve carícia no dorso de minha mão descansada sobre a almofada em meu colo. Desviei meus olhos das unhas pintadas de vermelho movendo minimamente minha cabeça encostada no ombro de Demi. Fitei a pele branca me deleitando com seu perfume suave.

Seu toque delicado, seu cheiro inebriante, seus beijos, abraços... ela. O fato de que eu não a teria por longos meses me causava uma sensação agoniante, meu estômago embrulhava e um nó desagradável crescia em minha garganta.

Movi minha mão entrelaçando nossos dedos fazendo a pequena carícia cessar. Um suspiro fraco escapou de meus lábios quando alguns ruídos de passos chegaram aos meus ouvidos. Em seguida percebi a presença do homem calmo na sala de televisão mas continuei na mesma posição.

- Sel... - Ouvi a voz grossa. - Suas malas já estão no carro. - Meu padrasto avisou calmamente.

Era isso. Já estava tudo completamente pronto e decidido. Levantei minha cabeça ao ponto de vê-lo devolvendo o molho de chaves para Demi sentada no sofá junto comigo.

- Obrigada de novo. - Agradeci recebendo um sorriso reconfortante de Brian.

- Você já se despediu das suas amigas? - Ele perguntou.

- Sim. - Assenti o notando alternar o olhar entre mim e Demi.

- Bom, então eu vou estar lá dentro com Maria. - Apontou por cima do ombro em direção da porta. - Nos chame quando estiver na hora de você ir.

- Tudo bem.

Após ficarmos sozinhas na sala novamente, percebi Demi relaxar o corpo no sofá. Soltei um riso baixo atraindo sua atenção.

- O que é? - Um sorriso terno se formou no canto dos lábios. - Acho que eu nunca vou conseguir me sentir completamente a vontade quando seu padrasto estiver perto. - Descansou a lateral da cabeça no encosto macio sem deslocar os olhos dos meus.

- Boba. - Eu disse afastando a franja longa de seu olho. - Depois de todos esses meses...

- Eu sei... acho que com o tempo eu acostumo. - Sorriu singela, mas imediatamente seu semblante mudou quando notei seu olhar se deslocar em direção do relógio na parede. - Eu quero te dar uma coisa antes de irmos para o aeroporto.

Ela inclinou o corpo para frente em busca de sua bolsa repousada sobre a mesinha de centro. A observei retirar de dentro uma pequena pulseira com pingentes.

- Essa é tipo... minha pulseira da sorte. Minha mãe me deu quando saí de casa. Eu a usei praticamente em todas minhas provas. - Riu fraco. - Quero que leve com você.

- Tem certeza? - Perguntei analisando a joia bonita. - É um presente da sua mãe... - Eu disse segurando a pulseira entre meus dedos.

- E ela ficaria feliz se você aceitasse. - Sorriu meiga. - Vamos... me deixe colocar em você.

- É linda, Dem. - Sorri enquanto ela colocava a pulseira em meu pulso esquerdo junto com meus outros braceletes. - Obrigada.

Ela depositou um beijo terno nas costas da minha mão, acariciando a maçã de meu rosto antes de se aproximar e selar nossos lábios de forma singela.

Meu ritmo cardíaco ligeiramente se acelerou quando aprofundamos o beijo vagarosamente. Por um segundo cheguei a esquecer que em menos de duas horas estaria a deixando e seguindo meu caminho para outra cidade.

Demi separou nossas bocas apoiando sua testa na minha. Permaneci com meus olhos fechados apenas sentindo sua respiração quente e minimamente ofegante se mesclando com a minha. Ela roçou a ponta de nossos narizes enquanto o polegar exercia uma leve carícia em minha bochecha.

- Isso vai ser tão difícil... - Sussurrei segurando sua mão em meu rosto. - Nós valemos a pena, certo? - As palavras saíram quase inaudíveis.

Engoli em seco reprimindo o desejo de pedir mais uma vez que ela fosse comigo.

Senti o par de lábios macios se pressionarem novamente contra os meus com força. Demi depositou um beijo longo em minha testa antes de me olhar nos olhos. Encarei os castanhos bonitos levemente lacrimejados.

- Você mudou a minha vida. Nós valemos muito a pena.

Envolvi seu corpo em um abraço forte. Engoli em seco apertando meus olhos e sentindo a mão afagar meus cabelos suavemente. Respirei com mais profundidade inalando seu cheiro, sem pressa alguma para me afastar do calor de seu corpo.

(...)

Os flocos de neve caíam suavemente do céu nublado. Estava com minha mente longe, olhando absorta por um longo tempo através do vidro da janela ao meu lado. Pessoas agasalhadas caminhavam pelas calçadas úmidas com suas mãos escondidas nos bolsos de seus casacos.

Ajeitei o cachecol vermelho em meu pescoço, bebericando mais um gole do meu café. Uma das moças jovens atrás do balcão de madeira chamou por um nome, me fazendo correr meus olhos pelo estabelecimento calmo e confortável. Era cedo, poucos fregueses ocupavam algumas das mesas pequenas, alguns acompanhados e outros focados na tela de seus notebooks.

Já estávamos na segunda semana de fevereiro. O mês havia começado muito bem, as coisas pareciam estar funcionando bem. Exceto pela saudade que já transbordava de meu peito. Mas por outro lado não conseguia esconder minha felicidade por finalmente estar aprendendo muito mais sobre a profissão que eu queria seguir. Sempre fui grande fã de quadrinhos, passei minha adolescência inteira lendo histórias de super-heróis e desenhando. Então, não tinha nenhuma dúvida de qual área queria atuar.

Me senti completamente perdida quando cheguei. Entretanto, minha colega de quarto me ajudou bastante, acabamos nos entendendo muito bem na verdade. Jennifer era a única pessoa com quem eu mais conversava pessoalmente, mas não era como se já fossemos amigas. Nos conhecíamos apenas há duas semanas. De qualquer maneira ela era uma garota simpática e divertida. Com certeza uma ótima companhia para sair e conhecer melhor a cidade.

Havia milhares de coisas que eu queria fazer sem me distrair do meu real objetivo. Já estava louca para visitar dezenas de lugares, havia uma lista em minha mente. Mas o fato de eu estar sozinha em uma cidade incrível, me desanimava um pouco. Além do mais eu teria tempo o bastante para a diversão, quatro anos exatamente.

Lembrar disso me assustava de certa forma, me fazia duvidar de minha capacidade de me manter concentrada e ao mesmo tempo lidar com a saudade. Estava disposta a dar o melhor de mim para que as coisas continuassem funcionando bem, e a distância não atrapalhasse em nosso relacionamento. Demi e eu nos falávamos todas as horas do dia, mas o que eu realmente queria era que ela estivesse comigo. Não sabia se estava realmente bem como afirmava todos os dias.

Pousei novamente meu copo sobre a mesa da cafeteria. O lugar já era meu favorito durante as manhãs. Senti meu celular vibrar dentro do bolso do meu casaco, sorri instantaneamente ao fitar o visor.

- Bom dia, linda. - Atendi voltando a observar a rua através da janela.

- Bom dia, meu amor. - Sua voz estava sonolenta.

- Acordou agora? - Indaguei ouvindo seu bocejo. - Pensei que dormiria até mais tarde já que está de folga...

- Esse era o meu plano, mas Dallas fez questão de arruinar tudo quando me acordou com o aspirador de pó. - Bufou me fazendo rir baixo. - Sem falar que ela se apoderou da minha cozinha, vive fazendo cupcakes cheio de brilho.

- Não parece tão ruim assim, você ama cupcake.

- Sim mas... você me entendeu. Ela precisa ir embora o mais rápido possível!

- Demi, ela é sua irmã! - Repreendi rindo fraco.

- Eu sei, eu sei. Estou feliz que ela está aqui mas ficaria mais ainda se ela acertasse as coisas com Mike e voltasse pra casa.

- Tenho certeza que logo se resolverão. - Eu disse tomando outro gole do café, ouvindo um longo suspiro.

- Você estava em meu sonho a noite passada. Na verdade eu sonhei com a gente.

- Ah é? - Eu sorri, mas sua voz soava um pouco séria para meu gosto. - Como foi? - Perguntei.

- Foi... não sei. Nós nos casávamos em uma praia...

- Hmm... - Não consegui proferir nada mais. Umedeci meus lábios esperando ela falar novamente.

Ouvi-la contar que havia sonhado com a gente se casando foi totalmente satisfatório, apesar de temer sua reação sobre o assunto. Desejava poder simplesmente dizer à ela que eu queria me casar com ela, mas tinha medo de assustá-la com minhas palavras. Senti uma reviravolta na barriga escutando somente sua respiração serena.

- Você estava linda com um vestido branco e flores no cabelo... - Acrescentou com a voz baixa. - Sel...

- Sim? - Limpei a garganta me aprumando na cadeira.

- Eu só... não sei bem como me sinto sobre isso. Quer dizer, eu... - Ela se calou fazendo meu coração acelerar.

- Demi, não. Foi só um sonho...

- Demetria, onde estão os ovos? - Pausei ao ouvir a voz de sua irmã mais velha ao fundo.

- Se você não encontrou é porque não tem! - Demi respondeu.

- O que ela está fazendo? - Perguntei curiosa ignorando o assunto anterior.

- Panquecas. - Riu baixo. - Tudo bem, admito que a presença dela aqui não está sendo tão chata assim.

- Viu? - Eu ri brevemente. - Quanto ao seu sonho...

- Foi um dos melhores. - Ela me interrompeu colocando um sorriso em meus lábios. - Olá, Selena! - Dallas gritou.

Em seguida eu a ouvi pedir a chave do carro para a irmã mais nova. As duas começaram um diálogo no outro lado da linha enquanto eu apenas escutava tudo com diversão.

- Selena!

Franzi o cenho levantando minha cabeça rapidamente ao ouvir a voz suave ao meu lado no mesmo tempo em que uma mão tocou meu ombro. Fiquei estática encarando a dona das mechas loiras em minha frente usando um gorro cinza. Ela retirou o headphone dos ouvidos o deixando pendurado em seu pescoço e duas covinhas se formaram nas bochechas levemente rosadas quando o sorriso se estendeu. Desviei meus olhos escutando Dallas se despedir de mim.

- Sel, eu tenho que desligar. - Demi informou com um suspiro fraco. - Já vi que Dallas não vai me deixar em paz até que eu a leve na mercearia, pois não sou louca de deixá-la dirigir meu carro. Me liga mais tarde?

- Claro, amor. - Sorri de lado. - Se divirta com a sua irmã.

- Vou tentar. - Riu antes de desligar.

Guardei o celular de volta no bolso do casaco ainda surpresa com a presença da mulher sorrindo em minha direção. Retribui o sorriso.

- Se importa? - Ashley perguntou apontando para a cadeira vaga em minha frente.

- Claro que não. - Eu disse e então ela se sentou.

- Então... - Apoiou os cotovelos na mesa descansando o queixo nas mãos. - Você não me ligou. - Estreitou os olhos claros.

- E aí você resolveu vir atrás de mim? - Levantei as sobrancelhas, minha intenção não era soar grossa nem nada. Na verdade estava gostando de vê-la outra vez.

- O quê? Claro que não! - Exclamou indignada. - Eu vi você pela janela, e a propósito eu tenho alguns amigos por aqui. - Se explicou sem necessidade.

- Tudo bem, eu estava brincando. - Reprimi uma risada a vendo rolar os olhos. - Olha, me desculpe por não ter ligado. Só achei que... bem, eu tenho namorada...

- E? - Pareceu confusa por dois segundos. - Espera, você acha que eu estou afim de você ou coisa do tipo?

- Você não está? - Franzi a testa.

- Não! - Riu alto fazendo eu me sentir uma idiota. - Bem, quero dizer... não nego que aquela noite na sua casa eu senti vontade de te beijar... - Notei ela fitar meus lábios brevemente. - Mas eu também tinha bebido e sei que você é comprometida e ama a sua namorada. Eu respeito muito isso!

- Bem...

- Eu deixei meu número com você porque pensei que seria divertido te fazer companhia enquanto estivesse aqui. - Encolheu os ombros. - Mas não se preocupe, Selena. Acho que isso foi uma má ideia.

Ashley se levantou claramente chateada. Torci a boca abaixando meu olhar em direção do meu copo quando ela se retirou.

Vamos encarar os fatos, eu não tinha ninguém comigo na cidade. Apesar de estar me dando bem com a garota ruiva com que eu dividia o quarto, no fim das contas eu estava sozinha. E honestamente, não queria continuar assim.

Paguei pelo meu café antes de me dirigir com pressa para fora da cafeteria. Senti o frio mais intenso quando coloquei meus pés na calçada. Abracei meus próprios braços avistando a loira atravessar para o outro lado da rua.

- Ashley! - Chamei apressando meus passos até ela. - Ashley, espera!

Ela se virou ao chegar na outra calçada, me fitou visivelmente confusa enquanto eu me aproximava.

- Precisa de alguma coisa? - Perguntou quando parei em sua frente.

- Eu meio que tenho uma lista de coisas que pretendo fazer enquanto estiver na cidade...

- E...?

- E é um pouco sem graça ir patinar sozinha. - Mordi o interior da minha boca esperando alguma resposta.

- Então isso significa que você quer a minha companhia? - Esboçou um sorriso. Assenti. - Tem certeza disso? - Se certificou.

- Sim. - Afirmei. - Então... o que me diz?

Ashley não respondeu, ela apenas desviou o olhar fazendo sinal para um dos táxis parar. Se inclinou em direção da janela meio aberta do banco do passageiro.

- Bryant Park, por favor.

- Claro, senhorita. - O taxista respondeu.

- Vamos. - Sorriu abrindo a porta de trás do automóvel amarelo. Adentrei o carro ganhando um sorriso gentil do motorista. - Então, o que mais tem nessa sua listinha? Pensei que estivesse na cidade para se formar... - Comentou ao se sentar ao meu lado no banco.

- É minha prioridade, mas não significa que não estou atrás também de um pouco de diversão.

- Então você está com a pessoa certa agora!