- Selena! - Cara sorriu amistosa ao abrir a porta de sua casa para mim, segurando um celular na outra mão. - Que bom que veio. Entra! - Falou receptiva me dando espaço para entrar.
- Não quis aparecer de mãos vazias então trouxe isso. - Entreguei à ela uma garrafa de vinho rosé que comprei no caminho.
- É claro que você tem bom gosto pra vinhos. - Sorriu antes de levar a garrafa para a cozinha que ficava bem ali ao lado.
Uma música R&B tocava na sala de estar, e julgando pela calmaria do lugar, não parecia haver mais ninguém ali além de nós duas.
Que ótimo, eu havia sido a primeira a chegar.
- Por favor, diga que não fui a primeira a chegar. - Falei em tom de brincadeira ao tentar esconder o nervosismo, escutando um latido fino. - Aww, você tem cachorro!
A mulher nitidamente atenta no celular, ergueu o rosto soltando um riso nasal enquanto um cachorrinho que aparentava ser um husky, vinha até mim.
- Esse é meu filho, Leo. O único cara na festa.
- Oi, Leo... - Falei com voz de bebê ao agachar para acarinhar o pequeno peludo. - Que menino fofo!
- Ele gostou de você.
- Ele é lindo. - Me coloquei de pé assistindo Leo correr até uma cenoura de pelúcia e brincar com ela.
- É... uh.. - Cara estalou a língua digitando no celular. - Selena... eu preciso dar uma saidinha... - Pegou um molho de chaves na bancada de pedra que separava a sala da cozinha. - Por favor, fica a vontade... - Prosseguiu sem me dar tempo de falar. - Tem bebida aqui na cozinha e uns cupcakes que eu não tenho ideia do sabor mas são em formatos de peitos então devem ser bons... - Gesticulava andando para trás em direção à porta.
- Hey, espera, você vai mesmo me deixar sozinha na sua casa? - Questionei incrédula. - Você nem me conhece direito.
- Você é amiga da Tay. - Argumentou com obviedade.
- Mesmo assim, a gente se conheceu hoje. Acho que é melhor eu simplesmente ir embora...
Cara suspirou.
- Olha, me desculpa por estar sendo uma anfitriã horrível, mas acontece que minha amiga teve um desentendimento com a namorada e está muito mal e precisando de mim nesse momento.
- Oh.
- Eu te convidei, não quero que vá embora. Além do mais, Taylor já está vindo. Então... posso confiar em você?
- Okay... claro. - Falei ainda meio incerta se deveria ficar ali sozinha.
- Ótimo. - Deu um sorriso curto virando para sair. - Ah... - Parou recolocando os olhos em mim. - Tem alguns brownies especiais também, se quiser...
- Nope, estou bem.
- Tudo bem então. Fica a vontade, tá? Elas já estão a caminho.
Assenti meio desconfortável, vendo Cara sair e me deixar sozinha em sua casa com seu cachorro.
- Certo... - Murmurei ansiosamente.
Que merda eu estava fazendo? Aquilo era tão esquisito. E a informação de que Taylor e suas amigas estavam vindo só me deixou mais tensa. Quando percebi já estava estalando os dedos. Parei, suspirei e esfreguei minhas palmas gélidas e suadas em minha saia longa ao olhar ao redor, observando as paredes brancas intercaladas por painéis de vidro escuro. Cara tinha uma bela casa. Um sofá preto, duas poltronas bege, uma mesinha branca e alguns objetos de bom gosto compunham um ambiente requintado. Era tudo muito moderno, principalmente a área da piscina que era possível enxergar da onde eu estava.
Mirei a cozinha mordendo o lábio. Precisava me acalmar, beber alguma coisa, de preferência algo forte que me despertasse a coragem que eu necessitava para encarar seja lá o que estava por vir e não fugir como estava cogitando fazer.
Dei a volta na bancada com Leo me seguindo e avistei as garrafas de bebidas. Peguei um dos copos de shot que encontrei ali e o preenchi com tequila. Entornei a bebida sentindo o líquido descer queimando a garganta.
- Relaxa... - Resmunguei para mim mesma ao despejar mais tequila no copo.
Depois do segundo shot não consegui me conter e saí para o lado de fora da casa abrindo minha bolsa transversal atrás do maço de Dunhill. Acendi o último cigarro e sentei na beira de uma das espreguiçadeiras que havia ali, fazendo a nicotina correr por minhas veias.
O céu noturno estava sem estrelas e cheio de nuvens cinzas espalhadas. Talvez realmente choveria. Bati as cinzas do cigarro dentro da pequena caixa vazia antes de tragá-lo novamente, avistando um relâmpago distante clarear o horizonte. Olhei no meu relógio soltando a fumaça devagar. Era nove e quarenta da noite de uma sexta-feira e eu estava sozinha com um cachorrinho na casa de alguém que eu tinha conhecido há menos de dez horas, escutando uma música triste e romântica atrás da outra tocar na sala.
Afinal de contas que tipo de playlist para corações quebrados era aquela? Eram ótimas músicas, mas... não era para ser uma festa?
Instantes depois após apagar o cigarro e jogá-lo na lixeira da cozinha, eu retornei para a área da piscina.
Abracei meu próprio corpo e inspirei o ar frio ao fechar os olhos pendendo a cabeça para trás.
- Cara?
Meu coração deu um salto e meus olhos abriram imediatamente.
Era ela.
Um calafrio percorreu minha espinha.
Era Demi.
- Oi, garoto. Cadê sua mãe?
Ouvi a voz doce que tanto sentia falta e agradeci aos céus por aqueles vidros escuros da porta que nos impediam de nos ver pois fiquei eufórica. Chacoalhei as mãos as fechando em punho, um suspiro trêmulo saindo de meus lábios. Chegava a ser ridículo o quanto eu tremia, tudo dentro de mim se agitava, gritava...
Nada foi capaz de me acalmar. Eu não estava nem um pouco preparada para aquele encontro.
Mas mesmo assim lá fui eu depois de respirar fundo, andando cautelosamente com as pernas trêmulas como gelatina. O quão trágico seria se eu caísse ali?
Pisei no lado de dentro da casa e parei emocionada ao vê-la. Demi estava de costas e não havia percebido minha presença ainda. A primeira coisa que notei foi os cabelos curtos. Depois me dei conta que estava sozinha. Estávamos sozinhas.
Esfreguei os dedos em minhas palmas suadas sem parar de olhá-la.
Diga logo alguma coisa! Ralhou a voz em minha mente se sobressaindo no silêncio momentâneo da sala.
Molhei os lábios. Outra música preenchia o ambiente.
- Parece que chegamos cedo. - Tentei arduamente soar calma e por algum milagre não gaguejei.
Engoli em seco quando Demi se manteve imóvel. Andei alguns passos receosos para dentro da sala, parando ao lado da mesa de jantar. Quando ela virou de frente para mim, meu coração deu cambalhotas e eu ousei chegar mais perto, notando os olhos contornados pela maquiagem escura percorrerem meu corpo dos pés à cabeça. Assim que seu olhar encontrou o meu, algo dentro de mim vibrou. Demi expressava surpresa e confusão...
- Selena. - Sussurrou quase inaudivelmente.
Eu quis sorrir mas me controlei apertando os lábios por um segundo.
- Oi. - Falei um pouco baixo.
Demorou alguns segundos para ela responder, parecia não acreditar que eu estava ali...
- O-Oi, uh.. - Gaguejou piscando os olhos e eu sorri internamente ao senti-la tão nervosa quanto eu. - Eu.. isso é.. eu não sabia que... que estava aqui. Na cidade.
A vi guardar o celular que segurava no bolso da calça.
- Cheguei hoje.
- Oh...
Ficamos apenas nos olhando por um momento. Meus olhos caíram pelo seu corpo, a reconhecendo e contemplando cada detalhe. Demi parecia fazer o mesmo comigo. E o fato de que seu estilo continuava praticamente o mesmo fez um leve sorriso brotar no canto de meus lábios. A calça preta envolvia perfeitamente as pernas grossas e sobre uma camiseta listrada em preto e branco ela usava uma jaqueta de couro. Tão avassaladoramente linda. E como sempre me tirando o fôlego.
- Você está ótima. - Falei ternamente.
Os olhos arrebatadores se fixaram nos meus, transparecendo o mesmo afeto de anos atrás.
Demi abriu a boca para dizer algo mas a fechou logo em seguida, virando o rosto para a porta da frente quando Taylor, acompanhada de uma mulher morena com quem ria descontraidamente, entrou na casa carregando uma garrafa de whisky. Ambas com um cachecol de pluma rosa em volta do pescoço. No instante em que nos viu juntas, o queixo da loira caiu e os olhos azuis se arregalaram estupefatos, uma expressão de surpresa e choque estampando seu rosto. Quando um som agudo e esquisito saiu de sua garganta, um riso escapou de meu nariz e a sombra de um sorriso apareceu no rosto de Demi.
- Ela já tá bêbada? - Ela indagou para a outra mulher se servindo uma bebida na cozinha.
- Um pouco. - Riu transferindo os olhos para mim. - Acho que não nos conhecemos. Sou Camila. - Se apresentou simpática.
- Selena. - Sorri gentil, vendo Taylor vir até mim movimentando os lábios em alguma palavra que não prestei atenção pois estava mais focada em Demi passando perto de nós em direção ao corredor da casa, seu perfume invadindo minhas narinas.
- Conta tudo! - Taylor enlaçou o braço no meu.
- Uh, tudo o quê? - Me fiz de boba exibindo um sorriso frouxo enquanto caminhávamos para o lado de fora. Ela fechou a cara e eu ri. - Não aconteceu nada na verdade, nós..
- Como assim nada?! - Paramos na beira da piscina. - Eu chego aqui e dou de cara com vocês duas juntas depois de anos e você diz que não houve nada? Você tá bem? - Tocou minha testa com o dorso da mão me analisando.
Dei outro riso.
- Você não me deixou terminar! - Falei achando sua reação engraçada. - Eu quis dizer que... não conversamos quase nada. Tipo... ficamos sem palavras, sabe? Eu estava tão nervosa e senti que ela também. Ainda estou pra ser honesta, sinto que vou vomitar a qualquer momento..
Franzi o cenho brevemente quando Taylor me envolveu em um longo abraço repentino, mas logo relaxei nos braços acolhedores.
- Minha doce e linda Selena... - Suspirou alto. - Eu torço tanto por vocês... - Ela se afastou segurando meu ombro com a mão livre. - Sabe... eu nunca vi Demetria olhar pra Amber do jeito que ela olhava pra você. Nunca! Se quiser... posso trancar vocês no quarto pra conversarem! - Ofereceu astuta como se fosse a ideia mais genial do mundo.
Ri negando com a cabeça.
- Você é tão engraçada bêbada.
- Eu sei! Hey, como chegou aqui afinal?
- Cara me convidou.
- Ahhh! É claro! Bom, estou feliz que está aqui. Estou feliz que está na cidade! Agora tenho todas as minhas amigas lindas e gostosas perto de mim! - Falou alegre bebendo do whisky.
- Ótimo, vocês estão aqui! - A voz de Cara atraiu nossa atenção. - Eu trouxe champanhe!
- Eu te amo! - Taylor berrou para a mulher na cozinha que respondeu com um beijo.
- Certo, garotas... - Falou Camila com Leo no colo. - Vamos começar essa despedida de solteira! - Cantarolou animada ao colocá-lo no chão, mudando a música em seguida.
Love On Top de Beyoncé começou a tocar e a mulher de traços latinos e cabelos ondulados começou a dançar no ritmo da batida, olhando para onde estávamos e nos chamando com as mãos de um jeito carismático. Taylor então me puxou pela mão e nós reentramos na casa, coincidentemente bem quando Demi retornou. Nossos olhares instantaneamente se conectaram como ímã, me provocando um frio na barriga. Eu só tirei os olhos dos dela quando Cara me ofereceu uma taça de champanhe.
- Obrigada. - Agradeci antes de beber um gole, avistando Demi na cozinha, entornando uma garrafa de água.
- Gente, cadê a Karlie? - Cara olhou para as duas mulheres rindo e dançando ao lado.
- No meio de uma cirurgia. - Respondeu Camila ao parar e pousar a taça na mesinha, prendendo os cabelos.
- Preciso fazer xixi! - Taylor anunciou se retirando com a garrafa de whisky.
- Ela parece feliz. - Comentou Cara ao sentar no sofá, me mirando com um sorriso. - Senta, Selena! Parece uma estátua parada aí, tipo aquelas estátuas bonitas. - E lá estava o tom charmoso novamente.
Camila soltou uma risada debochada que me fez rir também enquanto ocupava uma poltrona, deixando minha bolsa no chão. Cruzei as pernas e bebi mais do champanhe a vendo se sentar ao lado de Cara.
- Isso foi uma cantada? - Inquiriu. - Agora entendo porque está solteira. - Zombou.
Cara rolou os olhos divertida. E pela minha visão periférica percebi Demi se aproximar, sentando em uma das banquetas da bancada.
- Eu tô solteira porque quero estar. - Levou sua taça aos lábios.
- E porque é realmente péssima com cantadas. - A voz levemente sarcástica de Demi roubou minha atenção, ela brincava com a garrafinha de água nas mãos olhando para a loira no sofá.
Camila riu, Cara a ignorou e eu continuei a observando. O jeito que estava sentada com as pernas separadas era... extremamente atraente. Mas tentei não focar demais nesse detalhe. Vi os olhos caírem para as mãos inquietas e depois se erguerem de novo, diretamente para mim. Oscilei um pouco mas consegui sustentar o olhar cravado no meu de uma forma tão intensa que um arrepio correu por minha pele. Quebrei o contato visual virando o conteúdo da taça garganta abaixo.
- Meu lance é pegar e não se apegar, tá legal? E por que estamos falando da minha vida amorosa? - Cara levantou indo para a cozinha. - Tem coisas mais interessantes tipo... vocês sabiam que Selena é uma artista? - Jogou a atenção encima de mim quase me fazendo engasgar.
- Uh..
- Sério? O que você faz? - Camila se interessou.
Demi me olhava com um semblante terno.
- Desenhos. - Respondi de maneira simples e um pouco tímida.
- Legal! Eu acho isso um máximo. Sou péssima desenhando qualquer coisa e sempre quis tipo uma ilustração dos meus gatos mais ou menos desse tamanho. - Falou gesticulando. - Pode fazer pra mim? - Perguntou empolgada.
- Claro. - Ri.
- Gente... - Taylor voltou do banheiro aos risos. - Meu celular caiu na privada. - Mostrou o iPhone o segurando com as pontas dos dedos.
- Antes ou depois de fazer xixi? - Camila perguntou.
- Por que isso é importante? - Demi a questionou com as sobrancelhas unidas.
- Não é. - Riu apoiando o queixo no sofá.
- Que que eu faço?! - Exclamou Taylor.
- Compra outro. - Cara falou ao mesmo tempo que Camila sugeriu que colocasse no arroz. Eu apenas ria. - Não coloca seu celular mijado na minha cozinha! - Repreendeu quando Taylor largou o telefone na bancada.
- Eu lavei! - Swift retrucou no mesmo tom.
A melhor parte daquele diálogo foi a risadinha que saiu da garganta de Demi. Sentia tanto a falta desse som que foi impossível não sorrir saudosa. Porém assim que ela me flagrou a admirando, eu abaixei a cabeça tentando falhamente disfarçar.
Pressionei os lábios sentindo as esferas castanhas em mim enquanto um papo descontraído começava a rolar entre as garotas. Taylor jogou o corpo na poltrona ao meu lado comendo um brownie e Leo foi até ela. Batuquei as unhas na taça vazia e não resisti ao olhar de relance para Demi e constatar que ela continuava me fitando fixamente. Ninguém naquela sala parecia perceber como nos olhávamos. A única pessoa que sabia que tínhamos um passado juntas era Taylor mas ela estava bêbada demais brincando com Leo para notar qualquer coisa.
- Agora sim essa festa vai realmente começar! - Cara esfregou as mãos juntas soando misteriosa quando a campainha tocou.
- O que ela quis dizer? - Taylor perguntou sorridente para Camila enquanto Cara ia atender a porta.
Eu também queria saber, mas a mulher apenas encolheu os ombros em resposta com um sorriso astuto.
- Eu super não vou fazer parte disso. - Comentou Demi ao deixar a banqueta.
- Chata! - Camila gritou.
Meus olhos acompanharam Demi até ela sair para o lado de fora, indo até um jogo de sofá que havia do outro lado da piscina, perto de uma lareira elétrica embutida na parede. Eu desejei segui-la e ficar a sós com ela de novo, mas antes que pudesse pensar sobre isso, Cara voltou acompanhada de dois... strippers. E de fato a festa realmente começou.
Um cara e uma moça, ambos morenos e notoriamente bonitos fantasiados de policiais, estenderam as mãos para Taylor que se colocou de pé totalmente animada com a situação. E ao som de Naughty Girl, eles dançaram sensualmente colados nela enquanto Cara e Camila vibravam e Leo latia eufórico com a movimentação. Levei a mão à boca assistindo a cena com um sorriso e assustei um pouco quando a mulher largou o quepe no meu colo me lançando um sorriso malicioso. O homem fez o mesmo com Camila que pegou o quepe e o mordeu encarando o moreno.
Risos e gritos de entusiasmo se misturavam com a música de Beyoncé. Estava tudo muito divertido, mas eu não conseguia parar de olhar para onde Demi se encontrava sozinha. Mordi o canto do lábio ao mirá-la no sofá mexendo no celular e em um impulso larguei o quepe na outra poltrona, pousando a taça na mesinha ao me levantar e sair. O vento soprava mais forte, esvoaçando meus cabelos. Balancei os braços nervosamente com o polegar entre os dedos enquanto me aproximava de Demi.
E se ela não quiser companhia?
Droga.
Eu ainda estava tão apreensiva.
- Hey... - Falei tensa ao parar perto dela.
Seu corpo retesou por um segundo e então ela me olhou com uma fisionomia afetuosa.
- Hey.
- Posso sentar aqui? - Apontei para o espaço grande ao seu lado.
- Claro...
- Então, uh... - Tentei puxar assunto ao sentar um pouco longe dela. - Sua primeira despedida de solteira?
Misericórdia, eu era péssima.
- É... a sua também?
- Uh, não na verdade. Minha primeira foi a de Hayley.
- Oh, certo...
Um silêncio tenso pairou entre nós e pela primeira vez na noite ela pareceu fugir do meu olhar, brincando com o anel no dedo indicador. Havia tantas palavras e perguntas entaladas dentro de mim mas por medo das respostas não conseguia articulá-las. Foquei na direção da sala onde a festa rolava.
- Então... você voltou pra ficar ou... - Demi quebrou o silêncio entre a gente, pigarreando quando sua voz falhou.
- Só estou visitando. - A observei cerrar o maxilar abaixando a cabeça novamente.
Outro momento silencioso e angustiante. Parecíamos presas em uma bolha de pura tensão. Brinquei com minhas próprias unhas considerando voltar para dentro da casa.
- Não consigo acreditar que você está aqui. - A voz baixinha soou cheia de receio enquanto seus olhos permaneciam abaixados.
Suspirei sentindo um reboliço no estômago.
- Bom... se quiser ter certeza é só me tocar, mas só... não me belisque ou algo assim. - Falei brincalhona como uma idiota tentando de alguma forma quebrar o gelo, mas esperando que ela não levasse a sério.
Ou talvez no fundo eu apenas queria que ela me tocasse.
Demi riu fraquinho pelo nariz, me fitando meio hesitante e tímida em seguida antes de se aproximar vagarosamente com os olhos cravados nos meus.
Deus, ela tinha levado a sério.
Prendi a respiração ao aspirar o aroma doce emanando de sua pele. Ela estava muito perto.
- Não vou te beliscar. - Sussurrou terna e mordeu o canto do lábio abaixando o olhar.
Congelei assistindo as pontas dos dedos repletos de anéis roçarem bem de leve e com vagareza no dorso de minha mão. Uma onda de eletricidade percorreu meu corpo inteiro ao sentir seu toque receosamente delicado. Fitei as veias da mão alva ainda perto da minha tentando manter a respiração calma enquanto meu coração batia recordes de velocidade. Demi afastou a mão devagar mas se manteve a centímetros de mim, me observando de pertinho. Fiz o mesmo, a notando engolir em seco ao fincar os olhos levemente marejados em meus lábios entreabertos.
- Viu? - Sussurrei impactada. - Estou aqui.
- HEY, VOCÊS DUAS! - Taylor berrou de repente e Demi se afastou bruscamente, mexendo em seus cabelos curtos. - PRECISO FALAR COM VOCÊS DUAS! - A loira cambaleava em nossa direção e por um segundo temi que caísse na piscina.
- Ah, pronto... - Demi murmurou e eu ri de nervoso.
- Primeiramente... - Taylor começou ao se colocar entre nós no sofá nos abraçando de lado. - Eu amo muito vocês... - Falou arrastado beijando nossas bochechas, seu hálito de bebida alcóolica penetrando minhas narinas. - E eu sei que estou interrompendo maaas... só quero que saibam, meus amores, que a vida é curta. Então se ainda sentem algo uma pela outra, não percam mais tempo, okay? - Os olhos vidrados se revezaram entre mim e Demi que me olhava de relance. - O tempo é precioso...
- É isso...? - Demi questionou sorrindo debilmente quando Taylor parou de falar, divagando.
- Hmmm, sim. É isso. - Suspirou dramaticamente. - Agora eu vou.. - Tentou se pôr de pé mas falhou caindo sentada de novo. - Oops. - Riu.
- Vem, eu te acompanho. - Demi levantou estendendo a mão para a mais alta.
Com um sorriso de canto, observei elas caminharem juntas até a entrada da sala enquanto Taylor dizia mais alguma coisa que não conseguia ouvir. No momento em que Taylor voltou para junto das garotas, Demi parou e eu tomei uma respiração profunda ao vê-la retornando para onde eu estava.
Entretanto, ao puxar o celular do bolso e fitar a tela, seus passos cessaram a menos de cinco metros. Seguidamente ela me olhou demonstrando uma certa consternação, e como se estivesse agindo contra sua vontade, ela virou e voltou a andar em direção à sala, dessa vez em passos largos. Franzi o cenho a acompanhando com o olhar.
Algo parecia errado...
Sabe quando você está se sentindo feliz e cheia de esperanças, mas aí alguma merda fodida acontece e você se sente a pessoa mais estúpida e patética do planeta? Bom, eu me senti pior do que isso assistindo uma mulher bonita de cabelos loiros encontrar Demi no meio do caminho dentro da casa e surpreendê-la com um beijo seguido de um abraço.
Meu estômago embrulhou com aquela visão. Rangi os dentes avistando Demi a guiar até a porta da frente deixando a casa enquanto um caroço me sufocava a garganta. Meus olhos arderam e eu os desviei para a água da piscina. Pisquei engolindo duramente. Precisava me recompor ou acabaria chorando ali. Inalei fundo o ar e o soltei devagar.
O que eu estava esperando? Sabia que aquele tipo de coisa podia acontecer. Afinal, Demi tinha uma namorada.
Uma bela namorada, ressaltei mentalmente enterrando o rosto nas mãos ao apoiar os cotovelos nos joelhos.
- Idiota. - Praguejei abafado. - Idiota!
- HEY!
Destapei o rosto encontrando Cara vindo até mim com uma feição sorridente. O vento balançava os cabelos compridos e a camisa branca de botões que usava.
- O que faz aí sozinha?
- Uh, só... - Suspirei aprumando o corpo. - Só tomando um ar. - Forcei um sorriso de lábios cerrados quando ela parou em minha frente.
- Bom, quer tomar uma bebida comigo ao invés disso? - Arqueou uma sobrancelha.
- Claro. - Nem precisei pensar duas vezes.
- Beleza, vou lá pegar.
Assenti umedecendo os lábios e enlaçando meus próprios dedos. Um minuto depois Cara retornou com uma garrafa em cada mão; tequila e o vinho que eu tinha trazido.
- Fiquei em dúvida. - Deu de ombros. - Qual prefere?
- Tequila, por favor.
Encostei as costas no estofado quando Cara me entregou a garrafa pousando a outra no chão e tomei logo alguns goles, fechando os olhos com força. Não existia jeito melhor para tentar parar de pensar no que havia presenciado.
- Wow. - Cara riu me assistindo sentada ao meu lado.
- Eu estava precisando disso.
- Percebi.
- E aí... - Passei a tequila para ela. - Sua amiga está melhor?
- É... ela vai ficar bem. Elas vão... - Fitou o gargalo dando de ombro. - Se acertar eu acho. - Entornou um gole da bebida.
Semicerrei os olhos ao capitar um rastro de desapontamento em seu tom de voz.
- Você parece decepcionada. - Comentei.
- O que? - Enrugou a testa me encarando. - Não. Não pareço não... - Riu, negando como se estivesse tentando convencer a si mesma.
- Okay... foi mal. - Torci os lábios.
- Não, não... - Tocou meu antebraço. - É que... - Bufou vagando o olhar. - Eu só acho que ela merece mais, sabe? Quer dizer, ambas são minhas amigas, eu as adoro. Mas... não consigo evitar me sentir assim. - Suspirou me passando a garrafa.
- Eu... meio que te entendo, sabe?
- Sério? - Focou as íris verdes em mim, interessada.
- É, bem... na época do colégio, minha amiga se apaixonou pelo pior cara de todos...
- Ah...
- Tipo, uma gigante caçamba de lixo.
- Nossa.
- Pois é, mas aí ao longo do namoro deles, ele foi se mostrando mudado. Eles casaram, tiveram uma filha linda, ele parecia uma pessoa melhor e tal... eu não acreditava inteiramente mas nunca disse nada e... - Estalei a língua. - O tempo passou e acabou que ele não tinha melhorado tanto assim...
- O que houve? - Apoiou o cotovelo no sofá sustentando a cabeça com a mão.
- Ele traiu minha amiga após o nascimento do segundo filho deles.
- Que cretino. - Esboçou uma careta enojada. - Homens... - Revirou os olhos.
- É... - Bebi mais da tequila antes de devolver à ela. - Mas graças a Deus ela pediu o divórcio. Ela merece coisa melhor.
- Força para sua amiga. - Cara fez um gesto de brinde e então bebeu.
- Valeu. - Sorri de leve observando o movimento de sua garganta.
Abaixei mais o olhar, alguns botões da camisa estavam desabotoados expondo uma parte do sutiã vermelho. Pisquei deslocando os olhos para longe.
- E você? - Perguntou.
- Eu? O que tem eu? - Fiquei tensa subitamente.
Cara riu ao me dar a garrafa.
- Qual seu estado civil?
- Ah... - Ri. - A última vez que me fizeram essa pergunta assim foi para uma entrevista horrível de emprego.
- Eu estava tentando soar engraçada. Desculpa.
- Tudo bem, uh... eu sou solteira. Recentemente solteira pra dizer a verdade.
- Ohh, lamento.
- Não! - Ri alto e pousei a mão inconscientemente em seu joelho coberto pelo jeans. - Não sinta. Foi uma das melhores decisões que tomei na vida.
- Ah, então... que bom pra você! - Sorriu de lado e focou em meu toque.
- Uh... - Retirei a mão. - Eu ia perguntar sobre você mas lembrei que está solteira por causa das suas cantadas. - Brinquei.
Cara grunhiu tapando os olhos.
- Sério? Eu sou tão ruim assim? - Me olhou pelo espaço entre os dedos.
- Hmmm... - Fingi ponderar olhando para cima.
- Hey! - Empurrou o corpo no meu, rindo ao pousar a mão no encosto do sofá atrás de mim.
- Brincadeira. - Ri examinando o rosto perto do meu. - Você tem tipo... um charme especial. - Balancei os dedos diante seu rosto, o álcool no meu sangue começando a falar mais alto.
- Você acha? - Falou sedutora enquanto encarava meus lábios.
- Mhmm. - Bebi mais.
- Você é muito legal e bonita, Selena. E eu estou meio bêbada agora... então se eu disser alguma besteira por favor ignore.
- Não se preocupe, estou que nem você. - Um riso rouco saiu de minha garganta e em seguida começamos a gargalhar até que seus dedos tocaram meus cabelos os colocando atrás de minha orelha. - Acho que vou começar a fazer o que você faz... - Falei baixo e um pouco enrolado.
- O que quer dizer?
- Você sabe... pegar e não me apegar.
- Oh... então que tal... começar agora? - Sugeriu maliciosa.
No segundo seguinte meus lábios estavam nos dela. Cara me segurou pela nuca e eu apertei sua coxa com a mão desocupada enquanto nos beijávamos. O beijo tinha gosto de tequila e durou menos de dez segundos pois uma luz de racionalidade iluminou minha mente me fazendo afastar a boca da dela.
Eu estava bêbada, magoada e confusa. E Cara era amiga de Demi.
Por que eu sempre fazia merda?
- Que droga... - Murmurei ao esfregar a testa.
- Ouch! Essa é... a primeira vez que alguém reage assim depois de me beijar.
- O que? - Fitei Cara franzindo o cenho. - Não, não foi o beijo. - Tentei explicar. - Quer dizer, foi, mas não foi ruim, só não devia ter rolado, você é... desculpa. - Fiz uma careta atrapalhada com as palavras. - É melhor eu ir. - Entreguei a garrafa quase vazia para Cara que me olhava confusa.
- Selena, não precisa ir embora por causa disso. Está tudo bem. Sério. - Garantiu de um jeito compreensivo.
- Não, eu só... - Me coloquei de pé me sentindo um pouco zonza. - É melhor assim.
- Tudo bem então...
- Obrigada por me convidar.
Cara acenou com a cabeça em resposta e eu saí rumo à sala. Peguei minha bolsa e me despedi rapidamente de Taylor e Camila antes de seguir até a porta me desequilibrando ao abri-la. Cheguei perto do carro e parei, procurando as chaves dentro da bolsa e praguejando contra o vento que jogava meus cabelos em meu rosto.
- Cadê o cacete da chave... - Resmunguei, logo as encontrando em outra parte da bolsa.
Abri a porta do carro, mas antes que eu entrasse, uma voz bem familiar chamou meu nome, me dando um susto.
- Jesus Cristo! - Exclamei ao virar num sobressalto levando a mão ao peito onde meu coração batia aceleradamente.
Demi parou na calçada da casa de Cara, me observando. De onde ela havia surgido? Deus...
- Foi mal, não quis te assustar... - Escondeu as mãos nos bolsos da jaqueta. - Está indo embora?
- Sim... - Corri os dedos por meus cabelos evitando os olhos doces e atentos. - Não devia nem ter vindo.
- E vai dirigir assim? - Mexeu as sobrancelhas.
- O que.. oh, não, eu estou bem. - Afirmei indiferente me segurando na porta do carro.
- Não é o que parece...
- Olha, Demi... - Meu tom soou hostil. - Volta para sua namorada, okay? Eu estou bem, estou ótima! - Tentei entrar no carro, mas Demi avançou até mim e segurou a porta.
- Não, não está. E eu não vou deixar você dirigir nesse estado. - Falou com afinco me olhando séria.
- Você... - Dei uma risada indignada. - Você não vai deixar? - Ergui as sobrancelhas. - Você pensa que é quem, huh? - A encarei afrontosa. - Não é nada minha. Não mais. - Engoli em seco quando minha voz rachou nas últimas duas palavras.
- Só... - Piscou longamente comprimindo os lábios. - Só me dê as chaves e deixa eu te levar pra casa, pode ser? - Diferente de mim, ela soava calma e delicada, o que me irritou ainda mais.
- E por que eu faria isso? - Enruguei a testa. - Por que... você faria isso? - Perguntei ríspida a vendo respirar fundo.
- Porque eu me importo com você, Selena.
Estremeci trincando a mandíbula ao desviar o olhar para a sarjeta.
- Não consigo acreditar mais nisso. - Confessei em um sussurro fraco e angustiado sem coragem de olhá-la.
Houve um breve momento de silêncio entre nós em que somente os sons das folhas das árvores balançando com o vento e a música abafada eram ouvidos.
- Eu.. - Sua voz oscilou. - Eu entendo. - Disse baixinho. - Mas eu só... só quero ter certeza que está segura. É isso.
Senti meu peito rasgar ao levantar os olhos e encontrar um semblante desolado em seu rosto. Suspirei.
- Eu vou, uh.. - Mexi em meus cabelos fugindo novamente de seu olhar. - Vou chamar um Uber então... - Procurei pelo meu celular escutando Demi suspirar.
- Apenas deixe eu te levar. - Insistiu suavemente. - Por favor.
De repente, um estrondo forte de um trovão ressoou sobre nós, me assustando. Olhei para o céu encoberto e depois para a mulher diante de mim no aguardo de uma resposta enquanto alguns pingos de chuva começavam a cair. Bufei rendida.
- Tá bem... - Entreguei as chaves à ela. - Já que está tão preocupada comigo.
Ocupei o banco do passageiro e posteriormente Demi se sentou atrás do volante, vincando a testa ao dar uma rápida olhada para o banco traseiro onde tinha duas cadeirinhas.
- O cinto. - Indicou com o queixo ao colocar o cinto de segurança me lembrando de fazer o mesmo. - Você quer..
- Não. - Murmurei recusando ajuda ao me atrapalhar um pouco. - Você lembra do meu endereço?
- Sim...
Logo depois Demi deu partida e menos de cinco minutos de trajeto eu já queria abrir a porta e me jogar para fora do veículo em movimento. Qualquer coisa para fugir do silêncio ensurdecedor e principalmente de seu cheiro inebriante impregnando o espaço pequeno e fechado. Exalei exasperada, observando os limpadores do para-brisa se movendo. A chuva cada vez mais pesada.
- Você está... ficando em sua casa com seu padrasto ou... - Demi revezou a atenção entre mim e a direção. - Só preciso saber que caminho seguir.
- Onde mais eu estaria? - Falei afoita.
- Uh... na casa que... comprou antes de ir para NY?
- Está em reforma... - Foquei nas gotas de chuva escorrendo no vidro da janela. - E a venda.
- Oh...
Espremi os lábios, tamborilando silenciosamente os dedos em minha coxa. Com hesitação, olhei para a mulher ao meu lado concentrada na estrada. As mãos pareciam apertar com força o volante. Dei um leve suspiro amargurado ao contemplar o perfil perfeitamente desenhado, a curva da bochecha e a linha do maxilar, esquivando rápido o olhar para o porta-luvas quando seu celular começou a tocar.
Senti náusea e uma urgência de me afastar para longe ao enxergar de relance a imagem de uma loira na tela, provavelmente a mesma que a beijou na festa. A namorada dela.
Demi recusou a chamada, porém menos de cinco segundos depois, o telefone tocou outra vez.
Que pessoa insistente...
Demi não atendeu. Recostei a cabeça no banco, bufando irritada antes de apanhar o cantil de whisky na minha bolsa. Sabia que ainda continha um pouco.
- Não acha que... já bebeu bastante? - Demi questionou enquanto eu entornava todo o conteúdo do cantil.
- Nope. - Murmurei seca, lambendo os lábios. - Você bem que podia dar uma acelerada aí, né? Parece uma idosa dirigindo...
Não via a hora de sair daquela atmosfera sufocante e aflitiva. Ficar tão perto de Demi lembrando que ela tinha outra pessoa em sua vida, alguém que a beijava e a abraçava, estava lentamente me corroendo por dentro. Queria chorar e gritar. Mas ao mesmo tempo que sentia necessidade de correr para bem longe dela para poder respirar, também desejava envolvê-la em um forte abraço e dizer o quanto ela me fazia falta. Eu estava quase pirando, a ponto de explodir...
E o barulho de seu celular invadindo meus ouvidos pela terceira vez foi o estopim.
- Encosta. - Apertei os dentes a vendo recusar novamente a chamada.
- O que? Você está bem? - Perguntou confusa e atenciosa.
- Encosta. - Repeti, pausadamente.
- Selena..
- SÓ ENCOSTA A PORRA DO CARRO, OKAY? - Gritei sufocada com um nó na garganta, recebendo um olhar assustado e preocupado.
Logo que Demi parou o carro, eu saí com pressa, batendo a porta. A chuva caía densamente, me molhando inteira à medida que eu me afastava da SUV, tropicando atordoada em algumas pedras no acostamento. Quando não aguentei mais, eu parei de andar, jogando a cabeça para trás ao desabar em um choro carregado de mágoa e frustração.
Gotas grossas de água fria acertavam meu rosto se mesclando com as lágrimas enquanto meu corpo tremia.
- Selena!
Escutei o chamado de Demi ao longe acompanhado de uma trovoada, mas permaneci ali sem conseguir parar de chorar, com o coração martelando dolorosamente.
- Selena! - A voz soou mais perto.
E então a mão delicada tocou meu ombro.
- NÃO ME TOCA MAIS! - Meu grito saiu embargado quando virei para ela me desequilibrando ao me esquivar de seu toque com brusquidão. - Seu toque me faz... DÓI! - Gesticulei atormentada.
- T-Tudo bem... - Levantou as mãos transtornada ao manter distância, a água da chuva pingando de sua jaqueta. - Só... só vamos voltar para o carro, pode ser? Ficar aqui é perigoso. - Sua voz estava trêmula.
Sacudi a cabeça em negativo com os lábios pressionados, minha visão embaçada pelas lágrimas.
- Por quê? - Questionei aos prantos encarando os olhos consternados. - POR QUÊ?! - Avancei até ela e a empurrei os ombros a fazendo dar um passo para trás e me olhar com pesar. - POR QUÊ, DEMI?! - Esbravejei a empurrando de novo. - SÓ ME DIGA O POR QUÊ! - De novo e de novo...
Até que os empurrões se tornaram socos atrapalhados.
- Selena, pare! Pare com isso! - Ela tentava me segurar. - SEL! - Agarrou meus pulsos me prendendo perto dela, nossos rostos a poucos centímetros de distância um do outro.
A fitei ofegante. Os fios negros do cabelo curto estavam grudados na testa e face molhada, as gotículas de chuva pingavam dos cílios, nariz e queixo, e a maquiagem manchava levemente as maçãs do rosto. Eu não devia estar diferente.
- Não me chame assim. - Proferi fraco e soluçando. - Me solta.
Demi tirou as mãos de mim com cuidado e abaixou a cabeça quando me afastei um passo dela, vagando meu olhar aturdido ao redor.
Os faróis do carro nos clareava sob a chuva e vez ou outra um veículo passava por nós.
- Eu.. eu me senti.. - Balbuciei com os lábios tremendo. - Tão... desamparada e esquecida quando você não atendeu mais minhas ligações e nem me procurou... - Comecei a desabafar em meu estado mais sincero enquanto Demi me olhava amargurada. - Fiquei tão confusa e perdida. Eu ainda.. ainda tento entender. Você... você me esqueceu, Demi? Esqueceu os momentos bons e felizes que a gente viveu? Esqueceu... nosso amor? - A olhei chorosa, ela negava com a cabeça e pela sua fisionomia, parecia estar chorando também, seu queixo tremia. - Porque... - Funguei. - Foi isso que eu senti, foi o que pareceu. E eu... eu fiz tanta merda estúpida só pra parar de pensar em você e no jeito horrível como acabamos, como me largou... largou a gente... tentei.. tantas vezes te arrancar de mim. Sei que... que fiz besteira e fodi com tudo, mas... me deixar sem pelo menos um adeus decente? - Passei o dorso da mão no rosto. - Sabe o que me entristece mais e me deixa brava pra caralho? - Falei entredentes e arrastado me aproximando dela. - Você ainda... tem meu coração. - Confessei fitando os olhos pesarosos. - Podia pelo menos... ter ligado.
Olhei angustiada para Demi por mais um instante esperando que dissesse algo, que se explicasse, gritasse, qualquer coisa, mas ela ficou calada, me olhando com uma expressão plangente que estilhaçou ainda mais meu peito. Apesar de tudo, minha única vontade naquele momento era de abraçá-la bem forte, mas algo me deteve e eu comecei a me afastar de volta para o carro.
Um relâmpago clareou meu caminho e um trovão estremeceu o chão.
- EU LIGUEI! - O grito esganiçado me fez parar no mesmo segundo e virar para ela.
- O que? - Vinquei a testa.
- EU LIGUEI, OKAY?! - Me encarou, se rendendo a um choro incessante.
- Mas.. - Pisquei desnorteada me reaproximando dela. - Eu não...
- Eu só.. só.. precisava.. de um tempo... - Balbuciou. - Depois.. depois daquela manhã, eu... eu não conseguia parar de imaginar você com.. com aquela mulher. Ela.. te tocando e te beijando... eu.. eu não conseguia tirar essa visão da minha mente... - Levou as mãos à cabeça, as passando no rosto em seguida. - Só precisava de um tempo... - Os olhos tristes caíram para o chão por um instante. - Mas eu liguei... - Apertou os lábios ao recolocar o olhar em mim. - Liguei porque te amava mais que tudo, sentia sua falta e queria ficar com você... mesmo não... estando completamente pronta para o nosso relacionamento.
- E-Eu.. eu não.. eu não me lembro...
Nunca estive tão confusa em toda minha vida.
- Não foi você que atendeu, Selena... - Falou chorosamente, desviando o olhar para longe ao enterrar os dedos nos cabelos. - Foi ela.
- O q-que.. o que está dizendo? Ashley atendeu meu celular? - Questionei aturdida e horrorizada.
- Quer saber... - Fungou. - Não vou... discutir isso com você nessa condição debaixo dessa chuva. - Fez menção de andar.
- Não! - A impedi de seguir segurando seu braço com as duas mãos. - Eu preciso saber agora o que houve! Eu mereço saber! - Procurei seu olhar agoniada. - Por favor, Demi. Apenas me diga. Ela disse alguma coisa pra você, não foi?
Demi cerrou o maxilar fungando ao me olhar tristemente.
- Só... - Fechou os olhos por um momento. - Só o que eu acreditava que era verdade naquela época. - Passou a língua nos lábios. - Eu... eu não era a melhor pessoa pra você, Selena. Queria tanto ser, mas... parte de mim ainda estava presa ao passado. E quando.. quando vi que você parecia feliz com.. com essa mulher..
- Viu? - Meu cérebro girou.
- Um... - Exalou exasperadamente. - Número desconhecido me mandava fotos suas... e uma vez..
- Fotos? Ela te mandava fotos?! - Exclamei completamente terrificada.
- Teve um dia que... não aguentei e... mudei meu número. Achava que... que você estava bem e melhor com alguém que não fosse um caos emocional. Alguém livre e inteira.. - A voz embargada quebrou na última palavra.
- Oh, Demi...
- Nunca quis te machucar. E nunca, nunca... esqueci nosso amor. Se.. se eu pudesse voltar... faria tudo diferente. Eu.. eu teria lutado por você. Mas... eu sinto muito.. - Chorou. - Muito mesmo.
- Eu também. - Meu coração pulsava apertado.
E foi bem ali em uma troca de olhares significativos sob a chuva e um clarão de um relâmpago que eu soube que a nossa história não havia terminado.
Em um único gesto, nossos corpos molhados se chocaram em um abraço intenso, longo e saudoso. Segurávamos uma na outra como se o mundo ao nosso redor estivesse desmoronando.
- Perdão pelos empurrões e murros. - Pedi chorosa ainda abraçada nela.
- Tudo bem... eu meio que mereci.
- Não... - Afastei um pouco o rosto para olhar em seus olhos, passando carinhosamente o polegar na pele manchada pela maquiagem. - Foi difícil pra você também. Não quero que se culpe, okay? Nem um pouco.
Demi assentiu sutilmente e escondeu o rosto no meu pescoço. Ficamos abraçadas por um tempo, apenas sentindo o contato uma da outra.
- Quando te vi na casa de Cara, eu... - Fez uma pausa, segurando minha nuca ao contemplar meu rosto, parecendo se perder nas palavras.
- Eu sei... - Encostei minha testa na dela, a água da chuva pingava de nossos rostos. - Eu também. - Nossos narizes se roçaram e Demi fechou os olhos.
Senti as pontas dos dedos acarinhando minha nuca. Queria tanto beijá-la com paixão e mostrar o quanto ainda a amava, o quanto ela me tinha...
Provavelmente era o que eu teria feito se seu telefone não tivesse tocado nos jogando de volta para a realidade. Acariciei sua orelha e nuca de leve, suspirando.
- É melhor atender. - Me desvencilhei com delicadeza, dando alguns passos para trás antes de seguir para o carro.
