Tudo parecia tão incompleto. Eu estava vivendo um dos melhores e piores períodos da minha vida ao mesmo tempo. A saudade só aumentava a cada dia me sufocando dolorosamente parecendo drenar minhas energias. A necessidade inexplicável de estar com Demi estava me corroendo, nossas longas conversas por telefone e internet não eram suficiente. Não estava mais aguentando vê-la apenas pela tela do notebook ou ouvir sua voz pelo celular. Não era o bastante para nós.
Aquele sentimento era tremendamente torturante e a pior parte de tudo era que estava apenas começando.
Havia uma maneira de colocar um fim naquela situação angustiante. Mas, se pelo menos Demi... se seus medos e incertezas fossem embora...
"Só mais uma semana." Eu repetia em minha mente, contando os dias até a primavera.
Ajeitei a alça da minha mochila em meu ombro me afastando para um canto mais quieto. Levei o celular até a orelha me encostando na parede do corredor largo, escutando o pequeno grupo de amigos conversando e rindo alto a poucos passos de onde me encontrava. Não demorou mais de um minuto para um homem de cabelos ralos aparecer na porta em frente repreendendo os três. Encarei o piso marrom deslizando minha mão livre para dentro do bolso de meu agasalho.
Pressionei meus lábios ainda esperando ansiosa a ligação ser atendida, o que não aconteceu.
Pelo horário presumi que Demi estivesse ocupada, ela geralmente estava. Mas mesmo assim tentei mais uma vez. Só precisava ouvir sua voz para seguir com o meu dia. Estávamos sem nos comunicar desde a noite passada. Foi a primeira vez que ela não me ligou durante a manhã. Estranhei em não ter ouvido o bom dia rotineiro, a voz rouca que me arrepiava quando sussurrava em meu ouvido.
- Selena! - Ergui os olhos em direção da garota. - Nós estamos indo almoçar. Você vem?
Já passava de uma hora da tarde. Meu estômago estava implorando por comida, só havia tido tempo de comer uma maçã pela manhã, e se não fosse pelos chamados de Jennifer, com certeza eu teria me atrasado. De qualquer forma, não ficaria mais até tarde da noite na casa de Ashley jogando conversa fora.
Suspirei analisando o visor do celular antes de desistir e guardá-lo no bolso.
- Claro. - Respondi a garota me juntando novamente aos três que me esperavam.
- Então, conseguiu falar com a sua namorada? - A ruiva perguntou enquanto caminhávamos sem pressa.
Minha convivência com Jennifer não poderia ser melhor. A nova iorquina com quem eu dividia o quarto era literalmente uma garota incrível. Estava realmente agradecida, pois a última coisa que eu estava precisando era de uma pessoa preconceituosa dormindo no mesmo cômodo que eu. Quanto mais tempo nós passávamos juntas, mais nos conhecíamos. Tínhamos objetivos em comum. Ela já sabia sobre minha sexualidade e sobre Demi. Tudo estava acontecendo genuinamente e não era como se precisássemos nos dar bem porque compartilhávamos o mesmo espaço.
- Não. - Eu disse colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. - Ela deve estar ocupada com certeza.
- Pelo jeito já era as suas chances de sair com ela. - Escutei um dos rapazes morenos murmurar para o outro de uma forma debochada.
- Vocês me cansam. - Jennifer revirou os olhos.
Levantei uma sobrancelha olhando em direção de Dylan. Já estava meio ciente sobre o que o garoto pensava sobre mim. Ele coçou a nuca evitando meus olhos ao abaixar a cabeça. Eu ri pelo nariz achando graça da situação.
Saímos do edifício com Jennifer comentando mais sobre o novo hambúrguer da lanchonete que estávamos indo. Ela era o guia quando se tratava dos lugares, o estabelecimento bem frequentado ficava a três quarteirões.
Escondi minhas mãos com as mangas de meu moletom enquanto descíamos a escadaria de pedra. Sorri correndo meus olhos pelo céu azul sentindo a brisa gelada tocar levemente a pele de meu rosto. O dia estava frio mas pelo menos havia sol.
A garota caminhando ao meu lado esquerdo ainda conversava sem parar quando o som repetitivo de uma buzina atraiu a nossa atenção e de mais outros estudantes que passavam pelo local. Lancei um sorriso em direção à loira usando óculos escuro ao reconhecer o conversível prata. Ashley acenou com a cabeça me chamando.
- Você a conhece? - Jennifer indagou seguindo meu olhar.
- Sim, é uma amiga. Vão indo na frente, eu alcanço vocês. - Eu disse apressando meus passos até o automóvel. - O que está fazendo aqui? - Perguntei parando diante a porta do motorista.
- Vim te buscar para almoçar.
- Mas eu já..
- E não estou aceitando "não" como resposta. - Me cortou exibindo um sorriso presunçoso.
Mordi o canto de meu lábio desviando meus olhos para os meus três colegas que já atravessavam para a outra calçada movimentada.
- Tudo bem. - Suspirei dando a volta no conversível. Ocupei o banco do passageiro atirando minha mochila no de trás. - Está esperando o quê? - Arqueei as sobrancelhas notando que Ashley não se movia.
Encarei as lentes escuras que escondiam os olhos azuis.
- Huh? Nada. - Sorriu balançando a cabeça ao dar partida no carro.
(...)
- Terra chamando Selena!
O estalar dos dedos em minha frente me arrancou de meus pensamentos. Levantei os olhos retornando minha atenção para a mulher diante de mim. Ela sorriu simples mastigando sua comida.
- Desculpa. - Me aprumei na cadeira do restaurante pegando meu copo sobre a mesa. - O que você estava falando sobre seu apartamento? - Perguntei antes de beber o último gole do meu refrigerante de limão.
- Deixa pra lá. - Deu de ombros. - Foi só uma ideia que passou pela minha cabeça. - Esquivou os olhos para o resto do taco.
- Não, não. - Repousei o copo vazio de volta na mesa. - Agora você tem que contar. - Encostei as costas no encosto da cadeira esperando Ashley falar.
- Bem... eu só pensei que.. - Começou ainda encarando a comida. - Que você podia levar suas coisas lá pra minha casa, sabe, ir morar comigo. Sempre quis dividir aquele lugar com algum amigo..
- Ash..
- Eu sei. - Ela me cortou rapidamente. - Péssima ideia, eu sei.
- Na verdade eu gostei da sua ideia. - Confessei ganhando um olhar surpreso. - Mas, eu estou me dando tão bem com Jennifer. E lá é bem mais fácil pra mim... você entende?
- É claro, Sel. - Sorriu sem exibir os dentes capturando o canudo de seu drink. - Eu só gosto de ter você comigo.
Retribui o sorriso simples ignorando a piscadela charmosa. Apoiei meus cotovelos sobre a mesa entrelaçando meus próprios dedos, umedeci meus lábios abaixando meus olhos para minhas mãos. Deixei um suspiro fraco escapar ao alisar a aliança em meu dedo anelar.
- Eu não ia comentar nada mas... - Ashley quebrou o breve silêncio. - Você parece preocupada. Ficou calada o trajeto inteiro até aqui... você está bem, Sel? - Sua voz era cautelosa.
- Estou. - Forcei um meio sorriso. - É só impressão sua.
- Já te conheço o suficiente pra saber que está mentindo. - Limpou o canto da boca com o guardanapo. - Não quero ser intrometida, mas estou aqui se quiser conversar.
- Obrigada... - Agradeci fitando os olhos demonstrando sinceridade.
- Então... você não estava brincando quando disse que estava faminta. - Desconversou apontando para meu prato praticamente vazio.
- Estava muito bom. - Eu disse completamente satisfeita. - Adorei esse lugar. - Sorri fraco olhando ao redor brevemente, alguns quadros enfeitavam as paredes de cor amarela.
- Por isso vamos vir mais vezes!
- Claro.
- Hm.. - Sugou o líquido laranja sem álcool. - Hoje é sexta-feira, está ocupada essa noite?
- Na verdade não. - Afastei a franja longa de meu olho para trás de minha orelha. - Por que? Se for alguma festa eu nã..
- Ei! - Me interrompeu abandonando o canudo. - Por que você acha que é isso? - Franziu o cenho.
- Porque você já me chamou três vezes na semana passada.
- Hm. - Torceu a boca pensativa. - Tem razão... mas para sua informação dessa vez eu ia sugerir algo completamente diferente.
- Ah é? Tipo o quê? - Perguntei interessada. - Também estou descartando qualquer tipo de boate.
- Selena! - Rolou os olhos me fazendo rir. - Olha, nós só vamos para minha casa, eu faço pipoca e nós podemos assistir alguma coisa. Como você gosta, não estou afim de festa hoje... então?
Analisei a proposta pensativa enquanto Ashley aguardava esperançosa por alguma resposta. Antes que eu pudesse abrir minha boca pra respondê-la o toque do meu celular roubou minha atenção. Peguei o aparelho sobre a mesa ansiosamente na expectativa de ouvir a voz de Demi, mas acabei me decepcionando um pouco ao olhar a tela.
- Alô! - Atendi observando Ashley se levantar da cadeira avisando que ia ao banheiro.
Assenti escutando a voz animada da garota no outro lado da linha.
- Como está minha melhor amiga favorita?
- Eu sou sua única melhor amiga. - Eu disse tentando soar divertida. - Ou você já encontrou outra?
- Sel, por favor. - Hay riu debochada. - Como estão as coisas?
- Bem. - Suspirei cruzando minhas pernas sob a mesa.
- Mhm, estou sentindo sua animação... - Disse irônica. - Você está bem?
- Sim, só... com saudade. Essa maldita distância está me matando.
- Você sabia que seria difícil, e ainda acho que Demi deveria estar aí com você. Aliás, eu vi ela ontem...
- Mesmo? Onde? - Pedi ansiosa apoiando meu cotovelo na mesa. - Como ela estava? Parecia bem? Quero dizer, nós nos falamos todos os dias por Skype mas não é a mesma coisa, você sabe...
- Selena, respira! - Riu. - Eu não cheguei a falar com ela, só a vi de longe no estacionamento do supermercado.
- Hmm... - Comecei a brincar com o guardanapo ao lado do prato. - Ela não me ligou essa manhã, ainda não nos falamos hoje... - Confessei para minha amiga o que estava começando a atormentar minha mente.
- Então liga pra ela? - O tom óbvio da voz me fez rir fraco. - Mas é claro que já fez.
- Sim... - Eu disse avistando Ashley se aproximar. - Mais de uma vez, talvez cinco...
- Provavelmente está ocupada com as mãos dentro do tórax de alguém. Ew.
- É... - Ri assistindo Ashley se sentar. - Talvez esteja certa. Só... achei estranho.
- Relaxa, vai estar com ela em poucos dias. Duas semanas, certo? - Lembroumudando o rumo da conversa. - Estou animada, embora eu não seja a pessoa que você está sentindo mais falta... - Suspirou dramaticamente.
- Cale a boca! - Ri do falso drama. - Estou contando os dias!
- Eu também, duh! Então... acho que é hora de eu sair da cama agora e fazer algo produtivo. Qualquer coisa me liga?
- Claro. E uh... eu meio que tenho que falar com você sobre uma coisa...
- Sobre o quê?
- Hm.. - Ergui brevemente meus olhos para a loira distraída. - Eu te ligo mais tarde.
- Ugh, está bem. Se cuida, Sel. Te amo!
- Te amo mais.
- Eu estava pensando... - Ashley disse menos de um minuto depois, descansando o queixo nas mãos ao apoiar os cotovelos sobre a mesa. Guardei meu celular encarando os olhos em minha frente. - O que acha de visitarmos aquele museu que você quer nesse fim de semana? - Sugeriu sorridente. - E depois, eu quero te levar em um lugar mas é surpresa.
- Parece ótimo pra mim. Mas, nem sempre gosto de surpresas... - Avisei.
- Confie em mim. Você vai gostar. - Sorriu mais largo.
- Se você diz. - Encolhi os ombros imitando o sorriso.
(...)
Outra gargalhada explodiu na garganta de Benson ecoando pela sala ampla do apartamento sofisticado. A loira deitou a cabeça em meu ombro em meio aos risos enquanto eu apenas ria simples da cena engraçada levando mais um pouco de pipoca à boca.
Era quase onze horas da noite, já havia perdido as contas de quantos episódios de Friends nós já tínhamos assistido. Apesar da série ter me tirado boas risadas, não estava me sentindo menos angustiada. Nada conseguia me distrair completamente, minha atenção se alternava entre a televisão embutida na parede e meu celular repousado ao meu lado no sofá.
Passei o dia inquieta com um aperto no peito. Uma sensação desagradável que não me deixava. Não gostava de ficar sem falar com a Demi, estar distante dela já era horrível, passar um dia inteiro sem ouvir sua voz tornava tudo pior. Ela não atendeu ou retornou nenhuma de minhas ligações e eu não sabia o porquê. Era a primeira vez que ficávamos todo esse tempo sem nos comunicar.
Sentia que havia alguma coisa errada. E com essa sensação, sem pensar duas vezes procurei pelo número de Taylor em meu celular no começo da noite, entretanto não chegamos a trocar mais de três palavras, ela estava no meio de seu plantão e falava muito rápido, porém antes de desligar afirmou que estava tudo bem. De qualquer maneira eu estava aguardando sua ligação.
Eu estava confusa. Se tudo estava bem, por que Demi não me telefonou como ela sempre faz? Por que ela não estava me atendendo? Mil coisas me passou pela mente, me negava a acreditar que ela estava me ignorando. Mas, aparentemente era o que estava acontecendo.
- Vou pegar mais refrigerante. - Ashley se levantou me passando o pote de pipoca. - Você quer alguma coisa da cozinha?
- Não, estou bem. - Eu disse com meus olhos fixos na televisão.
Peguei mais um pouco da pipoca no pote médio repousado entre minhas pernas cruzadas, escutando o toque de um telefone repercutir pelo apartamento. Uma brisa fria adentrava a sala pela sacada parcialmente aberta me fazendo sentir falta do meu agasalho esquecido sobre a poltrona junto com minha mochila.
- Mãe, eu estou bem. Sim... - Ouvi Ashley na cozinha falando no telefone. - Não vai dar, eu já tenho um compromisso...
Fazia poucos dias que ela havia me contado sobre sua família. No meio de uma de nossas conversas descontraídas ela confessou que havia abandonado a faculdade e no momento estava vivendo às custas de seus pais.
Ashley bufou abandonando o telefone sem fio no outro sofá. Voltou a sentar ao meu lado com uma garrafa plástica de coca-cola na mão.
- O que eu perdi? - Perguntou se referindo à série.
- Uh... - Não me importei em terminar a frase quando meu celular começou a tocar. - Já volto. - Avisei rumando até a sacada. - Alô.
- Selena, me desculpa pela demora. Eu estava mesmo atolada de coisas pra fazer e sem Demi aqui eu...
- Espera, ela não está aí? - Eu a interrompi correndo meus olhos pelas luzes da cidade repleta de prédios.
- Não. Demetria não veio trabalhar hoje. - Ela disse calma e eu pude ouvir um suspiro.
- O que? Por que? - Minha voz saiu esganiçada.
- Calma, Sel... - Pediu com a voz suave. - A última coisa que eu quero é te deixar aflita.
- Eu só estou preocupada. - Umedeci meus lábios secos. - Ela não atende minhas ligações. - Eu disse fraco.
- Imaginei. É por isso que eu liguei, preciso te explicar o que está acontecendo...
- O que houve, Taylor? - Pedi impaciente.
- Hoje está fazendo três anos que Miley faleceu. Não foi um bom dia pra Demi.
Senti um calafrio cortar minha espinha. A brisa gélida da noite se chocava contra minha pele. Deslizei minha mão pelo meu cabelo andando alguns passos de um lado para o outro. Engoli em seco sentindo um nó preso em minha garganta.
- Por que ela não me disse nada... - Perguntei mais para mim mesma.
- Por acaso ela falou alguma coisa quando foi aniversário de Miley? Sel... você sabe o quanto isso ainda é difícil pra ela...
- Eu sei... - Murmurei com a voz levemente embargada. - Onde ela está agora?
- Eu não tenho ideia. Mas fisicamente falando ela está bem.
- Como você sabe? - Franzi o cenho me apoiando na sacada de vidro.
- Essa não é a primeira vez que isso acontece, Sel. É a maneira dela de encarar essa data. Ela só... some.
- Mas... e eu? Ela não devia ter me deixado preocupada, ela podia pelo menos ter me atendido.
- Escute, Sel... - Pediu cautelosa. - Eu concordo com você, mas tenho certeza que ela não teve a intenção. Demi te ama, acredite em mim quando eu digo isso. Ela é louca por você. Você não tem ideia das centenas de coisas maravilhosas que ela fala de você pra mim e todos os dias eu tento convencê-la em arrumar as malas e ir te encontrar, mas acabo me esquecendo que ela precisa de tempo. Só continue sendo paciente, pois vocês duas foram feitas para ficarem juntas!
Fechei meus olhos absorvendo as palavras da mulher. A última frase abrandando o alvoroço que se encontrava meu interior.
- Obrigada por isso.
- Você sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa. - Ela disse meio apressada. - Estão me chamando, Sel. Você vai ficar bem?
- Vou tentar. - Eu disse percebendo Ashley se escorar na soleira da porta.
- Qualquer coisa me liga. Vou estar a madrugada inteira acordada.
- Tudo bem. Obrigada de novo, Tay.
Dei as costas para a loira de braços cruzados, apertando o celular em minha mão. Minha visão foi embaçando aos poucos. Mirei as luzes levemente distorcidas pelo meus olhos lacrimejados deslizando rapidamente o dorso da minha mão livre sobre meu olho quando uma lágrima percorreu minha bochecha.
- Está tudo bem? - Senti uma mão tocar meu ombro levemente. Funguei fraco assentindo antes de me virar de frente para Ashley. - Por que você está chorando? - Perguntou buscando minhas mãos trêmulas e franziu o cenho ao segurá-las nas suas. - Está gelada, Selena...
- É só o frio. - Puxei minhas mãos as fechando em punho. - Eu preciso ir embora, está ficando tarde... - Eu disse me dirigindo com pressa até a sala.
Peguei minhas coisas sobre a poltrona rumando até a porta com Ashley em meu encalço.
- Selena, espera. Eu levo você. - Se ofereceu gentil e confusa.
- Não precisa mesmo, Ash. Eu posso pegar um táxi.
- Eu insisto. - Segurou meu pulso delicadamente me impedindo de prosseguir até o elevador. - Só espere aqui, eu vou pegar minhas chaves. - Me dei por vencida assentindo em resposta.
(...)
Adentrei o quarto prendendo meu cabelo em um coque mal feito. Perdi o ar por um segundo ao cessar meus passos diante o closet. Corri lentamente meus olhos pelas curvas do corpo perfeito virado de costas para mim, o vestido preto cobria até metade das coxas. Podia sentir o aroma do cabelo negro e o perfume suave. A maquiagem pesada nos olhos atraiu minha atenção quando ela me fitou através do espelho. Assisti os lábios rosados se curvarem em um meio sorriso enquanto colocava seus brincos.
Torci a boca sentindo uma pequena pontada de ciúme. Ela estava muito linda para sair sem mim. Andei até Demi abraçando sua cintura por trás, ela sorriu repousando as mãos sobre meus braços. Apoiei meu queixo em seu ombro percebendo que ela estava do meu tamanho por causa do salto alto. Meus olhos caíram para seu decote.
- Você está tão linda... e sexy. - Sussurrei pressionando meus lábios em seu maxilar.
- Eu não tenho que ir, você sabe... - Ela disse encontrando meus olhos através do espelho em nossa frente. - Posso ficar e te ajudar a estudar.
- Não precisa, Dem. - Beijei sua pele quente mais uma vez. - Vai se divertir com seus amigos, eu vou ficar bem. - Assegurei sinceramente.
- Mesmo?
- Uhm... - Assenti roçando a ponta de meu nariz em sua orelha. - É só que... - Pausei notando mais uma vez o quanto ela estava deslumbrante.
- O quê? - Moveu o pescoço para me olhar antes de checar a si mesma. - Acho que vou trocar esse vestido por uma calça...
- Seria ótimo. - Concordei brincando rapidamente a fazendo me encarar novamente. - Quer dizer, como eu disse você está linda...e bem, não sou boba. Já percebi a maneira que a maioria das pessoas que trabalham com você te olham... - Eu disse enquanto ela me assistia com uma sobrancelha arqueada. - Eles te comem com os olhos. - Finalizei transparecendo zangada.
Demi gargalhou jogando a cabeça para trás em meu ombro. Bufei lutando contra um sorriso.
- Tão adorável... - Ela se virou envolvendo meu pescoço. - Quer saber? Deixa eles olharem... - Deu de ombros.
- O que? - Apertei meus braços em torno de sua cintura colando seu corpo no meu. - Eu não gosto do jeito que essas pessoas olham para minha namorada.
- Olhar é só o que eles podem fazer. - Sorriu presunçosa abaixando o olhar para minha boca. - Mas você... - Sussurrou capturando meu lábio inferior entre os seus lentamente. - Você me tem... eu sou sua. Toda sua.
As borboletas se esvoaçaram em meu estômago. Fechei meus olhos quando a língua deslizou para minha boca se encontrando com a minha. Minhas pernas estavam fracas e meu coração palpitava rápido, tudo por conta de uma simples frase que para mim significa muito. Sorri entre o beijo quebrando o contato rápido demais encontrando Demi com os olhos semicerrados.
- Diz aquilo de novo. - Pedi roçando nossos lábios.
- O quê? - Sussurrou esboçando um sorriso ao morder o próprio lábio.
- Você sabe o quê.
- Eu sou sua.
Grunhi apertando o travesseiro em meus braços. As lembranças transbordando em minha mente. Pressionei meus lábios sentindo meus olhos úmidos, dobrei meus joelhos sustentando meu olhar no abajur aceso sobre o criado-mudo. A luz fraca foi se tornando embaçada por conta das lágrimas que insistiam em se formar em meus olhos.
O ronco fraco da garota dormindo profundamente na cama do outro lado do quarto impedia o silêncio de predominar no cômodo parcialmente escuro. A hora já estava bem avançada. Era mais ou menos quatro da manhã, e a última coisa que eu conseguia fazer era dormir.
Estava tendo um daqueles momentos onde você começa a chorar por um motivo, e termina chorando por dez. Só queria que aquela sensação agoniante desaparecesse.
Funguei secando meus olhos com a manga de minha blusa, no mesmo instante meu celular descansado sobre o colchão começou a tocar. As batidas do meu coração se aceleraram, atendi com rapidez antes que o som acordasse Jennifer. Engoli em seco escutando apenas a respiração pesada. Me senti aliviada, hesitante, apreensiva, magoada... tudo ao mesmo tempo.
- Selena... - A voz débil provocou um arrepio em meu corpo. Soltei a respiração me acalmando por estar a ouvindo novamente. - Me desculpe por hoje... por não ter atendido suas ligações, eu só... - Fechei os olhos com força notando o tom arrastado da voz enquanto as palavras eram proferidas. - Eu só precisava ficar um tempo sozinha...
- Eu sei. Eu falei com Taylor.
- O q-que ela disse?
- O que estava acontecendo. Eu estava preocupada, você devia ter me contado... - Eu disse baixo sem conseguir evitar que minha voz tremesse no meio da frase.
- Me desculpa..
- Já disse isso. Está desculpada.
- Você está brava comigo? - Ela soou tão vulnerável.
Cerrei os dentes respirando fundo.
- Não. - Eu disse sinceramente. - Onde esteve o dia inteiro? - Pedi hesitante.
- Eu...eu prefiro não falar sobre isso. - Afirmou com a voz levemente grogue. - Estou uma bagunça agora..
- Você está bêbada? - Indaguei a ouvindo suspirar. - Onde você está agora, Demi?
- Não importa. - A resposta curta me fez bufar angustiada. - Eu só li..
- É claro que importa. - A cortei impulsiva. - Você desaparece e não atende minhas ligações. Eu sou sua namorada, como você acha que eu fiquei? Você sabe que eu compreendo seus motivos, mas você tem que falar comigo. Principalmente agora que estou longe. Onde você está? - O som abafado de uma buzina me fez repetir a pergunta.
- Estou no meu carro. - Respondeu após um curto tempo de silêncio.
- Você está dirigindo? Demi...
- Eu estou bem! - Estranhei quando afirmou friamente.
- Só... - Pisquei os olhos deixando as lágrimas rolarem por minhas bochechas. - Vá.. pra casa com cuidado. - Balbuciei.
- Você está chorando? Por favor, não..
- Não se preocupe comigo. - Pedi tentando soar firme. - Vá pra casa, está tarde.
- Selena.. eu..
- Demi, não. - Eu a cortei secando meu rosto com a manga da blusa. - Nós nos falamos amanhã quando as coisas estiverem melhor.
A linha permaneceu silenciosa por um bom tempo. Demi ainda estava ali, podia escutar ela respirando. Fechei meus olhos sem coragem de encerrar a ligação.
- Eu te amo, Selena... - Sua voz falhou, soou como se ela estivesse prestes a se render a um choro preso. Meu coração palpitava freneticamente. - Mas.. sou a pessoa errada pra você.
Após essas palavras ela desligou. Era como se eu estivesse me acostumando a ouvir frases similares aquela. Mas no momento eu não sabia como agir, ao contrário das outras vezes não havia nada que eu pudesse fazer. Eu sempre estava lá quando tinha seus dias depressivos, por uma razão eu conseguia fazê-la se sentir melhor e não deixava que as coisas saíssem dos trilhos entre nós.
Pelas frestas da janela pude ver o dia clarear. Cancelei o despertador sem determinação para sair da cama.
