Demi caminhava graciosamente pelo extenso tapete vermelho com um pequeno buquê de flores nas mãos e um sorriso estonteante brincando nos lábios. Os longos cabelos negros caiam em ondas pelos ombros nus formando um belíssimo contraste com a pele alva.

Ela estava simplesmente de tirar o fôlego. Absolutamente deslumbrante.

E tão perto.

Cada vez mais perto.

Quando os olhos irradiando vivacidade cruzaram com os meus no ambiente aglomerado de convidados, senti meu coração se contrair dentro do peito. Aos poucos o sorriso largo foi sumindo do rosto perfeito.

Eu quis correr. Fugir. Mas meus pés não me obedeciam. Não conseguia me mexer. Fiquei paralisada enquanto Demi se movia em minha direção.

E quando finalmente cessou os passos em minha frente, tudo ao nosso redor parecia ter desaparecido. Ela era a única pessoa que eu enxergava. Era apenas ela e eu, olhando intensamente uma nos olhos da outra depois de muito tempo.

- O que faz aqui? - Tombou minimamente a cabeça para o lado; os olhos castanhos, tão bonitos e profundos, mas tão confusos e hesitantes, fitaram os meus.

Quando abri a boca para respondê-la, nenhuma palavra saiu. Minha língua parecia amarrada em nós. Meu olhar então caiu para o vestido sem alças que ela usava; longo e branco...

Em seguida na aliança que reluzia no dedo anelar...

- Selena? - Ela chamava. - Sel? Sel!

Acordei ligeiramente sobressaltada demorando dois segundos para distinguir onde eu estava.

- Foi mal te acordar mas preciso ir para o trabalho e a babá ainda não chegou... - Falava Hayley se locomovendo pela sala com o pequeno Benjamim de sete meses no colo.

Apoiei os cotovelos no sofá e levantei o tronco sentindo a cabeça latejar e minha visão ser ofuscada pela claridade que se infiltrava pelas janelas. Crispei o rosto e com um olho aberto e outro fechado avistei Sam, minha afilhada de cinco anos, sentada na mesinha de madeira e me observando curiosamente com os óculos de armação vermelha pendendo sobre o nariz pequeno.

- Será que você pode olhar as crianças enquanto ela não chega? - Beijou Ben na cabeça antes de colocá-lo no jumperoo ao lado da televisão ligada em um desenho animado.

- Claro. - Falei enrouquecida correndo os dedos em meus cabelos bagunçados.

- Valeu. - Afagou meu ombro, subindo para o segundo andar da casa.

Esfreguei o rosto e me desvencilhei do cobertor.

- Hey, Sam. - Sorri para a menina ainda me olhando.

- Você estava tendo um pesadelo? - Indagou a voz infantil.

- O quê? - A fitei meio pasma ao me sentar no sofá.

- Você estava respirando de um jeito esquisito. Era um pesadelo?

- Uh, eu.. - Franzi o cenho, coçando a cabeça ao pensar no sonho estranho que tive. - Não sei. Talvez. Era só meu inconsciente filho da m..

- Olha o linguajar! - Repreendeu Hayley descendo a escada.

- Ops. - Fiz uma careta. Sam riu.

- Filha, vai tirar o pijama. Eu preciso falar rapidinho com a tia Sel.

- Mas mamãe..

- Agora, Samantha. - Ordenou calma e a menina de cabelos castanhos claros obedeceu bufando.

- Ela está cada dia mais esperta. - Comentei vendo Sam subir os degraus. - Acredita que.. - Parei de falar ao retornar o olhar para a mulher de pé perto de mim e me deparar com ela me estendendo o familiar maço de cigarros.

- Você esqueceu na cozinha.

- Oh. - O peguei de sua mão e guardei na minha bolsa que estava caída no chão.

- Pensei que tivesse parado. - Sentou ao meu lado.

- Eu tentei. - Encolhi os ombros. - Hay... eu sei que... estive distante ultimamente. Sinto muito por isso...

- Tudo bem, Sel... - Sorriu terna afagando meu braço. - Você está aqui agora. Isso é tudo que importa.

Abaixei a cabeça com um sorriso fraco.

- Não acredito que estou mesmo aqui.

- Falando nisso, Brian sabe que está na cidade?

- Ainda não... não estava nos meus planos chegar às quatro da manhã e se eu tivesse aparecido em casa nesse horário no estado que eu estava ele provavelmente me bombardearia de perguntas.

- É... quanto a isso... - Levantou passando as mãos pela saia social preta. - Eu preciso ir agora, mas depois quero saber o que aconteceu exatamente para você aparecer na minha porta no meio da madrugada com uma mala de um lado e o seu cachorro de outro. - Pegou sua bolsa na mesinha lateral. - Aliás, ele fez cocô na minha cozinha.

Soltei um riso rouco.

Ainda não tínhamos conversado direito pois já era tarde quando cheguei em sua casa e eu não queria atrapalhar mais seu sono. Sabia que ela teria um longo dia no trabalho.

- Hay, posso pegar a SUV emprestada? - Perguntei enquanto ela seguia até a porta.

- Claro. A chave tá na cozinha.

- Mamãe! Espera! - Gritou Sam descendo a escada com uma folha de papel nas mãozinhas. - Terminei o desenho pra você colocar na sua mesa! - Falou orgulhosa entregando a folha à Hayley.

- Ai, meu Deus! - Abriu um sorriso beijando o rostinho de sua filha. - Esse é sem dúvidas o arco-íris mais lindo que eu já vi!

- É mesmo? - Sam questionou risonha. - Nem me esforcei tanto assim.

- Mesmo! Não é, Sel? - Virou o desenho para eu ver.

- Uau! Parece que temos uma pequena artista aqui, huh?

- Tia Sel, quer um também?

- Sim, por favor. Arco-íris são meus favoritos.

- Vou pegar meu caderno e meus gizes então! - Falou entusiasmada saindo rumo à escada.

- Hey! Não vai me dar um beijo, não? - Hayley falou. Sam correu de volta até ela e a beijou na bochecha. - Obedeça sua madrinha, okay?

- Okay, mamãe.

Após se despedir, Hayley saiu para trabalhar alegando estar atrasadíssima. Ela trabalhava como assistente em uma respeitável firma de advocacia cujo o cofundador era um bom amigo de meu padrasto. Mas aquela não era a profissão de seus sonhos. Aos vinte e dois anos, depois de descobrir que estava grávida de Sam, ela decidiu largar o curso de direito. Porém ao retornar para a casa de seus pais após uma briga com o pai de sua futura filha, ela descobriu que eles estavam se divorciando e sua mãe estava devastada. Devido a situação complicada e com medo de como eles reagiriam com a notícia, Hay optou por não contar nada naquele momento e aceitou ficar um tempo comigo em NY.

Ela e Jenn se deram muito bem. Ela ficou com a gente mais ou menos durante um mês, até Justin aparecer à procura dela com flores e um pedido de perdão, arrependido por não ter confrontado seus pais que queriam que minha amiga interrompesse a gravidez contra sua própria vontade. Eles conversaram por horas, fizeram as pazes e acabaram se casando um ano depois.

- Tia Sel? - Sam apareceu no meu campo de visão carregando seu caderno de desenho e uma caixa de giz de cera. - Depois a gente pode levar o Bay pra passear? - Perguntou ao sentar ao meu lado, soltando um espirro fofo.

- Claro. - Sorri. - Aliás, onde ele tá? - Olhei na direção da cozinha.

- Na varanda. Ele fez cocô na cozinha.

- Sua mãe me contou.

- Ela estava braba?

- Nah. Hey, não era pra você estar na escola?

- Não, ainda estou doente.

- Doente? - Perguntei preocupada. - O que você tem? Sua mãe não me disse nada.

- Tosse. Mas já está melhorando.

- Oh. Isso é bom. - Sorri ao ajeitar os óculos sobre seu nariz, escutando meu celular tocar abafado em algum lugar.

Procurei pelo telefone o achando sob o travesseiro junto do cantil de whisky.

- O que é isso? - Sam questionou curiosa.

- Uh, coisa de adulto. - Guardei a bebida na bolsa e bufei ao ver quem me ligava.

Ashley aparentemente não ia desistir. Recusei a chamada e olhei para a porta quando a campainha tocou.

- Eu atendo! - Sam deixou suas coisas de lado e pulou do sofá, correndo até a porta. - Babá Paige! - Abraçou a cintura da moça de cabelos loiros com mechas rosas.

- Oi, pingo de gente!

- Minha madrinha tá aqui! Vem conhecer ela! - Sam falou empolgada puxando a garota pela mão. - Tia Sel, essa é minha babá Paige.

- Olá. - Dei um sorriso simpático. - Prazer em conhecê-la.

- Oi, o prazer é meu. Sam fala bastante de você. - Sorriu carismática.

- Agora vem conhecer o Bay! - Sam a puxou mais uma vez, agora em direção à cozinha.

Eu ri, pousando o celular na mesinha. Puxei o elástico que estava em meu pulso e prendi meus cabelos, sorrindo ao assistir Ben dar pequenos pulinhos no jumperoo. Espreguicei o corpo bocejando longamente antes de levantar com o intuito de tomar uma aspirina para a dor irritante em minha cabeça. No entanto, mal dei dois passos e precisei sentar de novo quando a sola do meu pé descalço se encontrou com uma peça de Lego.

- Puta que pariu! - Murmurei com o rosto contorcido de dor, segurando meu pé. - Você acha engraçado, né? - Falei para o bebê risonho olhando para mim, me inclinando para pegar o celular na mesinha ao ouvi-lo tocar novamente.

Dessa vez era Taylor. Eu tinha enviado somente uma mensagem de texto à ela de madrugada avisando que estava na cidade e queria encontrá-la.

- Oi, Tay. - Falei massageando meu pé.

- O que exatamente você quis dizer com "estou aqui, vamos nos ver"?

Okay, eu não estava completamente sóbria quando digitei a mensagem e acabei não sendo muito clara.

- Estou aqui na cidade. - Esclareci. - Cheguei essa madrugada.

- O que?! Mentira! - Exclamou em surpresa. - Espera, aconteceu alguma coisa?

- Uh... eu terminei com Ashley. - Contei. - Foi terrível, eu... não quero vê-la tão cedo, ou melhor, nunca mais. - Falei ao me recordar da cena deplorável de horas atrás.

- Meu Deus, o que houve?

- Eu prefiro te contar pessoalmente, será que a gente pode se encontrar hoje? Ou está de plantão?

- Claro, podemos sim, estou de folga. O que acha de almoçarmos juntas?

- Perfeito.

(...)

Meus olhos acompanhavam atentamente o movimento de vaivém das bolinhas de chumbo do pêndulo de Newton que enfeitava a mesa do escritório de meu padrasto. Eu estava à sua espera com os cotovelos apoiados na madeira maciça e o queixo descansando na palma da mão, tão absorta que nem percebi quando Brian adentrou o escritório.

- Mas que surpresa maravilhosa é essa?! - Exclamou ao me encontrar ali me tirando do devaneio.

Abri um sorriso e levantei da cadeira para ir abraçá-lo saudosamente.

- Você está diferente. - Notou ao me abraçar. - O que é isso na sua testa? Não te vejo com uma dessas há anos. - Brincou se referindo à minha franja. Eu ri, a colocando de lado.

- Senti sua falta. - Falei.

- Eu também, querida. Por que não ligou para buscá-la no aeroporto?

- Ah, já era bem tarde quando cheguei... - Segurei nos bolsos do macacão preto que eu estava usando, correndo os olhos pelos porta-retratos na estante ao lado. - Então fui pra casa da Hay e passei o resto da noite lá.

- Hmm, mas é aqui conosco que vai ficar, certo? - Cruzou os braços se encostando na mesa.

- Sim... Maria me convenceu com bolo de chocolate. - Mexi as sobrancelhas esboçando um sorriso.

- É claro. - Riu. - Mas me diz, quanto tempo vai ficar? Você sabe que por mim, você ficaria pra sempre, né?

Soltei um riso nasal balançando a cabeça.

- Eu não sei ainda na verdade. Só sei que é aqui que quero estar no momento.

- Seu quarto continua do mesmo jeito, você viu?

- Sim, eu vi... - Sorri fraco olhando para os meus sapatos. - Fez eu me sentir como... se eu nunca tivesse ido embora. - Suspirei erguendo o olhar. - Então, como anda a reforma da casa? - Perguntei me referindo à casa que eu havia comprado antes de ir para NY.

- Está quase terminada. Aliás, ontem eu me encontrei com o casal interessado em comprá-la. Eles realmente querem a casa, Sel.

- Oh... isso é... ótimo. - Falei pausadamente sentindo um certo descontentamento.

- Por acaso não está tendo dúvidas sobre a venda, está? - Brian questionou me analisando.

- Não... - Franzi a testa e ele semicerrou os olhos. - Não. - Repeti firme.

- Tudo bem se estiver, Sel. - Falou compreensivo. - Eu só preciso saber antes de assinar qualquer coisa.

- Eu sei, eu só... - Dei de ombro. - Pensei que eu moraria lá um dia...

- Você ainda pode morar lá, querida. A casa ainda é sua. E é uma ótima casa, por sinal. O lugar é calmo... sem barulho de trânsito... - Foi a minha vez de cerrar os olhos, ciente do que ele estava fazendo. - Perfeito para você trabalhar e tal...

- Está tentando me convencer a mudar de volta para LA?

- Sim... - Foi sincero exibindo um sorriso. - Estou conseguindo?

- Eu gosto de NY. Mas você quase conseguiu. - Sorri.

Conversamos mais um pouco antes de eu sair para encontrar Taylor. Ao som de Bright Eyes, dirigi a SUV até o restaurante onde marcamos, observando a cidade. Era estranho estar de volta após tanto tempo. Mas era um estranho bom, que causava um friozinho na barriga. Quando Taylor me convidou para ser madrinha de seu casamento, eu fiquei bastante relutante. Porém depois de refletir muito sobre a situação e sobre minha vida no momento, resolvi fazer o que o meu coração queria, o que eu sentia que era o certo. Terminei o relacionamento ruim que tinha com Ashley e comprei uma passagem para casa.

E isso foi a melhor coisa que fiz.

Entrei no restaurante ansiosa para ver Taylor novamente. Após passar uns dias no meu apartamento em NY dois meses atrás, ela viajou com o namorado para a Europa onde, de fato, ele a pediu em casamento.

Corri os olhos pelo estabelecimento aconchegante e sorri ao enxergar a loira a minha espera em uma mesa. Taylor deu um sorriso caloroso ao me avistar, acenando alegremente. Ziguezagueei entre as mesas em sua direção e ela se levantou me puxando para um abraço.

- Não acredito que está aqui! - Falou animada quando nos sentamos.

- Nem eu. - Ri pendurando minha bolsa na cadeira .

- É tão bom te ver! Devia ter me ligado assim que chegou!

- Ah, não quis te incomodar.

- Imagina, Sel. Não teria sido nenhum incômodo.

Logo um garçom veio até nós para pegar nossos pedidos. Taylor pediu uma salada de frango e como eu estava sem fome graças aos generosos pedaços de bolo que comi em casa, pedi apenas um chá gelado. Assim que o garçom se retirou, eu quis saber como estava indo os preparativos de sua cerimônia de casamento. Com um grunhido, Taylor confessou que nunca se sentiu tão sobrecarregada antes e não via a hora de casar. Ela e a mãe coruja de seu noivo não concordavam em absolutamente nada e isso a deixava muito irritada.

- Tipo, a porra do casamento é meu, sabe? E ela quer decidir tudo! Isso é tão irritante! - Bufou revirando os olhos. - Mas enfim, me conta, o que foi que a descompensada da Ashley fez?

- Ah... - Estalei a língua no céu da boca antes de começar a relatar o que tinha acontecido. - Eu queria terminar amigavelmente mas ela não queria de jeito nenhum. Foi horrível, Tay...

ALGUMAS HORAS ATRÁS EM NY

- Também estou com saudade, Jenn... - Equilibrei o celular entre a orelha e o ombro ao pegar mais algumas peças de roupa no closet. - Mas eu não acho que estarei aqui na próxima semana.

- Ah, sério? Poxa, que pena. - Lamentou minha ex colega de quarto.

Jennifer estava morando em Washington, DC. Ela se mudou pra lá após aceitar uma irrecusável proposta de trabalho. Apesar da distância nós continuávamos boas amigas e sempre arranjávamos tempo para visitar uma a outra.

- Eu não sei quanto tempo vou ficar fora, talvez... - Pausei um segundo ao notar Ashley recostada no batente da porta do quarto com os braços cruzados no peito e os olhos fixados na minha mala quase feita. - Talvez ainda esteja em NY quando eu voltar. - Larguei as roupas junto com as outras em cima da cama.

- Bom, você me avisa então.

- Com certeza. Uh, Jenn, eu preciso desligar. Nos falamos mais tarde?

- Tudo bem, Sel. Claro.

- Dê um abraço na sua mãe por mim. Tchau, Jenn.

- Deixa comigo. Tchau, Sel. Se cuida!

- Você também!

Coloquei o celular no bolso do meu jeans e comecei a dobrar minhas roupas e guardá-las na mala. Ashley permanecia na mesma posição, encarando o mesmo ponto com uma expressão vazia.

- Você viu a minha mensagem? - Perguntei sem parar o que fazia. - Preciso falar com você.

- Vai viajar pra onde? - Questionou ignorando minhas palavras.

Suspirei.

- Vou passar uns dias em casa... - A observei crispar os lábios adentrando o quarto devagar. - E semana que vem é o casamento da Taylor, eu..

- Espera aí... - Me cortou unindo as sobrancelhas. - Você disse que não iria.

- Mudei de ideia. - Guardei a última peça de roupa na mala, começando a fazer o mesmo com o resto dos meus pertences. - Ela é minha amiga. Eu quero estar lá.

Ashley murmurou alguma coisa mas não dei importância. Havia algo mais importante que precisava falar com ela antes de viajar. Terminei de fazer a mala e a fechei.

- Eu vou com você. - Ashley falou indo até o closet.

Pousei a mala no chão e fui atrás dela.

- Ashley...

- Eu só não sei se tenho um vestido adequado pra essa ocasião... - Falava passando os cabides e pegando várias roupas. - Mas não importa, eu posso comprar lá.

- Ashley, pare o que está fazendo e me escuta! - Exclamei firmemente mas ela não deu ouvidos.

- Eu não vou deixar você ir sozinha, Selena. Nem pensar. Você é minha namorada. - Enfatizou.

- É sobre isso que eu quero falar com você. - Falei séria. - Eu quero terminar. - Nisso Ashley parou e me fitou confusa.

- O que?

Aquilo não seria nada fácil, podia sentir. Mas era o que eu precisava fazer. Por mim. Não podia mais permanecer em um relacionamento onde eu não era feliz.

- Quero terminar. - Repeti encarando os olhos azuis dessa vez, vendo Ashley piscá-los confusamente. - Você e eu... - Molhei os lábios ao continuar. - Foi legal por um tempo, mas não está mais dando certo, Ashley. Você não percebe?

- Você não pode estar falando sério. - Soltou um riso incrédulo.

- Eu estou. - Afirmei. - Nós nunca conversamos. Não fazemos mais nada juntas. Você sai, tipo, todos os dias com aqueles seus amigos babacas. Então... eu pensei e... é isso que eu quero. Me desculpa.

- Não, não, não. - Largou as roupas no chão e avançou até mim. - Por favor, Sel... - Segurou meu rosto entre as mãos, tentei me esquivar mas ela não deixou. - Olha pra mim. Vamos conversar, tudo bem? Eu posso fazer dar certo. - Seus olhos se encharcaram de lágrimas. - Não posso te perder, Sel. Por favor.

- Sinto muito... - Falei fraco ao engolir em seco. - Não dá mais. - Retirei as mãos do meu rosto e me afastei, suspirando de olhos fechados quando Ashley me abraçou por trás.

- Eu te amo. - Ela chorava me segurando forte. - Você é a única pessoa boa na minha vida. Não me deixa...

- Ashley, por favor... me solta. - Pedi gentilmente tentando me soltar de seu aperto. - Não torne isso mais difícil. Me deixa ir.

- O que eu posso fazer pra você mudar de ideia? - Um beijo foi pressionado em meu pescoço. - Diga... - Outro beijo. - Eu faço qualquer coisa.

- Pare com isso, Ashley! - Tentei de novo escapar dos braços possessivos mas ela tinha mais força que eu. - ME SOLTA! - Gritei sem paciência e um pouco assustada, me debatendo até que ela me largou.

Fui rápida ao pegar minha mala e minha bolsa, sentindo uma tremenda urgência de sair dali.

- É ela, não é? - A voz fria me fez parar na porta. - A mulher que te largou igual um lixo. - Cuspiu as palavras. Eu a olhei horrorizada. - Você tá terminando comigo pra ir atrás daquela idiota, não tá?

- Você não tem ideia do que tá falando. - Cerrei os dentes apertando a alça da mala com força.

- Aquela mulher não te merece, Selena. Ela não te ama como eu amo. E ela vai te machucar de novo e você vai voltar correndo pra mim como um cachorrinho perdido. - Ashley soava tão medonha e debochada que me deixou totalmente pávida e em choque. Ela estava irreconhecível.

- Para o bem de nós duas é melhor que você não esteja mais aqui quando eu voltar. - Falei austera antes de sair do quarto, piscando os olhos com o grito estridente de Ashley junto ao estrondo de algo sendo quebrado contra a parede.

- Então eu peguei Baylor e dei o fora de lá. - Contei.

- Jesus Cristo... - Uma careta amedrontada tomava conta do rosto de Taylor. - Que mulher desequilibrada. Ela precisa de ajuda profissional, Sel. Eu estou passada. E assustada.

- Nunca tinha visto ela daquele jeito, foi... - Suspirei. - Realmente terrível. Só espero que ela não venha atrás de mim...

- Ah, mas se vier você me chama que eu acabo com a raça dela!

- Pode deixar. - Ri pelo nariz, avistando o garçom se aproximar com o meu chá gelado e a salada de Taylor.

- Mais alguma coisa, senhoritas? - Perguntou gentil ao entregar os pedidos.

- Não, obrigada. - Disse Taylor sorrindo breve.

Levei o canudo da minha bebida aos lábios refrescando a garganta com o líquido gelado.

- Então... presumo que ficará na cidade por um tempo... - Taylor falou levando uma garfada de salada à boca.

- Sim... - Repousei o copo na mesa. - E eu estava pensando... - Mordi o lábio inferior. - Por acaso o convite para madrinha continua de pé? - Vi os olhos dela se arregalarem em surpresa e um sorriso tomar seu rosto.

- Está brincando?! É claro, Sel! - Falou toda contente. - Mas... você tem certeza? - Perguntou atenciosa.

- Tenho... quer dizer, ainda estou receosa quanto a... ver Demi de novo, mas... eu vou sobreviver. Eu espero. - Dei um riso tenso apoiando os cotovelos na mesa. - Aliás... - Hesitei remexendo o canudo na bebida. - Como... ela está? - Eu quis saber. No fundo eu sempre queria saber.

- Bem. - Taylor respondeu de forma evasiva bebendo um longo gole de água.

Enruguei o cenho levemente. Já a conhecia bem o bastante para saber que estava escondendo alguma coisa.

- Tem algo que não quer me dizer, não tem? - Assumi pendendo um pouco a cabeça de lado a observando. - O que é? Ela tá noiva ou algo assim? - Falei debochada mas Taylor continuou muda e esquisita. - Ela tá? - Fechei a cara perguntando sério dessa vez.

- Não, mas... fiquei sabendo que ela e Amber estão morando juntas.

- Oh... - Senti uma pontada de angustia no peito, mas tentei não deixar transparecer, bebendo quase todo o meu chá gelado. - Então, eu terminei o livro que me indicou. - Mudei drasticamente de assunto.

- Aquele que te indiquei ano passado? - Riu.

- Só fique feliz por eu ter terminado.

Ficamos no restaurante por mais uns vinte minutos. Na saída, Taylor viu alguém que ela conhecia no outro lado da rua falando ao telefone. Quando Taylor a chamou, a mulher alta de cabelos loiros usando um óculos escuro, acenou dando um breve sorriso antes de terminar a ligação e vir até nós. Taylor já havia a citado algumas vezes durante nossas conversas, parecia uma pessoa divertida.

- Hey... - Colocou os óculos sobre a cabeça, seus olhos eram verdes e transpareciam curiosidade ao pousarem em mim. - Aproveitando o dia de folga? - Disse à Taylor, a voz carregada por um sotaque britânico.

- Pois é. Essa é Selena, a minha amiga de NY. - Taylor sorriu ao me apresentar à sua amiga. - Sel, essa é a Cara.

- Olá. - Sorri apertando a mão de Cara. - Prazer em conhecê-la.

- Igualmente. - Falou simpática. - Você é a artista, certo? Tay me contou sobre você.

- Contou? - Corei e olhei para Taylor, mas antes que eu pudesse dizer algo, seu celular tocou e ela precisou atendê-lo, se distanciando um pouco. - Bom, espero que ela só tenha contado coisas boas.

- Oh, não se preocupe. - Tocou meu braço brevemente. - Ela só esqueceu de mencionar o quão bonita você é. - Falou de um jeito charmoso que me deixou tímida.

Abaixei a cabeça rindo baixo. Ela estava flertando comigo?

- Obrigada...

- Suponho que vai à festa hoje a noite?

- Festa? - Franzi o cenho de leve.

- Sim, a festa de despedida de solteira da Tay.

- Oh, não... ela não me disse nada.

- Ah, é porque ela não sabe ainda... - Riu dando uma olhada rápida para Taylor que continuava ocupada no celular. - Mas de qualquer forma, você devia ir. Não vai ser nada demais, só uma comemoraçãozinha entre amigas que planejamos já que estamos sem tempo para irmos à Vegas. Então? Estou te convidando, vai ser na minha casa.

- Eu... eu não sei. Provavelmente estarei ocupada. - Menti pessimamente.

- Bem... posso te passar meu número então? Caso não esteja ocupada. - Sorriu torto.

- Okay... - Falei, pegando meu celular na bolsa e salvando o número de Cara. - Tay ia adorar te ver lá. E pra ser honesta... - Aproximou a boca da minha orelha. - Eu também. - Sussurrou com a voz falhada.

Ela definitivamente estava flertando comigo.

- Hey, vejo que se deram bem. - Falou Taylor ao se juntar a nós novamente. - Sobre o quê estão falando?

- Sobre esse tempo esquisito de hoje. - Cara inventou rapidamente, apertando os olhos para o céu parcialmente encoberto. - Acho que vai chover mais tarde.

- Certo... - Taylor alternou desconfiadamente o olhar entre mim e Cara enquanto segurávamos o riso.

(...)

Meus passos eram calmos e silenciosos sobre a grama desbotada do cemitério repleto de folhas secas e amareladas. O vento leve tocava de forma suave minha pele, esvoaçando brandamente meus cabelos enquanto eu caminhava rumo à lápide de minha mãe, carregando comigo um ramalhete de rosas brancas. Deixei escapar um suspiro trêmulo ao mirar o nome gravado no granito sob a sombra de uma das árvores, meus olhos lacrimejando levemente por trás dos óculos de sol enquanto eu lutava contra o nó que se formava em minha garganta.

- Oi, mãe... - Sussurrei pousando as flores na lápide. - Desculpa ter demorado tanto...

Sentada na grama debaixo daquela sombra, passei uma hora apenas conversando com ela, falando tudo que deveria ter dito antes e me sentindo mais leve. Isso era algo que antigamente não conseguia fazer, não conseguia sequer visitá-la sozinha. Sentia raiva. Não aceitava que ela havia realmente partido. O jeito que ela havia partido, tão tragicamente cedo e injusto. Foi um choque brutal e minha maneira de lidar com a tragédia foi me demonstrando forte diante todo mundo, reprimindo meus sentimentos e as lembranças daquela noite traumatizante que costumava me causar pesadelos. Ninguém sabia exceto Demi que inevitavelmente descobriu quando começamos a dormir juntas. Ela sempre me acalmava quando eu acordava sobressaltada no meio da noite chamando minha mãe. Não gostava de falar sobre isso mesmo ciente que precisava. E Demi me entendia. Nós nos entendíamos. Às vezes ela preparava chá e me distraia com as conversas mais bobas possíveis às três da manhã.

- E eu me sentia segura nos braços dela... - Falei baixinho soltando um suspiro pesaroso. - Agora eu só... me sinto sozinha. - Rasguei uma folha devagar. - Talvez fosse melhor se eu voltasse a morar aqui... Brian literalmente pularia de alegria. - Ri fraco. - Acho que também gostaria disso, certo? Certo... - Suspirei.

Eu acreditava que minha mãe estava em um lugar melhor e gostaria que eu fosse feliz. Mas a verdade era que mesmo gostando de morar em NY, não me sentia feliz lá...

Repentinamente, um barulho de um telefone tocando me fez olhar ao redor me deparando com uma garota adolescente com uma mochila nas costas, olhando para mim.

Ela estava me observando?

Franzi a testa de leve cerrando um pouco os olhos ao reparar nos traços do rosto jovem, tão familiar...

- Perdão. - A menina falou sem jeito ao guardar o telefone. - Eu só... só achei que te conhecia. - Deu alguns passos para trás segurando as alças da mochila antes de se virar e começar a caminhar para longe.

Só conseguia pensar que a conhecia. Até a camiseta de banda que usava era familiar. E de repente minha mente deu um estalo.

- Liz... - Sussurrei assistindo a garota se distanciar. - ESPERA! - Gritei ao me pôr de pé, nisso ela parou e me olhou. - Liz? - Um sorriso sutil brotou em meus lábios e um exultante iluminou o rosto dela quando retirei os óculos.

- É você mesmo! - Exclamou contente ao se reaproximar.

- Meu Deus! Olha pra você, está do meu tamanho! - Falei impressionada e ela riu. - Posso te dar um abraço? - Abri os braços e Liz me abraçou apertado. - Como você tá? E sua mãe? - Perguntei quando nos soltamos.

- Estamos bem. Uh, desculpa ter atrapalhado você...

- Tudo bem... eu estou feliz de te ver. E... - Esqueci o que ia dizer quando reconheci o colar pendurado em seu pescoço. - Esse colar... - Segurei brevemente o pingente.

- Demi me deu faz uns anos. - Sorriu docemente. - Minha mãe disse que é um bom sinal. - Definitivamente era um bom sinal. - Uh, posso te pedir um favor? - Perguntou de um jeito acanhado.

- Claro.

- Você pode... não comentar nada com a Demi que me viu? Ela pensa que estou na escola... longa história. - Fez uma careta quando uni as sobrancelhas.

- Quer conversar sobre isso? - Ofereci mas ela pareceu hesitante desviando o olhar. - Eu sei que... não faço mais parte da sua vida, mas você pode confiar em mim. - Assegurei.

- Eu sei. - Sorriu. - Mas não quero te incomodar...

- Imagina, Liz. Além do mais, eu tenho tempo. - Falei ao olhar no meu relógio; não passava das quatro da tarde. - Podemos ir ao McDonald's como nos velhos tempos, que tal?

- Sério? - Arregalou os olhos arqueando as sobrancelhas.

Assenti com um riso, ganhando outro abraço da garota.

(...)

- Você parece pensativa. - Reparou Hayley enquanto passava o último prato para eu secar. - E não para de olhar no relógio. - Acrescentou ao me ver verificar as horas outra vez. - O que está havendo?

Conversamos bastante enquanto a ajudava preparar o jantar. Ela contou que Justin finalmente aceitou assinar os papéis do divórcio deles. Sim, eles estavam se divorciando. E além de contar sobre meu término horrível com Ashley, também revelei sobre a visita que fiz à minha mãe no cemitério onde acabei reencontrando Liz. Ao mencionar o quão grande e bonita a garota estava, lembrei que tínhamos trocado números para manter contato quando a deixei em sua casa. Hayley e eu então, tiramos uma selfie engraçada e eu enviei à Liz que respondeu imediatamente dizendo que fomos as melhores babás que ela já teve.

Guardei o prato no armário e virei para a minha amiga que desligou a torneira e enxugou as mãos no avental.

- Quando Taylor e eu saímos do restaurante, ela encontrou uma amiga... - Comecei a contar o que tinha deixado de fora de nossas conversas. - O nome dela é Cara, nós nos falamos um pouco e ela me convidou para a despedida de solteira da Tay planejada para hoje a noite. Eu disse que estaria ocupada, mas...

- Está pensando em ir.

- É... eu não sei... - Fitei o pano de prato entre meus dedos, meu polegar movendo inquieto. - Demi provavelmente vai estar lá...

- E? Você vai encontrá-la de um jeito ou de outro no casamento. Então por que não fazer isso hoje? Sei que ainda é difícil pra você, mas Sel..

- E se ela estiver lá com a namorada dela? - Larguei o pano na bancada começando a andar de um lado para o outro no espaço pequeno. - Eu te contei que a mulher é uma bendita cardiologista? E agora elas estão morando juntas, tipo... - Soltei um riso seco sem humor. - Elas devem ser perfeitas uma para a outra e eu não vou conseguir presenciar nada disso. - Gesticulei, sentindo náusea só de imaginar.

- Sel..

- Pelo menos não sóbria. - Murmurei.

- Selena..

- E no casamento será diferente, sabe por quê? - Parei e olhei para Hayley, apontando o indicador para ela. - Você vai estar lá comigo o tempo todo para me impedir de fazer qualquer besteira.

- Então esse é o seu plano? E se ela quiser falar com você, hein? Já pensou nisso? - Arqueou as sobrancelhas. Mordi o lábio coçando a testa ao pensar nessa possibilidade. - O que vai fazer? Se esconder embaixo do meu vestido? - Zombou. Revirei os olhos cruzando os braços sobre o peito. - Ai, caramba! Preciso de um vestido...

- Ela teve seis anos para falar comigo... - Murmurei. - Tenho que aceitar que ela superou.

- Como pode ter certeza?

- Oh, eu não sei... - Um sorriso amargo surgiu em meus lábios. - Talvez porque ela nunca mais quis saber de mim? - Ironizei um pouco alterada, vendo Hayley comprimir os lábios e abaixar o olhar. - Eu sei que fiz merda, tenho plena consciência disso. Mas... vivemos tanta coisa juntas, você sabe... e... ela nem ao menos perguntou como eu estava, eu.. - Parei com o que dizia ao notar os olhos de Hayley desviarem para algo atrás de mim.

Sam estava de pé na porta da cozinha, segurando sua Dory de pelúcia.

- Vocês estão brigando? - Perguntou fraquinho.

- Não, querida. - Sua mãe respondeu. - Só estamos conversando. Vá terminar de assistir seu desenho que daqui a pouco é hora de dormir.

- Tá bom... é que eu queria dizer que não quero mais ir à Disneylândia amanhã.

- Não?! - Eu e Hayley dissemos juntas e nos olhamos. Sam sacudiu a cabeça em negativo.

- Quero ir ao aquário! - Falou firme.

- Oh... okay então... nós vamos ao aquário.

- Yas! - Sam comemorou com um pulinho. - Tia Sel?

- Oi, princesa. - Sorri.

- Baylor pode dormir aqui hoje? Prometo cuidar bem dele.

- Hmm... - Ergui as sobrancelhas para a mulher ao lado. - Você vai ter que pedir pra sua mãe. - Falei, seus olhinhos se alternaram para Hayley.

- Mamãe? - Sam ajeitou seus óculos e segurou a Dory com as duas mãos. - Por favor.

- Tudo bem. - Suspirou ao permitir. Sam comemorou novamente. - Mas só hoje, ouviu?! - Avisou enquanto a menina voltava para junto de seu irmão na sala. - Não estou afim de perder outro chinelo.

Um riso saiu pelo meu nariz com a lembrança da cara de paisagem do meu cachorro enquanto Hay dava bronca nele mostrando o chinelo todo estraçalhado.

- Bom... acho que já vou indo... - Peguei meu celular em cima da mesa. - Que horas a gente vai sair amanhã?

- Uh... - Hayley vincou a testa e parecia não ter prestado muito atenção na minha pergunta. - Pode ser, não sei, às nove?

- Perfeito. Vai ser divertido, sinto falta de passar tempo com você e as crianças...

Sempre que dava, ela viajava para NY com as crianças. A última vez, fizemos um piquenique no Central Park, foi um dia muito agradável e relaxante.

- É... Sel... - Me olhou hesitantemente, se aproximando. - Sobre o que estava falando... sobre Demi não..

- Não, deixa pra lá. - A cortei. - Eu não vou à festa.

- Acho que deve ir.

- E por quê? Pra sofrer? - Fui sarcástica.

Hayley suspirou, retirou o avental e o deixou sobre a mesa.

- Eu preciso te contar uma coisa... - Puxou uma cadeira. - Senta.

- Você está me assustando. - A observei intrigada, sua feição receosa estava começando a me preocupar.

- Só... senta, Sel. - Insistiu.

- Okay... - Então eu sentei, a assistindo sentar ao meu lado.

- Então... eu devia ter te contado sobre isso há muito tempo, mas naquela época você disse que as coisas estavam indo bem com Ashley, aí eu pensei que seria melhor se não soubesse de nada e... agora tenho certeza que isso foi um erro...

- Pelo amor de Deus, Hay, fala logo! - A apressei, aquele ar de mistério estava me deixando apreensiva.

- Só não quero que me odeie. Não era para haver segredos entre a gente e eu... - Suspirou.

- Olha pra mim... - Segurei sua mão sobre a mesa. - Seja lá o que tem pra me contar... nada é capaz de fazer eu te odiar, okay? - Garanti recebendo um aceno de cabeça em resposta e um afago na mão.

- Lembra quando... Sam engoliu uma moeda?

- Sim... você quase me fez desmaiar de preocupação aquele dia...

Aproximadamente dois anos trás, eu estava no meio de um trabalho importante quando Hayley me enviou uma mensagem contando que Sam tinha engolido uma moeda e elas estavam no hospital. Graças a Deus não era nada grave, porém só fiquei completamente tranquila quando ela atendeu o FaceTime e eu pude ver Sam.

- Mas o que é que tem? - Perguntei.

- Eu... falei com a Demi nesse dia. No hospital.

- Oh. - Pisquei um tanto aturdida com a revelação.

- Sam tinha acabado de ser examinada, eu estava prestes a te ligar quando ela apareceu e pediu pra falar comigo. Eu tinha esquecido completamente que ela trabalha lá..

- O que ela queria? - Minha voz soou baixa e receosa.

- O que acha? Ela quis saber de você. - Um frio percorreu meu estômago e eu abaixei os olhos engolindo saliva. - Eu disse que você estava bem e... quando eu... meio que a confrontei..

- Você o quê? - A olhei estarrecida.

- Eu apenas disse algumas coisas. - Tentou esclarecer rápido. - Okay, eu posso ter me alterado um pouco.

- Hay...

- Eu estava tão estressada aquele dia, Sel... e olhar pra Demi só me fez pensar no quanto você ficou mal com o fim do namoro de vocês. Mas o ponto é... ela parecia... arrependida, eu lembro dela dizendo que não quis te machucar, que ainda pensava em você e... ela soava tão verdadeira e... triste. Eu não a conhecia tão bem como você, mas Demi não parecia nada com alguém que superou. Ela só faltou chorar bem ali na minha frente.

Precisei de um minuto para processar tudo o que acabara de ouvir e organizar meus pensamentos. Levantei da cadeira ligeiramente desconcertada e sem proferir uma palavra fui até o refrigerador. Peguei uma garrafinha de água gelada e tomei três longos goles. Hayley me assistia em silêncio.

- Devia ter me contado. - Falei um instante depois sem conseguir esconder meu aborrecimento.

Não poderia negar que estava chateada.

- Eu sei. Me desculpa. - Sua fisionomia era pesarosa. Desviei os olhos e fitei a boca da garrafa, percebendo ela vir até mim. - Selena..

- Nada disso importa agora. - Respirei fundo ao erguer o olhar. - Isso foi há tipo dois anos. Muita coisa pode ter mudado durante esse tempo. - Fechei a garrafa e a guardei de volta no refrigerador.

Voltei até a mesa com Hayley me seguindo.

- Você está magoada e com medo de ser tarde demais. Eu entendo. Mas e se não for?

Fechei os olhos momentaneamente e trinquei a mandíbula virando para encará-la.

- Não quero falar mais disso e acabar discutindo com você então... eu vou embora. A gente se vê amanhã.

Peguei meu celular e notei que Liz tinha me enviado uma nova mensagem nesse meio tempo. Ao abri-la, fiquei estática.

Liz: Olha só o que eu achei no laptop da Demi! Melhor dia!

Acima estava uma das fotos favoritas de Demi; Liz e eu na Disneylândia, cada uma com uma casquinha de sorvete na mão, usando orelhas do Mickey e sorrindo largamente. Lembro de cada detalhe desse dia. Estávamos tão felizes. Tiramos várias fotos, mas aquela Demi dizia que era especial. Quando perguntei o porquê, ela respondeu com doçura, "Olha para esses sorrisos lindos!"

Soltei um suspiro extremamente nostálgico.

- Que foi? - Perguntou Hayley. Tirei os olhos da tela do aparelho e mostrei a mensagem à ela, a assistindo arquear as sobrancelhas e entreabrir os lábios. - Ohh, ela ainda tem fotos suas. Isso com certeza significa algo.

- Você acha? - Mordi o canto do lábio reprimindo um sorriso nervoso.

Podia significar qualquer coisa, tivemos uma história juntas apesar de tudo...

- Mhm. Quando foi isso mesmo?

- Uh, alguns dias antes de viajarmos para o Texas.

- Ah, é... pra você conhecer a família dela. Você estava tão nervosa. - Riu, talvez tentando aliviar o clima meio pesado que tinha se instalado entre nós.

- E você achava engraçado... - Falei enquanto respondia Liz com alguns emojis e corações.

- Eu achava fofo. E é... um pouco engraçado.

- Hey, você pode... - Pus o celular no bolso. - Me emprestar o carro de novo?

- Vai à festa? - Indagou sorrindo débil.

- Só se me ajudar a escolher uma roupa. - Propus, decidindo passar por cima do assunto anterior.