Fechei a porta do refrigerador com o pé, repousando as duas garrafas de cerveja sobre a bancada da cozinha. Dei um passo até a gaveta onde estava o abridor de aço e retirei as duas tampas dos cascos verdes. Retornei até a varanda encontrando meu padrasto embaralhando as cartas do baralho, sentado confortavelmente em uma das quatro cadeiras. Me aproximei da mesa redonda atraindo a atenção do homem distraído com um suspiro exagerado.

- O que é isso? - Uniu as sobrancelhas grossas apontando para as bebidas em cada uma de minhas mãos.

- Você falou pra eu pegar algo pra bebermos. - Eu disse confusa.

Brian riu, sacudindo a cabeça.

- Certo. - Descansou o monte de cartas sobre o vidro estendendo o braço em minha direção. - Me dê uma dessas e vá pegar uma coca-cola pra você.

- Sério? - Debochei. - É só cerveja, Brian.

- Mesmo assim. - Insistiu ele, entornando um gole do líquido gelado. - Ainda não me acostumei com você bebendo.

- Não é sempre que eu bebo. - Dei de ombros, ocupando a cadeira à sua frente.

- É melhor que não seja mesmo. - Repreendeu falhando ao tentar parecer sério. - Bem... - Soltei um riso abafado. - Vamos ao jogo!

A varanda iluminada pelas luzes amarelas possuía uma atmosfera aconchegante. Sentia falta daquela tranquilidade, do conforto, até do aroma das flores que enfeitavam a área espaçosa. Era reconfortante estar em casa. Dormir em meu quarto cujo costumava estar sempre uma bagunça, comer da comida da mulher que ajudou a me educar e brincar com o meu cachorro. Por esse lado, eu estava contente de estar ali.

Após ter contado tudo o que havia acontecido à Hay, ela não me julgou. Nunca fazia. Ela passou a maior parte do tempo comigo tentando de todos os jeitos me animar um pouco, mas minha situação emocional me fez recusar todas as suas sugestões de diversão. Entretanto eu queria aproveitar o tempo que tínhamos juntas, então na sexta-feira acabamos indo ao cinema. Como nos velhos tempos. Mas como já esperava, nem o filme de comédia conseguiu me distrair do turbilhão de pensamentos fervilhando em minha mente.

A semana havia passado muito rápido para o meu gosto. Foram longos dias devastadores e deprimentes, nada do que eu estava esperando. Mas a vida é uma caixa de surpresas, e mais uma vez estava vivendo as piores delas. Faltava menos de dez horas para eu voltar pra NY, e a expectativa de receber pelo menos uma ligação de Demi enquanto eu ainda estivesse na cidade, morria a cada minuto que se passava. Não a via desde aquela manhã desastrosa, e para piorar tudo ela não atendia o celular. Eu não podia ir embora sem ao menos tentar uma conversa decente, ou até mesmo fazer as pazes. E eu tentei, mas quando fui até o hospital, ela não quis me ver. Isso acabou comigo ainda mais, como se já não estivesse quebrada o bastante.

Taylor foi quem me confortou na recepção.

Eu estava fodidamente arrependida. Só Deus sabe o quanto. Me odiava por ter estragado tudo, era para estarmos juntas. Ela havia confessado tantas coisas que há muito tempo desejei ouvir de sua boca. Ela me queria, não importava o quê. Ela me amava como eu a amava e estava disposta a se mudar comigo para outra cidade porque queria ficar ao meu lado. Então por que diabos tudo tinha que ser tão difícil?

- Sel? Querida? - A voz grossa soou distante. - É sua vez. - Avisou se referindo ao jogo.

Sacudi a cabeça meio desorientada analisando as cartas do baralho na mesa e em minhas mãos. Suspirei completamente sem ânimo, sem a mínima vontade de continuar. Brian percebeu, ele desconfiava que tinha algo de errado comigo. Não quis conversar com ele sobre o que estava acontecendo quando me questionou algumas horas mais cedo, era meio constrangedor. Ele compreendeu, como sempre.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa e desistir do jogo, Baylor apareceu na varanda todo alegre com o rabo abanando. Logo em seguida, a voz de minha amiga preencheu o local.

- Será que é muito tarde pra uma temporada de Gossip Girl? - Perguntou retoricamente ao se aproximar, mostrando o dvd em sua mão. - Oi tio. - Cumprimentou meu padrasto que retribuiu sorrindo gentil.

- Acho que vou ser trocado. - Brincou ele. Eu ri, afagando a cabeça de Baylor ao me levantar, pegando a garrafa verde. - Ah, Selena. - Brian chamou, juntando as cartas espalhadas na mesa. - Aquela sua amiga, a tal de Debby, esteve aqui alguns dias atrás e deixou uns de seus cd's. Maria os guardou no seu quarto.

- Hm. - Sibilei pensativa. - Nem me lembrava que ela estava com algo meu. - Comentei, dando de ombros. Falava raramente com a garota por telefone, era uma pena que a nossa amizade havia esfriado um pouco por conta da distância. - Bem, nós vamos subir. - Avisei.

- Boa noite, meninas. - Desejou, se levantando da cadeira.

- Boa noite. - Respondemos juntas.

- E não durmam muito tarde, sairemos cedo amanhã para o aeroporto. - Brian disse em voz alta quando eu e Hayley entramos em casa.

Tomei o último gole da cerveja ainda gelada largando a garrafa vazia sobre a pia ao passar pela cozinha. Subimos a escada até o meu quarto com Baylor em nosso encalço, se estirando preguiçosamente no chão ao lado de minha cama. Abracei o travesseiro macio ao deitar de bruços, tentando reprimir a vontade de chorar que me sufocava vez ou outra.

Ouvi o volume da televisão aumentar antes de sentir o corpo da garota se juntar ao meu lado no colchão. Continuei quieta na mesma posição com os meus olhos fechados.

- Vai ficar tudo bem. - Hay assegurou depois de um tempo, correndo vagarosamente os dedos pelos meus cabelos.

- Preciso dela. - Proferi baixinho. - Só preciso dela.

(...)

Os dedos pálidos atacavam ligeiramente as laterais da minha barriga esgotando todas as minhas forças. Sentia meus olhos lacrimejados e minha respiração descontrolada. Meu corpo frágil se contorcia sob a mulher sentada em minha cintura se divertindo com o meu desespero enquanto eu tentava inutilmente capturar as mãos rápidas. Nossas risadas se mesclavam ecoando pelo apartamento.

- D-Demi.. - Ofeguei entre risos histéricos. - P-Para..

- Vingança, meu amor!

Eu ri aliviada admirando o sorriso travesso no rosto de Demi quando as cócegas cessaram acabando com a tortura. Me perdi nos olhos brilhantes que me fitavam intensamente enquanto recuperava o fôlego. Sustentei o olhar, sentindo um frio gostoso na boca do estomago. Minhas mãos descansaram nas coxas grossas.

- Eu amo o som da sua risada. - Ela acariciou meu queixo com o polegar. Meu sorriso se estendeu. - Amo os seus olhos, e o jeito único como você olha pra mim. - A voz baixa chegou até meus tímpanos me fazendo corar. - Eu amo os seus lábios... - Fitou meus lábios passeando o dedo indicador sobre eles. - E como eles se encaixam perfeitamente nos meus. - Sorriu presunçosa, se inclinando para beijá-los...

- Selena, o que ainda está fazendo aqui?

Fui arremessada de volta ao presente ao ouvir meu nome ser pronunciado. Levantei a cabeça lentamente em direção da dona da voz de pé ao lado da mesa me sentindo um pouco desnorteada. Desviei os olhos dos escuros questionadores, olhando brevemente ao redor da sala grande e quieta, percebendo que não havia mais ninguém ali dentro além de mim e da garota ruiva me encarando. Tomei uma respiração profunda, novamente eu havia perdido praticamente a aula inteira. Estava emocionalmente exausta, mesmo que tentasse não conseguia mais me concentrar. Minha mente, meus sentimentos, estava tudo uma completa desordem.

- Acabei me distraindo. - Eu disse, fechando o notebook e pendurando minha mochila em meu ombro esquerdo ao me levantar.

- Você vem almoçar hoje? - Jennifer indagou enquanto nos dirigíamos até a porta. - Se você quiser.. - Ela prosseguiu quando permaneci em silêncio pensando em acompanhá-la. - Eu posso trazer burger king pra você de novo, realmente não me incomodo.

- Obrigada, Jenn! Mas não precisa, eu vou com você. - Falei fazendo a garota sorrir entusiasmada. - Só preciso ir até o quarto pegar meu celular que já deve ter carregado.

- Tudo bem. - Ela disse. - Te espero lá fora, então?

- Te encontro lá em um minuto. - Afirmei.

Girei nos calcanhares seguindo na direção oposta de Jennifer. Ajeitei a mochila em meu ombro rumando em passos apressados até o dormitório.

Ao chegar, usei a mão livre para abrir a porta do quarto e meus olhos avistaram quem eu não estava pretendendo encontrar tão cedo. A loira parada diante a escrivaninha pulou de susto quando o barulho do material de madeira ecoou pelo aposento silencioso. Ashley se virou assustada, com um semblante amedrontado no rosto pálido.

- Como você entrou aqui? - Perguntei dura, andando até minha cama onde deixei o notebook e a mochila. Cruzei os braços sobre o peito encarando a mulher estática.

- E-Eu.. - Ela gaguejou nervosa, colocando as mãos antes escondidas em suas costas, dentro dos bolsos do casaco preto. - Me desculpe invadir assim, mas eu disse que era sua amiga e então me deixaram entrar. - Encolheu os ombros.

- O que você quer? - Continuei ríspida.

- Quero conversar. - Ela disse simples, andando três passos até mim. - Precisamos conversar.

- Não, não precisamos. - Contestei sem paciência, avistando meu celular sobre a escrivaninha ainda conectado ao fio do carregador.

- Vai ser assim então, Selena? - Me fitou incrédula quando passei por ela indo até a minha mesa. - Você vai deixar uma transa arruinar a nossa amizade?

- O que fizemos foi errado! - Exclamei a olhando novamente, tentando não me exaltar. - Foi um erro maldito que não devia ter acontecido.

- Mas aconteceu! - Rebateu ela. - Aceita isso. Olha, eu sei que você quer esquecer aquela noite e eu me sinto mal pelo o que houve com você e sua..

- Ashley... - Fechei os olhos esfregando minhas têmporas, procurando calma. - Eu não estou com cabeça pra discutir esse assunto.

- Ótimo porque eu não vim até aqui pra discutir. - Voltou a se aproximar de mim. - Eu vim até aqui porque eu não quero perder a sua amizade. Então, será que você pode me ouvir por um segundo?

- Agora não dá, minha amiga está me esperando para irmos almoçar. - Falei pegando meu celular, checando brevemente com a esperança de ver algo ali que tornasse meu dia melhor. Mas não havia absolutamente nada novo, nenhuma ligação ou uma mensagem de Demi. Nada. Estávamos há três semanas sem nos comunicar e ela ainda não me atendia. Eu não estava aguentando mais.

- Selena, eu imploro. - Ashley insistiu me segurando pelos braços, desfiz o contato desviando meus olhos dos azuis suplicantes. - Você é a pessoa mais boa e genuína que já conheci na minha vida. Eu sei que não mereço, mas por favor, dê uma segunda chance para a nossa amizade.

- Eu não sei, Ashley... - Hesitei me afastando dela outra vez. - Não consigo conversar agora, estou com a cabeça cheia. Me dê um tempo pra pensar.

- Tudo bem, te dou todo o tempo do mundo se for para voltarmos a ser amigas.

- Tenho que ir agora. - Apontei por cima do ombro em direção da porta. - Jennifer já deve estar impaciente.

- Claro. - Ela andou até mim me seguindo para fora do quarto.

Nunca me senti tão aliviada em me despedir de alguém como naquela tarde. Era muito cedo pra voltar a olhar para a cara de Ashley depois do que aconteceu. Não conseguia. Sentia uma certa raiva dela, sentia mais raiva de mim. Mas também, não era como se ela fosse cem por cento culpada pelos meus últimos dias estarem sendo um inferno. A culpa era minha por não ter a parado naquela noite. Quanto a nossa amizade, tinha quase certeza de que não voltaria a ser como era antes.

- Por que você demorou tanto? - Jennifer gesticulou inquieta quando me avistou caminhando até ela.

- Tive um imprevisto chato. - Dei de ombros puxando um pequeno panfleto vermelho da mão da garota. - O que é isso?

- Duas garotas que não conheço me entregaram. É um convite pra uma festa que vai rolar hoje a noite, o endereço está aí.

- Podíamos ir. - Sugeri esquivando meus olhos para Jennifer que parecia um pouco surpresa.

- Sério? - Perguntou com as duas sobrancelhas arqueadas.

- É, sabe, pra rir um pouco.

- Já te falaram que você é meio esquisita? - Ela enlaçou o braço no meu quando começamos a andar. - Quer mesmo ir?

- Quero. - Eu disse, guardando o pedaço de papel no bolso traseiro da minha calça.

(...)

Minha respiração se tornava mais ofegante com cada segundo que se passava da música eletrônica que ecoava pela casa repleta de pessoas. Assim como minha pele transpirava com cada movimento de meu corpo. Dançava colada com algumas garotas que nunca havia visto em minha vida e eu não queria parar, embora meu corpo já implorasse por descanso. Queria dançar até não aguentar mais.

O lugar onde me encontrava era quente e exalava um cheiro forte de álcool e maconha. Mas o som ensurdecedor parecia melhor do que o silêncio do dormitório onde eu me afogava em tristeza enquanto esperava Demi entrar em contato comigo.

Era óbvio que ela ainda não queria me ouvir e eu não podia fazer nada quanto a isso a não ser esperar. Mas afinal, ela ia mesmo me procurar? Ou esse era o fim do nosso relacionamento?

Vez ou outra quando o rosto perfeito aparecia em minha mente dominando meus pensamentos, eu levava o copo de plástico azul até minha boca, sentindo o líquido incolor descer ardente pela minha garganta. Não queria pensar sobre isso. Não queria pensar.

Entornei outro gole de vodka sentindo duas mãos grandes e grossas segurarem meu quadril. Imediatamente eu parei de dançar franzindo a testa em desgosto ao sentir o corpo do homem atrás de mim roçar em minhas costas. Me virei exaltada empurrando o moreno alto para longe antes de me afastar, esbarrando nos ombros das pessoas e quase tropeçando em meus próprios pés.

- Ei gostosa, volta aqui! - Ouvi o cara gritar.

Com minha visão meio turva eu saí a procura de Jennifer, abandonando o copo agora vazio em qualquer canto da casa agitada. O vento fresco tocou minha pele suada quando eu atravessei uma porta que levava ao lado de fora da residência, me sentindo aliviada por ter saído daquele abafamento. Entranhei meus dedos em meu cabelo puxando os fios para trás enquanto olhava ao redor do que aparentava ser um jardim mal cuidado onde havia pouca gente rindo e bebendo. Uni as sobrancelhas estreitando meus olhos em direção de um dos bancos de pedra ao avistar a garota sentada sozinha. Jennifer parecia absorta em pensamentos com o olhar baixo, rumei até ela estranhando o cigarro entre seus dedos enquanto expelia a fumaça pelo nariz.

- Você está fumando ou eu estou muito bêbada? - Falei ao cessar meus passos diante da garota a arrancando de seus devaneios.

- O que você bebeu? - Ela perguntou quando me sentei ao seu lado.

- Só um pouquinho de vodka. - Suspirei apoiando minha cabeça em seu ombro. - Eu estou um pouco tonta. - Resmunguei meio grogue, fechando meus olhos.

- Não sei como você conseguiu ficar lá dentro todo esse tempo. Aquilo está um inferno.

- Estava bom até um cara esfregar o pau na minha bunda. - Eu disse ouvindo a música abafada. Jennifer riu e eu levantei o rosto para olhá-la. - Então, você fuma?

- Há um tempo...

- Por que ainda não sabia disso?

- Nunca tocamos no assunto. - Deu de ombros. - E não é todo dia que faço.

- Agora faz mais sentido o isqueiro que vi uma vez na sua escrivaninha. - Ponderei observando a fumaça se dissipar no ar. - Posso tentar? - Pedi apontando para o cigarro.

- Tem certeza? - Ela se certificou e eu assenti.

Para ser sincera, eu nunca havia me interessado em experimentar um cigarro antes, ou qualquer tipo de droga. Mas ali naquele momento, a curiosidade foi mais forte e eu só queria saber como era a sensação.

Segurei o cigarro pela metade entre meu dedo indicador e o polegar, levando até o meio de meus lábios sem hesitar. A garota ao meu lado gargalhou quando eu dei a primeira tragada engasgando no segundo seguinte, começando a tossir. Foi estranho e um pouco desconfortável. Achei o gosto ruim mas eu queria fazer de novo.

- Vai devagar. - Jennifer alertou ainda rindo, me dizendo brevemente como fazer. Eu não sabia o que era tão engraçado, mas um riso rouco escapou de minha garganta.

Traguei o cigarro com mais calma dessa vez. Quando assoprei lentamente, meu celular começou a tocar. Meu coração disparou involuntariamente. Puxei o aparelho do bolso ao devolver o cigarro para Jenn e levantei do banco me distanciando uns três passos enquanto fitava a tela um pouco zonza. Suspirei em frustração. Mais uma vez não era a pessoa que eu queria que fosse.

- Fala Taylor. - Atendi correndo meus olhos pelo céu escuro sem estrelas.

- Você e Demi se acertaram? Como foi a conversa? Eu não a vejo desde o almoço...

- O quê? - Franzi o cenho, minha mente girou em confusão com aquelas perguntas.

- O quê? - Taylor soou confusa. - Vocês ainda não se falaram?

- Não. - Eu disse frustrada, amassando a grama com a ponta do meu all star. - Ela não me atende e também não me liga.

- Mas.. ela me disse que ia ligar hoje.

- Ela disse? - Paralisei por um segundo, um frio percorreu minha barriga.

- Sim, pela manhã quando nos falamos.

- Bem, então ela desistiu porque eu não recebi ligação nenhuma. - Respirei fundo sentindo meu peito doer.

- Eu não entendo, ela parecia tão.. determinada. Liga pra ela, Selena.

- Pra quê? Ela não quer falar comigo, Tay. Isso está me matando e eu não sei o que fazer. Eu preciso dela...

- Pelo o que eu percebi hoje ela também precisa de você. Demi é um pouco orgulhosa, sabe.. e cabeça dura, ela está sofrendo sendo o que mais quer é correr para os seus braços.

- A culpa é minha por isso estar acontecendo.

- Bom... não exatamente. Demi terminou com você. Deus, vocês são tão complicadas!

- Você acha mesmo que eu devo ligar? Eu não sei, eu estou cansada de me decepcionar.

- Tenho certeza. Ela até disse que já deveria ter te ligado, o que significa que ela quer falar com você, Sel. E eu estou certa que é para vocês se acertarem.

- Deus, eu juro que se ela atender e nós resolvemos as coisas eu pego o primeiro voo pra L.A. o mais rápido possível! - Falei sério.

Taylor riu do outro lado.

- Então está esperando o que? E ah, me liga mais tarde.

- Pode deixar, eu ligo. - Eu disse e então desligamos.

Gritos e ruídos de objetos se quebrando roubaram minha atenção quando guardei o celular. Ergui o rosto olhando em direção da casa barulhenta onde um tumulto de pessoas incentivavam o que parecia ser uma briga.

- Vamos dar o fora daqui. - Jennifer apareceu ao meu lado jogando o braço sobre o meu ombro.

(...)

Enquanto a água fria escorria pelo meu corpo, minha mente repassava minha recente conversa com Taylor. Odiava ser tão ansiosa. Demi queria falar comigo. O certo era eu esperar pelo menos até amanhã para ligar pra ela quando eu estivesse completamente sóbria, se bem que eu nem tinha bebido tanto assim, foram apenas alguns goles. Acontece que era fraca para bebida.

A verdade era que eu não ia conseguir dormir sabendo que Demi estava disposta a conversar e pelo jeito consertar as coisas. O que fazia eu me perguntar por que não entrou em contato antes como disse à sua amiga. Pensar que ela ainda devia estar magoada pelo o que fiz, crescia a minha vontade de me socar.

Me enrolei na toalha ao terminar o banho demorado. Fui até a pia e escovei os dentes, encarando meu reflexo no espelho ao lavar a boca. Fitei minha face cansada. As olheiras se destacavam debaixo de meus olhos, fruto das noites mal dormidas. Apoiei minhas mãos em cada lado da pia quando outra onda de tontura me atingiu. Suspirei profundamente esperando alguns segundos antes de sair do banheiro.

O quarto estava vazio como esperava. Jenn havia saído para comprar não sei o que, ela até avisou enquanto eu estava no banho concentrada em meus pensamentos. Era algo relacionado a comida se não me engano. Não era muito tarde da noite, e nós iamos assistir algum filme no notebook.

Vesti uma calça de moletom cinza e uma simples regata branca, penteando meu cabelo úmido em seguida. Fui até minha cama onde havia deixado o celular, o relógio marcava onze e trinta da noite. Era cedo, era mais cedo em L.A.

Mordi meu lábio correndo o polegar pela foto no plano de fundo. A dona do sorriso mais lindo.

Olhei em direção da porta do quarto quieto, olhando de volta para o celular em minha mão. Só o pensamento de falar com Demi novamente fazia meu estômago dar voltas. Não conseguia esperar mais nem um minuto. Porém não aguentava mais a dor de ser ignorada por ela. Talvez eu devesse aguardar até que ela quisesse mesmo conversar. Mas ao pensar nisso, tudo o que Taylor havia me dito há menos de duas horas voltaram a preencher minha mente, me fazendo discar o número conhecido.

E lá estava eu outra vez sentada na beira da cama aguardando a ligação ser atendida. Senti uma leve dor no canto do lábio ao perceber a força com que eu o mordia por conta do nervosismo.

Minha vontade foi de sorrir quando Demi atendeu no quinto toque mas não o fiz. Comemorei internamente sentindo meu coração se acalmar aos poucos. Embora ela não houvesse proferido nada, nem um "alô'' ao atender, eu podia ouvir alguém na linha.

- Você atendeu. - Murmurei engolindo fortemente, um pouco surpresa, pois estava quase me acostumando com todas as minhas chamadas sendo rejeitadas. - Dem? - Chamei atenciosa quando permaneceu muda. - Fala comigo.

- Ela não está em condições de falar agora. - Avisou uma voz feminina.

E então toda a tensão me tomou novamente. Um caroço se formou em minha garganta.

- Quem está falando? - Perguntei hesitante, me negando a acreditar que aquela voz soava familiar.

- Poxa, Selena. - Enrijeci. - Você não se lembra de mim? Nem da minha voz? - Não podia ser quem eu estava pensando. Era impossível. - Sou eu, Vitoria.

O tom provocativo na voz enjoativa não passou despercebido. Eu quis vomitar. Uma náusea forte me atingiu fazendo minha cabeça girar rispidamente, e não era apenas o efeito da bebida. Fechei minha mão em punho com o sangue fervilhando em minhas veias. Queria gritar. Queria quebrar alguma coisa, mais necessariamente a cara da mulher do outro lado da linha.

- O que você está fazendo com a Demi. - Minha voz ríspida saiu entredentes.

- Infelizmente nada. Demi está muito cansada pra transar...

- Você é ridícula. - Eu disse enojada. - Acha que eu sou estúpida? Tudo o que Demi quer de você é distância. - Um sorriso desprezível brotou em meus lábios.

- Escuta aqui, garota. Você deveria me agradecer por eu não ter deixado sua namorada, digo, ex namorada, dirigir totalmente embriagada. Ela não conseguia nem andar por conta própria, Jesus...

Um tremor percorreu meu corpo inteiro. Esfreguei a nuca com força me levantando da cama. Afastei o celular da minha orelha por um segundo, fechando os olhos fortemente. Engoli em seco, aflita, sentindo meu coração apertado. Minha visão embaçou aos poucos.

- Fica longe dela. - Consegui ser firme. - Fica longe dela senão..

- Senão o quê? - Me cortou, rindo. - Eu não tenho medo de você, querida. Você é só uma garota indefesa que não deu conta de uma mulher como Demi.

- E você deu? Você só servia pra sexo. - Rebati.

Eu estava fora de mim.

- Isso pode até ser verdade... mas quem está com ela agora? - Trinquei o maxilar quando a risada arrogante afetou meus tímpanos. - Acariciando seus cabelos enquanto ela dorme? Parece um anjo, tão linda...

Pressionei meus lábios com força segurando o choro na garganta. Me repreendi mentalmente quando as lágrimas percorreram minhas bochechas ao piscar os olhos, as limpei rapidamente com a mão livre. Tomei uma respiração mais profunda tentando controlar a raiva pulsando em meu corpo. Tudo o que aquela mulher estava tentando fazer era me provocar, e o pior é que ela estava conseguindo. Eu não precisava passar por isso.

- Olá, ainda tem alguém aí? - Cantarolou, eu revirei os olhos. - Você quer saber o que Demi me contou enquanto eu a ajudava a tomar banho? - Ela perguntou quando eu estava prestes a desligar em sua cara. Continuei na linha incapaz de responder alguma coisa. - Por que está tão ofegante, querida? - Pisquei os olhos com mais força os mantendo fechados, mais lágrimas escaparam. - Bem... ela disse que te ama. Tipo, um bilhão de vezes. - Soou enjoada. Eu não devia fazer aquilo comigo, mas algo me impedia de encerrar a ligação. - Mas minha parte favorita foi quando ela disse que precisa parar de pensar em você e que você não precisa dela.

- Eu não acredito em você. - Afirmei.

- Eu sei mas eu estou falando a verdade, então acredite se quiser. Ela também disse que você vai ficar bem sem ela e... o resto eu esqueci. Porém uma coisa me intrigou, eu não sei o que você fez. Demi não quis me falar. Deve ter errado feio, hein? Pra fazer ela chorar daquele jeito. Mas não precisa se preocupar, eu estou aqui. Eu vou cuidar dela. - Funguei sem conseguir mais reprimir o choro. - Aww, você está chorando? Eu fiz você chorar? Me desculpa!

- Vai pro inferno. - Minha voz tremeu.

Soltei um grunhido raivoso despedaçando meu celular contra a parede. Meu peito descia e subia no ritmo de minha respiração descompassada. Passei minhas mãos trêmulas pelo meu rosto úmido, avançando até a escrivaninha no mesmo segundo que os meus olhos capturaram a pulseira bonita que eu havia retirado de meu pulso para tomar banho. Encarei a aliança em meu dedo anelar, fungando ao arrancá-la. Em meio a soluços e espasmos fui até o criado-mudo e abri a gaveta pequena, deixando os dois acessórios lá dentro antes de fechar.