A cidade não passava de um borrão diante dos meus olhos escondidos pelo óculos de sol. A música depressiva adentrava meus ouvidos através dos fones enquanto eu era levada para Deus sabe onde. Não tinha a mínima ideia de onde estávamos indo mas precisava respirar ar puro. Havia passado a semana inteira isolada no quarto sem ânimo para conversar com alguém, e embora ainda sentisse a necessidade de ficar sozinha, aceitei sair para tentar me distrair pelo menos um pouco.
Apoiei meu cotovelo na janela do carro descansando minha cabeça em minha mão. Fechei os olhos levemente sentindo o sol aquecer minha pele. Se quisesse mesmo me abstrair de tudo, deveria começar pela playlist. Demi já ocupava meus pensamentos contra minha vontade e a letra da música melancólica preenchendo minha mente só parecia aumentar minha angústia.
Tinha a sensação de que nosso relacionamento estava desmoronando aos poucos após aquela madrugada. Na tarde do dia seguinte ela me ligou, sem álcool no sangue e menos emocional. Não esperava que fizesse tão cedo para ser sincera. Não queria mais ouvir ela dizer que não era a pessoa certa para mim, ou que eu merecia alguém melhor e "livre". Uma parte de mim estava esperando palavras como essas, estava esperando ela dizer que deveríamos terminar, como já havia acontecido antes. Mas eu conhecia Demi, e sabia que ela nunca seria capaz de fazer isso por telefone. Também sabia que ela me amava, e queria ficar comigo.
A primeira coisa que ouvi ao atender o celular com hesitação naquela tarde foi: "Não estou mais aguentando de saudade." A voz calma me tranquilizou ao mesmo tempo que apertou meu coração. Achei melhor não comentar sobre a nossa conversa de horas antes ao perceber que Demi estava agindo como se não tivesse acontecido, então acabamos não tocando no assunto.
Mas conforme os dias seguiram eu comecei a sentir falta de seu afeto. Ou estava enlouquecendo ou muito carente, mas Demi parecia mais distante do que já estava literalmente. Sentia falta de sua voz suave proferindo palavras que sempre conseguiam me acalmar. Sentia falta do sorriso largo que enfeitava sua face todas as vezes que me via mesmo que pela tela do computador. Sentia falta até de sua malícia, quando tentávamos esquentar as coisas por telefone. A primeira vez foi um fracasso hilário, ela começou a rir do outro lado da linha de algo que eu havia dito, acabando com todo o clima e me deixando mais frustrada sexualmente do que eu já estava.
Sorri fraco com a lembrança, deixando escapar um riso leve pelo nariz.
- Por um momento pensei que você estivesse cochilando. - Ouvi o comentário quando o fone foi retirado de meu ouvido esquerdo.
Abri os olhos avistando árvores floridas passarem. Endireitei meu corpo no banco do carro ainda em movimento tirando o outro fone.
- Já estamos chegando? - Perguntei checando a hora em meu celular, me perguntando onde estávamos indo às três horas da tarde de um sábado. - Onde quer que seja que você está me levando é bom que tenha comida.
- Não se preocupe com isso. - Ashley riu com a atenção fixada na direção. - E sim, estamos quase lá. - Avisou em seguida, me olhando de soslaio.
Suspirei brandamente voltando a apoiar o cotovelo na janela.
- Essa cidade é fantástica. - Comentei rompendo o silêncio. - Eu moraria aqui se.. - Pausei umedecendo meus lábios. - Bem, eu moraria aqui.
- Você parece diferente.
Virei o rosto em direção de Ashley encontrando um par de olhos azuis focados em mim, então percebi que estávamos paradas em um sinal vermelho.
- Como assim? - Franzi a testa.
- Você anda tão desligada ultimamente, desde aquela noite em minha casa você está assim. - Abaixei o olhar seguindo a mão pálida que pousou em minha coxa nua. - Só estou preocupada, você é minha amiga e eu sinto falta do seu sorriso.
Trinquei meu maxilar observando as pontas dos dedos da loira afagarem minha pele. Engoli em seco pigarreando discretamente antes de começar a falar.
- É só... - Comecei quase sussurrando. - As coisas não estão saindo como eu esperava. É isso.
- Geralmente nunca saem, é a vida. Por isso prefiro não fazer planos. O que importa é o presente, sabe? Foda-se o futuro.
- Você não entende, é que.. - Ergui os olhos para a mulher no volante me negando a continuar.
- É o que? - Ashley insistiu franzindo o cenho, retirou a mão de minha perna e acelerou o carro quando uma buzina soou atrás de nós.
- Nada. - Respondi rápido. - Não quero pensar nisso, é por isso que estou aqui com você agora.
- E eu estou contente que você está. - Sorriu terna. - Mas, uh... posso ser honesta? - Eu assenti hesitante. - Acho que você é muito jovem pra ficar aí sofrendo por amor.
- Eu não.. - A fitei por um minuto, o que ia dizer? Que eu não estava sofrendo com o que estava acontecendo? Seria uma mentira.
- Ela é sua primeira namorada, não é?
- Ashley... - Suspirei cansada, tirando o óculos de meu rosto e repousando no topo de minha cabeça. - Eu aceitei sair do quarto para tentar me distrair, então... vamos falar de outra coisa.
- Okay, tudo bem. Você tem razão, me desculpe. - Falou rápido limpando a garganta. - Então, já contei que estou pensando em ir para L.A. no próximo fim de semana também?
- Não que eu me lembre.
- Pois eu estou, quer dizer, eu vou e estava pensando que podíamos ir no mesmo vôo.
- Você vai fazer o que lá? Festa? - Indaguei recebendo um "duh" seguido de um riso curto.
- O que mais seria? - Ela me encarou óbvia. - É aniversário de um amigo, mas eu também quero aproveitar a praia e tudo mais... - Acrescentou antes de acenar com a cabeça. - Chegamos! - Informou começando a encostar o carro.
- Zoológico? - Franzi o cenho ao ler o enorme letreiro verde do outro lado. Árvores cercavam a grande entrada um pouco movimentada.
- Sim! Achei que ver os bichos poderia melhorar o seu humor. - Ashley deu de ombros se livrando do cinto de segurança. - Além disso, aqui tem o melhor cachorro-quente que já comi!
- É por isso que eu gosto de você. - Abri um leve sorriso que não combinava nem um pouco com o meu estado de espírito.
(...)
Minhas roupas estavam todas espalhadas na cama desarrumada. Havia algumas peças no chão também, fazendo companhia ao meu tênis. Em menos de um minuto consegui fazer uma completa bagunça, detalhe que eu estava atrás de apenas uma simples camiseta. Bufei frustrada voltando a procurar dentro da mala aberta sobre o colchão.
- Só pode ser brincadeira. - Ri sozinha e sem humor, me virando em direção da porta do quarto ao ouvir o som da maçaneta.
- Jesus amado, Selena! - Jennifer exclamou correndo os olhos pelo meu espaço do cômodo, com um pacote de Doritos na mão. - Você é sempre desorganizada desse jeito? - Ela riu se sentando na beirada de sua cama.
- Você não é a primeira pessoa a me dizer isso.
- Tenho certeza que não. - Arqueou as sobrancelhas em deboche.
- Você não é engraçada também! - Me sentei ao seu lado, afundando minha mão no pacote.
- Hey! - Fingiu aborrecimento enquanto eu abocanhava o Doritos. - Então, já está fazendo sua mala? Quais são seus planos?
- Uhm, eu decidi ir um dia antes. E você sabe Jenn... só quero passar esse tempo em casa e.. com minha namorada.
- E você não pode tipo... ir pegando uma roupa de cada vez e ir colocando dentro da mala? É bem mais fácil. - Me encarou debochada.
- Para a sua informação eu estava procurando uma coisa. Por acaso você viu? Uma camiseta preta do AC/DC?
- Aquela que você vive cheirando? - Inquiriu divertida.
- Uh... sim. - Corei, abaixando meus olhos para os meus pés descalços.
- Já olhou no banheiro?
- Já. - Suspirei descansando minha cabeça em seu ombro.
- Bem, do jeito que está isso aqui deve ser como procurar uma agulha em um palheiro. Mas, se não for aquilo embaixo do seu travesseiro, eu não tenho ideia de onde possa estar.
Levantei rapidamente rumando até minha cama e puxei a metade visível da camiseta preta escondida debaixo do travesseiro em meio as cobertas. Esbocei um sorriso fraco pressionando o tecido contra o meu nariz, inalando profundamente. Seu cheiro estava quase sumindo.
- Estou torcendo por você, Sel... - Jennifer me arrancou de meus pensamentos. Afastei a camiseta do meu rosto me virando para olhá-la. - Quer dizer, você sabe... espero que fique tudo bem entre você e Demi.
- Obrigada, Jenn. - Sorri, deixando a camiseta dentro da mala, que a propósito teria que organizar novamente. - Mas e você? O que vai fazer nesse fim de semana? - Perguntei recolhendo as roupas do chão.
- Já não te contei? Eu vou para Paris!
- Mesmo? - Ergui as sobrancelhas em surpresa.
- Não.
- Idiota! - Eu ri, escutando o meu celular sinalizar uma nova mensagem.
- Eu não sei... só estou pensando em me divertir com os meus amigos. - Jennifer disse quando andei até a escrivaninha. - Nós vamos ao bar que fica aqui perto hoje a noite, eles tem música ao vivo e a comida é muito boa. Você pode vir também se quiser, sabe, é melhor do que ficar aqui sozinha.
- Eu quero, é claro! - Respondi a ruiva desviando meus olhos para o celular.
Demi: estou contando as horas para ter você em meus braços de novo..
Mordi o lábio inferior com força, reprimindo o sorriso. Demi estava esperando me ver no sábado, mas eu queria surpreendê-la embarcando um dia antes. A princípio pensei que seria uma má ideia chegar em seu apartamento sem avisar considerando seu comportamento recentemente mas, por que não? As coisas pareciam estar melhorando...
Eu também, meu amor.. estou enlouquecendo de tanta saudade!
Pressionei enviar, escutando Jennifer logo atrás de mim ainda sentada em sua cama, cantarolando alguma música.
- Pensei em te chamar antes mas você não parecia muito bem. - Ela continuou o assunto quando repousei o celular sobre a escrivaninha novamente.
- Estou melhor agora. - Fui sincera, recebendo um sorriso terno da garota.
(...)
- Selena! - Um sorriso iluminou o rosto de David quando me avistou adentrando o prédio. - Quanto tempo não te vejo, menina.
- Boa noite, David. - Eu o cumprimentei brevemente. - Como está?
- Bem, bem. Fiquei melhor agora com você aqui! - A piscadela charmosa quase me fez gargalhar, revirei os olhos divertidamente percebendo os escuros a minha frente caírem para as flores em minha mão. - Sabe, Demi ainda me olha torto.
Ri fraco com a imagem do rosto bonito tomado pelo semblante sério e sexy de uma Demi ciumenta.
- Bem... - Ajeitei minha franja atrás da orelha com minha mão livre. - Foi bom te ver de novo.
- Igualmente! - Deu outra piscadela antes de eu dar as costas.
Balancei a cabeça rindo. Um frio familiar se instalou em minha barriga quando o elevador me deixou no andar do apartamento de minha namorada que não via há quase três meses. Poucos dias comparando com os que viriam a seguir. Mas não era hora de pensar nisso.
Meus pés travaram diante a porta de madeira escura. Suspirei ansiosa, encarando o número gravado ali e decidindo usar a minha cópia da chave ao invés de tocar a campainha. Demi estava de folga mas não sabia se ela estava em casa.
A claridade da televisão ligada em um volume baixo se destacava em meio ao breu que se encontrava o apartamento. Fechei a porta atrás de mim, rumando até o interruptor. Quando as luminárias iluminaram a sala escura eu sorri, avistando a morena no sofá. Ela dormia com as duas mãos juntas sob o rosto. Me aproximei sem tirar os olhos dela.
Repousei o buquê de rosas amarelas na mesinha e me livrei da jaqueta de couro, a atirando no outro sofá. Admirei Demi dormindo por um tempo, o moletom cinza muito grande para seu tamanho cobria até metade das coxas nuas. Me inclinei acariciando a bochecha suave com o polegar, sentindo a respiração serena. Meus lábios se curvaram em um sorriso e meu peito aqueceu. Depositei um beijo longo em sua têmpora, o cheiro adocicado que tanto sentia falta penetrou minhas narinas aumentando ainda mais o meu desejo de envolver a mulher em meus braços.
Me afastei um pouco hesitante quando Demi reagiu ao meu toque, mexendo minimamente a cabeça sobre as mãos. Ela parecia apenas ter tirado um cochilo. Os olhos se abriram devagar, levemente avermelhados, e as sobrancelhas bem feitas se uniram em confusão e surpresa quando nossos olhares se cruzaram.
- Selena? - Proferiu com a voz rouca.
- Oi. - Me sentei ao seu lado no sofá, sentindo um alívio imenso quando os braços me envolveram com ansiedade no mesmo instante.
Fechei meus olhos a abraçando na mesma intensidade. A sensação de tê-la tão perto de mim, sentir o calor de seu corpo junto ao meu e ouvir sua voz novamente era indescritível.
- Pensei que só viria amanhã? - Perguntou, a voz suave.
- Queria fazer uma pequena surpresa. - Sussurrei afagando o cabelo sedoso. - Senti tanto a sua falta, meu amor... - Pressionei meus lábios na lateral de sua cabeça sentindo os braços afrouxarem lentamente em minha volta.
- Eu também.. - A voz baixa e levemente embargada em meu ouvido me fez estremecer. - Sel..
- Hmm... - Beijei a bochecha morosamente arrastando meus lábios para o maxilar. Demi inclinou a cabeça para o lado oposto deslizando as mãos até minha nuca. - Você sentiu minha falta, Dem? Sentiu falta dos meus carinhos? - Acariciei a maçã de seu rosto escorregando as pontas de meus dedos até o pescoço quente. Senti a pele alva se arrepiar e ergui meus olhos encontrando os castanhos fechados. - Sentiu falta dos meus beijos? - Sussurrei com meus lábios colados no canto de sua boca, onde depositei um beijo casto.
- Você não tem ideia do quanto. - Afagou minha nuca abrindo os olhos para encontrar os meus.
Um sorriso de satisfação preencheu meu rosto. Esquivei meu olhar para os lábios entreabertos ansiando pelo toque dos meus. Demi os lambeu, e eu não aguentei mais apenas olhá-los. Acabei com o mínimo espaço entre nossas bocas, sugando o lábio inferior com saudade. Um gemido abafado escapou de mim quando nossas línguas se tocaram, se enroscando com deleite.
Apertei a cintura de Demi por cima do tecido grosso trazendo o corpo para mais junto do meu enquanto nossas bocas se moviam em sincronia, aprofundando o beijo ávido. Pousei a mão na coxa nua afagando a carne com vontade e deslizando sob o moletom até as pontas de meus dedos alcançarem a calcinha short.
Abandonei os lábios avermelhados descendo até o pescoço cheiroso. Um ronronar baixo adentrou meus ouvidos quando minha boca fez contato com a pele pálida. Suguei o ponto de pulso mordiscando a região que a tanto tempo não explorava.
Demi estava quase sentada em meu colo e acho que ela percebeu isso, pois as mãos seguraram meus ombros me afastando delicadamente.
- Sel... - Sussurrou ofegante apoiando a testa na minha.
- Vamos para o quarto. - Juntei nossos lábios de novo prestes a iniciar outro beijo mas Demi me parou novamente, se endireitando no sofá ao meu lado.
- Eu quero falar com você...
- Podemos falar amanhã, Dem... - Eu disse afastando a franja negra de seu olho esquerdo. - Vamos só matar a saudade essa noite.
Não queria conversar, queria apenas beijá-la, dar carinho à ela, amá-la, e segurá-la em meus braços até o sol nascer.
- Por favor. - Pediu quase inaudível.
Eu assenti sem escolha.
- Sei que temos coisas para falar mas... o que é tão importante que você não pode esperar até amanhã? - Questionei calma.
Um silêncio prevaleceu entre nós aumentando minha aflição. Demi soltou um leve suspiro esquivando os olhos para longe dos meus. Ela encarou a mesinha por um tempo, as próprias mãos sobre seu colo, e então me olhou novamente. Aquela expressão em sua face não era algo bom. Parecia estar prestes a chorar. Seus olhos tão tristes me faziam temer suas palavras.
- E-Eu... - Balbuciou umedecendo os lábios. - Quando eu... quando eu aceitei ser sua namorada, eu não estava pensando em mais nada. Só em você. Em como você é carinhosa, compreensiva, linda... - Ela sorriu de lado, um sorriso triste. Engoli em seco desejando que ela parasse com o que nem havia começado direito, não gostava do tom de sua voz e do rumo que aquilo estava tomando. - Nós estávamos naquele parque tendo nosso primeiro encontro e eu estava tão feliz que não me importei com as coisas acontecendo tão rápido. Mas depois... - Abaixou os olhos fugindo dos meus outra vez. - Eu me apaixonei loucamente por você. Por mais que eu tente, não consigo deixar de sentir culpa por isso. Sel, eu ainda.. nós não..
- Pare... - Eu mal ouvi minha voz. Balancei a cabeça negando, sentindo as lágrimas em meus olhos cortarem minhas bochechas. - Eu não quero mais ouvir.
- E-Esse... - Gaguejou voltando a me olhar. Pude notar o quanto aquilo estava sendo difícil para ela e desejei que tudo fizesse parte de um sonho ruim do qual eu iria acordar em minha cama ainda em NY. - Esse não é o momento certo pra nós, Sel... - E então eu senti como se alguém estivesse me apunhalando no coração. De certa forma, ela estava.
- Você está terminando comigo? - Não queria acreditar. Tentei inutilmente secar meu rosto com o dorso da minha mão. - Você estava esperando eu chegar aqui para terminar comigo?
- Eu... eu... - Ela parecia tão confusa, como se não tivesse a mínima certeza do que ela estava fazendo. - Eu ainda estou em fase de aceitação e tudo o que aconteceu comigo foi..
- Olha pra mim, Demi... - Minha voz falhou. Demi permaneceu imóvel encarando o nada com o cenho franzido. - Olha pra mim. - Segurei seu rosto entre minhas mãos a fazendo olhar em meus olhos. - Eu te amo.
Ela piscou os olhos marejados. A dor era nítida na face entristecida. Eu estava desesperada, sentia que ia perdê-la completamente a qualquer momento.
- Nós podemos fazer isso. Sei que também me ama, sei que quer ficar comigo. - Eu disse esperançosa. - Não desista de nós.
- Eu não..
- Sei que ainda é difícil pra você, mas nós tivemos dias incríveis juntas, os meses mais felizes da minha vida. Eu posso fazer você feliz, você disse que eu te faço feliz...
- Você faz, meu anjo... - Ela segurou minhas mãos as retirando devagar de seu rosto. - Mas..
- Não! Por favor! - Selei nossos lábios tentando calá-la. - Sem mas... - Sussurrei a beijando novamente.
- Sel... - Me afastou gentilmente pelos ombros. - Eu já fiz muitas coisas precipitadas. Eu... eu preciso de tempo para..
- Tempo? - Franzi o cenho. - Quanto tempo? - Funguei sentindo minha visão voltar a embaçar.
- Eu... eu não sei. - O tom de sua voz embargada exalava confusão. - Por favor, não chore. - Afastou a franja do meu olho tentando secar minhas lágrimas.
Um sorriso amargo brotou em meus lábios, tirei sua mão de meu rosto me levantando do sofá.
- Como você q-quer que eu não chore quando v-você está me expulsando da sua vida? - Alterei minha voz em meio a soluços.
- Eu nunca disse isso! - Ela se levantou permanecendo de pé em minha frente. - Essa não é minha intenção, Selena. Nunca seria capaz disso. - Afirmou seriamente. - Eu te amo.
- Então por que está fazendo isso comigo? - Odiava não conseguir parar de chorar.
Demi desviou o olhar.
- Preciso desse tempo. Preciso que entenda..
- Eu entendo, sabe... - Eu a interrompi limpando minha garganta. - Como você disse antes, sou compreensiva. - Sorri torto. - Mas acontece... que eu não consigo viver sem você. Você apareceu na minha vida num momento difícil e tornou tudo menos doloroso. Não era minha intenção me apaixonar perdidamente por você. Deus, eu não tinha a mínima ideia do que era o amor até você me mostrar!
Demi abaixou a cabeça, e quando a ergueu novamente eu vi as lágrimas escaparem de seus olhos castanhos, percorrendo suas bochechas.
- Me perdoa por isso. - Ela disse em um fio de voz. - Eu não consigo. - Sussurrou fracamente.
Eu precisava parar de chorar feito uma criança em sua frente e aceitar que aquilo estava realmente acontecendo. A sensação era dolorosa. Demi não conseguia manter os olhos em mim e por um segundo cheguei a desejar nunca ter me apaixonado por ela. Sequei meu rosto sem nenhuma delicadeza percebendo que minhas mãos tremiam.
- Tudo bem. - Consegui dizer, ganhando o olhar temeroso no mesmo segundo. Demi abriu a boca para falar alguma coisa mas nada saiu. Meus olhos caíram para o buquê de rosas amarelas esquecido sobre a mesinha. - Eu... - Me inclinei o pegando. - Eu trouxe essas flores pra você. É sua favorita.
Seu olhar receoso alternou entre mim e o buquê estendido em sua direção. Queria dar a ela, apesar de tudo. Quando finalmente o pegou as mãos macias roçaram na minha e ela segurou meus dedos. Fitei os olhos temerosos e lacrimejados com um fio de esperança, desejando que ela pedisse para eu ficar. Mas nada aconteceu. Senti falta do toque quando soltou minha mão. Pressionei meus lábios juntos abaixando minha cabeça. Precisava ir.
Peguei minha jaqueta no sofá e a vesti. Sem mais palavras me dirigi até a porta com meu coração em pedaços. Observei Demi antes de sair. Ela encarava as rosas com um semblante confuso e doloroso no rosto.
Encostei as costas na madeira já do lado de fora do apartamento. Tudo aquilo parecia um pesadelo. Enterrei minhas mãos em meus cabelos grunhindo de raiva. Queria parar de chorar. Queria que Demi viesse atrás de mim e me impedisse de ir embora.
- Selena, você.. - A voz de David não me fez parar.
Passei reto pela portaria apressando meus passos até me encontrar fora do edifício.
A brisa fria soprava meus cabelos batendo levemente contra minha face, secando as lágrimas que ainda borbotavam de meus olhos. Já estava um pouco distante do prédio conhecido a procura de um táxi. Continuei a andar sem rumo ignorando o celular tocando incessantemente em meu bolso. Minha vontade era de atirá-lo do outro lado da rua mal movimentada. Cessei meus passos cansada do som repetitivo e atendi.
- Alô. - Falhei ao tentar reprimir um suspiro cansado.
- Alô, Sel? - A voz alta da mulher invadiu meu ouvido em meio a uma música eletrônica. - Desculpa incomodar, mas eu estou meio bêbada pra digitar uma mensagem decente. Só queria avisar que vou embora antes de você, então, me liga quando estiver de volta.
- Ok. - Dei a resposta curta pronta para desligar mas Ashley falou novamente.
- Está tudo bem, Sel? - Perguntou mais claro conforme o barulho ao fundo sumia aos poucos. - Sua voz está estranha.
- Onde você está? - Perguntei impulsiva a ignorando.
- Uh, acabei de sair de uma boate que estou com uns amigos. Por que?
- Você acha que pode vir me pegar em um lugar? Ou melhor... pode mandar um táxi? Sinto que não vou conseguir encontrar um tão cedo por aqui... - Comentei, dando uma breve olhada pela rua meio escura.
- Mas por que? Quer dizer, você não está com sua namorada? - Ela soava confusa.
Fechei os olhos com força antes de responder.
- Não mais.
- Hmm, eu vou pegar um carro emprestado então. Só me diz onde você está.
- Tem certeza? - Me certifiquei incerta, cogitando em dispensar seu favor e ligar para Hay. - Eu não quero arruinar sua noite.
- Ela nem está tão boa assim. - Riu. - Então, onde você está?
Não respondi de imediato, mas queria sair dali. Odiava o fato de meu carro estar em outra cidade. Informei o local onde me encontrava e aguardei um tempo até as luzes de uma picape me fazer estreitar os olhos.
(...)
Uma sensação de vazio. O buraco em meu peito só parecia crescer mais e mais. A vontade de chorar havia sumido. Meus olhos estavam ardentes e inchados.
- Sua casa é bem legal... - A voz conhecida ecoou longínqua em meus ouvidos. Senti o sofá ceder ao meu lado. - Tem uma garrafa de vodka no banco traseiro do carro. Se você quiser..
- Não. - Minha voz não passou de um murmúrio, umedeci meus lábios sentindo minha garganta seca.
- Minha intenção não era te embebedar, se foi o que você pensou. - Suspirou pesadamente. - Você quer que eu vá embora? Quer ficar sozinha?
- Não. - Murmurei novamente, permanecendo na mesma posição com meus olhos focados na mesinha no meio da sala parcialmente iluminada.
- Tudo bem então...
O cômodo ficou quieto durante incontáveis minutos. Ainda mirava a mesa pequena quando senti uma mão repousar em meu joelho coberto pela calça jeans, afagando suavemente. Não me movi, não me importava. Permaneci fitando o móvel de madeira à minha frente.
- Devíamos assistir um filme ou algo assim. - Ashley sugeriu acabando com o silêncio.
- Não estou no clima. - Levantei os olhos para a loira ao meu lado. - Você pode ir embora se quiser. Só estou fazendo você perder seu tempo aqui.
- Está nada. - Contrapôs colocando força no carinho em minha perna. - Já é mais de meia-noite e eu não quero te deixar sozinha.
- Obrigada. - Sussurrei. - Obrigada pela carona.
- Não precisa agradecer. - Sorriu simples me observando por alguns segundos. - O que aconteceu? - Perguntou terna. - Vocês terminaram? - Ouvi a pergunta e meu coração vacilou.
- Sim.. - Voltei a abaixar a cabeça, minha mente reprisando os últimos acontecimentos. - Quero dizer, estamos dando um tempo? Eu nem sei mais.
- Bem... então acho que não é o fim do mundo. Digo, há chances de vocês voltarem, certo?
- Não sei. No momento só quero sumir. - Funguei levemente sentindo minha franja ser colocada atrás de minha orelha.
- Queria que houvesse algo que eu pudesse fazer para você se sentir melhor. - Comentou suspirando. - Tem certeza que não quer beber?
- Tenho, só... não quero ficar aqui nessa casa.. sozinha. - Minha voz saiu rouca falhando no fim da frase.
Senti o corpo ao meu lado se aproximar devagar até os lábios úmidos tocarem minha bochecha. Engoli em seco mas não me esquivei.
- Desculpa. - Ashley sussurrou ainda perto. - Não gosto de te ver assim tão triste. - Acariciou meu rosto com o dorso da mão.
- Acho que vou subir e tentar dormir, você pode ficar a vontade em um dos outros quartos. - Falei fazendo menção de levantar mas a mão antes me acariciando segurou meu pulso.
Arregalei os olhos quando a boca macia se chocou contra a minha. Fechei minhas mãos nos ombros de Ashley a empurrando gentilmente.
- Desculpa de novo. - Pediu rápido. - Não consigo me segurar. - Os olhos claros caíram para meus lábios, os pressionei com força recebendo um beijo molhado no canto da boca.
- Ashley... - Resmunguei quando mordiscou meu maxilar levando a boca até meu pescoço. - Não faz isso.. - Tentei agir com racionalidade e afastá-la novamente mas a mordida na cartilagem de minha orelha me fez suspirar. - Ashley..
- Deixa rolar. - Sussurrou, pressionando os lábios em minha pele. - Só essa noite. Você precisa relaxar. Deixa os problemas de lado. - As mãos seguraram minha jaqueta, a deslizando para fora dos meus ombros.
Não protestei quando os dedos desabotoaram os botões de minha camisa xadrez. Não me importei mais em ser racional quando o tecido de flanela foi arrancado do meu corpo me deixando com o sutiã claro. E não empurrei o corpo de Ashley para longe do meu quando se sentou em minha cintura. Concedi a passagem da língua em minha boca, a beijando bruscamente.
(...)
Vesti minha calça ao sair do banheiro. Calcei meu tênis apressadamente me dirigindo para fora do quarto atrás do resto das minhas roupas largadas no sofá no andar de baixo. Coloquei a camisa abotoando os botões com pressa, desviando meus olhos da peça de roupa íntima que não me pertencia com um nó se formando em minha garganta. Me inclinei pegando meu celular sobre a mesinha. Havia duas ligações não atendidas e três mensagens de Hay. Ela sabia que eu não estava bem, mas não tinha certeza do que havia acontecido. Não quis comentar por telefone, apenas nos falamos brevemente na noite anterior enquanto esperava por Ashley.
Ashley. Foi errado ter transado com ela. Foi estranho. Em todos os sentidos. Sabia disso, sabia que me arrependeria mais tarde no momento que a deixei me tocar. Mas mesmo assim fui estúpida permitindo que tirasse vantagem de minha fraqueza. Me sentia culpada, como se tivesse cometido algo terrível, como se tivesse traído Demi.
Esfreguei a testa sentindo minha cabeça latejar. Soltei um suspiro pesado voltando a atenção para o celular em minha mão.
Selena pelo amor de Deus, eu estou preocupada! - 8:27AM
Você quer atender essa porra de celular? Me encontra no Café perto da nossa antiga escola. - 9:16AM
Esqueça, estou indo até sua casa. - 9:21AM
Era quase dez horas da manhã. Ergui os olhos em direção das janelas, o sol brilhava do lado de fora. Diferente de como me sentia, parecia tudo cinzento e nublado. Guardei o celular no bolso saindo em direção da cozinha, mas o som da campainha me forçou a dar meia-volta. Corri as mãos pelos meus cabelos me preparando para as perguntas de minha amiga.
Um par de braços envolveu minha cintura com força quando abri a porta. Paralisei, tentando processar o que estava acontecendo. A respiração quente e pesada em meu pescoço, e o cheiro inebriante invadindo minhas narinas, fizeram meu coração palpitar muito mais rápido. Minha mente embranqueceu. Quando finalmente abracei o corpo de volta, meu estomago revirou brutalmente com a lembrança da mulher no andar de cima dormindo nua em minha cama em meio aos lençóis. Fechei os olhos me esbofeteando mentalmente.
- Me perdoa, meu anjo. - A voz doce saiu abafada contra minha pele. - Me perdoa por ontem a noite. Esqueça tudo o que eu disse.
- Demi, o que..
- Não. - Ela me cortou suavemente, desfazendo o abraço. Buscou minhas mãos entrelaçando nossos dedos. - Só me ouça primeiro. - Os olhos penetrantes me analisaram cautelosamente. Tentei desesperadamente fugir do olhar meigo, mas o canto dos lábios rosados se curvaram em um sorriso terno prendendo minha atenção. - Você está certa. - Começou ela, soltando um leve suspiro. - Podemos fazer isso. Eu posso fazer isso. Não é deslealdade eu me sentir feliz, sei disso. É só que... tudo ainda é muito difícil e às vezes sinto que não mereço você. Mas... não posso te afastar da minha vida. Não consigo fazer isso. Eu te amo muito e preciso de você, Selena... - Eu pisquei algumas vezes, meu cérebro absorvendo e processando todas aquelas palavras sendo pronunciadas com tanta cautela e sinceridade. - Você é tudo o que importa para mim, você é meu mundo. Posso dizer que você trouxe cores à minha vida... - Sorriu fraco e eu a imitei. - Meio clichê, eu sei, mas é a verdade. - Um breve silêncio reinou entre nós enquanto os olhos brilhantes me fitavam repletos de expectativa. - Não posso deixar você ir. - Continuou. - Sei que terminei com você poucas horas atrás. Sei que deve estar com raiva, mas estou aqui agora... arrependida, te pedindo para voltar pra mim. - Ela soou tão nervosa, tão adorável. - Diga alguma coisa, por favor...
Deus, ela não podia fazer aquilo! Terminar tudo em uma noite, aparecer na minha porta na manhã seguinte e confessar todas aquelas palavras que me preencheram de felicidade.
Mas se tratava de Demi, e eu não a julgava.
- Eu... - Mordi o canto do meu lábio sustentando meu olhar em nossas mãos juntas. Sorri de lado lembrando da primeira vez que ela segurou minha mão daquela forma. - Você é o amor da minha vida... - Levantei os olhos úmidos para olhá-la, encontrando seus lábios macios contra os meus.
Foi um beijo casto e suave. Fiquei de olhos fechados apreciando a carícia leve que recebia na bochecha.
- Quero estar com você, meu amor... - Demi selou nossos lábios novamente. - Todos os dias da minha vida. - Ela completou, escondendo o rosto na curva de meu pescoço, beijando morosamente minha pele. - Me leva com você para NY.
E então eu congelei. Abri meus olhos sentindo meu coração apertado, meus braços perderam as forças em volta do corpo junto ao meu. Por um curto tempo havia me esquecido completamente da existência de Ashley e de tudo o que havia acontecido na noite passada. O arrependimento se instalou em meu peito novamente, expulsando a felicidade. O nervosismo me atingiu.
- Dem, eu... - Comecei hesitante temendo sua reação, seus olhos atentos se fixaram nos meus após uma mecha de meu cabelo ser delicadamente colocada atrás de minha orelha. - Vamos sair daqui? - Sugeri.
- Sel! - Apertei os olhos fechados fortemente ao escutar aquela voz, seguida do som de passos descendo a escada de madeira. - Você viu o meu sut..
Senti os braços acolhedores me abandonarem lentamente e o corpo de Demi se afastar do meu. Abaixei a cabeça respirando fundo antes de encarar a loira semi nua imóvel com o cabelo desordenado no outro lado da sala. Apenas vestindo uma camisa de botões aberta e calcinha, Ashley se dirigiu até o sofá pegando o sutiã vermelho e mais uma regata preta. Eu só queria bater minha cabeça centena de vezes contra a parede.
- Me desculpem, eu não.. - Ela se calou, subindo a escada apressadamente.
- Demi... - Dei um passo até a morena pronta para tentar explicar mas ela se afastou. - Eu..
- Por favor... - Me interrompeu com a voz baixa. - Diga que isso não é o que eu estou pensando.
- Demi, eu... eu sinto muito. Isso..
- Eu não acredito. - Soltou um riso seco ao me interromper novamente. - Na verdade, eu não esperava isso de você. Mas... pensando bem acho que mereci.
- Não, não diga isso. - Pedi tentando segurar as lágrimas que começavam a se formar em meus olhos. O nó na garganta quase não me deixava falar. - Ontem a noite eu estava... eu estava devastada. - Vi Demi abaixar o olhar, mantendo a expressão fria no rosto. - Depois que sai do seu apartamento, eu não sabia o que fazer. Eu... eu só conseguia pensar que havia te perdido e..
- E então você foi e transou com qualquer uma. - Me cortou seca, arqueando as sobrancelhas. - Isso ajudou você? - Me fitou friamente. Seu sarcasmo me embrulhando o estomago.
- Eu... - Balbuciei com a voz embargada. - Deixei ela se aproveitar do meu estado emocional e me arrependo profundamente por isso. - Eu disse firme, me aproximando de Demi.
Dessa vez ela não se moveu, percebi quando engoliu em seco.
- Você deixou porque você quis. - Estreitou o olhar focando o meu embaçado. - Mas, não importa. Eu tinha terminado com você, certo? Foi isso o que você pensou enquanto estava fo.. - Se interrompeu apertando os olhos fechados. - Deus, eu sou tão patética... - Murmurou em seguida, me fazendo estremecer. - Acho que... eu não devia ter... seria melhor se eu não tivesse vindo até aqui. - Ela foi se virar para sair mas eu segurei seu braço.
- Não, por favor! Vamos sair daqui, vamos conversar em outro lugar...
- Eu não consigo conversar com você agora. - Virou o rosto com seu braço ainda preso em minha mão. Senti como se meu coração estivesse sendo triturado. - Preciso ir.
- Não... - Minha voz falhou. - Eu perdoei você Demi, então tente me perdoar também. O que houve com aquelas palavras lindas que me disse minutos atrás? - A lembrei, escutando um suspiro entrecortado.
- Exatamente! Minutos atrás, antes de.. - Ela pausou, abaixando a cabeça. - Só... me deixe ir. É melhor assim, por agora...
- O que você quer dizer? - Indaguei soltando seu braço lentamente. - Demi... - Sussurrei implorando quando me deu as costas.
Não houve resposta. Permaneci inerte e perdida, assistindo ela ir embora.
